2 • biscuits and whiskey




[boa leitura.]





8 de setembro, 1942

Depois de ter passado o todo o dia de ontem acompanhando Louis pelos quatro cantos do Campus, cá estava eu mais uma vez em meu caminho até seu quarto, onde eu o ajudaria a se organizar em seu cômodo antes de sairmos para mais um passeio.

Como em todas as minhas manhãs, caminhei até a La Parole para pedir meu combo matinal de café e biscoitos cobertos de chocolate. A companhia de Maggie era sempre agradável, eu teria ficado lá por muito mais horas, se não fosse o meu compromisso com Louis.

Voltar para casa ontem foi uma das tarefas mais difíceis que tive de cumprir, aparentemente, em toda minha vida. Louis tinha um imã em si que me atraía para suas histórias, que me fez querer ficar o dia todo as ouvindo, uma mais bem contada que a outra. Ele narrou histórias sobre as viagens de família nas quais se perdia pelos bosques com seus primos, ou da vez em que visitou pela primeira vez a fábrica de uísque de seu pai e como correu pelos corredores de barris com suas irmãs.

Era inusitado para mim andar com alguém que sempre precisava parar e simplesmente desenhar a paisagem como se ela pudesse mudar a qualquer momento ou apenas sumir em um piscar de olhos. Ele desenhava as pessoas que passavam com borrões, mas as paisagens sempre fixas e detalhadas.

Hoje o dia é ensolarado, mas eu não saberia dizer se o arder de minhas bochechas era dado ao frio ou ao sol que vinha direto em meu rosto.

Andando apressado, eu sentia o café da manhã chacoalher em meu estômago com minhas passadas rápidas, mas estava prestes a me atrasar, então faria o possível para que isso não acontecesse.

À passos largos eu me aproximava cada vez mais do prédio em que o rapaz morava. Odeio deixar que fiquem me esperando, me sinto gastando o tempo dos outros com minha incompetência de atender ao horário marcado e isso me deixa nervoso.

Finalmente chego em frente ao prédio dele, a fachada de tijolos tem suas enormes portas de madeira maciça abertas, o fluxo de estudantes em vários estágios entre "dormindo de pé" e "prontos para uma maratona" é grande dentro do espaço comunal.

Nos enormes sofás de couro os calouros do time de futebol estão jogados, dois deles brincam de jogar para cima suas bolas ovais, ansiosos para matar o tédio. Um pouco depois deles está uma dupla jogando xadrez em meio a toda aquela gritaria, focados nas peças e em nada mais além delas.

Apresso-me em subir as escadas, em cada um dos degraus que subo alguém esbarra em mim durante seu caminho na descida. É como se não me vissem ou simplesmente não se importassem de me levar consigo de volta ao térreo. Chegando ao fim do quarto lance de escadas, finalmente chego ao andar de Louis, onde parece que a bagunça apenas se multiplica e o que tem lá embaixo é apenas uma amostra do que acontecia poucos degraus para cima.

Desvio-me de alunos animados por todos os lados, contando as portas até encontrar a que procurava. Sexta porta do lado esquerdo do corredor, decorei sem nem mesmo me esforçar.

Por um momento paro para pensar se realmente eu deveria estar fazendo isso, eu deveria apenas tê-lo mostrado o campus, lhe dito as regras de convivência do campus e apenas isso. Sem mais passeios, sem mais qualquer coisa.

Respiro fundo, e repensando todas as minhas atitudes do dia anterior, ergo o punho para bater na porta, mas na mesma hora em que dou o primeiro toque a porta abre subitamente e um rapaz alto de cabelos negros aparece.

Ele se assusta comigo, olha para minha mão erguida um punho e se afasta com um passo para trás.

"Oi." Foi a única coisa em que consegui pensar rapidamente.

"Olá..." Ele soa desconfiado, nunca nos vimos antes e agora isso. "Você é o..."

"Harry!" A voz animada ecoa pelo apartamento vazio e logo Louis aparece animado sobre o ombro de seu colega de quarto. "Entra!" Ele estira seu braço por debaixo do braço do amigo, que está apoiado na parede, e em um solavanco me puxa para dentro consigo.

"Então esse é o Harry..." Ouço o rapaz atrás de mim sussurrar para si mesmo, talvez ele esperasse que eu não o ouvisse, ou talvez fizesse questão que sim.

Louis, enrolado apenas em uma toalha de banho ao redor de sua cintura, me puxa até a sala e só então ele solta minha mão.

A área de convivência do quarto compartilhado está muito mais bagunçada do que quando estive aqui ontem. Agora que todas as malas de Louis tinham sido trazidas, o espaço de sobra agora era quase nenhum.

Os enormes baús abertos, um dentro do outro agora que boa parte já estava vazia. As enormes pilhas de roupas engomadas sobre o sofá não deixavam opções de lugar para sentar-se.

"Zayn, por favor, me ajuda aqui a abrir um espaço pro Harry?" Chamou o colega que ainda estava atrás de mim, perto da entrada do apartamento.

"Hum..." Resmungando, ele passa a meu lado, indo até o sofá, arregaça as mangas de sua camisa de botões e se agacha para alcançar a base de uma gigante pilha de ternos enquanto Louis pega um saco de pano cheio do que previam ser bolas de meia e o joga no chão ao lado do móvel.

"Obrigado, querido." Louis o agradece com um suave carinho no ombro e recebe um rolar de olhos com um sorriso a contragosto em resposta. "Agora pode sentar, Harry." Ele vira para mim e então aponta para o espaço aberto.

Eu claramente não sei como me portar perto de estranhos, mesmo que durante todo o dia de ontem eu tenha estado na companhia de Louis, eu sentia que ainda éramos completos estranhos e a presença de seu colega ali me deixava ainda mais desconfiado.

O quarto de Louis é exatamente igual ao meu, tirando que aqui não tem um aficionado por baseball ou três loucos insanos que chegam vomitando as paredes. As cortinas brancas abertas deixam a luz do sol iluminar a sala, a porta aberta de um dos quartos me deixando ver a bagunça que estava lá dentro, uma única cama de solteiro e aposto que, baseado nos pequeninos vidros de perfume e no terno verde pendurado ao lado da cama, aquele era o quarto de Louis.

"Harry, eu vou só tomar um banho, certo? E então podemos ir." A voz de Louis me chama a atenção mais uma vez e então meu olhar é atraído para o seu, ele tem um suave sorriso em seus lábios e me olha na esperança da resposta.

Até aquele momento eu sequer tinha dito um bom dia ou um aperto de mão que fosse. "Tudo bem." Me forço a falar e então ele sorri para mim, dessa vez mostrando os dentes.

"Zayn, não deixa ele desconfortável, por favor." Fala ao colega que está encostado no espaço da parede entre as portas dos quartos.

Com um cigarro na boca, o rapaz de cabelos negros dá de ombros e puxa do bolso de sua calça uma caixa de fósforos.

Louis, então, como se fosse nada, tira a toalha de sua cintura e fica completamente nu, jogando o pano sobre seus ombros e então entrando no pequeno banheiro. As costas lisas, e o traseiro de pele clara chamam minha atenção de um jeito que eu sequer sei como controlar.

Nunca em minha vida tinha estado no mesmo cômodo em que alguém estivesse completamente nu, muito menos um estranho, um homem.

Ao que Louis bate à porta atrás de si, Zayn risca o fósforo e acende o cigarro que pende entre seus lábios, tragando profundamente ele dá uma risada e olha para mim.

"Quando ele fez isso ontem, o Liam quase caiu para trás." Rindo, o cigarro agora entre seus dedos.

Eu não sabia o que fazer com a informação, então apenas ri constrangido, querendo enfiar todo meu corpo no lugar mais apertado que pudesse encontrar e nunca mais ser visto novamente. Meu rosto queimando em vergonha, nunca tinha ficado assim, nunca tinha sentido tanto constrangimento em toda minha vida e agora Zayn estava tentando ao máximo não gargalhar da minha situação.

Nervosamente, coço minha garganta e tento pensar em algo para falar. Talvez jogar a mesma carta contra ele seja uma boa opção.

"Mas você não fica constrangido? Hum, digo... Não é todo dia que se vê um homem andando nu entre desconhecidos." Respiro fundo depois de tagarelar todo meu nervosismo. "Se bem que a fama dos franceses não é..."

"É mais normal do que você imagina." Zayn solta, andando até a mesa que fica perto da parede, no canto do cômodo. Eu o olho com uma clara interrogação em minha feição e ele simplesmente dá de ombros, repetindo. "É mais normal do que você pensa... homens desfilando nus entre desconhecidos."

"Quando se pensa em vestiários de times, realmente." Sem ter com o que me ocupar, brinco nervosamente com meus dedos sobre meu colo.

A risada escandalosa de Zayn me chama a atenção e o olho mais uma vez. Ele ri escandalosamente enquanto tenta formar um cigarro entre seus dedos esbeltos.

"Você é engraçado, Harry..." Ele suspira. "Vestiário..." Ele sussurra para si mesmo a segunda parte, fungando e passando a mão no rosto para secar as lágrimas que tinham escorrido. "Eu gostei de você, Harry...?"

"Styles. Harry Styles." Falo baixinho, agora ainda mais perdido do que quando toda a confusão tinha começado.

Ele continua rindo enquanto monta seus cigarros. Na mesa, pouco mais a sua frente, uma caixinha de metal, talvez de prata, estava aberta com inúmeros cigarros enrolados na largura de um lápis. A chama queimava o tabaco dentro do papel de seda que pendia em sua boca, focado no delicado trabalho manual, ele me pegou o observando atentamente.

O olhar que me atirou deixou-me ainda mais sem graça, nervoso. Ele ri mais uma vez, balançando a cabeça de um lado ao outro quando traga o cigarro mais uma vez, deixando a fumaça sair por suas narinas.

"Z, você viu onde eu coloquei o meu..." A porta do outro quarto que estava fechada até agora é aberta, revelando um rapaz esbelto, vestindo apenas uma calça plissada marrom. O que as pessoas dessa casa têm contra roupas? Ele segurava a calça pela barra para que ela não caísse. Ao me ver ele apenas para de falar e divide seus olhares entre mim, o estranho, e Zayn, seu colega que tinha acabado de acender um segundo cigarro. "cinto. Quem é esse?" Ele vem até mim e me estende a mão para um cumprimento.

Antes que eu me levante para o cumprimentar corretamente, ele toma minha mão na sua e a aperta firmemente.

"Esse é o Harry."

"Oh, esse é o Harry..." Ele entreolha o colega e sorri para mim. "Você quem recebeu o Louis ontem, sim?"

"Isso." Engulo em seco. "Desculpe, não sei seu nome." O pergunto nervoso. Ele é um homem grande, de ombros largos e mãos grossas que poderiam acabar comigo em um estalar de dedos. Eu não faço ideia do que estava acontecendo comigo para me sentir tão amedrontado por sua simples presença.

Andando até Zayn, ele pega o cigarro aceso em sua boca e então leva até a própria, tragando firmemente enquanto é assistido minuciosamente pelo colega. A dinâmica entre eles me deixa completamente embasbacado.

"Liam Payne." Ele pega um dos cigarros enrolados na mesa e usa o que tinha roubado de Zayn para o acender e só então o devolve, colocando-o novamente entre seus lábios.

Zayn o olhava fixamente, sentado na cadeira, ele me parecia tão submisso à presença de Liam, que tinha feito nada mais que apenas entrar no cômodo.

"Zayn." Ele é puxado para fora de seu transe pelo próprio causador de sua situação.

"Hm?"

"Meu cinto." Ele sequer precisava usar um tom interrogatório, Liam apenas falava como se já estivesse acostumado a ter tudo e todos sob seu controle absoluto, sabendo que não precisava de muito para que fosse obedecido.

"Eu... hum..." Ele coca a garganta, nervoso. "Eu acho que está debaixo da..." Ele me olha apreensivo e engole em seco. "Embaixo da cama."

"Oh! É verdade. Não sei como não tinha pensado nisso antes. Obrigado, querido." Liam acaricia o rosto de Zayn, apertando seu queixo no fim e então correndo de volta para o quarto, onde o vejo ajoelhando ao lado da cama e puxando de lá um largo cinto preto de couro.

Assisto a Liam enquanto ele veste uma regata branca e então sua camisa de botões por cima, para só então passar o cinto pela calça e terminar de se vestir. Ele pega uma mala sobre o parapeito da janela e se olha no espelho ao lado da porta.

"Louis está no banho?" Ele pergunta distraidamente, arrumando seus cabelos no espelho.

"Sim." Respondo rapidamente. "Vamos sair mais uma vez hoje. Ele insistiu que eu o mostrasse um pouco mais do que acontece do lado de fora do campus durante o dia."

"Certo. Boa sorte para vocês então. Preciso ir para a aula." Caminha até a porta e pega um enorme sobretudo cinza. "Zayn, você não vem?"

"Só vou para segunda aula hoje, não tenho a menor paciência para aguentar sete períodos seguidos daquele homem chato falando sobre Kant e Hegel o dia todo." Ele termina de enrolar mais um cigarro e o coloca no maço, junto com os demais.

A porta do banheiro é aberta de supetão e Louis aparece, a toalha enrolada ao redor de seus quadris.

"Bom dia, senhor Payne." Ele fala sério, fazendo uma leve reverência de cabeça ao homem parado perto da saída.

"Bom dia, Louis." Liam veste o grande casaco e gira a chave da porta. "Tente não fazer com que o Harry perca muitas aulas, sim?"

"Pode deixar." Ele bate continência com a mão que não está segurando a toalha e seu corpo e solta uma piscadela para o colega.

"Bem, estou indo. Tentem não derrubar o apartamento enquanto estou fora." E então, sem esperar uma resposta, ele abre a porta e vai embora com uma batida.

"Então. Vocês se conheceram enquanto estive ausente?" Louis pergunta, ainda parado na porta do banheiro cheio de vapor.

Olho para Zayn, que está me olhando de volta e sorri para mim. Ele apaga o cigarro no cinzeiro de vidro sobre a mesa e ri.

"Tudo certo, Pierre."

~

O caminho que escolhi tomar para aquele passeio era por dentro dos inúmeros prédios espalhados pelo Campus. O levei para conhecer os prédios de medicina, passeamos pelos corredores cheios de quadros de avisos com cartazes de boas-vindas, grades horárias estavam espalhadas por todas as paredes.

É engraçado conversar com Louis, responder suas perguntas aleatórias sobre a vida no campus me dá uma sensação de que o tempo voava junto com os pássaros no céu.

Passando por uma pequena praça, Louis parou no meio do gramado, colocou a mão no bolso de seu grande sobretudo e puxou de lá uma carteira de cigarros e um isqueiro com o lema da bandeira francesa gravados na lateral. Colocando um dos cigarros entre os lábios, ele me ofereceu um.

"Tenho asma, desculpe." Minha recusa fez com que ele não só guardasse a caixa, como também o cigarro que estava em seus lábios. Demonstrando minha gratidão com um sorriso. "Obrigado."

"Não é bom começar uma amizade asfixiando as pessoas."

"Não mesmo."

"Você poderia ter me avisado ontem." Ele comenta, falando sério pela primeira vez desde que o conheci.

"Você não tinha me oferecido antes." Dou de ombros e sigo meu caminho, sentindo seu olhar sobre minhas costas.

Ele espera que eu esteja a alguns bons metros de distância para vir correndo atrás de mim, com suas mãos enfiadas em seus bolsos.

"Conte-me mais de você, Harry Styles."

"O que você quer saber?" O olho rapidamente, ele tem um sorriso em seus lábios.

"Hum, bem... Qualquer coisa que você quiser me contar. Qual sua comida preferida?"

"Eu gosto das almôndegas que minha mãe faz."

"Eu adoraria experimentá-las algum dia, se me permitir." Aquele maldito sorriso parecia nunca sair de seu rosto.

"Seria uma honra."

"Sinto que teremos muitas histórias para contar um dia, Harry Styles."

Louis sorria por hábito e aparentemente era contagioso, pois eu sentia vontade de sorrir o tempo todo quando ele estava por perto. É quase cômica a forma como eu tento segurar minhas bochechas no lugar, mas sempre perco a batalha para alguma atitude aleatória de Louis.

15 de setembro, 1942

Maggie chega animada em minha mesa, jogando o avental sobre a mesa e sentando-se a meu lado. Seu expediente tinha acabado de terminar e ela não poderia estar mais feliz.

A olho rapidamente por cima de meu jornal, ela me olhava sorridente. As mãos sobre o colo, a clara vontade de balançar as pernas em contentamento. Estava claro em seus movimentos que ela tinha algo que queria falar, aquela não era a primeira vez que eu a via daquele jeito.

Volto meu olhar às folhas em minha frente e foco na leitura daquele último parágrafo de uma resenha política sobre os avanços tecnológicos nos quais o governo americano está investindo para acabar com a guerra o mais rápido possível. Também tem as palavras cruzadas no final que sempre me causam longos minutos de reflexão e pensamentos aleatórios para descobrir qual a palavra de onze letras na vertical.

"Harry." Ela me chama. Mantenho meus olhos na folha, focado.

"Hum?"

"Você pode me olhar por um momento?" Ela soa quase frustrada, mas o sorriso em seu rosto é mais forte.

"Então diga." Observo-a por cima das folhas, rindo. Coloco meu jornal de qualquer jeito sobre a mesa, ao lado da xicara de chá vazia que já estava fria.

"Em dois dias começarão audições para o elenco de uma peça no teatro local, e eu me inscrevi para um teste."

"Isso é ótimo, Maggie!" Fico animado e ela bate os pés no chão em uma explosão de animosidade. "Qual a peça?"

"Bem, não tem nome por enquanto. É um roteiro original que ainda está sendo produzido, mas não importa." Seus olhos brilhavam como pérolas sob a luz que vinha dos postes da praça, brilhavam tanto que eu não me surpreenderia se uma lágrima emocionada escorresse por seu rosto. "O que importa é que eu finalmente vou subir em um palco."

Ver minha amiga tão feliz me deixa tão feliz quanto, eu a apoiaria no que quer que fosse e sei que ela também sempre estaria lá quando eu precisasse.

"Você está muito feliz, não é?"

"Você não faz ideia!" Ela fala ainda mais animada, o sorriso em seu rosto quase cortando suas bochechas. "Desde criança eu sonho com o estrelato."

"Quando criança eu sonhava em morar na lua." Meu comentário a faz rir abobalhada.

O final de tarde daquele dia trazia consigo uma das melhores temperaturas para mim. Estava frio, mas eu não precisava de nada mais que meu terno para me esquentar. O vento batia levemente sob nossos cabelos e a brisa fria avermelhava nossas bochechas e deixava a ponta de nossos narizes como os de palhaços.

Maggie fecha os olhos, sentindo o vento em seu rosto. Seus longos cabelos loiros seguros pela boina cor de vinho em sua cabeça a dão o ar da inocência que ela conseguiu manter durante sua vida adulta.

O silêncio do lugar era quebrado pelos inúmeros jovens que passeavam com seus amigos pela Harvard Square, pelos casais que andavam de mais dadas como se estivessem cometendo o ato mais obsceno já descrito na história.

É engraçado como esses casais têm vergonha de segurar a mão do outro, como têm medo de serem vistos como devassos em público enquanto há uma semana eu estava em um quarto onde um rapaz simplesmente passeava nu como se não fosse nada. As percepções de mundo são extremamente variáveis de acordo com o ponto de vista.

Há alguns anos eu poderia me identificar com esses casais vergonhosos, eu via o ato de um aperto de mãos como algo sério e focado ao mesmo tempo que via o ato de andar de mãos dadas como coisas apenas destinadas à casais formalmente unidos pela igreja. Hoje, depois de três anos morando com três das personalidades mais influentemente mundanas e apegadas ao errado eu vejo que talvez eles não sejam tão errados assim. Apenas donos de si.

E então, como se ouvisse meus pensamentos sobre si, ele aparece:

"Olá, caros amigos." Nicholas joga sua bolsa sobre a mesa, causando um grave estrondo na superfície de metal e vidro, e se atira em uma das cadeiras. "Quem morreu?" Ele olha para nossos rostos sérios e fica confuso.

"Você é totalmente sem noção, Nicholas." Eu comento, ele apenas dá de ombros e então pisca brincalhão para Maggie.

"Eu não posso discordar." Ela comenta e ri. "Já terminei meu turno, mas caso quiser alguma coisa, a cafeteria ainda está funcionando."

"Já enchi meu tanque no caminho, querida." Ele a responde então suspira. "Harry, como você aguenta todas essas aulas? Nem um mês desde que as aulas voltaram e eu já quero incendiar todo esse maldito campus."

Maggie ri dele, que está jogado para trás em sua cadeira, a perna batendo ansiosamente no chão como se tentasse abrir um buraco sob si. Nicholas respirava com força e suspirava como uma criança atrás de atenção, esperando que um de nós o perguntasse o que tinha acontecido.

"Certo, diga logo o a que aconteceu antes que você tenha que reembolsar a cafeteria pelo buraco feito no chão."

"Mr. Jones passou um trabalho enorme para entregar daqui duas semanas. Ele quer uma síntese gigante sobre a quebra de '29 e eu não aguento mais ouvir falar desse desastre." Ele roía as unhas de uma mão, usando a outra para puxar os pedacinhos que ficavam. Ele mordia a pele de seus dedos como se precisasse chegar até os ossos. "E eu não sei como que eu vou conseguir fazer isso tudo."

"Mas pelo menos você pode datilografar?" Maggie perguntou, preocupada ao ver o estado nervoso crítico em que ele se encontrava. "Ficaria muito mais fácil se pudesse."

"Sim, posso. O problema é que eu não faço a menor ideia de como se usa aquela geringonça!" Ele agora chupava a ponta de seu dedo depois de tê-lo machucado. "Merda." Ele vê seu dedo sangrando e fica ainda mais nervoso. "Harry, por favor. Eu sei que você não tem tempo para mais nada, mas eu te imploro: me ajuda."

Nick sabia que eu tinha estudado brevemente sobre a grande depressão de 1929 e as consequências legais que vieram junto com ela. Eu tinha um grande conhecimento sobre os fatos, sobre o que fez com que ele acontecesse e o que fez com que a situação fosse revertida, mas não faço a mínima ideia se meus conhecimentos históricos e jurídicos seriam o suficiente para ajudá-lo naquele projeto.

Sendo estudante de economia, Nick deveria estar ainda mais bem inteirado do assunto que eu, mas eu via como ele não consegue lidar com o peso de um trabalho tão grande. Suas pernas balançando nervosamente, a forma alvoroçada como arrancava a pele de seus dedos.

"Eu preciso beber alguma coisa." Abriu sua bolsa e procurou por algo que talvez estivesse largado lá dentro. A frasqueira de prata que tinha ganhado de seu pai quando foi aprovado em Harvard era sua mais fiel companheira, mais fiel que sua ansiedade. Ele abre a pequena garrafa e a entorna, bebendo em largos goles o que quer que seja que tivesse lá dentro.

"Você parece com sede, irmão." A voz suave vinda de longe nos chama a atenção. "Deixe-me te ajudar com isso." Então Louis tira de sua bolsa carteiro uma garrafa de uísque. Não uma frasqueira ou uma dose, mas sim uma garrafa completa de 750 ml.

"Eu nem te conheço e já te amo. Casa comigo." Louis ri da felicidade de Nick e o entrega a garrafa. "Você foi enviado pelos deuses." Nick abre a garrafa e vira o líquido em sua boca, engolindo de uma só vez antes de virar a garrafa para completar mais uma vez sua tão querida frasqueira.

"Olá, Harry Styles." Louis vira para mim com seu suave sorriso no rosto. A luz dos postes o contornando, criando uma aura ao seu redor, dando-lhe a imagem de um anjo enquanto me olha.

Há tantos dias que eu não esbarrava com Louis que eu já nem mesmo lembrava de como sua singela presença era capaz de iluminar qualquer ambiente. Era engraçado como ele só precisava aparecer e falar qualquer frase que eu começava a sorrir, mas claro, não poderia deixar que ninguém notasse. É quase vergonhoso como eu me deixo levar por ele, e isso não deveria acontecer.

"Nick, Maggie." Levanto da cadeira em que estou sentado e estendo minha mão em um cumprimento cordial. "Esse é Louis Pierre Tomlinson, o rapaz que Mr. Conant pediu para que eu apresentasse o campus." Viro para meus amigos e aponto para cada um com a cabeça. "Falei dele para vocês."

"Então quer dizer que fala de mim para seus amigos, Sr. Styles?" Ele me olha pretensioso, os seus lábios tremendo com o sorriso que logo escaparia.

Eu sei que ele estava brincando, mas não consigo não ficar constrangido com suas palavras, até porque quando paro para pensar eu realmente talvez tenha falado demais sobre Louis para meus amigos.

As histórias que tinha me contado sobre sua infância não saiam de minha cabeça e vez ou outra me pegava rindo sozinho, então eu me sentia na obrigação de contar o que se passava em minha cabeça. Nick era o que mais me pegava perdido nesses momentos, enquanto eu estudava ou enquanto lia um livro qualquer no quarto que dividíamos.

Nick se levanta depois de dar mais um gole na frasqueira já pela metade. "Sinto que talvez eu tenha escutado seu nome mais do que deve ter escutado o meu." Mostra sua mão para que trocasse um aperto com o recém-chegado. "Nicholas Grimshaw." Ele faz uma leve reverência. "Prazer em conhecê-lo." Louis ri do gesto e afasta sua mão.

"Nicholas Grimshaw?" Ele sai interrogativo e meu amigo assente que sim. O semblante frágil e dócil de Louis logo muda para um semelhante a quem está jogando poker, sério e intimidador. A sobrancelha erguida dava a impressão de ele estaria prestes a atacar meu amigo com suas palavras. "Não precisei que Harry me contasse muito sobre você, sei muito bem quem você é apenas por passar em frente à qualquer pub das redondezas."

Então Nick olha para mim boquiaberto, animado. "Harry, por favor, deixa eu levar ele para casa!" Ele então puxa Louis para um abraço torto e os dois riem.

Louis então vira-se para Maggie, que tinha observado toda aquela interação quieta em seu canto, porém rindo de tudo. Ele anda até ela e para ao seu lado, em um ato rápido e suave toma a mão delicada de minha amiga na sua, depositando um beijo sobre o nó de seus dedos. Eu a vejo corar como um hidrante, lisonjeada com aquele simples ato.

Maggie olha para mim, alegremente. "Harry, onde você estava escondendo esse príncipe?" Ela me pergunta enquanto ainda tem sua mão sobre a de Louis.

"Nos sonhos mais insanos dele." Louis responde rapidamente, me olhando de rabo de olho.

"Bem, se você está assumindo que sonho com a personificação da França, sim." Claramente eu não tinha algo melhor para responder, então fui com a coisa mais óbvia que vinha em minha mente.

"Certo..." Ele me olha sem saber mais o que falar e vira mais uma vez para meus amigos. "Posso lhes acompanhar?"

"Só se você me ceder um pouco mais desse líquido abençoado." Nick responde de prontidão.

"Se um padre ouvisse metade das coisas que você fala, você teria sido excomungado assim que aprendeu a falar." Meu comentário faz com que todos riam.

Louis então coloca sua bolsa no chão, mas não antes de retirar a grande garrafa de dentro e a colocar sobre a mesa. Meu colega não hesita em avançar sobre ela e preencher mais uma vez sua frasqueira.

"Alguém pode me explicar o que deixou ele desse jeito?" Louis pergunta rindo.

"Não pergunta se você não tiver outra garrafa para dar." Maggie responde rapidamente e Nick apenas assente, focado em simplesmente continuar bebendo.

Ficamos assim por longos minutos, até que em um momento de consciência Nick se põe de pé. Ele arruma toda sua bolsa, colocando de volta todas as coisas que tinha caído quando mais cedo tinha procurado por sua frasqueira.

"E com isso..." Ele tropeça nos próprios pés, mas consegue se manter quase ereto. "Me vou."

E então, com a garrafa debaixo do braço, a bolsa no ombro e bebida na boca, ele vai embora andando sozinho na noite.

Olho para o estado em que meu amigo se encontrava e viro para os dois que, assim como eu, também o observavam ir andando desacompanhado e totalmente embriagado.

"Talvez eu devesse..." Eu nem mesmo preciso terminar de falar para que eles falem juntos.

"Sim."

"Maggie, a conta. Posso deixar para amanhã?" Fico de pé e junto todas as minhas coisas com pressa, as jogando de qualquer jeito dentro de meus bolsos.

"Eu pago para você." Louis responde. Sentado de pernas cruzadas, ele levanta um pouco e puxa do bolso de trás uma nota de dez dólares. "Vou aproveitar e pedir algo para mim."

"Certo, muito obrigado. Eu te pago assim que te vir de novo."

"Sem problemas."

"Eu insisto."

"Harry, o Nicholas..." Maggie me lembra do motivo de tanta correria e me viro para trás, vendo que meu amigo já tinha se distanciado muito.

"Certo, nos vemos isso depois. Mas fico te devendo uma."

Sem ouvir qualquer coisa mais que os dois tinham para falar, com tudo enfiado de qualquer jeito em meus bolsos e o jornal amaçado entre meu braço, corro atrás de Nick. Pego seu braço e o coloco ao redor de meu pescoço, o abraçado pela cintura e lhe dando um apoio maior.

O corpo dele é mais pesado do que parece dado a sua figura esguia, ele anda tropeçando em seus próprios passos, trocando os pés.

"Hazz, eu te amo, você sabe disso, não é?" Ele fala, ou melhor, ele tenta.

"Eu sei, Nick." Meu deus, o que deu na cabeça dele para que simplesmente resolvesse beber meia garrafa de uísque em tão pouco tempo?

"Você sabe que se você quiser me trocar pelo oui oui mon amour ratatouille lá você pode, certo?"

"Eu nunca faria isso." Ele cai um pouco para o lado e preciso o acomodar novamente em meus braços. A bolsa carteiro que carregava estava pendurada em seu pescoço. "Você é meu irmão."

"Mas ele fala tão bonito, Hazz." Ele agora sai como se estivesse prestes a cair no sono.

"Sim, ele fala."

De um momento para o outro, ele simplesmente parou de falar. Os costumeiros vinte minutos que me tomava à caminhada entre o La Parole e meu apartamento se tornaram em longos quarenta minutos de caminhada e força bruta para evitar que o corpo quase adormecido de Nick não fosse de vez aí chão.

O pior de tudo nessa situação, quando Nick está bêbado, é que ele oscila entre um breve estado de coma e uma total euforia. Em um momento ele estava quase caindo de meu colo enquanto no outro ele achava que era uma ótima ideia correr como um lince até onde conseguisse. O que não costumava ser muito longe, dado a propriedade depressora dos efeitos do álcool.

Quando finalmente consegui o colocar na cama, não demorou mais que um minuto para que ele dormisse e caísse nas mais profundas profundezas da inconsciência alcoólica. Tirei toda sua roupa pesada, o deixando apenas com suas roupas de baixo e a grossa manta para esquentar seu corpo.

Jogo-me sentado no sofá, meu terno jogado sobre meu colo. Eu nunca tinha suado tanto em um período tão frio do ano.

Ouço batidas leves na porta e, com um suspiro, me levanto para atender. Pelo olho mágico vejo a figura de Louis do outro lado, apreensivo, ele aperta a faixa de sua bolsa com força.

Abro a porta para encontrá-lo. Ele me olha nervoso.

"Me desculpa." Ele solta, sem me dar a chance de sequer o cumprimentar.

"Pelo que, exatamente?"

"Por ter dado tanta bebida para Nick. Se eu não tivesse dado a garrafa ele não teria ficado assim e você não teria que parar sua conversa com Maggie e..."

"Louis." O interrompo em meio a seu monólogo de desculpas exasperadas. "Nick já e bem grandinho para saber o fazer da própria vida, ele pediu a bebida e você deu. O que ele fez consigo mesmo depois disso é culpa dele. Ele quem vai limpar o próprio vômito."

"Ew." Ele ri.

"Eu moro com três ratos de pub, se não estivesse preparado para lidar com essas situações a esse ponto do campeonato eu já teria fugido há muito tempo." Ele ria de minhas palavras.

"É maldade demais fazer ele limpar sozinho."

"Ele bebeu sozinho." Digo. "Além de que tem um balde com o nome de cada um aqui, já com o nome gravado para não ter desculpa. E tem sempre o banheiro."

"Meu deus do céu." Ele agora gargalhava. "Bem... agora que sei que está tudo bem, preciso ir."

Vamos Harry... eu sei que você não quer que ele vá embora. Você mesmo diz para eu mesmo que quer entender o que está acontecendo em sua cabeça. Faça algo!

"Mas você não quer entrar?" Solto em um momento de coragem cega.

Ele me olha, sendo mais baixo que eu, seu olhar me passa talvez muito mais inocência do que realmente há ali.

Louis morde seus lábios, refletindo sobre a decisão que deve tomar. Talvez seja mais complexo do que aparente ser, talvez ele também esteja perdido sobre o que está acontecendo consigo. Será que não sou o único?

"Tudo bem." Ele tira a bolsa de seu ombro e entra, sem olhar para mim, ele simplesmente adentra meu apartamento.

Todos os cantos de meu dormitório são observados pelo olhar minucioso e perceptivo de Louis. Com o olhar, ele varre todos os centímetros da área comum, observando a bandeira vermelha do RedSocks pendurada na porta do quarto de Jamie e Mike.

Eu não sei como me sinto com ele dentro do meu espaço, do espaço que compartilho com os amigos que chamo de irmãos. Não me sinto confortável em ter aquele estranho analisando milimetricamente uma parte tão grande da minha vida. Talvez tenha sido uma ideia de merda, eu nem deveria ter aberto a boca.

"Pensando bem..." Ele vira para mim. "Estou muito cansado, as aulas hoje não foram simples e carreguei Nick por quase uma hora... você deveria ter visto como foi ter carregado ele dois lances de escadas acima."

"Eu entendo." Agora ele parece decepcionado, mas não comigo. "Eu preciso ir para casa, combinei com Liam e Z de irmos a um pub que eles gostam em Boston... Podemos combinar algo depois, sim?"

Perdido em meus próprios pensamentos, apenas digo que sim com um movimento de cabeça, o assisto passar rapidamente por mim, batendo a porta atrás de si no caminho.

"Merda!" Me jogo novamente no sofá e lá fico.

Talvez eu tenha acabado com qualquer chance de aproximadamente com Louis, talvez eu tenha esmagado qualquer amistosidade entre nós.

Talvez eu tenha despedaçado tudo e agora só me resta viver com as consequências da minha insegurança e com a dúvida do que poderia ter acontecido se eu simplesmente o tivesse deixado ficar.

Ou talvez eu simplesmente esteja vendo algo demais onde não tem nada.

Mas até que se concretize, nada passa de um talvez...


[olá meu amores, depois de tanto tempo eu estou de volta!

não esqueçam de votar e deixar ao menos um comentário pra ajudar com o engajamento e divulgação da fic.

prometo que a próxima att não vai demorar tanto.

enquanto isso me ajudem a divulgar ethereal pelo mundo, compartilhem no tt e mande pros amigos nos squads! qualquer coisa que ajude ethereal a crescer é válida!

obrigada e até a próxima.]

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