Capítulo 10 - Pernas
https://youtu.be/xGPeNN9S0Fg
-Eu aceito! - disse Maré determinada.
-Muito bem, toma o tentáculo - o ingrediente era mais viscoso do que Maré esperava e quase lhe escorregou das mãos - quando acabares de fazer o feitiço e te transformares em humana, a tua beleza desaparecerá. - o seu tom era sorridente e assustador ao mesmo tempo. Maré sabia que lhe estava a entregar a sua beleza, uma das maiores bênçãos das sereias, sobretudo das princesas sereias...mas se esse fosse o preço a pagar para ver Alexandre novamente, ela fá-lo ia.
-Cardumila, só mais uma coisa. Quando o feitiço acabar e eu regressar à minha forma original de sereia, a minha aparência voltará?
-Sim, os meus poderes já não são muitos estando aqui presa por isso sim. Agradece ao teu tio por isso.
-Adeus.- Maré zarpou daquele lugar medonho. A aparência da bruxa, o tom das suas palavras, o peso que elas tinham eram naquele momento o seu maior pesadelo. A esse só ganhava o medo de Alexandre não descobrir quem ela era. Pouco depois de Maré sair da gruta, Coreia regressava.
-Mãe, o que é que aquela pindérica veio aqui fazer?
-Oh filha, não sejas assim tão resmungona. Sabes que não deves falar nesses modos sobre os membros da realeza.- Cardumila preparava um chá e estava de costas para a filha, mas aquele sorriso medonho conseguia ser sentido a milhas de distância.
-O quê? Do que é que estás a falar?- perguntou Coreia tentando desvendar o que a mãe lhe dissera.
-Minha querida filha, descobri uma coisa que me pode fazer sair daqui...
-Tás a gozar? Que bom, mami!
-Guarda as tuas histerias para esta bomba que te vou contar agora. Tu sabias que a tua amiguinha Maré é na verdade a princesa desaparecida de Atlântida?
-A Maré...claro, como é que não pensei logo nisso?! - Os seus olhos encontraram-se numa sintonia maquiavélica.
-Ela já tem a pérola das profundezas e veio-me pedir o tentáculo...
-Ah ainda melhor! Eu não acredito! Maré, a princesa desaparecida de Atlântida e ainda por cima está apaixonada por um humano! Ownn! - O tom de gozo nas palavras de Coreia era digno de lhe dar uma estalada na cara quem a ouvisse.
Depressa Cardumila juntou-se à filha no riso e os seus olhos voltaram a encontrar-se, desta vez com um tom sério e sobrancelhas cerradas.
-Então qual é o teu plano?
-Bem, espera mais algum tempo, logo to direi, só te digo que vou sair daqui...
- m -
Maré nadou até perto do cais onde se Alexandre costumava pescar. Ela não podia ir à superfície por isso tinha de fazer o feitiço perto de um lugar onde assim que se transformasse fosse fácil de chegar a terra. Chegar a Alexandre. A sua esperança de que ele a visse e percebesse quem ela era grande. Vendo uma rapariga saindo da água não era algo que se visse todos os dias e Alex era inteligente para perceber a dica. Ou assim esperava ela.
Pousou o livro numa rocha submersa e colocou todos os objetos necessários ao feitiço em posição.
Quando começou a dizer o feitiço as suas palavras foram interrompidas. Maré olhou em direção ao som do seu chamamento e viu Estrela nadando até si. Quando a tartaruga ficou lado a lado com Maré, ela não teve de dizer nada porque Maré percebeu no momento que Estrela já sabia de tudo. Era essa uma das características que Maré mais gostava na melhor amiga, a noção que ela tinha quando não estava tudo bem e a sua determinação em saber o porquê.
-Se vieste impedir-me então mais vale nem tentares.
-Maré, uma vez feito, não poderá ser revertido.- disse Estrela. -Tu sabes que esse amor não vai ser possível, portanto não faças esse feitiço, não te irá servir de nada a não ser para te magoar ainda mais.
-Eu quero vê-lo uma última vez, Estrela, será que não percebes? Eu quero vê-lo mesmo que não fique com ele, quero ver a terra com ele, quero estar com ele, quero divertir-me com ele.
Estrela não falou logo. Ela pensava muito bem nas palavras que estava prestes a dizer. Sabia que muito provavelmente se iria arrepender. Sabia que não iria haver volta a dar uma vez que as dissesse em voz alta.
-Nesse caso eu vou contigo.
Maré sorriu em surpresa e os seus olhos arregalaram-se.
-O que foi? Tu precisas de alguém para verificar que não fazes figuras tristes na terra minha menina. Mas e lá em Atlântida como vai ser? Vão dar pela tua falta.
-Tens razão, tenho de pensar nisso. Bem vou mandar uma mensagem a dizer que fui passar uns meses a uma cidade vizinha para estar um pouco sozinha.
Estrela acenou em confirmação com a cabeça, mas ainda se notava um tom de incerteza no seu rosto. Típico da Estrela, ela preocupava-se com tudo. Maré escreveu a mensagem numa cocha. Com os seus poderes mandou-a até Bryanna.
Maré e Estrela riram juntas e entusiasmadas com a realidade que se assemelhava caindo depois numa onda de silêncio. Maré concentrou-se nas palavras que Adónis lhe tinha escrito.
De seguida fez o feitiço tal e qual como dizia nos mareóglifos traduzidos e sentiu uma comichão bastante forte na sua cauda. Mas nada mudou.
-Será que o feitiço correu mal?- ainda tinha tido pouco tempo para pensar mas aquele medo já estava a falar mais alto do que a sua própria mente conseguia assimilar coisas.
-Não me parece Maré. Pelo que Adónis me contou só quando estiveres seca é que serás humana por isso acho que só quando saíres do oceano é que te vais transformar.
-Sim, nem pensei nisso, tens razão. Toma. - disse dando-lhe a outra metade do tentáculo - agora é a tua vez. Come que eu digo o feitiço.
-Achas que resulta em tartarugas?
-É o que vamos descobrir.
Nadaram até à costa prontas para descobrir a verdade. Nos seus pensamentos algo ainda atormentava Maré. Algo que ela não podia deixar de pensar, ela teria de tentar ir para a superfície.
Mas se a maldição de Zeus a impedisse de alcançar o ar terrestre? E se ela estivesse presa ali? Destinada à mesma realidade, destinada a morrer sem ver o seu amor novamente.Mas isso não faria sentido. E não fez.
A barreira tinha sido quebrada. Pela primeira vez em três anos ela estava a respirar novamente o ar daquela praia. O mesmo ar que Alexandre respirava.
Não pensou muito, sabia que tinha de atingir terra para completar a sua transformação.
Nadaram até à areia da praia e encostaram-se a uma pequena rocha que lá havia. Maré sorriu para Estrela e concentrou-se nos seus pensamentos para utilizar o seu poder para aquecer a água. Se a água aquecesse iria evaporar. Se ela fosse uma sereia normal iria morrer, mas se o feitiço tinha resultado, em vez da morte, iriam aparecer lindas pernas no lugar da sua cauda.
Assim ela o esperava.
-Faz isso primeiro em mim.- disse Estrela apressada alcançado a mão de Maré para que ela parasse. -Se o feitiço resultou eu transformar-me-ei em humana. Eu não morro se estiver seca, mas tu sim.
Maré acenou-lhe com a cabeça em confirmaçã. Concentrou-se na água que escorria da carapaça de Estrela. Num instante viram-na desaparecer. Assim que a última gota de água desapareceu do seu corpo Estrela já não era mais Estrela. A tartaruga, a sua melhor amiga já não estava mais ali. O seu corpo tinha dado lugar a outro, a um lindo corpo de humana.
-Oh, meu santo Poseidon! Funcionou!- Maré nem queria acreditar no que os seus olhos viam. Tinha resultado...só faltava ela.
As gotas de água não se foram. A sua cauda ainda não estava seca. Ela estava a usar os poderes, mas as gotas em vez de secarem estavam a tomar forma. Pequenas bolhas faziam o contorno de toda a sua cauda e por entre aquele cenário que não se deixava ver nada Maré sentiu a sua cauda a dividir-se. Seriam aquilo pernas? Que sensação estranha os humanos sentiam.
As bolhas começaram a desvanecer-se e a clarear a sua visão ao que estava a acontecer. Tinha resultado. Ela tinha pernas. Elas tinham pernas. Elas eram humanas. Mas o pagamento também foi cumprido. Olhou para si mesma naquilo que os seus olhos conseguiam enxergar. Os seus cabelos loiros tinham ganho um tom castanho marrom. O seu corpo magro era agora diferente...mais gordo. Ela não queria ver a sua cara. Não valia a pena.
Ela só queria que o Alexandre a amasse. Mesmo assim como ela estava. Era isso possível?
-Oh meu deus, isto é maravilhoso! Olha para nós! Temos pernas!!! Somos humanas!!!- mas o seu entusiasmo desvaneceu-se em segundos -Mas olha para a minha aparência, sou horrível! Os meus cabelos, e olha a minha barriga, os meus braços, as minhas pernas...sou tão gorda.
-Maré, esquece isso, preocupa-te agora em saber andar - disse ela com um sorriso tentando mudar de assunto - Eu já vi os humanos a andar. Então, é agarrares-te a alguma coisa e depois disso pois um pé à frente do outro e já está.
-Parece ser fácil.- disse começando a fazer tudo o que ia dizendo -Então, agarrar-me a uma coisa, depois um pé à frente do outro e fazer isso, aaaaaa...- quando deu por si já estava sentada no chão. Pois, parecia fácil.
Caíram, caíram, e voltaram a cair.
-Estrela, isto é impossível! Eu não consigo.- resmungou enquanto se sentava numa rocha.
-Não desanimes! Olha, vamos fazer uma coisa.- disse estendendo um braço a Maré para que se levantasse. -Dá-me as tuas mãos e vamos experimentar ao mesmo tempo.
Foram experimentando. Depois de algum tempo a habituarem-se àquela realidade finalmente conseguiram andar, bem, razoavelmente. Como é que os humanos suportavam aquilo?
-Estrela, isto está razoável, vamos mas é procurar o Alexandre!- gritou Maré enquanto corria em direção à zona do areal onde Alexandre encalhava o barcho e se estardalhava no meio da areia.
***
Estrela e Maré em terra? O que vai acontecer? Prontos para a ação? Tudo vai começar a perder e a ganhar sentido ao mesmo tempo! Estejam atentos!
Deixem o vosso comentário, a vossa estrelinha e continuem a acompanhar-me nesta aventura dos 7 mares!
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