Parte 2 - Capítulo 10
3 de setembro de 2012, segunda-feira
Ar quente subia, corria, banhava a multidão embriagada e fora de si; a fumaça distorcia os corpos, que se esticavam e retorciam; as luzes psicodélicas cortavam suas imagens em frames. Por trás dos balcões do bar, a equipe se movimentava barulhenta sob a música pulsante das caixas de som, suor escorrendo por suas têmporas e queixos.
Era quente.
Era quente como o inferno.
No mar vermelho de criaturas não humanas, profanidades eram ditas em sussurros e risadas se perdiam, se misturavam à música. Eles pareciam perigosos, errados, sem destino, perdidos.
Quando Mourana esteve pela primeira vez na Perdição, toda sua existência havia entrado em choque. Embora as boates anteriores, onde ela havia trabalhado, fossem caóticas, Perdição era o próprio caos. Os seres ali dançavam como se o mundo estivesse prestes a acabar e, quando era possível ter um vislumbre de algo concreto no meio da multidão, você podia jurar que havia visto alguém com presas cravadas em algum pescoço, cujo sangue escorria e se misturava à luz vermelha, típica da boate. As poucas criaturas que ocupavam os sofás estavam sempre bebendo de forma desordenada, ou se drogando, ou transando. Por alguma razão, os frequentadores tendiam a ser muito adeptos à nudez ― em todos os seus níveis.
Levou algum tempo até que Mourana se habituasse a tantos peitos e paus a mostra. Se eles conseguiam lidar com aquilo, por que ela não poderia também? Claro, isso não incluía que ela se tornasse também uma adepta, por isso, o menor uniforme disponível foi prontamente recusado. Felizmente, Asafe a deixou escolher o que fosse melhor para ela.
Na verdade, ela sabia muito bem a sorte que tinha por ter conhecido Asafe e Sombra. Embora ela fosse como algo do qual eles precisassem, eles ainda não tinham a obrigação de apoiá-la a tal ponto. Mas, ainda assim, faziam. Asafe a encontrava todas as noites quando ela vinha para a boate, na chegada e na saída; Sombra ainda a acompanhava pelas ruas sempre que ela saía. Alguém poderia se sentir sufocado e assustado, mas ela entendia a situação e, sinceramente, ela era grata e até tinha um pouco de medo da ausência deles ser muito brusca quando tudo acabar.
Ela gostava de se sentir acolhida e cercada.
Quando ela terminou de bater a bebida do próximo cliente e levantou a cabeça, encontrou os olhos afiados de Sombra a encarando. Inclinado contra o balcão, um sorriso puxado em seus lábios, sua presença cercando a mulher. Mourana sorriu de volta para ele em cumprimento, logo voltando ao trabalho.
Uma gargalhada passou por ela e parou ao seu lado.
― Aqui de novo, caçador? ― a zombaria era óbvia em sua voz, mas, ao contrário dos antigos "colegas" de trabalho de Mourana, ela sabia que aquele cara só estava provocando.
Elohin era um mestiço ― sua mãe era uma fada, e seu pai um mestiço de humano, e sereia. Assim, o tipo de imagem que Elohin carregava era imaginável. Ele não era tão alto quanto Sombra, mas não era baixo. Seu corpo magro possuía músculos firmes e seus movimentos eram sempre elegantes e sedutores. Seu rosto possuía leves traços dos povos aquáticos ― que Mourana aprendera serem muito semelhantes aos povos asiáticos, algo a ver com adaptação genética ― assim como traços pretos pertencentes à sua mãe. Parecia uma mistura perfeita e seu cabelo longo e escorrido fazia-o parecer quase etéreo.
Mourana se sentia intimidada com a beleza e a forma como ele simplesmente sabia que era belo, usando roupas e maquiagem brilhosa que o destacavam ainda mais.
― Eu já disse pra não me chamar de caçador. ― Sombra disse de volta, escondendo sua irritação sob uma camada grossa de sarcasmo.
Pelo que Mourana sabia, os Bons Mestiços eram chamados pejorativamente como caçadores. Ela não entendia muito bem o porquê de eles não gostarem do apelido, já que caça era realmente uma das coisas que eles faziam. Enfim, eram coisas além da sua compreensão.
― Mas não é isso o que você é? ― Elohin sorriu de volta, seus caninos pontudos aparecendo entre os lábios. ― Um caçador tão impiedoso, que adora o cheiro de sangue e corre atrás de ovelhinhas o dia todo.
Mourana colocou a mão no braço de Elohin. Quem era uma ovelha? Ela não era uma ovelha!
Elohin riu de seu rosto indignado.
― Querida, se eu fosse você não confiaria tanto nele... ― então ele pausou, repensando. ― Mentira, se fosse eu já teria pulado em cima dele. Mas não seja assim! Okay?
Mourana sorriu, embora seu rosto expusesse todo o seu constrangimento.
― Você não deveria ficar tão próxima desses mestiços... ― Sombra falou para ela quando Elohin saiu para ocupar o caixa.
Mourana balançou a cabeça fazendo pouco caso, um sorriso leve ainda em seu rosto.
― É muito melhor do que se eles não me aceitassem. ― ela disse sem gesticular, a legenda aparecendo diante de Sombra enquanto a mulher ajeitava os ingredientes em sua estação. ― E do que você está falando de novo? Eu não sou uma mestiça?
Sombra a encarou diretamente nos olhos. Ele não podia dizer que não a via como uma mestiça. Apesar de tudo, era o fato de ela, supostamente, ser uma mestiça que a fazia especial. Ele se remexeu suavemente na banqueta.
― Tu é diferente.
Mourana ficou congelada no lugar, presa sob o olhar do homem.
Diferente? Ela sabia que era diferente e não necessariamente uma coisa boa... mas aquele olhar, por um momento, a fez cair numa ilusão florida, seu peito se enchendo com raios de sol.
O resto da madrugada passou, tão agitada quanto sempre. Sombra ainda estava sentado na banqueta na maior parte do tempo, mas, por alguns instantes, ele saiu para o escritório de Asafe. Mourana não estava muito interessada nos assuntos pessoais dos dois. Ela sabia que tinha mais alguma coisa acontecendo, mas se eles não haviam lhe dito, então não devia ser algo relacionado a ela.
No cômodo banhado em vermelho, uma figura completamente preta sentava na poltrona exuberante, sua postura digna e altiva.
Sombra se jogou contra a poltrona em frente à mesa, seu rosto portando uma carranca.
― Eu não sei de onde essas coisas tão vindo. Só hoje foram quatro notificações, todos do Povo Doce. Se isso não é um ataque, então me diz aí, o que é?
― Selana não é uma boa rainha e seu exercito não é tão poderoso a ponto de atacarem esta dimensão.
Sombra jogou as mãos no ar.
― Então, o que é isso? Os súditos não podem usar os portais livremente, mas de repente tem uma centena deles fazendo bagunça? E bem na nossa cara? ― ele se inclinou por cima da mesa, os dentes cerrados. ― Pra mim, é óbvio que estão zombando da gente.
Otton simplesmente olhou para Sombra, nenhuma mudança em sua expressão e postura.
― Eles têm sido muito irrestritos...
― Irrestritos? Semana passada invadimos uma orgia ilegal. Eles tinham drogado humanos e, enquanto fodiam, comiam a carne deles. Eles estavam até mesmo se comendo, literalmente. Isso não é ser irrestrito, isso é gozar bem na nossa cara e rir.
Otton suspirou.
― O linguajar não é apropriado...
― Que se foda a porra do linguajar, Otton! ― Sombra bateu na mesa, o som ecoando no cômodo. ― Minha paciência com esses filhos da puta tá acabando e, quando isso acontecer, eu não quero rei, nem rainha, nem caralho nenhum vindo choramingar no meu ouvido. Se aquela boceta de rainha não começar a controlar o "povo" dela, eu vou começar a caçar todos que, ao menos, pisarem no meu território!
Otton ficou em silêncio por um tempo, digerindo a fúria de Sombra. Tinha se passado mais de um mês e as coisas estavam piorando drasticamente. Assassinar humanos gerava uma das penas máximas dentro do acordo de paz entre as dimensões, o problema era que o Reino Doce não assinava o contrato de paz há décadas, então não havia como lidar com a lei em relação a isso. O único acordo era: se algum dos povos atravessasse o território do outro, teria que lidar com as leis do próprio lugar. Nenhum envolvimento com as lideranças principais. Assim, contatar Selana Branca para resolver estes assuntos... estava fora de questão.
― E o que você espera que eu faça? ― Otton perguntou por fim.
Sombra passou a língua pelos lábios.
― Eu quero que você mande uma carta pra aquela boneca do inferno, em meu nome. Se essa merda continuar, então já sabemos qual a intenção dela.
4 de setembro de 2012, quarta-feira
Diferente de quando trabalhava na antiga boate, Mourana agora possuía duas folgas: ela finalizava a semana na terça-feira de manhã e só retornava na quinta-feira à noite. Isso deixava certamente muito mais tempo livre e, se fosse antes, ela com certeza não teria o que fazer com esse tempo livre. Mas agora que Evelyn morava com ela, as duas poderiam passar mais tempo juntas e sair, como amigas normais.
Na quarta-feira, Evelyn havia insistido que precisava de um corte de cabelo, e assim, arrastou Mourana para um salão em um dos bairros próximos ao centro. E foi assim que Evelyn ganhou um corte que deixou seu cabelo com lindas ondulações, e Mourana ganhou um tingimento.
― Você está linda! ― Evelyn disse, extasiada com a imagem da amiga no espelho.
Mourana não conseguia se mexer, seu queixo caído.
Mesmo quando jovem, ela gostava de manter seu cabelo com um corte reto simples, ainda mais porque a textura de seu cabelo não formava cachos e nem era liso, deixando-a sempre com uma aparência desleixada. Então, ela realmente não ficava animada em arrumá-lo. E manter na escova não parecia prático para ela também.
Mas agora, se vendo tão diferente... ela se sentiu um pouco em dívida consigo mesma, por não ter tentado melhorar um pouco.
De alguma forma, ela tinha ganhado uma cor vermelho acobreado em seu cabelo, deixando com alguns tons de laranja, mas ainda não muito claro. A franja tinha sido modelada dos lados de seu rosto pequeno, emoldurando-o. E seu cabelo sempre rebelde possuía agora ondulações que quase formavam cachos.
Ela parecia... diferente. Ela se sentia bonita.
― Como você conseguiu fazer isso? Eu não vi você usando um secador. ― Evelyn falava ao fundo com a cabeleireira.
― É uma técnica nova. Essa marca acabou de lançar uma linha pra definição de cachos, é uma das primeiras no Brasil. Vem, eu vou te ensinar.
E, com algumas sacolas de cremes para cabelo, as duas saíram do salão.
― Mou, você tá tão linda. ― Evelyn continuava cantarolando no ouvido da mais baixa.
Mourana lhe lançou um olhar e sorriu.
― O que é?! Você até parece uma fadinha. ― Mourana revirou os olhos para a amiga.
Elas caminharam um pouco mais até chegarem ao centro, apenas andando calmamente com os braços interligados um no outro. Ao passarem por uma loja em especial, Mourana parou.
― Você quer entrar aqui? ― Evelyn perguntou, encarando a vitrine com coisas de bebê.
Mourana assentiu e entrou diretamente pela porta.
― Você já falou com o pai do bebê? ― Mourana perguntou enquanto Evelyn olhava algumas roupinhas.
Evelyn parou por um momento antes de abaixar o macacão amarelo e pegar outro.
Mourana a cutucou.
― Ele tá com problemas no escritório ultimamente. Ele já está preocupado o suficiente, quando isso acalmar, eu vou dizer.
Mourana suspirou.
― Você acha que ele não vai aceitar? ― Mourana gesticulou.
― Não. Claro que não. ― Evelyn disse na defensiva, então suspirou deixando os ombros caírem. ― Ele com certeza vai ficar feliz, mas ele é do tipo que exagera um pouco, então isso, com certeza, vai deixar ele preocupado demais. Eu não quero adicionar mais coisas em cima dele, sabe?
Mourana encarou os olhos da amiga, percebendo o leve nervosismo da outra.
― Você confia mesmo nele?
Evelyn olhou ao redor evitando os olhos da amiga.
― Confio. De verdade.
― Você deve gostar muito dele para estar tão preocupada.
― Eu gosto. ― Evelyn sorriu fracamente. ― Eu gosto muito dele.
Mourana soprou uma risadinha pelo rosto apaixonado da amiga.
― Como é o nome dele mesmo? Você nunca me disse.
Os olhos de Evelyn brilharam e ela agarrou o braço da amiga.
― Rafael Umbra Vivare. Já pensou? Nosso filho vai ter um sobrenome lindo. Melhor do que o meu. ― então ela riu.
― Seu sobrenome não é tão ruim.
― Sério? Pereira, Mou. Pereira.
Mourana deu de ombros. Evelyn voltou a olhar as roupinhas enquanto divagava sobre possibilidades futuras.
Depois de comprarem algumas coisas, elas foram comprar uma casquinha de sorvete e, então, voltaram para casa, o humor de ambas mais leve. Elas eram completamente diferentes, em aparência, e gostos, e comportamentos, e, de certa forma, isso completava ambas de uma maneira que elas nunca poderiam entender completamente.
Mourana era a família de Evelyn. Evelyn era o porto-seguro de Mourana. E, embora elas soubessem o peso que possuíam na vida uma da outra, não havia pressão. Elas estavam confortáveis dessa maneira, e estarem juntas era apenas natural.
Elas eram sortudas. E sua amizade nunca acabaria.
6 de setembro de 2012, quinta-feira
A tarde estava quente. O céu nublado tornava todo o ambiente úmido e pegajoso, piorando ainda mais os humores.
Em meio à cidade turbulenta e murmurante, um grupo se destacava às gargalhadas. Eles passavam pelos transeuntes, batendo-se contra eles e empurrando pessoas à frente. Um dos integrantes do grupo agarrou um homem que passava pelo pescoço, e o arrastou para acompanhar o grupo. Mais pessoas foram arrastadas e, em meio às risadas, seus gritos ficaram quase inaudíveis.
Um quarteirão depois e as pessoas arrastadas foram empurradas para uma rua vazia. Assustadas, as pessoas atiradas ao chão tentaram levantar para fugir, mas suas pernas foram amarradas com algum tipo de corda que se movia sozinha. O grupo riu ainda mais alto, apreciando a visão de suas presas.
As pessoas assustadas encararam o grupo de pessoas. Uma mulher alta tomou a frente do grupo, sua aparência aterrorizando ainda mais as pessoas. Seu rosto de cera estava derretendo, parafina pingando no asfalto, misturado com seu sangue avermelhado e brilhante. Seu sorriso aberto mostrava dentes prateados e pontiagudos. Praticamente não havia expressão em seu rosto, seus olhos impossíveis de serem vistos por baixo do derretimento.
Gritos correram pelo quarteirão, mas ninguém podia escutá-los.
A mulher-de-cera tirou de seu bolso uma faca dentada enquanto dava lentos passos em direção às pessoas no chão, sorriso imóvel, caminhar mecânico, suas articulações como que enferrujadas.
A mulher agarrou a ponta de uma das cordas que segurava um homem de meia-idade, levantando as pernas do homem no alto. Ela levantou a faca no alto, o homem implorando por socorro. Então, ela desceu o braço. Os dentes da faca afundaram na perna, fazendo-o berrar ainda mais alto. O grupo atrás dela rindo loucamente.
Quando ela estava pronta para recuar a faca e cravar novamente, de repente, seu braço recebeu um golpe e cresceu uma sensação de deslocamento. Sua mão ainda estava segurando a faca, mas ela não estava. Seu braço havia sido cortado ao meio.
O grupo parou de rir. Todos começaram a olhar em volta, procurando pelo que quer que tenha sido. Quatro metros acima deles, no telhado de um prédio, três seres olhavam para baixo com desdém.
― Foi tarde. ― o homem mais velho disse, sua sobrancelha levantada.
O mais novo, portando a besta, deu de ombros, mesmo que ele se sentisse um pouco decepcionado consigo mesmo.
― Pelo menos alguém não morreu. ― então ele pulou diretamente, pousando na rua abaixo, com leveza.
O homem mais velho bufou, a mulher ao seu lado dando uma risadinha e logo em seguida pulando atrás do outro.
Lá embaixo, o grupo de quase dez pessoas era atacado com violência. O homem mais novo, com uma arma de fogo na mão, atirando indiscriminadamente; o homem mais velho desferindo socos e cotoveladas; a mulher cortando pedaços com uma lâmina estreita e longa. Aos poucos o grupo Doce, encurralado, se resumia a um montante de pedaços, sangue e cabelo.
Os Bons Mestiços moviam-se rapidamente, acertando qualquer um do grupo que tivesse a pretensão de fugir. Mas eles não pretendiam. Enquanto os corpos de seus amigos e os seus próprios eram mutilados, não havia defesa, eles apenas ficavam ali, parados, com sorrisos doentios em seus rostos. Eventualmente, a fúria dos três caçadores fez com que suas mortes fossem mais brutais e sofridas.
Não havia corte de misericórdia.
Quando mais ninguém restava em pé, os três pararam, nem um pouco ofegantes, assistindo o sangue jorrar e seus corpos darem os últimos espasmos de vida.
Atrás deles, as pessoas jogadas no chão assistiam a tudo com incredulidade e pavor, imóveis. Algumas haviam desmaiado logo ao início da luta, algumas haviam vomitado. Eles haviam presenciado a cena mais horrível de todas as suas vidas.
Quando os três vestidos em preto viraram para olhar em sua direção, eles não puderam deixar de tremer e temer por suas vidas. Mas tudo o que os outros fizeram foi, lado a lado, saltarem para os céus de onde haviam vindo.
Demorou apenas alguns segundos antes de os humanos desamarrem a si mesmos e correrem para longe da grande sopa de carne e sangue no meio da rua.
Nos telhados, os três Bons Mestiços corriam em direção à CVO.
PÁ!
A palma larga do chefe da divisão de crimes estrangeiros de nível máximo desceu contra o tampo da mesa de metal do seu escritório na Central Ordênica. Os três subordinados que haviam acabado de voltar de uma caça tremeram com o susto da ação bruta e repentina.
― NO MEIO. DE UMA. PRAÇA. PÚBLICA! ― Sombra gritou entredentes, saliva espirrando para cima da mesa, tamanha sua raiva. ― Eles tão pensando que aqui é a porra do parque de diversões deles? É isso?!
Os três permaneceram de cabeça abaixada, não ousando dizer qualquer coisa.
― Eu vou esperar três dias. Se aquela boneca do caralho não mandar nenhuma resposta ou não fizer nada pra parar com essa porra, eu quero guarda montada na frente de todos os portais dessa cidade. Quem passar, morre.
Os três subordinados se entreolharam. Matar estrangeiros dimensionais não era tão simples. Mesmo que o povo Doce não possuísse um contrato que os protegesse, os outros reinos poderiam levar como uma ofensa ou até advertência sobre viagens à Terra. O que certamente afetaria o convívio e a longevidade dos contratos de paz.
A mulher entre eles, Opala, praguejou baixinho antes de reunir coragem e falar:
― Senhor, os outros reinos não acharão que estão sendo intimidados?
Sombra a olhou de lado.
― Tu pensa que eu sou idiota?! ― ele perguntou. Opala balançou com a cabeça, chocada com a pergunta. ― Eu já mandei uma carta pra cada um dos representantes oficiais. Estão todos avisados e sabem da ameaça. ― então ele bufou. ― Eu devo parecer muito imbecil pra ter que ouvir uma porcaria dessas.
Opala não disse mais nada, levando em consideração também que Sombra estava mais falando consigo mesmo do que com ela. Nunca mais questionar o chefe, ela fez um lembrete mental.
Naquela noite, Sombra ainda tinha que escoltar Mourana. E, embora ele estivesse mais do que irritado com toda a situação envolvendo o povo Doce, ele ainda tentou acalmar a si mesmo. O que ele menos queria era afetar o humor da mulher.
Esperando em frente ao prédio, como sempre, levantou o olhar para ver uma mulher o olhando pela janela, do que ele sabia ser o apartamento de Mourana, embora não fosse ela. Ele desviou o olhar rapidamente quando o portão de ferro abriu e uma mulher baixa vestindo uma jaqueta jeans, que ele conhecia bem, saiu. Seus olhos não evitaram de se arregalar.
Claro, não havia sido uma mudança tão grande, mas de alguma forma parecia como se o céu tivesse aberto.
As mechas, agora vermelho acobreadas, da mulher, de alguma forma, a fizeram parecer como uma pessoa completamente diferente. Seu rosto parecia mais destacado, assim como seus olhos redondos e fofos.
Talvez, pela primeira vez, Sombra pensou que a mulher pudesse ser bonita.
― Olá. ― Mourana gesticulou para ele, sua mão pequena a fazendo parecer mais enérgica do que já esteve antes.
Na verdade, ultimamente Sombra percebeu que ela tinha realmente se tornado mais animada. Gesticular em sua própria linguagem não parecia mais como um grande esforço para ela.
Era bom. Era realmente bom.
― Minha deusa, o que aconteceu aqui?! ― ele exclamou com surpresa.
Mourana lhe deu um sorriso largo, seus olhos sumindo por baixo das bochechas. Sombra não conseguiu evitar de pôr suas duas mãos nela e tocar todo aquele cabelo novo e milagroso.
Mourana bateu em sua mão para que ele parasse de tocar e Sombra apenas riu.
― Você gostou? ― Mourana gesticulou.
Sombra levantou os dois polegares para ela.
― Tão linda quanto uma sereia.
O sorriso de Mourana se recusou a sair de seu rosto. Receber um elogio era ótimo, mas era mais porque ela mesma estava se sentindo linda.
Como de costume, os dois seguiram pelo caminho conversando e provocando um ao outro.
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