estrofe 03
Christopher não sabia dizer quando ou como sua insônia ficou tão ruim, mas havia noites em que ele simplesmente não dormia de jeito nenhum. Mesmo com remédios e até tratamentos era quase impossível fechar os olhos à noite e não ter um turbilhão na mente como uma avalanche de pensamento desconexos que só serviam para lotar sua mente de coisas sem sentido.
Antes mesmo do dia raiar completamente, ele decidiu que seria bom substituir insônia por exaustão, então como em sua cidade natal, ele saiu para correr. Correu por todo condomínio, parando apenas para beber um pouco de água da garrafa que trazia consigo e logo voltava a correr como louco. Quando o relógio deu exatas seis da manhã, ele pegou o caminho mais rápido para casa e tomou um bom banho gelado. Estava um pouco cansado, os músculos doíam, principalmente as coxas, mas seu sono? Nem sinal.
Um passo de cada vez, pensou, descendo para tomar café da manhã e partir para o trabalho.
—— 🎶 ——
Changbin podia dizer que era uma pessoa matinal. Sempre acordava cedo, mesmo quando podia dormir até tarde e gostava de aproveitar aqueles minutos pela manhã onde tudo parecia tão preguiçosamente tranquilo para pensar e compor. Mas naquela manhã ele não conseguia pensar direito, tudo que vinha na sua cabeça era aquela maldita collab. Até mesmo durante seu sono aquilo o perturbou, por isso, acordou com o humor tão frágil.
De fones de ouvido e System Of A Down tocando no último volume, ele decidiu que caminharia até a empresa na qual iria passar um bom tempo. Nunca ligou para ser reconhecido na rua, então vestia somente um conjunto moletom confortável e sua costumeira bolsa, que guardava seu caderno de composição, um carregador portátil, mais um fone de ouvido reserva — ele perdia essas coisas fácil — a carteira e chave de casa.
Chegou no destino rapidamente, mesmo com seus passos propositais de tartaruga. Ele apenas checou com a recepcionista onde era o estúdio de Christopher antes de pegar o elevador, e ela o deu as devidas instruções, sem antes avisar ao australiano que seu parceiro já estava ali. Changbin odiou essa parte, não era para ela falar, queria fingir que conhecia o lugar e que não precisaria da ajuda dele para nada. Ela não entendeu mesmo quando o rapper tentou sinalizar para ela não ligar, mas o que estava feito, estava feito, e ele seguiu até o elevador com uma forte dor de cabeça. Talvez precisava de um café sem açúcar para aguentar esse dia.
— Me espera! — Colocou a mão entre as portas do elevador quando viu de longe Jisung vindo afobado na sua direção, ele meio que corria em passos largos, passando direto pela recepção e vindo na sua direção com aqueles olhos grandes e sorriso cegante. — Obrigado. — Agradeceu assim que entrou no elevador.
Eles tinham a mesma altura, talvez Jisung fosse um centímetro mais alto, mas Changbin nunca diria isso em voz alta. Observando de cantinho, Changbin reparou nele por um tempinho, no estilo dele, no cabelo preto e meio grandinho, nos brincos e na mochila grande que carregava como se toda sua vida estivesse ali dentro. Era até meio fofo.
— Bom dia, changbin. — Jisung o cumprimentou, olhando na sua direção com aqueles olhões de jabuticabas. Changbin não disse nada, apenas acenou.
O cantor já havia entendido o jeitão do Seo, ele era o garoto calado, que ficava apenas na dele. Misterioso e tudo mais. Já suspeitava que ele seria assim segundo as entrevistas que lia sobre ele quando estava com tempo livre durante os ensaios. Jisung também sabia que ele era do tipo que se soltava com o tempo, então torcia de verdade que chegasse o momento que ele se sentisse à vontade para conversar, adoraria compartilhar ideias ou apenas jogar conversar fora com ele e com Christopher, apesar do climão entre os dois.
Eles saíram do elevador assim que ele parou no décimo primeiro andar, Changbin indo na frente com Jisung logo em seu encalço. Como dito pela recepcionista, o estúdio de Christopher era a última porta do corredor, por ser o menor entre as salas que cercava o corredor extenso. E lá estava ela. A última porta do corredor tinha o outro nome artístico de Christopher, Bang Chan, em letras grandes. Changbin hesitou em bater na porta, mas Jisung se espremeu do seu ladinho e fez isso por ele, dando três batidinhas.
Não demorou muito para que Christopher viesse abrir, destrancando a sala e os recepcionando com um sorriso pequeno e um semblante cansado. As paredes da sala eram escuras, com revestimento para abafar ruído, tinha uma mesa larga com um notebook em cima, caixas de som, um microfone sobre a mesa, um teclado portátil para produção e uma televisão acoplada à parede. Logo em frente a grande mesa, havia uma cadeira estofada preta e um sofá marrom de couro sintético logo atrás. Era simples e frio, pelo ar condicionado está ligado numa temperatura bem baixa.
— Bem vindos, eu acho. — Christopher deixou que eles entrassem antes de fechar a porta. Era estranho ter tanta comoção em seus locais de trabalho, por estar acostumado a trabalhar a maior parte do tempo sozinho, mas gostava de pensar em mudanças na rotina como algo bom. — Fiquem à vontade.
Jisung deixou a bolsa no sofá e tomou um espaço ao lado, olhando ao redor com curiosidade. Changbin passou ao lado do australiano sem olhá-lo, mesmo que soubesse que ele o encarava propositalmente. Decidiu ignorar, porque se eles queriam fazer aquilo dar certo, Changbin não podia se deixar levar por aquele sentimento de aversão. Ele se sentou no espaço que sobrou do sofá e tinha que admitir, o lugar tinha lá seu aconchego.
— Oi, changbin. — Christopher o cumprimenta, como se soubesse que poderia facilmente irritá-lo com apenas um aceno de cabeça.
Changbin finalmente o encarou e, por Deus, ele realmente queria tirar aquele sorrisinho da boca de Christopher, seja com um chute ou sei lá o que. Não suportava a ideia de dividir o mesmo ambiente com esse cara e tê-lo que aguentar esbanjando o quão bom era. Maldito seja o nepotismo que o fez crescer na mídia.
Até mesmo Tirésias, que era um homem cego, seria capaz de ver o climão pesado que se formou quando aqueles dois começaram a se encarar. Jisung coçou a garganta, trazendo alguma atenção para ele.
— Vamos fazer isso? — indagou animado.
—— 🎶 ——
No final do dia, Jisung se encostou no sofá com uma dor de cabeça latejante e uma pergunta: seria possível trabalhar com aqueles dois e algo bom realmente sair do papel? Porque o dia se arrastou tão dolorosamente devagar e a única coisa que conseguiram produzir foi um arranjo bem raso de uma possível música.
Changbin sempre dava um jeito de responder às perguntas de Christopher com ironia e deboche, deixando o australiano cada vez mais sem paciência. E Jisung? Bom, ele tentou a todo custo apaziguar as coisas, seja com piadinhas ou até desviando do sarcasmo nítido do outro coreano ao produtor mais velho. Agora estavam os três, um encarando o outro em um silêncio estranho. Jisung sentado largado no sofá com um Changbin igualmente cansado pelo longo dia. Christopher preferiu sua cadeira em frente a larga mesa, os encarando de braços cruzados.
— Isso não vai dar certo. — Changbin declarou, evitando olhar para os dois cantores ao seu redor. O celular parecia mais interessante do que assumir que aquele projeto nem tinha começado e já tinha dado tudo errado. Era impossível sair algo bom de três pessoas com opiniões tão diferentes, eles não tinham literalmente nada em comum além do amor pela música.
— Mas a gente tem que fazer dar certo, estão contando com a gente. — Jisung retrucou, braços cruzados sobre o peito e uma carranca nítida.
— Tudo bem, prestem atenção. — Christopher chamou a atenção deles. — Nosso manager informou que precisamos escolher o nome do trio, que vai ser revelado no dia do nosso debut. Então vamos focar nisso por agora. — Explicou. — Já que nosso dia não foi nada produtivo, vou usar os rascunhos que vocês deixaram no meu computador pra tentar ver se consigo tirar algo bom disso e enviar pra vocês pelo email depois. Caso tenham alguma ideia de nome para o trio ou ideia de música, me tragam amanhã que a gente discute sobre.
Jisung assentiu como se soubesse que ficar ali mais algumas horas resultaria em mais dor de cabeça, então decidido a ir tomar um ar, ele abriu a bolsa e tirou a carteira de dentro, junto com o celular que preferiu guardar para conseguir se concentrar no trabalho.
— Tô indo comprar um lanche, se quiserem algo esse é o momento de me pedir. — Ele parou próximo a porta, encarando tanto Christopher quanto Changbin.
— Eu tô bem. — O australiano deu um sorriso fino, se virando para o notebook.
— Vou com você. — Changbin guardou o celular no bolso e passou na frente do Han, saindo da sala.
Jisung deu uma última encarada em Christopher antes de seguir atrás de Changbin. Iria comprar um lanche para o produtor, mesmo que ele não tivesse pedido. Nenhum dos três tinha comido durante toda a tarde, e saco vazio não parava em pé.
—— 🎶 ——
Já era noite quando chan finalmente desligou os aparelhos dentro do estúdio, sem antes salvar tudo e deixar as pastas novas com os nomes dos seus respectivos parceiros novos na área de trabalho.
A conclusão que teve foi que não seria fácil trabalhar com eles, principalmente com Changbin. Ele era cabeça quente e reclamão, nada estava bom o suficiente, nem mesmo para um simples arranjo, para ele, até seus rascunhos tinham que ser perfeitos. Chris não pensava desse jeito. Erros podiam ser consertados com o tempo, falhas podiam ser modificadas e uma boa conversa era o suficiente para mudar opiniões, mas era quase impossível conversar com o rapaz sem ter que ouvir uma gracinha. Era um homem de muita paciência, mas Changbin o testava até o limite.
Trabalhar com Jisung seria bem mais fácil, ele é bem humorado e fácil de conversar. Às vezes o menino até conseguia arrancar algo de Changbin sem ser uma reclamação, e eles enfim tinham uma conversa decente, mas durava pouco até o rapper voltar com suas meias frases.
A noite chegou mais rápido do que percebeu, ambos artistas mais novos já tinham ido embora e Christopher optou por ficar mais um pouco, mesmo depois que eles foram embora, precisava organizar as ideias e trabalhar um pouco, ou não teria uma noite decente de sono — se tivesse. Ele trancou a sala depois de sair e pegou o elevador para o térreo, indo em direção a saída. Se despediu da recepcionista e alguns funcionários que também estavam indo embora, e aguardou em frente ao local o carro da pessoa encarregada pelo trio. Ameya tinha voltado para Austrália no dia anterior, mas deixou claro que seu celular estaria ligado para qualquer coisa que Christopher precisasse, sendo profissional ou não.
Um carro prata grande parou próximo a ele, e ao escutar a buzina, Christopher entrou com a mochila nas costas. Ele sentou no banco de trás e deixou a bolsa ao lado, colocando o cinto de segurança e encarando um velho amigo no banco de motorista.
— Oi Brian hyung. — Bateu devagar no ombro dele. — Há quanto tempo.
— E aí, pirralho. — Brian o encarou pelo retrovisor, um sorriso feliz preenchendo os lábios.
Younghyun — ou somente Brian — e Christopher eram amigos desde o tempo em que australiano era apenas um garoto de dezesseis anos que foi jogado numa cidade nova e totalmente desconhecida. Brian o ajudou em muitas coisas, seja com o idioma novo, as adaptações ao ambiente de trabalho, até seus ensaios, e depois que Christopher mudou-se para Austrália da noite para o dia e estourou no mundo da música eles acabaram perdendo contato. Nove anos se passaram e hoje aquele moleque de aparelho era uma estrela da música e Brian era seu manager.
— Você mudou bastante, Chan. — O rapaz no volante analisou. — Parece que foi ontem que você chegou no meu apartamento chorando porque tinha ganhado uma avaliação ruim no teste de canto.
— Pra que lembrar das minhas vergonhas. — Os dois riram. — Pensei que você tivesse conseguido debutar.
— Tentei, mas a gente faz o que pode. — Brian deu umas batidinhas no volante, dirigindo até o condomínio de Christopher. — Às vezes as coisas não são como a gente imaginava, e estou confortável no meu trabalho atual. Gosto dele.
— Tô feliz por você ser meu novo manager.
— Também tô feliz por te ver de novo. Faz o quê? Nove anos que você não fala comigo, seu garoto ingrato. Esqueceu os amigos. Desde que a gente ficou sabendo que você iria voltar pra Seul o Lino tá doido pra te encontrar.
— Me desculpa, os últimos anos não foram fáceis. — Ajeitou a postura, olhando através da janela as luzes da cidade enquanto o carro deslizava pela estrada. — Mas vou ficar na cidade por um tempo, então o Lino vai conseguir colocar toda a conversa em dia.
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