Capítulo 2
LUKE
Caos. Essa pode ser a descrição exata do que a vida se tornou no momento em que Scarlett deixou o Bosque dos Álamos. Ainda não se sabe bem o que aconteceu durante sua ausência, mas em momento algum acreditei que ela deixaria tudo para trás sem um bom motivo.
Sentado em uma das muitas cadeiras na tenda de reunião do Conselho de Canys, observo enquanto cada um deles tenta falar sem prestar a gentileza de ouvir. Magnus permanece incaracteristicamente quieto, apesar de tentar atuar como moderador para a discussão a sua frente; provavelmente sua mente está em sua filha.
Estendendo a mão, acaricio a barriga saliente da minha bela esposa, sendo recompensado com um pequeno sorriso. Mesmo com o medo do futuro correndo em minhas veias, decidi ignorar o enorme problema iminente dessa gestação e aproveitar o tempo que tenho com Cecília, rogando à lua que nos abençoe quando necessidade chegar. Se a situação de Scarlett me ensinou algo, foi que podemos perder quem amamos com muito facilidade.
-Você conseguiu falar com ela? -Cecília murmura, voltando seus olhos para a comoção a nossa frente.
-Não. Nada consegue penetrar na barreira que ela colocou ao redor da sala. -Sussurro de volta.
Cecília comprime seus lábios e aperta uma das minhas mãos. Apesar de sua fachada de força, posso sentir sua dor por causa do seu irmão e pai; está na forma como seus olhos se enevoam e em como sua boca se volta para baixo. Sem contar com seu choro silencioso durante à noite.
Independente dos meus esforços, não consigo encontrar uma forma de acabar com seu sofrimento e essa é a pior tortura pela qual já passei. Estar vulnerável não é natural a um lupino; como um predador natural, meu lobo busca todas as maneiras de nos deixar no controle novamente, entretanto, não há conserto para os sentimentos.
Assim que Scarlett retornou ao acampamento lupino, o hospital foi afetado por uma onda de poder inigualável. Depois disso, um casulo espesso de hera venenosa e terra impenetrável foi colocado ao redor de um dos quartos e somente a Dárius foi permitida a passagem. Aqueles que presenciaram sua volta criaram incontáveis rumores que correm pela vila.
-Quase dois meses, Luke. Não podemos mais deixá-la continuar com isso. Precisamos dela aqui lutando conosco; eles dariam atenção ao que ela tem a dizer. -Cecília repete a sentença que já escutei diversas vezes.
E ela está correta. Com a morte do rei de Pélagus, o reino está lutando para manter a ordem e sobreviver aos constantes ataques do Reino Sombrio. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu no castelo, mas a participação de Lírida foi um dos fatos que chegou ao conhecimento comum. Há os que alegam que a fada está sob influência de Attila, o líder dos feiticeiros obscuros, outros dizem que ela é a própria rainha das trevas. A reclusão de Scarlett está impulsionando cada vez mais a anarquia generalizada.
-O que você pretende fazer sobre isso, princesa? Socar aquela parede até que ela saia do seu esconderijo? -Brinco para tentar aliviar o clima.
-Se eu realmente socasse algo, Lucas Velocitas, você seria o primeiro da lista. -Ela ataca.
Nós nos encaramos com seriedade e, logo depois, rimos juntos baixinho. Novamente, dou graças ao universo por ter colocado essa mulher em minha vida.
-Não estou duvidando da sua força, amor. No entanto, até as fadas daqui tentaram penetrar no poder de Scarlett e não conseguiram. -Exponho com carinho.
Cecília suspira, acomodando-se em meu ombro e eu inalo sua doce essência, despertando meu lobo. Voltando minha atenção à reunião, escuto enquanto várias teorias da conspiração são concebidas, inclusive a mais descabida de que Scarlett pode ser a soberana do Reino Sombrio infiltrada entre nós.
Sem o consentimento do Conselho de Canys, Magnus tem envido forças lupinas e espiões para averiguar a situação além do Bosque dos Álamos e resgatar todas as pessoas possíveis independentemente da sua origem. No entanto, isso não se mostrou o suficiente porque relatos de desaparecimentos continuam aparecendo.
-Isso é uma perda de tempo. -Uma voz irônica se levanta sobre as demais.
Todos fitam um homem parado à margem da multidão; uma cicatriz profunda marcando sua bochecha esquerda. Ao perceber que possui nossa atenção, ele caminha até o centro da tenda e encara o conselho. Não o reconheço, por isso, começo a procurar por outros estranhos para identificar uma possível invasão silenciosa em nosso território.
-E quem seria você? -Magnus questiona.
-Ele é Novic Aramus, representante dos mestiços que estão lutando enquanto ficamos aqui parados. Eu o trouxe até aqui porque ele possui informações que podemos usar para agir ao invés de falar. -Kayke entra na conversa, aparecendo ao lado do desconhecido.
-Tenha mais respeito por esse Conselho, Kayke. -O ancião Alicator avisa.
-Não querendo ser intrometido, mas já sendo, acredito que Kayke tem razão. A própria existência desse conselho é somente um mito para pessoas como eu. Vocês se mantiveram atrás dessas árvores escondidos e desfrutando de uma falsa paz, enquanto meu povo foi massacrado e escravizado por um dos seus. -Novic Aramus contrapõe apontando para sacerdotisa Íris, a líder das fadas, perdendo todo o teor lúdico com o qual chegou.
-Cuidado com as palavras, garoto. -Magnus adverte. -Fomos expulsos do convívio no reino de Pélagus há mais tempo do que você está vivo. Então, considere conhecer a história antes de acusar alguém. -Ele adiciona.
Parecendo desconhecer do perigo no qual se encontra, Aramus começa a rir. Sentindo a tensão coletiva, alguns lobos começaram a rosnar e eu mesmo tenho dificuldade de controlar o meu pela injúria feita ao meu alfa. Os lupinos começam a rodear Magnus e me levanto para ficar diante Cecília.
Contudo, antes que qualquer um possa tomar qualquer atitude, minha princesa se levanta e faz raízes brotarem da terra afastando os lupinos do mestiço. Por alguns segundos, um silêncio coletivo abismado se espalha e todos os olhos se voltam para o mesmo foco, Cecília.
-Estou farta dessa disputa de macho alfa. Estamos em guerra contra o mesmo inimigo e enquanto vocês disputam para descobrir quem mija mais longe ou possui o ego mais inflado, pessoas estão morrendo. Não há mais lupinos, bruxas, elementais ou mestiços. Estamos todos sofrendo sob a força dessa magia deturpada. Sendo assim, vou buscar a única pessoa que fará com que vocês ajam de acordo com os títulos que possuem. -Ela declara com raiva.
Sua pele brilha com a força da sua magia alimentada por sua ira, tornando-a ainda mais linda. Diante de tanta beleza, fico sem palavras e somente a observo caminhar como se estivesse marchando para dominar o mundo.
-Para onde você está indo, mulher? -Chamo, correndo atrás dela quando as vozes se elevam novamente.
-Não tente me impedir, Lucas Velocitas. Estou cansada de homens que acham que possuem o poder. Vou arrancar a Scarlett daquele lugar de uma vez por todas. -Ela determina com um fogo em seus olhos azuis que eu não via desde que tudo ficou uma imensa bagunça.
-Eu não sonharia em impedi-la, amor. Sou apenas o serviço de contingência se algo não sair como o planejado. -Respondo inocentemente.
Ela bufa em divertimento e seus passos se tornam mais decididos. Ao chegarmos ao hospital, é impossível não sentir o peso da magia da Scarlett como um manto sobre o local. Nunca havia sentido um poder tão forte em toda a minha existência.
A energia mágica pressiona em nossa pele quanto mais nos aproximamos de sua localização e meu lobo fica tenso com a segurança da sua companheira. Ao chegarmos à parede de hera, Cecília coloca suas mãos sobre os ramos e eu me lanço para afastá-la de lá.
-Cecília, você não p... -Comando.
-Dê-me uma chance, Luke. Você não deixou que eu me aproximasse demais antes, mas não é mais somente sobre nós. São milhares de pessoas sofrendo porque não encontramos uma forma de chegar até a Scarlett e compreender tudo o que aconteceu. Elementais estão divididos porque uma parte acredita que lupinos assassinaram meu pai. Todos nós estamos em riscos, então alguém precisa tomar uma atitude ao invés de ficar sentado discutindo o clima como esse patético conselho está fazendo. Precisamos de todos que podem nos ajudar e a Scarlett é exatamente isso. -Cecília me interrompe.
Antes que eu possa elaborar uma resposta, sou atingido por uma imensa onda de magia que me impulsiona para trás. Uma brisa passa por nós, carregando um brilho verde claro que se espalha pelo ar e se comprime contra a estrutura criada por Scarlett, gerando fenestras em sua composição que se expandem até possibilitar a entrada de uma pessoa.
Cecília alterna seu olhar incrédulo entre suas palmas e o resultado a sua frente enquanto sua testa fica molhada de suor pelo seu esforço. Ela balança levemente, parecendo tonta e eu me aproximo imediatamente.
-Acho que magia do nosso bebê destravou o meu poder, Luke. -Cecília sussurra com admiração.
Uma única lágrima escorre por sua bochecha enquanto suas mãos contornam seu ventre inchado. Pegando seu rosto em minhas mãos, beijo-a com força, expondo todo o orgulho que sinto por ela.
-Você é muito mais poderosa do que acredita ser, minha princesa. Agora, temos que tirar uma certa cabeça-dura daqui e isso não será fácil. -Afirmo com a voz embargada.
-Certo. Vamos lá!
Oiiiiii! Olha quem voltou! Mais um capítulo para vocês. A revisão do texto está sendo feita mais rápido para que eu possa postar, então, já deixo aqui meu pedido de desculpas caso haja erros de digitação ou no nosso velho português.
Estão gostando? Espero que sim!
Não esquece de seguir o IG @escritorajenniferkepler! Tenha uma excelente semana. Um beijão!
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