estrofe 20
Eles partiram para Sydney mais cedo do que pretendiam, por insistência de Changbin.
A viagem de carro após o vôo de três horas parecia longa e torturante. Eles não se falavam, como se novamente estivesse na estaca zero. De repente, Jisung se viu em meados de maio, quando começou a trabalhar com eles no 3racha. Era como se tudo estivesse de volta aquele fatídico dia no aeroporto, quando eles não se conheciam direito e não conseguiam conversar sem ter uma onda de desconforto por todos os lados. Jisung odiou cada segundo dessa viagem, desde o avião até o carro. Eles foram deixados na casa de Christopher, mas Changbin insistiu para Ameya o levasse em outro lugar, e partiu assim que teve a oportunidade, deixando a dupla para trás.
Jisung quis gritar de chateação. Não era para ser assim, não agora. Não quando ele finalmente achou que poderiam ficar juntos. Ele ficou com raiva de Changbin, quis xingá-lo, gritar no rosto dele ofensas horríveis, mas a única coisa que fez ao invés disso tudo foi entrar na mansão e ir direto para o quarto. Não entendia qual era o problema de Changbin, ou o que ele pretendia fazer, e ele se recusava a falar. Jisung tomou um banho, e de repente, quis chorar. Se sentia uma confusão. Ele encostou a cabeça no box e se deixou chorar livremente, permitindo que as lágrimas se misturassem com a água do chuveiro, se tornando uma só. Ele chorou por bastante tempo, até mesmo depois de sair do banheiro usando calça moletom e casaco listrado.
O que estava acontecendo consigo mesmo? Changbin era só um cara, e Jisung era novo, poderia conhecer alguém melhor, alguém que soubesse se comunicar e ele não teria que ficar passando por castigos de silêncio, mas não queria outro alguém, ele queria Changbin, mesmo calado, misterioso e irritante, gostava tanto dele que não saberia o que fazer se um dia a 3racha acabasse e eles fossem para direções diferentes. Quando começou a gostar tanto dele? Quis chorar de novo, mas alguém bateu na porta. Sem vontade, e sabendo que era Christopher, Jisung abriu a porta e deixou que ele entrasse. O anfitrião da casa trazia com ele uma bandeja de frutas com chocolate derretido numa tigela pequena e palitos para degustação. Eles sentaram sobre os lençóis e Christopher tomou cuidado ao depositar a bandeja sobre o colchão.
— Dizem que chocolate aumenta a serotonina do cérebro. — Ele comentou, como se fosse um dado muito importante que aprendeu em algum site na internet. Jisung sorriu, o vendo colocar um morango na ponta do palito e melando no chocolate. — Aqui, experimenta. — Levou à boca de Jisung o morango coberto de chocolate meio morno. Jisung mordeu e mastigou. Ainda não se sentia feliz, talvez o efeito não fosse instantâneo como pensou que seria.
Ele afastou um pouco a bandeja e sentou no colo de Christopher, como se precisasse daquele momento de dengo. E Chris o recebeu. Ele o abraçou pela cintura, meio com medo de derrubar todo chocolate. Jisung não disse nada, por não ter o que falar, ele e Chris já estavam cansados de ter tanta dúvidas em relação a Changbin, o que poderiam dizer? Se Jisung, que insistia no assunto, não sabia de nada, imagine Christopher, que preferia andar pelos vales das sombras do que discutir com Changbin. Eles ficaram se consolando, e em algum momento, Jisung olhou para Christopher, frente a frente, nariz roçando em nariz, e o beijou com a boca ainda meio suja de chocolate derretido. O beijou com calma, como se não houvesse amanhã — e realmente quis que não houvesse —, e quando o ósculo terminou, voltou a olhá-lo nos olhos, encarando o abismo castanho que era as pupilas dele.
— Às vezes, acho que seria tão bem mais simples só te amar. — Ele declarou de repente, no meio do silêncio que se aprofundou entre eles após o beijo. — Tão bem mais fácil. — O beijou de novo. — Mas, gosto tanto de Changbin que acho que posso morrer. — Eles sorriram pelo exagero de Jisung, e se abraçaram novamente. — Eu quero tanto ele. Quero tanto vocês dois.
— Queria entender o que se passa na cabeça dele, Hanie. — Voltou a fazer carinho na nuca dele com a ponta dos dedos. — Mas acho que nem entendo que se passa na minha, quem dirá de outra pessoa. — Eles trocaram um sorrisinho e Jisung encostou a testa na dele. — Mas sabe qual é a única certeza que tenho? — Ele balançou a cabeça, negando. Chris sorriu, acariciando a bochecha dele. — Que estou apaixonado por vocês dois.
— Puff, você só tá me enrolando. — Empurrou o rosto de Christopher tímido, impedindo que ele o beijasse de novo. — Sai, cara. Você é todo meloso, vou vomitar.
— Eu? Olha só pra você, dizendo que me amar era mais fácil do que amar o Changbin. Seu boiola, meloso e dramático. — Passou o dedo no chocolate derretido e sujou a ponta do nariz de Jisung, que ainda estava no seu colo. Jisung o olhou desacreditado, e fez o mesmo, sujando a bochecha de Christopher com chocolate. — Então você quer brincar? — Ele pegou a tigela ainda cheia e ameaçou jogar em Jisung, mas ele gritou e segurou antes que Christopher pudesse fazer isso.
(...)
Bem pelo finalzinho da tarde, talvez quatro ou cinco horas, Changbin apareceu. Ele ainda usava a roupa do dia anterior — calça jeans, camiseta preta e a bolsa —, ele só olhou para Jisung sozinho na sala de estar e subiu para o andar superior. Jisung o acompanhou e checou o celular, Christopher saiu com Ameya para resolver alguns problemas na empresa, e pediu para que o Han avisasse quando Changbin voltasse. Ele mandou uma mensagem, como combinado, e foi atrás de Changbin em passos calculados. Ele subiu os degraus e encostou o ouvido na porta, Changbin conversava com alguém pelo celular, mas Jisung não conseguia ouvir nada além de resmungos incompreensíveis. Ele se afastou quando ouviu passos e Changbin abriu a porta, ele ainda estava com a bolsa no ombro, só trocou a camiseta por um casaco.
Eles se encararam desconfortáveis, e Changbin passou por Jisung, sem dizer nada ou explicar. Ele só foi embora. Jisung correu atrás dele, desistindo de calçar o sapato quando ele já estava virando a esquina para sair do condomínio. Descalço, Jisung correu o quanto podia com uma estranha sensação no peito. O que era aquilo? Uma despedida? Jisung entrou em desespero completamente. Finalmente quando alcançou Changbin, o segurou com força pelo braço e não soltou, apertou tanto que a marca da mão ficou gravada no pulso dele, mas Jisung não conseguia pensar direito. Toda a mente dele estava em alerta vermelho, aquilo não era bom.
— O que você tá fazendo!? — Indagou um pouco mais alto do que imaginou, e de repente, estar no meio da rua fora do condomínio não parecia importante. — Changbin! — Esbravejou, balançando o braço dele. Changbin não respondeu, nem olhou, continuou fixo em outra direção, qualquer coisa que não fosse o rosto molhado de Jisung por lágrimas. — Hyung, me responde!
Ele permaneceu calado. Jisung soluçava, sem saber o que fazer ou o que estava acontecendo. Ele continuou insistindo, pedindo para que Changbin dissesse alguma coisa, qualquer coisa, mas em nenhum momento ele o olhou. Em um ato de medo, Jisung segurou o rosto dele ali, no meio da rua em frente ao condomínio cheio de câmeras, e o beijou na boca, os dentes se bateram pelo impacto e saiu um pouco de sangue do lábio de Changbin pela aproximação bruta. Jisung o beijou e tudo tinha um gosto salgado, porque Changbin também estava chorando. Apesar do desconforto e do gosto ferroso de sangue, Changbin retribuiu, meio atrapalhado e sem saber onde pôr as mãos. Ele beijou Jisung com tanta vontade que tudo teve ainda mais sabor de despedida. Jisung não conseguia parar de tremer e apertar Changbin, o apalpando pelos braços, ombros e cabelo. Tudo era uma bagunça.
Eles se separaram quando tudo voltou a fazer sentido e eles ficaram conscientes de onde estavam e o que estavam fazendo. Eles finalmente se olharam cara a cara, ambos de lábios rachados e olhos marejados.
— Por que você está fazendo isso? — Jisung voltou a chorar, os ombros tremendo e soluçando. — Por que você não diz nada? — Ele não queria que Changbin o abraçasse, estava com raiva dele, mas Changbin o abraçou de qualquer jeito. Jisung se balançou e bateu no peito de Changbin, e ele só deixou.
— Me desculpa, Hanie. — O apelido que ganhou de Christopher tinha uma sonoridade diferente quando era Changbin quem estava dizendo, era doloroso. — Me desculpa, eu não posso fazer isso com vocês. — Ele abraçou o corpo de Jisung com força, deixando que ele descontasse toda a frustração, sem relutar ou se defender.
Jisung cansou disso gradativamente, não iria mudar nada o que fizesse agora. O que tinha para ser feito, já estava feito, com ou sem pedidos de justificativas, Changbin já tinha assinado tudo. Era o fim. Jisung sabia. Mas ele se agarrou naquele fio de esperança que ainda possuía, e começou a puxar Changbin para casa. Eles voltaram ao condomínio e entraram na mansão, Jisung levou Changbin até o quarto de Christopher, no último andar, com a ideia rasa que lá em cima ele não poderia ir embora, mas ele iria, sabia disso. Ele iria de qualquer jeito. Jisung se sentiu incapaz, fraco e com medo. Ele fez Changbin sentar na cama, no meio daquele quarto enorme preenchido pelo nada, completamente vazio de memórias ou qualquer coisa com apego, e beijou Changbin mais uma vez. Pela última vez.
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