Parte I

Cada vez mais gélido, o castigo do sopro noturno chicoteou sua pele, aumentando o sofrimento da jornada. As pernas e a coluna doíam, a cada passo, junto do contorcer causado pelos espasmos. Lutava em vão contra a involuntariedade de seus músculos. Ouvia apenas o rufar dos dentes sob o efeito da trepidação mandibular, junto do assobio fantasmagórico do ar atravessando as árvores próximas.

A pressa e o alerta latejavam em sua consciência, temerosa sobre os perigos do local. "Preciso sair daqui...". Além do frio angustiante, havia um temor constante em relação ao trecho da estrada, berço de inúmeros boatos assustadores. Tudo que ela mais queria era chegar a sua casa.

Em mais de uma hora de caminhada, não houve companhia senão do reflexo da lua, oscilando sua luminosidade entre as carregadas nuvens que o vento arrastava. Parecia que todos os veículos e seres humanos haviam desaparecido do planeta.

À frente, apenas o breu. As pupilas se dilataram até quase o limite de suas íris, como se as trevas quisessem tomar todo o castanho de seus globos. Mesmo com a vista adaptada, nada era visível, exceto a pintura de alguns pedaços de faixa desgastada sobre o asfalto, delimitando o acostamento sob o efeito refletivo de um céu arisco, o qual se recusava a expressar qualquer generosidade.

O local era familiar sob o calor do dia, mas à noite sufocava, trazendo uma desorientação perturbadora durante o trajeto às escuras. Consequentemente, a noção de tempo restante era ausente, acentuando o padecimento mental diante da caminhada. Deduziu que ainda restava meia hora para chegar, mas não tinha como se certificar.

O cenário desolador arrancou-lhe frias lágrimas. Como último recurso, esfregou os ombros com força, veloz. A coordenação estava profundamente afetada e as reações involuntárias não se tornavam mais brandas, beirando a convulsão, com a maior parte do corpo exposta ao vento cortante, sem chance de enfrentamento. Quanto à sua porção revestida, contava apenas com um leve tecido, compondo um curto vestido amarelo de alças finas.

"É apenas um caminho... Apenas um caminho qualquer... Logo chegarei".

A passos lentos, seguiu.

Esfregou os olhos para desfazer o embaçamento das lágrimas, na tentativa de confirmar o que via. Luzes. Um par de faróis surgiu, vindo em sua direção. Levantou os braços e os agitou, consumindo seu fraco fôlego com berros desesperados. Com a maior proximidade, notou a familiaridade do veículo.

- Seu desgraçado! Filho da puta! Por que você fez isso comigo? - gritou, sem expressar o alívio do encontro no momento - Por que me deixou lá sozinha? Eu te odeio... - furiosa, defenestrou os insultos no limite da garganta contra a picape reconhecida. Fez-se lânguida e caiu de joelhos no asfalto, aos prantos.

A picape permaneceu alguns metros adiante, sem ceder na intensidade do farol e a mantendo ofuscada, oprimindo seus olhos ajustados à escuridão do percurso. Engatinhou alguns metros adiante antes de se erguer novamente. Caminhou até a lateral da picape, no lado do carona. Viu seu próprio rosto, coberto de maquiagem borrada, refletido pelo escuro vidro fumê.

- Abre essa porcaria! Me deixa entrar! Quando chegar em casa você vai se ver comigo! Dessa vez você passou dos limites...

Ouviu o som de uma batida vindo da caminhonete.

- O que você está fazendo? Abre logo! - gritou, em desespero, tentando abrir a maçaneta, mas sem sucesso.

Duas batidas foram ouvidas. Dessa vez, discerniu que o som não se originava de dentro da cabine. Calou-se, ainda ofegante pelo esforço. Se viu confusa diante da inércia do motorista.

Se aproximou da caçamba. As duas batidas se repetiram.

- Meu Deus! O que está acontecendo?

Seu espanto foi total quando olhou dentro da parte traseira.

- Amor?! O que é isso? Quem te amarrou aí atrás. Quem tá dirigindo?

O sujeito tentou falar algo, mas a fita em sua boca impediu que ela entendesse. Ouviu o som da porta do motorista se destrancando. Rapidamente, se jogou na caçamba da picape e tentou desamarrar o homem, mas percebeu que, junto das cordas, havia correntes presas a cadeados, impossibilitando-a de libertá-lo. Ele estava com muitos ferimentos na cabeça e no rosto.

- Calma, amor. Eu vou te soltar... Eu vou dar um jeito...

Gemia de dor a cada tentativa de remover a fita de sua boca.

A caminhonete balançou, como se algo muito pesado tivesse saído dela. Ouviu os passos do motorista abandonando a cabine, bem como uma respiração grave e intensa.

Conseguiu remover a fita do rosto do seu companheiro.

- Foge daqui! Me deixe! Esse cara é louco! Corre daqui, mulher! Não dá pra explicar agora...

- Eu não posso te deixar aqui assim - retrucou, ela, aos prantos.

- Deixa de ser burra! Sai fora, porra! Esse cara quer matar a gente!

Um estrondo metálico ecoou na lateral da caminhonete.

- Eu te amo... - Enquanto falava, ela não conseguia segurar o tremor e o choro - Eu vou voltar pra te salvar... Eu prometo que vou te salvar... - interrompeu-se, percebendo o grande sujeito parado à sua frente, do lado de fora da caçamba.

Um odor de putrefação, extremamente desagradável, tomou conta do ar. O estranho segurava um longo pé-de-cabra e lambia os lábios insistentemente, emitindo ruídos de estalo enquanto a observava, fixamente, sem nada dizer. O som de sua respiração começou a se intensificar. Cuspiu sobre a mão e alisou a ponta do objeto que segurava, esboçando um sorriso assimétrico. Tossiu, transitando para uma gargalhada rouca e perturbadora.

Ainda sob o efeito do choro desesperado, ela conseguiu se desvencilhar da apatia diante da cena, pulou pela traseira da caminhonete, preparando-se para correr pela rodovia, no entanto, não foi ágil o suficiente. Sentiu uma forte pancada na cabeça e desmaiou.

- O que você fez com ela, desgraçado! Filho da puta! Eu vou te mat... - gritou, o sujeito acorrentado, logo antes de também ser desacordado com uma forte pancada.

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