estrofe 08
O trio cumpriu a agenda pelo resto do dia, participaram de um programa de televisão, rádio e um fansign, sendo recepcionados por seus fãs com muito carinho após o show da noite anterior.
Jisung estava feliz naquela manhã, ele parecia ter dormido melhor que Christopher — o que não era muito difícil —, sorria a cada segundo, como era de costume. Ele parecia radiante. E mesmo meio calado, Changbin parecia satisfeito com o dia movimentado. Ele gostava de ter várias coisas para fazer, ficar sozinho com seus pensamentos era como uma armadilha de rato.
Christopher estava especialmente avoado hoje, seja se perdendo nas conversas durante as entrevistas ou simplesmente esquecendo que estavam em público e não podia ser tão transparente. Vez ou outro se via olhando demais para Jisung, tentando achar algum significado por trás do que tinha acontecido na noite anterior, mas nada além dos seus grandes sorrisos e ânimo costumeiro. Tentou olhar para Changbin, descobrir o que tinha por trás daqueles olhos escuros, mas ele parecia uma parede impenetrável, era quase impossível lê-lo normalmente. E nesses momentos, quando estava realmente concentrado neles, alguém precisava chamar sua atenção porque era óbvio que tinha algo errado. Algo errado nele, nos seus sentimentos, no que tinha acontecido ontem e no que aquilo significava para os dois. E talvez até para os três.
Christopher não era um cara que se iludia fácil, era bem pé no chão quando o assunto era as possibilidades de ser correspondido. Nunca foi de namorar muito, podia contar nos dedos seus relacionamentos passados, mas sempre foi muito realista. Se ele tivesse chance com alguém, independente do gênero, investiria nisso se gostasse dela de volta. E talvez aquilo fosse um cartão verde sobre o que Jisung vinha sentindo? Vinha percebendo o jeito do parceiro nos últimos dias, a maneira que ele falava com os dois, o jeitinho que ele sempre agia quando os três estavam a sós, tão dengoso e gentil, com aqueles olhos esbugalhados e brilhosos. Ele parecia encantador quando estava por trás das câmeras, longe dos holofotes e sendo apenas Han Jisung, o garoto que nasceu para ser o centro do mundo. Talvez o centro do seu mundo.
Mas tinha algo errado dentro dele, apesar de estar sim feliz por ter recebido um beijo do garoto, mas se sentia verdadeiramente satisfeito. Por um momento, quando estava voltando para casa com os dois de van, notou que estava se tornando muito ganancioso. Não queria apenas ter Jisung, apesar de ter certeza dos seus sentimentos por ele, Christopher também queria Changbin, o queria tanto que doía o peito. Queria que ele tivesse o beijado na noite anterior também, que ele tivesse acariciado seu braço como às vezes fazia quando eles dormiam juntos. Mas não aconteceu nada.
— O que tá olhando, australiano? — Changbin chamou sua atenção, e finalmente percebeu que o encarava muito.
Desde que saíram do fansign e entraram na volta junto o manager, Christopher ficou absorto na própria mente, como se estivesse tendo uma discussão muito séria consigo mesmo. Jisung não notou isso porque despencou de sono assim que as sentou ao lado de Changbin, mas o rapper notou, e tentou disfarçar olhando para a janela, mas Christopher continuou encarando, olhando para ele por horas durante todo o caminho. Aquilo o irritou um pouco, nunca foi um cara muito paciente e ser encarado era uma das coisas que mais o tirava do sério, principalmente quando quem o olhava tanto era aquele cara.
— Perdeu alguma coisa na minha cara? — Voltou a indagar, meio baixo apesar da rigidez na voz. Jisung dormia encostado na janela, ressonando baixinho.
— Sim, me perdi no brilho do seu olhar. — Changbin chutou sua perna com a menor força possível, incapaz de querer machucá-lo fisicamente, talvez mentalmente, mas fisicamente? Nah, precisava dele para trabalhar, infelizmente. E machucado só traria problemas.
— Você é um babaca. — Christopher tocou a perna, fingindo uma dor absurda.
— Acho que não vou conseguir mais andar, você vai ter que me carregar nos seus braços fortes.
— Nem se isso dependesse da minha vida. — Christopher riu, Changbin nem tanto. Ele sempre tinha aquele tom sério na voz que era quase impossível de saber se ele estava brincando ou não. — Posso te perguntar uma coisa?
— A vontade.
— O que você tinha hoje? Tava todo estranho.
— Você repara em mim? — Fingiu novamente estar emocionado, enxugando lágrimas falsas. Changbin fechou a expressão, como se nuvens escuras tivessem surgido acima da sua cabeça. Ele era realmente impaciente. — Parei, parei. — Ergueu as mãos, se rendendo. — Só estava pensativo, Bin. Coisas vem acontecendo comigo, e nem sempre podemos ter uma resposta para tudo.
Changbin o olhou enigmático, procurando o vislumbre de alguma coisa, como se quisesse ler através dos seus olhos o que vinha o afligindo. Ele era assim às vezes, sempre observando calado, procurando indícios de alguma coisa, buscando respostas nas expressões das pessoas, mas no final somente Christopher sabia a verdade. E talvez devesse manter assim. Em segredo. Mesmo que quisesse beijá-lo agora, bem ali no meio daquela van, quando ninguém estava olhando. Ele podia fazer isso agora, mas tinha medo, medo de ser descoberto, medo de Changbin rejeitá-lo — o que provavelmente aconteceria —, medo de arruinar tudo.
Medo. Essa palavra tinha um sabor estranho na boca de Christopher, que sempre tentou viver tão longe dela. Nunca sentiu tanto medo na vida como sentia agora sabendo que estava mesmo apaixonado por eles dois.
— Acho que você só precisa dormir. — Changbin disse depois de um tempinho em silêncio, deixando Christopher refletir quieto. — Você anda dormindo menos que a gente ultimamente. Vamos ficar em Busan por bastante tempo antes de voltar pra vida movimentada em Seul, você deveria descansar enquanto pode.
Ele olhou para Jisung que dormia encostado na janela do automóvel, trazendo a cabeça dele para o seu ombro, temeroso que ele batesse a cabeça no vidro da janela. Christopher sorriu com a visão, Changbin podia ser delicado quando queria, mesmo quando dizia coisas rudes ou agia de maneira grosseira.
Christopher se levantou do assento em que estava, de frente para os dois rapazes, e se sentou do lado de Changbin. Ele o encarou desconfiado, e Christopher apenas sorriu.
— Quando falei pra você dormir, não era perto de mim. Cai fora. — Changbin o empurrou com o cotovelo, impedindo que ele deitasse no seu ombro também.
— Por que Jisung pode e eu não? — Indagou com um bico, inconformado.
— Porque sim.
— Você é sempre assim comigo, o que eu te fiz, cara? — Ele não respondeu, como sempre fazia. Christopher já tinha questionado isso em outras ocasiões, sempre quando brigavam, e ele nunca dizia, apenas o encarava nos olhos e não dizia uma palavra. Queria uma justificativa, uma resposta, um motivo, mas tudo que recebia era silêncio. Chris estava cansado de lidar com o silêncio dele. — Não vai dizer nada?
— Por que deveria?
— Argh, você é tão irritante.
— Olha só quem tá falando, o senhor estrelinha. — Changbin o empurrou mais uma vez usando o cotovelo. — Vê se não enche a porra do meu saco.
— Eu deveria parar de tentar conversar com você. É sempre desse jeito. Sabe o que você é? — Chris apontou um dedo na cara dele, irritado o suficiente para não conseguir moderar o tom da voz. — Um insuportável.
— E você nem se fala, seu mauricinho do caralho.
— Puta que pariu, que barulhão. Não se pode mais dormir nesse inferno de van. — Jisung acordou resmungando, o rosto inchado pelo cochilo. Ele coçou os olhos, se levantou e sentou no assento mais longe possível daqueles dois. — Briguem longe de mim. — Ditou lá de trás.
Eles se encararam pela última vez, antes de Changbin também levantar e ir para outro lugar. A van balançou, e ele quase caiu em cima do australiano, mas conseguiu se segurar em alguma coisa e seguir em frente. Christopher massageou a testa, decidido que discutir com Changbin nunca levava a lugar nenhum
—— 🎶 ——
— O que tem aí na sua sacola? — Jisung perguntou, tentando espiar o que Changbin tinha comprado. Era noite, por volta das oito, eles tinham conseguido permissão de Brian para sair do hotel e ir numa mercearia próxima, e Jisung não perderia a oportunidade de sair um pouco do quarto e esticar as pernas, mesmo que o dia tenha sido cheio. Fazer coisas diferentes em cidades que ele não conhecia era a melhor parte de ser um artista, na sua opinião, e quando era apenas um solista raramente conseguia fazer alguma coisa sozinho, mesmo ir até uma loja de conveniência era um sacrifício. Mas agora que era parte de um trio, sair pela rua à noite não era assustador ou perigoso.
Changbin se voluntariou para acompanhar o menino, foi assim que ele conseguiu autorização de Brian para sair e ir comprar algumas bobagens para passar o restante da noite, embora já tenham jantado antes de ir direto para o hotel. Ele nem estava com vontade de comer nada, mas decidiu ir com Jisung apenas para não ficar no mesmo cômodo que Christopher. Quando discutiam, sempre vinha um clima estranho entre os dois, e não queria ficar sentindo remorso. Que culpa tinha? Christopher era insuportável, sempre pondo o nariz onde não devia, sendo intrometido, com suas cantadas idiotas e sorrisos sugestivos. Quem ele pensava que era? Quem deveria ficar enfurnado dentro do quarto era Changbin, que sempre era arrastado para suas discussões idiotas, com seus dilemas bobos e perguntas irritantes.
— Hyung? — Jisung estalou os dedos em frente ao rosto de Changbin, que finalmente acordou de um transe. Ele olhou para Jisung, sem realmente ter ouvido o que ele tinha dito.
— Desculpa, eu não ouvi. O que você disse?
— Perguntei o que você comprou.
Changbin olhou para dentro da sacola plástica que carregava, tinha um salgadinho sabor churrasco que achou numas prateleiras, um refrigerante e docinhos sortidos. Não tinha ideia do que realmente comprar, então apenas pegou o que veio na cabeça e jogou dentro da cestinha que carregava. A sacola que trazia consigo era pequena comparada a de Jisung, que levava chocolates, balas de morango, pirulitos e salgadinhos variados. Dava para alimentar uma criança durante bons dias com tudo que tinha na sacola do Han.
— Você comprou tão pouquinho. — Jisung comentou, dando uma olhadinha nas coisas de Changbin enquanto usavam o elevador para subir até o quarto em que estavam passando os dias. — Ei, esses docinhos são os que o Chan hyung gosta. Você comprou para ele?
— Óbvio que não, só peguei a primeira coisa que vi.
— Que coincidência. — Changbin não entendeu o que aquele sorrisinho de Jisung significava, mas sentiu as orelhas arderem, estranhamente tímido. — Hoje mais cedo, por que vocês estavam brigando? — Trouxe o assunto à tona de repente, desta vez olhando nos seus olhos. — Vocês sempre brigam. Não cansa, não? Estamos nessa faz meses, e vocês não ficam um dia sequer sem brigar.
— Ele me irrita.
— Chan hyung não faz nada. — Ele disse um pouco exasperado, como se quisesse que Changbin compreendesse de uma vez. Vinha tendo essa mesma conversa com ele a semanas, mas Changbin era teimoso, se recusava a entender que Chan não era seu inimigo, e nem Jisung era, mesmo que raramente ele seja o alvo do rapper. — Não tô dizendo que a culpa é sua, ou é você quem sempre procura briga. Chan também é meio chato quando quer. A questão é, vocês precisam aprender a conversar ao invés de discutir.
Entendia o que Jisung queria dizer, e não é como se ele gostasse de brigar. Ele realmente não gosta. Mas Chan era difícil de lidar, muito difícil. Mas não o odiava, talvez antes sim, porém ainda era difícil entender o que vinha sentindo nos últimos meses desde que aquele contrato começou, conviviam todos os dias juntos, às vezes dormiam um na casa do outro, se tratavam de maneira diferente que somente colegas de trabalho se tratam. Era tudo novo demais para Changbin que sempre trabalhou sozinho. Não estava acostumado a ter quem dar boa noite antes de dormir, nem com quem conversar quando tinha um problema de bloqueio criativo. Mas lá estavam eles, dormindo na mesma cama, tendo refeições juntos todos os dias, conversando até tarde da noite sobre algo que não era o trabalho. Como Changbin deveria se sentir sobre isso? Como deveria lidar com a enxurrada de sentimento que vinha sentindo? O que era aquele sentimento que cresceu entre suas dores e aflorou no seu coração? Céus, ele nem mesmo sabia lidar com seus problemas pessoais, e agora tinha mais isso.
— Por que você não gosta do Chan hyung? — Jisung perguntou de repente.
As portas do elevador abriram, e ele deixou que Jisung fosse primeiro antes de dar o primeiro passo para fora. Não gostava de Christopher, certo? Nunca gostou dele. Ele era o sinônimo de tudo que nunca gostou na indústria, a estrelinha da mídia, sempre tão amado por todos por ser um exemplo a ser seguido, fazia parecer que ele não tinha voz própria, vontades e personalidade. Sempre achou que ele era superficial. Suas músicas eram completamente diferentes do que Changbin produzia, nunca pensou que acabaria tendo que trabalhar com ele, mas lá estavam eles, dividindo bem mais do que o nome num trio bobo que surgiu apenas para unificar três empresas.
Não, não gostava de Christopher. Ou queria dizer que não. Era difícil. Se passou tanto tempo, dias, semanas, meses, a convivência fez Changbin enxergar Christopher de outro jeito, vê-lo além do nepotismo que o rodeava, de todo o dinheiro que tinha. E isso também aconteceu com Jisung, ele era bem mais do que o novato, ele tinha sonhos grandes, objetivos que iam além do que suas mãos conseguiam alcançar, mas ele nunca desanima. Se um objetivo fosse difícil, ele iria pra cima com tudo. Jisung era esforçado e naturalmente talentoso. Christopher era proativo, bom em tudo e sempre tinha boas ideias. E Changbin via isso neles, enxergou bem mais do que somente seus lados profissionais.
A dupla de homens entrou no quarto com suas sacolas cheias de doces nas mãos, vendo todo o ambiente escuro. Inconscientemente, Jisung acendeu as luzes, e finalmente percebeu que Christopher estava deitado na cama, o notebook jogado de lado e o headphone do outro, fora o mouse que estava perto da beirada da cama, ele parecia dormir pacificamente, enrolado no cobertor. Jisung fez um sinal para que Changbin não fizesse mais barulho, mas Christopher já tinha acordado pela luz, piscando lentamente para se acostumar com a claridade.
— Desculpa, hyung. Não sabíamos que você estava dormindo. — Jisung se aproximou da cama de Christopher enquanto deixava a sacola de compras na sua própria cama, no canto. Ele foi até o rapaz australiano fechando o notebook dele e pegando o restante das coisas, mouse e headphone, levando para outro lugar.
Christopher sentou na cama, o cabelo loiro despenteado e os olhos inchados. Changbin o olhou, ele estava chorando? Não sabia dizer se seus olhos pareciam inchados pelo cochilo ou porque tinha chorado, era difícil dizer. Christopher também o olhou, os olhos sonolentos e as bochechas amassadas pelo travesseiro, e o rapper quis se esconder. O clima tenso ainda pairava entre os dois, era estranho.
— Tá tudo bem, Hani. — Christopher ficou de pé, acariciando o cabelo preto e meio longo de Jisung. E quando notou o que tinha feito, Chris enrubesceu, igualmente a Jisung. O que estava acontecendo? Changbin pensou enquanto deixava que Chan passasse quando ele veio na sua direção, pretendendo ir ao banheiro.
Jisung tocou as próprias orelhas, e deu um sorrisinho, se virando para Changbin que ainda estava encostado na parede, observando.
— Tá olhando o que, baixinho? — Indagou num tom de brincadeira, ainda sorrindo envergonhado.
— O que você fez ontem?
— Do que você está falando? — Desconversou, indo se sentar na cama para mexer na sacola que trouxe.
— Que clima é esse entre vocês dois?
— Não tem clima nenhum entre eu e ele, mas vocês dois deveriam conversar e se resolver. Tá insuportável ficar entre vocês dois brigados. — Jisung pegou um chocolate e abriu, era uma pequena barra branca, ele deu uma mordida e ofereceu ao Seo que negou.
Changbin decidiu apenas deixar de lado essa questão, ele não falaria. Caminhou até a própria cama no canto da parede, deixando a sacola lá e observando os docinhos que Christopher gostava. E se?
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