Lembranças
Mães são ótimas, e parece que somos o mundo para elas, não entendo como a mente delas funcionam, mas sei que daria a vida por nós.
Mesmo quando faço raiva nela, ela continua me amando, até tendo retribuir, mas não se compara, tento demonstrar em pequenas coisas, igual, quando a mesma me pediu para ir a padaria comprar pão e eu fui.
Moro atualmente em Minas Gerais, em um bairro chamado Goiânia. Nossa casa é bem simples, com quarto, banheiro e cozinha, nossos vizinhos, nem sei se posso chama-los assim, não são muito amigáveis, quase não temos contato, a não ser para pagar o aluguel, ou quando eles nos pedem ajuda, e nisso minha mãe é ótima, já que tem um enorme coração. Meu pai nos abandonou quando descobriu a gravidez, então não sinto tanto por ele ter ido, ou eu sinta, mas não demonstre para não ferir ainda mãe minha mamis. Eles viveram um grande amor um dia, já que ela me contou a historia deles uma vez, porém ele não era o príncipe encantado e sim um sapo verde e gosmento.
No momento somos só eu e ela, e nos damos bem, super bem, as vezes esqueço que ela é minha mãe, conto até minhas travessuras, mas não me importo eu amo muito, e confio nela.
Passamos dificuldades já que ela trabalha de faxineira, mas o salario ainda dá para nos manter, pagar aluguel e alimentar, não temos uma vida de luxos, e pra falar a verdade nem me importo, somos felizes assim, vivendo na simplicidade, mas ultimamente sinto que alguma coisa vai acontecer, de positivo e negativo.
De volta para casa, depois de comprar os dois pãezinhos, somente isso, já que o dinheiro era pouco. Tem dias que nem um pão da pra comprar, já passamos fome, recapitulando minha mãe já passou para que eu comesse.
Não trabalho ainda por mais que esteja com 17 anos, minha mãe quer que eu me forme primeiro, ainda bem que estou no ultimo ano, mas já houve varias brigas, pois eu quero ajudar , mas a mesma não deixa.
Entre meus pensamentos, e passando pelo mesmo lugar de sempre, escuto um leve ruído próximo a um matagal, sabe aqueles lugares onde as pessoas jogam seus lixos, e ali mesmo. O cheiro é terrível, e no momento eu fico com medo e curiosa, pois não tem ninguém na rua, mesmo a luz do fim de tarde, a rua nunca esteve tão deserta.
Decido ir embora, porém o ruído aumenta, fazendo meus pés irem atrás do tal barulho.
Começo a procurar, mesmo com nojo já que tem papéis higiênicos jogados e eles não estão nas suas melhores formas, misturados com resto de comida, tem pedaços de telhas em baixo de vários outros utensílios domésticos, como panelas velhas, copos quebrados, potes rachados e até achei um rato morto, por um momento eu penso em desisti, começo a me atentar mais para os cheiros, ânsia de vomito, minha boca está até salivando, porém o barulho me faz olhar para debaixo do papelão, e o que eu vejo me surpreende e me deixa agoniada, meus olhos se enchem de lagrimas e meu coração aperta, minha reação creio que não é diferente de outras e o pensamento que me passa também não.
Como alguém tem coragem de jogar um bebe fora!
Tenho até medo de pega-lo e o mesmo estar machucado, porém o ser materno que há em toda mulher grita em mim e eu o coloco nos meus braços, esqueci totalmente dos cheiros, ou a visão horrível do local, só tenho olhos para esse lindo menininho.
Suas roupinhas estão sujas, o rosto está com alguns arranhões, mas nada tão grotesco. Há quanto tempo ele está aqui? Ele para de chorar e me observa, com seus pequenos olhos, seu cabelo é pretinho e ainda não tem uma quantidade boa, porém ele é lindo, deve ter dias ainda, e o engraçado que parece me ver, mesmo que eu saiba que isso não é possível, talvez veja somente um vulto.
Ele pega meu dedo com sua mão gordinha, e isso me faz derreter por dentro, amor à primeira vista, não pensei que isso aconteceria com um ser tão pequeno.
Decido levar pra casa, minha mãe vai saber o que fazer, por que no momento estou no mundo da lua.
Chego a casa, já abrindo o portão com cuidado para não machuca-lo ou deixar o pão cair.
Começo a dizer em voz alta, mas não ao ponto de assusta-lo.
- Mãe, eu fui comprar pão, mas olha o que eu ac... - não consegui terminar meu soluço foi mais alto. Minha mãe veio correndo com pano de prato na mão, seu cabelo preto estava preso em um coque mau feito, as roupas maltratadas pelo tempo não tampava a beleza dela, ela sempre foi linda, traços delicados fazendo um perfeito retrato dela, seus olhos estavam como os meus transbordando tristeza e lagrimas.
Ela o pegou com carinho, me enchendo de mais amor por ela, sempre tão deliciada e leve. Levou-o para o quarto eu a segui. Em silencio retirou a roupa dele e deu um banho, em nenhum momento ouvi o choro mais, ele estava calmo, era curioso, parecia querer saber o que estava havendo ao redor até deu um sorriso pra nós, isso acalmou meu coração descompassado.
- O que vamos fazer mãe? - perguntei enquanto ele dormia no meu colo, depois de darmos leite ele, ainda bem que minha mãe tinha um dinheiro guardado para comprarmos.
- Vamos ligar pra policia, e ai veremos o que ocorre... - ela me olhou e continuou - Eu sei que se apegou a ele querida. - Ela afagou meu rosto e limpou minhas lagrimas. - Mas não temos condição de nos manter, imagina o bebe, e, além disso, ele vai encontrar uma família que o ame como eu amo você. - ela suspirou e continuou - Vamos fazer de tudo para que ele seja feliz, ok?
- Ok, mãe. - eu olhei temerosa, mas continuei. - Tem que ligar agora? - minha voz havia esperança.
- Se não ligarmos pode acontecer algo ruim com a gente ou com ele, não sabemos como ele está de saúde, eu te entendo meu amor, mas vamos fazer o certo.
- Ok. - sabia que minha mãe tinha razão, mas meu coração não queria dar trela para isso.
Passou uma hora e a policia apareceu na minha porta. Meu nervosismo começou a alterar, iria me separar dele, por mais que não fosse meu, mas já criamos um vinculo.
Minha mãe estava sentada ao meu lado, e o bebe no meu colo, não queria me distanciar jamais dele.
- Qual seu nome? - perguntou a policial Carter.
- Manuela.
- Idade?
- 17 anos.
- Como você o encontrou? - ela era bem direta, e parecia ser uma pessoa forte e decidida, ao ponto de dar medo nos outros, porém gostei dela, seu cabelo estava preso em um perfeito coque. Negra com um sorriso sincero me passava segurança, isso era o que mais me importava no momento.
Contei tudo, e as lagrimas voltaram, mesmo eu tentando conte-las.
- Sra. ... - Carter olhou para minha mãe.
- Julia.
- Obrigada por ter nos ligado, hoje em dia está difícil contar com pessoas sinceras que nos liguem para ajudar nessas situações, você deve ter orgulho de sua filha! - ele disse olhando para nos duas.
- Sim eu tenho. - Minha mãe respondeu com um sorriso enquanto afagava minhas costas.
- Agora eu terei que leva-lo. - ela se levantou e o retirou com cuidado do meu colo.
Com a coragem que ainda me restava eu disse:
- Promete que ele vai para uma família boa? Que o ame? - eu disse com voz baixa.
- Não tem...
- Por favor, promete isso Sra. Carter...
Depois de um tempo em silencio ela respondeu:
- Eu prometo. - Ela me olhou e eu vi pena nos olhos dela.
Depois disso ela se retirou com o meu bebe. Joguei-me nos braços de minha mãe, e chorei por um bom tempo até adormecer.
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