Capítulo 17
24 de outubro de 2012, quarta-feira
As malas estavam prontas e era hora de ir.
Mourana mal podia esconder seu nervosismo, mas ela sabia que as coisas iriam se resolver logo. Sombra estava colocando as bagagens no porta-malas do carro ― que Mourana nunca vira ― enquanto Asafe e Vermelha estavam de pé próximos a ela.
― Eu aproveitarei esta oportunidade para resolver algumas questões em Vila Marques. ― disse Asafe quando Vermelha o questionou.
A mulher fez um som de "hm" para ele e voltou os olhos para o Bom Mestiço que ajeitava as coisas. Embora ela não se importasse, seria bom ter alguém com quem pudesse conversar durante a viagem, já que os outros dois presentes não eram tão próximos a ela.
Quando os quatro tomaram seus lugares no carro, partindo, Mourana não conseguiu evitar de tomar um fôlego.
Já fazia tempo, um total de quatro anos, desde que ela deixara o estado. Ela podia lembrar da primeira vez em que estivera lá com o seu pai. Era para ser temporário, era para ser apenas um passeio rápido com a finalidade de encontrar um apartamento pequeno onde Mourana pudesse viver durante seu período universitário. Mas depois da morte de André, Mourana se sentiu incapaz de deixar a cidade.
Seu pai tinha morrido ali, na sua frente, por causa dela... Ela apenas sentia que tinha a obrigação de aguentar aquele lugar, como uma punição pessoal.
Então ela esteve ali. Ela abandonou a universidade, abandonou sua casa em Belém, abandonou seus amigos e se fechou para todos. Ninguém sabia seu paradeiro, ninguém sabia que ela havia perdido a voz e toda sua vida por causa de um acidente infeliz.
Ela preferia daquele jeito, então a única lembrança que teriam dela seria a velha Mourana ― jovem, vivaz, com ambições.
O carro seguiu pelo norte, atravessando toda a cidade. O trajeto não foi tão demorado, e logo eles estavam passando por Orvalho ― um pequeno bairro afastado da cidade ― e então chegaram a Horizonte. Era fato que Vila Marques ficava no centro do estado e em teoria, poderia ser alcançado por todas as cidades ao redor. Mas haviam apenas duas estradas de entrada e saída para Vila Marques, e as duas levavam a Monte Leste. Assim, se alguém quisesse ir até lá, precisaria contornar pelas outras cidades.
Felizmente, não era um estado tão grande, então não demoraria dias até que chegassem lá. Eles haviam saído de Nevoeiro depois do meio-dia, e quando chegaram a Monte Leste já havia anoitecido.
O humor no carro era leve, Sombra dirigindo de maneira cuidadosa e regular, entretanto não havia muitas conversas. Mourana aproveitou para dormir na maior parte da viagem, não ouvindo qualquer coisa que pudesse ter sido dita. Otton e Vermelha faziam comentários esporádicos, mas nada que levasse a uma conversa profunda.
Quando Mourana despertou, a longa estrada escura se estendia sem fim à frente. Ela bocejou e se espreguiçou tanto quanto o banco a permitiu.
― Tamo' quase chegando, se quiser dormir mais um pouco tudo bem. ― murmurou Sombra ao seu lado.
Mourana olhou para ele com um leve balançar de cabeça antes de olhar para os dois no banco traseiro. Asafe a cumprimentou com um sorriso pequeno e gentil, não com o usual aceno de cabeça.
― É bom que a senhorita tenha dormido. Quando chegarem lá, será hora do almoço e terão que ir à Biblioteca pelo resto do dia. Ainda será cansativo, no entanto.
Mourana concordou com a cabeça, suspirando profundamente em sua sonolência. Sem querer conversar muito, ela observou a estrada cercada por árvores altas, o céu claro como única iluminação além dos faróis.
O carro cruzou a estrada asfaltada por mais vinte minutos até que as luzes da cidade invadissem suas vistas com um forte clarão. A primeira coisa que eles alcançaram foi um posto de gasolina, e para além, a estrada continuava com diversas ramificações diretamente para dentro da cidade com chão de pedras de paralelepípedo.
As ruas de Vila Marques possuíam apenas duas vias, todas elas por causa da baixa quantidade de carros. Algumas pessoas em Ministro D'Ávilla ― a antiga capital ― gostavam de chamar Vila Marques de "bairro superestimado". De fato, a cidade era ridicularmente pequena. A pé, você poderia facilmente cruzar a cidade em menos de três horas.
Eles seguiram em linha reta por algumas ruas, o ritmo do carro lento e chamando a atenção de pessoas que passavam caminhando. Quando Sombra parou o carro, Mourana não pôde deixar de mostrar uma expressão de surpresa. Eles haviam estacionado em frente a uma enorme praça.
Mourana virou para olhar os outros, que apenas riram e a chamaram para sair.
― A senhorita pode não saber, mas há três outras praças como esta em Vila Marques. ― explicou Asafe quando ela subiu a calçada alta da praça, olhando ao redor com curiosidade. ― São as praças: vermelha, amarela e azul. As pessoas comuns não sabem, mas cada uma possui um portal para uma dimensão.
― Por causa disso Vila Marques se tornou a capital. Um lugar grande mas sem poder como Ministro D'Ávilla não estava à altura. ― Sombra completou, sua voz com um não tão suave tom de deboche.
― A praça amarela leva até a Terra das Fadas? ― Mourana adivinhou.
― Como a senhorita pode ver.
A primeira coisa que Mourana viu quando subiu foi certamente as pedras amarelas que cobriam toda a extensão da praça. A praça era em formato circular, com uma pequena, mas densa, porção de floresta no centro e cercada por bancos e passarelas. Era uma lugar muito bonito para se encontrar e passar o tempo... apesar da quantidade de amarelo na visão. Mourana não conseguia ver o outro lado da praça, de tão grande que era, então a mulher supôs que o portal estivesse do outro lado.
― Foi uma coisa tola, mas esperta terem construído praças ao redor dos portais. ― Vermelha falou, sua voz suave soando entre os outros três. ― Tem uma lenda que fala sobre haver uma quarta praça dentro do Bosque.
Sombra bufou para ela.
― Que quarta praça? ― ele inquiriu com rudez. ― Só existem três tipos de portais neste mundo: que levam até o Reino Doce, até a Terra das Fadas e até Aquantis. O Cinzaral é impenetrável e todos sabem disso.
Vermelha encarou o homem, com seus olhos afiados e sorriso divertido. Ela estava por um triz de gargalhar para o homem, o que deixou Sombra ainda mais irritado.
― Mestiço, você é muito incrédulo para um ser místico. ― ela comentou, com falsa gentileza.
― Mesmo no misticismo há limites, raposa.
― Me defina os limites então. ― Vermelha retrucou, sua voz calma e risonha. Ela cruzou os braços e levantou as sobrancelhas grossas, esperando que ele falasse. ― Me diga: quais os limites? Eles vêm depois do cósmo? Depois do etéreo? Deve realmente haver um limite logo quando cruzamos barreiras genéticas, não é mesmo?
Sombra deu um passo na direção da mulher, fumaça subindo de sua cabeça. Seu ódio era palpável e ele parecia estar se contendo ao máximo. Mourana arregalou os olhos para a repentina mudança de humor. O que estava acontecendo?
Num ato de impulso, ela também deu um passo para a frente e colocou uma mão sobre o peito de Sombra.
Otton permaneceu observando calmamente a cena diante de si, com paciência.
― Não fale comigo como se fosse superior. ― Sombra rangeu entredentes.
Os olhos de Vermelha brilharam e ela se inclinou na direção de Sombra.
― Por que eu faria isso? Eu e você somos exatamente iguais. Claro, desconsiderando que você tem muito mais carga genética do que eu.
Um rugido soou e num piscar de olhos, um clarão apareceu diante de Mourana, fazendo-a dar passos para trás.
Sombra havia investido na direção de Vermelha, incapaz de se conter, entretanto a Guardiã não era facilmente atingível. No milésimo de segundo que levou para o punho de Sombra a alcançar, uma figura de pelo vermelho e orelhas pontudas pulou das pupilas de Vermelha e criou um escudo refletor ao seu redor. O soco de Sombra, cheio de força e velocidade, atingiu o escudo em cheio, agitando as partículas minúsculas de luz refletora, o que causou o clarão. A luz rebateu contra Sombra com tudo, ferindo seus olhos e transferindo sua própria força contra si.
Ele foi jogado a alguns metros de distância no ar.
Quando Mourana conseguiu abrir os olhos e viu o homem longe dali, sua boca abriu em choque. Ela não conseguia mesmo entender o que havia acontecido. Em contrapartida, Asafe continuava no exato mesmo lugar, seu olhar nunca entediado, mas nunca realmente interessado.
Mourana virou para ele com olhos arregalados e recebeu apenas um sorriso gentil. Ela arfou.
― Como eu disse: somos iguais. Não pense que possui vantagem contra mim. ― Vermelha disse, seus dentes à mostra em um sorriso brilhante, seus olhos em um tom amarelo que Mourana nunca havia visto.
Sombra levantou-se e espanou as roupas com raiva, arfando com raiva. Mourana pensou em lhe perguntar se ele estava bem, mas o Bom Mestiço voltou diretamente, passando por eles e indo abrir o porta-malas do carro.
Assim, o assunto foi esquecido pelos outros três, embora Mourana ainda estivesse se perguntando o que havia acontecido.
Sombra e Vermelha pegaram suas próprias malas e Asafe carregou as de Mourana. Embora fossem duas maletas de couro, apenas, o conteúdo era realmente pesado.
Ao contrário do que Mourana havia pensado anteriormente, eles não deram a volta para alcançar o outro lado da praça. Ao invés disso, eles caminharam diretamente na direção da pequena floresta no centro. De longe, embora não fosse possível ver o que havia no centro, ainda não era uma grande faixa verde. Deveria ser somente cerca de dez metros quadrados. Parecia espaço suficiente apenas para torna-la densa.
Sem questionar, ela os seguiu.
O céu acima estava escuro, estrelas brilhando com vigor e paixão. Embora houvesse transeuntes, nenhum se voltou para encarar os turistas estranhos, como se fossem invisíveis para eles. Vermelha parou diante do grupo, encarando as árvores à sua frente. Sem que ela dissesse qualquer coisa, as árvores começaram a se mover lentamente abrindo espaço, uma trilha estreita surgindo. Mourana olhou através do corpo da mulher com curiosidade.
Ela havia visto os Invisíveis ― criaturas terríveis ―, visto os poderes de Asafe em ação, assim como os seres do Povo Doce. Apesar daquilo, ver demonstrações mágicas ainda era surpreendente para ela. Era quase como se sentir dentro de filme de fantasia.
Os três adentraram pela trilha em fila indiana, caminhando calmamente. Mourana continuava olhando para as árvores ao redor, tentando ver algo através delas, mas era impossível.
― As árvores são uma ilusão. Não existe nada além desta trilha e o portal. ― Sombra explicou quando viu a mulher mais baixa à sua frente olhando para tudo com empolgação.
― Como assim não há nada? Quer dizer que são só mais árvores? ― Mourana gesticulou para ele, virando metade de seu corpo para trás.
― Não. Eu quero dizer nada. Absolutamente nada, apenas um pedaço de vazio.
Mourana acenou a cabeça em entendimento. Inteiramente, ela não entendia, mas não era um assunto avulso para ela. Em algum dos livros recentes que Asafe tinha lhe entregado, falava um pouco sobre a noção de coisas e nada. As coisas era tudo o que existia no mundo, visível ou não visível, e tudo o que era coisa podia respirar e possuía energia de vida. Todas as coisas provinham de outras coisas, e desde que todas as coisas vinham da natureza, todas as coisas possuíam alma. Mas não existia apenas um tipo de alma: havia a alma mágica, a alma pulsante, a alma ativa, a alma cósmica... E cada ser possuía sua própria alma.
Feiticeiros possuíam alma mágica pura; objetos e o Povo Doce possuíam alma pulsante; seres humanos, animais e sereias possuíam alma ativa; fadas, bons mestiços e guardiões possuíam alma cósmica. Nenhuma era realmente mais importante do que a outra, todas eram coisas vivas. O que os diferia de fato eram suas consciências e corpóreo.
Todas as coisas possuíam alma, e consciência, e corpóreo. Alguns com mais consciência do que os outros, outros com mais força corpórea do que uns. E tudo era sentido.
Se não havia coisa, então havia nada. Este nada era o que Mourana tinha mais dificuldade de entender. Para alguém que costumava ter o hábito forte da leitura, ela podia ser mais aberta a aprender do que outros, mas fatos universais eram algo que ela nunca tinha tentado digerir como verdade absoluta.
Apesar de parecer simples, este vazio não possuía nada de simples. Não havia vazio em todos os mundos, e no universo, o vazio não costumava interferir nas coisas.
Mourana voltou a virar para Sombra.
― Como pode haver um vazio aqui? Não é muito difícil de fazer uma porção de vazio? ― ela não se conteve a perguntar.
Sombra colocou sua mão livre no bolso e respondeu com precisão.
― Não é tão difícil. Mate a coisa e ela se tornará vazia, há muito mais porções de vazio no mundo do que parece. Quando uma pessoa morre, seu corpo se torna uma porção de vazio. Embora seu espírito ainda possua alma ativa, vai tudo com o espírito, e o corpo fica.
Mourana se sentiu complicada.
― Mas o corpo não é visível? Eu pensei que não se via nada no vazio.
― Você já viu um cadáver? É muito fácil descobrir se alguém está morto, você consegue sentir, mesmo sem tocar. Isso é porque não enxergamos a coisa, não enxergamos a vida naquilo. Se não enxergamos a vida, então...
"Então está vazio", Mourana completou em pensamento.
Ela voltou a olhar na direção das árvores, sentindo seus galhos nos pés e folhas batendo no topo de sua cabeça as vezes. Ela podia sentir a vida da árvore ali. Então como seria uma árvore vazia?
― Então atrás destas árvores têm árvores mortas? ― ela perguntou.
Sombra deu um sorriso leve, divertido com as perguntas por alguma razão. Ele respondeu com sinceridade:
― Não. Não há nada.
Mourana o encarou por cima do ombro com as sobrancelhas franzidas, profundamente confusa. Sombra riu alto, dois caninos pequenos aparecendo.
Eles continuaram caminhando por mais alguns minutos, o que deveria ser impossível já que o espaço da pequena floresta na praça não era tão grande. Era suposto eles já terem atravessado por completo.
"Deve ser uma ala aberta, assim como as salas da Biblioteca", Mourana pensou.
Mais um minuto e um espaço se abriu diante do grupo. Era uma área fechada, mas não tanto quanto o caminho que percorreram, de areia branca fina e bananeiras e mata ao redor de um circulo quase perfeito. O céu ainda era o céu noturno, mas não havia nenhuma estrela lá em cima. E no centro da vegetação, havia uma lagoa azul, de água incandescente, brilhando vividamente e iluminando o redor. A trilha levava até um pequeno deck de madeira por onde era possível ter acesso a água.
As bananeiras, a areia macia, o céu em breu, a água brilhante... parecia com uma imagem vista apenas em sonhos, e Mourana podia jurar que já havia visto aquela imagem em um dos seus.
Ela deu alguns passos para perto da água, observando o fundo se mover como se estivesse vivo. Ela se voltou para Asafe em surpresa.
― É um fervedouro?
O feiticeiro sorriu para sua pergunta.
― Sim e não. ― Vermelha a respondeu, parando de pé ao seu lado.
― Em fervedouros é impossível que alguém afunde. Em portais, no entanto, tu precisa afundar. ― Sombra completou.
― Estou surpreso que a senhorita conheça fervedouros. ― Asafe comentou.
― Meu pai e eu gostávamos de viajar pra conhecer lugares assim.
Depois disso ninguém mais falou. Asafe apenas aceitou sua resposta, Sombra não tinha nada para dizer, e Vermelha ficou um pouco desconfortável. Ao contrário dos Bons Mestiços, os Guardiões costumavam viver por muito mais tempo, e suas vidas inteiras eram passadas nas aldeias, portanto, morte era de certa forma um assunto delicado para eles. Em todos os seus trinta anos, Vermelha havia presenciado apenas uma morte, e sequer era de um conhecido próximo.
Antes de entrar na água, eles tinham que se trocar. Otton montou alguns provadores temporários com nuvens de fumaça preta e esperou que todos estivessem prontos.
Vermelha não demorou muito, tudo o que ela adicionara fora uma longa saia de cetim vermelho por cima de seus coturnos de couro, e uma blusa ombro-a-ombro de mangas drapeadas sob o espartilho. Otton a elogiou com sinceridade quando ela se juntou a ele para que esperassem pelos outros.
Sombra veio em seguida, usando calças de alfaiataria cinzas, sapatos sociais, uma camisa de seda de botões, e por cima um colete fechado e bordado. Ele parecia pelo menos cinco anos mais novo vestindo roupas tão frescas e seu corpo parecia ainda maior apertado pelas roupas.
Mourana levou pelo menos dez minutos para conseguir abotoar seu vestido, precisando pedir pela ajuda de Vermelha. Por fim, ela saiu da nuvem de poder enquanto terminava de prender a parte da frente de seu cabelo para trás com um acessório que Asafe havia comprado para ela. Os três a observaram com um espanto suave.
Seu vestido não era tão complicado: todo feito em seda laranja, a saia possuía um corte uniforme que dava ainda mais leveza. Por cima da saia, um cinto com inúmeras correntinhas pendiam, brilhando como ouro. A parte de cima possuía mangas curtas e havia um decote reto que fazia o colo parecer tenro e cheio. O bordado do corpete em dourado a trazia ainda mais a impressão de algo caro e intocado. Em seus pés, uma sandália leve e de dedo, também dourada.
Ela parou na frente dos três e interiormente esperou por algum elogio.
― Quando eu a vi pela primeira vez, pensei que você parecia muito com uma sereia. ― Vermelha comentou, não como se estivesse falando diretamente para Mourana. ― Você sabe, todas as sereias possuem feições similares aos povos asiáticos e indígenas. Mas olhando melhor agora, você definitivamente parece uma fadinha.
Sombra riu pela primeira vez de algo que a Guardiã havia dito, e isto unicamente porque era o exato pensamento que ele possuía.
Mourana sentiu uma leve vontade de rir, mas não o fez, mantendo uma expressão indignada. Ela sabia que fadas e fadinhas era diferentes não apenas no tamanho como em suas funções. Fadas possuíam um tamanho médio similar ao dos seres humanos, enquanto fadinhas mediam no máximo o comprimento de um palmo.
Esse é o preço por estar na companhia de pessoas tão altas?, ela se perguntou com uma risadinha interna.
― A passagem não é algo complicado. Neste momento, eles já devem estar esperando do outro lado, então tudo o que precisamos fazer é entrar na água. ― Vermelha falou, com sua maleta em mãos.
Otton cruzou suas mãos nas costas, concordando com ela em um aceno.
― Isso é certo.
Sombra se aproximou de Mourana e pegou uma de suas malas, a deixando com apenas uma, e lhe lançou um olhar de assegurança e um sorriso leve. Eles começaram a caminhar na direção do fervedouro.
Embora fosse noite, a areia estava morna e assim estava a madeira do deck. Mourana pensou em parar para tirar as sandália, mas Sombra já havia abaixado as malas, pegando a que estava em sua mão e sentando na ponta do deck, seus sapatos de couro molhando.
― Tu sabe nadar? ― Sombra questionou.
Mourana confirmou com a cabeça para ele, que ficou levemente aliviado. Ele acenou para que ela se abaixasse também e mostrou uma escadinha que ficava mais ao canto do deck.
― Tu pode descer por ali.
Mourana acenou com a cabeça novamente e levou sua mala para descer com ela. Sombra pegou a mala dele e a outra de Mourana e jogou diretamente para o meio da lagoa. Mourana olhou para aquilo com uma expressão de choque. Vermelha atrás dela levantou uma sobrancelha na direção do homem.
― Algumas pessoas não sabem o significado de paciência. ― ela divagou e então se voltou para Mourana enquanto o homem se jogava na água. ― Você deveria ter mais cuidado, não há nenhuma confiança nele.
Mourana sorriu para ela, mas não levou suas palavras ao coração. Vermelha também não continuou. As duas desceram pela escada e nadaram em seu tempo até o meio da lagoa onde Sombra as esperava, as roupas bonitas dos três completamente encharcadas.
― No dois, a gente mergulha. Vamo' direto pra baixo o máximo que conseguirmos, até chegar do outro lado. ― Sombra instruiu.
Os olhos do homem estavam diretamente em Mourana. Eles tomaram fôlego e quando a contagem chegou ao número dois, eles mergulharam. Suas roupas dificultaram um pouco o nado, mas de alguma forma, a terra que flutuava no fundo os sugava mais e mais.
De fora, observando-os mergulhar, Asafe soltou um suspiro. Embora ele já estivesse acostumado com a ideia de não poder ir até a Terra das Fadas, ele não podia deixar de lamentar por não poder ver seu velho amigo. Ele ficou de pé sobre o deck encarando a água límpida por muitos minutos antes de finalmente virar as costas e voltar.
Na lagoa, Mourana mau podia enxergar alguma coisa, ainda assim, seguiu para onde ela achava que seria o fundo. Os três desceram, a areia os rodeando e água se tornando mais e mais densa, difícil de ultrapassar.
Em uma braçada, a areia ao redor deles se dissipou e a água se tornou clara e límpida. Os três se olharam brevemente antes de retornarem a nadar para baixo. Apenas um pouco mais e Mourana sentiu sua mão tocar o ar. Ela emergiu. Sua boca abriu para puxar ar e quando ela enfim abriu os olhos, percebeu que estava novamente em uma outra lagoa. Sua cabeça girou com a percepção confusa de alcançar o topo através de baixo. Ela quase voltou a afundar novamente, mas Vermelha que estava mais perto a segurou.
Mourana ainda estava um pouco tonta quando a olhou em agradecimento.
Um leve tilintar chamou suas atenções.
Mourana viu a borda de onde eles estavam ― então certamente não era uma lagoa, e em vez disso, uma piscina ―. Para além da borda, um local amplo e iluminado se estendia, de paredes altas e portal imenso. Não havia nada além da piscina ali, que ficava rente à parede emoldurada por estátuas vívidas e banhadas a ouro.
O tilintar tinha vindo de um homem trajando roupas ostensivas e postura reta. Ele os observou sem emoções em seus olhos e com paciência.
Os três atravessaram pela água até achar os degraus e enfim pisar para o ar afora. Mourana olhou para si mesma com o cenho franzido ― suas roupas molhadas estavam completamente secas, assim como seu cabelo e pele. Era como se ela nunca tivesse se molhado, em primeiro lugar.
O som de passos ecoou pelo salão e os três viraram para ver. Duas figuras altas, bem vestidas e luminosas passaram pelo portal em direção a eles. Seus rostos gentis, porém imponentes, encarando diretamente a escolhida. O homem fada era ainda mais deslumbrante pessoalmente, seu caminhar leve como o toque de penas e suas asas tão brilhantes quanto os raios de sol que entravam no salão. A mulher fada ao seu lado era ainda mais bonita, seu caminhar firme como se não houvesse criatura superior a ela, suas asas refletindo um lindo arco-íris em suas costas. Lado a lado, eles eram os seres mais brilhantes entre as dimensões.
Ambos pararam na frente dos convidados, olhos brilhantes e cheios de curiosidade. Não havia nada de hostil sobre eles, mas ainda era difícil estar confortável em suas presenças.
O homem fada encontrou os olhos de Mourana e com um sorriso tão bonito quanto mil invernos, os saudou:
― Sejam bem-vindos à Terra das Fadas.
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