estrofe 21

     Jisung não quis abrir os olhos. Ele sabia o que veria se fizesse isso, mas se recusou a aceitar a verdade. Abrir os olhos significava comprovar que tinha sido deixado, e ele não queria acreditar nisso. Ele ficou deitado de costas para onde Changbin deveria estar, sem sentir nenhuma movimentação. Ele sabia que estava sozinho no quarto de Christopher desde a madrugada, quando percebeu Changbin levantando da cama e abrindo a porta. Jisung ouviu tudo, desde o som dele pegando a mochila e beijando sua testa. Ele ouviu Changbin sussurrar bem baixinho um pedido de desculpas e sair do quarto tentando não deixar escapar os soluços pelo choro que prendia. Jisung sabia disso tudo, mas não queria aceitar.

Passaram vinte minutos, a luz da manhã começou a surgir como uma intrusa que insistia em querer obrigar Jisung a cair na real. Passou mais vinte, e de repente, fazia uma hora que Jisung não abria os olhos ou se mexia, mesmo com a luz incomodando, mesmo com o frio da manhã, mesmo com vontade de se virar. Ele resistiu por muito tempo, mas de repente, tudo começou a despencar como se a realidade batesse na porta. Changbin já tinha ido embora, talvez duas ou três horas atrás, Jisung viu, não adiantaria negar. Porém, mesmo ciente de tudo, ele começou a virar o corpo na outra direção da cama, e antes de abrir os olhos, rezou para qualquer Deus existente que Changbin continuasse ali, que quando abrisse os olhos o veria dormindo pacificamente com Christopher bem ao lado e esquecesse qualquer que fosse o problema que o venha atormentando. Mas, quando abriu os olhos, tudo que viu foi os lençóis bagunçados.

Ele sabia. Sempre soube. Foi como um sexto sentido, vinha pressentindo algo ruim há semanas. Mas, mesmo assim, mesmo que soubesse lá no fundo, ainda doía. Doía como o inferno. A dor o fez se encolher e passar a mão no peito, esfregando aquela área sobre a camisa com força. Os olhos embaçaram e Jisung chorou, porque era incapaz de fazer alguma coisa. E caso soubesse o que fazer, como convenceria Changbin a voltar? O conhecia, pouco, mas conhecia. Sabia que ele iria até o fim pelos próprios objetivos, seja lá o que fosse. Jisung ficou encolhido sobre a cama espaçosa de casal, e deitou onde Changbin estava, mas já era frio e nada tinha o cheiro dela. Talvez fosse exagero, não era para doer tanto, mas machucou mais do que deveria.

— Por que você fez isso? — Jisung perguntou para o nada, esperando que as paredes daquela mansão tivessem uma resposta mágica para resolver todos os problemas. Mas como imaginou, ninguém respondeu. Ele afundou o rosto no travesseiro e desejou que tudo voltasse a ser como era antes, quando eles estavam se conhecendo e o máximo de preocupação que Jisung tinha era se teria tempo para jantar com eles após o trabalho. Mas sabia, desde o dia em que assumiu o que sentia, que nada seria como antes.

Ainda meio cego de esperança, Jisung realmente achou que quem passaria pela porta do quarto seria Changbin, mas era Christopher. Ele abriu em um solavanco, o rosto meio avermelhado e quase sem fôlego, Christopher olhou para Jisung como se tivesse o procurado por toda residência. Jisung sentou na cama completamente cabisbaixo quando ele começou a se aproximar em passos apressados, Christopher o abraçou com força, e Jisung não entendeu direito o que estava acontecendo.

— Você já viu, não é? — Ele indagou com a voz embargada de preocupação. Jisung franziu a sobrancelha, retribuindo o abraço dele.

— Vi o que? — Chris deu uma olhada nele, o segurando pelos ombros. E meio relutante, entregou o celular para Jisung ver a notícia.

Era uma foto. Uma foto muito ruim de duas pessoas se beijando em frente a um condomínio mal iluminado na Austrália, tinha a localização, data, horas e uma manchete enorme em letras em capslock dizendo “SPEARB E PESSOA MISTERIOSA AOS BEIJOS EM SYDNEY”. O coração de Jisung doeu, como uma pontada realmente dolorida que o fez contorcer com o celular na mão. Ele se procurou por toda publicação, ninguém falava seu nome nem o nome artístico que usava, era quase impossível reconhecê-lo na direção que a foto foi tirada, mas era nitidamente Changbin. Um bolo se formou na garganta de Jisung, e ele sentiu as lágrimas quentes escorrendo pelas bochechas e pintando a tela do celular de Christopher.

— Não, não, não! — Ele segurou o celular com as duas mãos, vendo enxurradas de comentários maldosos sobre Changbin. — Chan, por favor, faz alguma coisa! — Jisung agarrou o colarinho da camiseta de Christopher, o puxando com força, gritando para ele, mas tudo que ele fez foi envolvê-lo em mais um abraço. — Faz alguma coisa, hyung. — Jisung soluçou, o rosto completamente molhado. — Changbin foi embora, ele tá sozinho lidando com isso. É tudo culpa minha, é culpa minha! Ele foi embora por minha causa! Fui eu que beijei ele ontem, por que só ele tem que passar por isso? Eu também sou culpado. Eu sou o culpado!

— Jisung, vai ficar tudo bem. — Ele tentou acalmar um Jisung agitado e trêmulo, passando a mão no cabelo dele várias vezes.

— Não vai! — Ele gritou e empurrou Christopher. — Por que você não faz nada? O Changbin foi embora, e a gente nem sabe pra onde, não vai ficar tudo bem!

— Eu não posso fazer nada sobre essa situação se você não estiver bem. Você não pode surtar. É ruim, eu sei, eu também me sinto um lixo. Não era só você que amava o Changbin, eu amo ele mais do que você imagina, mas eu também te amo e você tá aqui, eu preciso cuidar de você antes de qualquer coisa!

— É minha culpa. — Jisung agarrou o próprio cabelo, e levantou da cama. — É culpa minha, óbvio que é. Eu destruí tudo. Eu, eu, eu, sempre eu. — Ele começou a puxar o cabelo e socar a cabeça com o pulso fechado. Christopher o impediu antes que ele começasse a se machucar de verdade, segurando no rosto dele para que Jisung tivesse no que focar.

— Hani, não é culpa sua. Não sabemos porque ele foi embora, mas vamos descobrir. Eu prometo que vou atrás dele, não vou descansar até que ele volte pra gente, eu prometo. Prometo pela minha vida. Eu vou resolver tudo, o hyung promete. Eu prometo. — Chan beijou o topo da testa dele, e eventualmente Jisung começou a respirar com mais calma.

Eles se abraçaram e a cabeça de Jisung parecia um turbilhão. Culpa, raiva, indignação, tristeza, as emoções vieram tão fortes que ele não conseguia parar de chorar. O nome de Changbin vinha na sua mente várias vezes, ele não conseguia parar de pensar em Changbin, pensar para onde ele foi, ou que ele pretendia fazer agora. Queria ver ele. Queria conversar com ele. Queria resolver isso. Queria ficar com ele e com Christopher. Não queria ficar sozinho. Tinha medo, muito medo de como seria agora. Ele abraçou Chan com mais força, muita força, como se tivesse medo que ele também fosse embora.

— Eu quero ele. — Soluçou contra o ombro de Christopher, um pouco mais calmo e menos nervoso.

— Ele vai voltar. Nós vamos buscar ele, não importa o tempo que demore. — O beijou na têmpora. — E eu vou cuidar para que essa foto suma da internet, vou cuidar de tudo. Não vou deixar que machuquem nem você e nem ele.

Jisung nunca desacreditou em Christopher, mas não tinha certeza se ele era tão influente assim. Mas Chris era tudo o que Jisung podia acreditar agora, e ele não desistiria de procurar Changbin, não o deixaria ir tão longe sozinho. Não o deixaria para trás. Não podia.

—— 🎶 ——

Changbin olhou para trás e tudo que viu foi uma nuvem densa de chuva.

Era uma sensação estranha, como se estivesse tomando a decisão errada, mas não era uma decisão que tomou da noite para o dia, planejou isso desde o começo, mas agora, olhando através da janela, ele percebeu que talvez não fosse isso o que realmente queria. Ele deixou que outras pessoas o mudassem, permitiu amar alguém e ser amado, por pouco tempo, mas era o suficiente, não é? Devia ser, mas não era isso que sentia. Ele queria voltar pelos portões do aeroporto e retornar a casa de Christopher e ficar lá para sempre, mas a realidade era outra. A realidade para Changbin sempre seria a pior possível. Ele virou e começou a andar.

Já no avião, ele decidiu checar as mensagens pela última vez antes de desligar o celular. Ele viu as notícias. Todas elas. O nome que usava antes estava em todos os lugares, pessoas dizendo coisas horríveis sobre SpearB, e tantas outras tentando deduzir quem era a pessoa que Changbin estava beijando. Pela única vez naquele dia longo, Changbin ficou feliz por ser odiado. Pelo menos Jisung está seguro, pensou, desligando o celular quando uma ligação de Christopher surgia na tela.

Changbin olhou pela janela o céu ainda escuro e com nuvens carregadas, e pensou que se sentia exatamente desse jeito. Cansado. É, essa palavra era perfeita para descrevê-lo. Estava exausto de tantas coisas, da música, da indústria, da empresa e das cobranças excessivas. Nada era o suficiente, e Changbin tentou ser bom em várias coisas que com certeza não era, ele tentou se moldar e desdobrar para caber nas exigências das pessoas, sejam seus fãs ou não. Ele tentou muito ser perfeito, mas olha só para ele, totalmente esgotado. Ele não aguentava mais. SpearB não era Changbin, aquele cara era ruim, maldoso e obcecado por fama, Changbin só queria fazer música e deixar que as pessoas tivessem um pouco de paz enquanto ouviam seus lamentos. SpearB era como um alter ego, alguém totalmente diferente de quem Changbin realmente era, alguém que Changbin odiava ser.

Changbin se odiava por ter criado SpearB, e se odiava por fingir ser quem não era por tantos anos. Talvez agora, após largar tudo que amava, ele pudesse descansar. Era a única coisa que queria, descansar. Mesmo que para isso ele tivesse que largar tudo, a fama, o dinheiro, a música e as pessoas que amava. Quando o avião começou a subir, Changbin fechou os olhos, e enterrou SpearB de uma vez por todas. SpearB não existia mais. Changbin nunca mais seria ele. Nunca. E de repente, ele quis abrir os olhos e ver Jisung e Christopher sentados ao seu lado, indo embora com ele, mas a realidade era outra, óbvio que seria. A única alternativa que tinha era recomeçar, completamente sozinho, como sempre foi.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top