❥ Capítulo três
Beatrice • Ponto de Vista
Leblon, RJ — 04/02, 09:00 no horário de Brasília.
Senti todos os pelos do meu corpo arrepiados quando acordei e notei o frio que estava naquele quarto. Me sentei na cama e olhei pro ar-condicionado que estava na temperatura 16º, logo notando o porquê de todo frio.
Me levantei da cama ainda meio sonolenta e desliguei o ar, me direcionando até o banheiro e fazendo todas as minhas higienes matinais. O relógio marcava 9 da manhã e ao olhar pela janela já pude sentir o calor infernal que estava fazendo hoje. Ótimo. Além de eu ter que me mudar do lugar que eu cresci pra morar nesse fim de mundo, ainda teria que aturar esse calor de merda que essa cidade tem.
Bufei irritada e fiz um coque nos meus cabelos antes de sair do meu quarto e ir pra cozinha. Rapidamente pude sentir o cheiro forte de café que a mamãe estava fazendo. Sorri fraco e andei até a mesma, a abraçando por trás e encostando a cabeça em seu ombro.
— Bom dia, mãe.
— Bom dia, Bibi. — Ela me chamou pelo meu apelido que só ela falava. — Tem suco, pão, bolo e torradas em cima da mesa. Tô terminando de fazer o café.
Assenti, desencostando dela e me sentando, logo me servindo. Enquanto passava a manteiga na torrada, dei falta do papai e fiquei confusa do porquê ele não estar na mesa, tomando café conosco.
— Cadê o papai? — Perguntei sem olhar pra mamãe.
— Foi resolver algumas coisas da fábrica. — Mamãe disse, se sentando e colocando o café sobre a mesa.
— Mas nós nos mudamos ontem. — Falei com o ar triste.
Em São Paulo, papai quase não parava em casa por conta do seu trabalho. É óbvio que eu entendia que isso era mega importante e que era isso que sustentava nossa família, já que a mamãe por um bom tempo ficou de licença por causa da maternidade dela. Suspiro ao lembrar da época que minha mãe estava esperando pela Larissa, minha irmãzinha que no sétimo mês de gestação teve que ser abortada por conta de problemas na gravidez.
Foi um aborto espontâneo. Mamãe estava passando muito estresse por conta de brigas constantes com o papai e problemas na sua agência de advocacia. Lembro de uma vez que ela chegou a quebrar as coisas dentro de casa num surto de raiva e nem sequer pensou que isso poderia a machucar e machucar minha irmã.
Foram tempos ruins que eu prefiro não me lembrar mais. Depois disso, a mamãe mudou muito, mas até hoje eu sei que ela chora todas as noites por conta da Larissa.
— Eu sei, meu amor. Mas é disso que a gente vive. —Ela sorriu sem mostrar seus dentes.
Suspirei e apenas assenti, continuando nosso café em silêncio até a mamãe resolver o quebrar.
— Já estamos vendo uma escola pra você. — Levantei minha cabeça. — Só para você terminar seu último ano. Consegue fazer isso, não consegue?
— Não tenho escolha. — Tomei meu café e pude ouvir mamãe suspirar.
— É seu futuro, Beatrice. Você precisa se preocupar mais.
— Você sabe que eu só quero fazer um curso de maquiagem e poder me livrar logo desse peso que é pensar no que eu vou ser futuramente, e escola não está incluída nesses planos.
Mamãe se levantou com o rosto incrédulo, me encarando como se eu fosse alguma espécie de criança de 10 anos.
— Você é inacreditável, Beatrice. — Ela riu sem ânimo. — Você estudou as melhores escolhas durante toda a sua vida, fez curso de línguas, fez eu gastar a merda de um dinheirão pra te educar bem pra você chegar agora e dizer que vai viver disso? Maquiagem? — Ela colocou as mãos na cintura. — Você vai fazer o terceiro ano sim e depois disso eu vou te colocar numa faculdade de medicina, você querendo ou não.
Meu sangue ferveu. Me levantei da mesa e encarei minha mãe que estava com os punhos cerrados e com os olhos azuis arregalados numa expressão de indignação.
— Eu vou fazer o que eu quiser fazer. Não é porquê você é minha mãe que pode controlar tudo que eu faço. — Eu apontei o dedo na sua cara.
— Abaixa esse dedo antes que eu quebre ele. — Ela abaixou minha mão com brutalidade. — Eu não criei a minha filha pra ser uma vagabunda que faz bico em lugares de rua e passa fome. Você vai ser uma médica renomada, filha, pense nisso!
Eu soltei uma risada fria.
— Você é tão mente fechada. — Já pude sentir meus olhos se transbordarem de lágrimas de raiva. — As vezes eu fico me perguntando como a minha vida seria sem você e o meu pai. Se eu sou uma pessoa ruim hoje em dia, a culpa é toda de vocês. Eu agradeço à Deus todos os dias por ter tirado a Larissa de nós, porque no céu, ela tá muito mais protegida do que do lado de vocês!
Eu não consegui falar mais nada depois do primeiro tapa ser desferido. Depois de ter deixado meu rosto ardendo, mamãe não esperou mais nenhum segundo antes de me empurrar no chão com força e me fazer bater a cabeça na quina da mesa. As lágrimas que antes lutavam pra não cair, agora já rolavam pelo meu rosto de uma forma desesperada. Levantei o meu rosto em pânico, olhando pra mamãe que retirava o seu cinto e olhava pra mim com um olhar que eu nunca tinha visto antes. Minha respiração prendeu quando ela se aproximou de mim com aquilo em mão. Num reflexo, coloquei os braços em cima do meu rosto, o protegendo e me fazendo gritar em desespero.
— Mãe, para! Não faz isso! — Minha voz saiu embargada.
— Isso é pra você aprender a me respeitar, Beatrice.
Eu podia ter certeza que os meus gritos de dor eram ouvidos da rua depois que ela começou a bater com aquele cinto em mim. Com uma raiva incomum, ela batia com a fivela do cinto nas minhas pernas e no meu rosto, me deixando com cortes e hematomas por toda a região.
— Eu não sei aonde eu errei com você, Beatrice — Ela falava enquanto me batia e ouvia os meus berros. — Você é mesquinha, fútil, uma vagabundinha de merda — Minha garganta ardia de tanto que eu gritava, mas nada adiantava. Ninguém viria me ajudar. — A culpa é minha! Eu te mimei muito e você virou essa garotinha fútil e rebelde!
Eu não tinha mais forças pra gritar. Minha mãe largou o cinto no chão quando viu que mais um pouco ela me apagava. Suspirou, virou as costas e antes de sair, me olhou por cima dos ombros.
— Você tem duas horas pra arrumar as suas coisas e sair da minha casa. A partir de hoje, você é apenas uma desconhecida pra mim. Se for para ter uma filha vagabunda e que não obedece as minhas ordens, eu prefiro que você apodreça na rua.
Catarina saiu sem olhar pra trás. Sim, Catarina, pois de hoje em diante eu não poderia mais a chamar de mãe. Não depois disso.
Com muita dificuldade e dor, me levantei e fui mancando pro meu quarto. Depois de ter colocado a mala em cima da cama, enquanto colocava minhas roupas dentro da mesma eu chorava. Chorava por não saber pra onde rir. Chorava de decepção. Chorava de medo.
Eu sempre soube que a mamãe tinha crises de raiva e ela já me bateu algumas vezes, mas nunca à esse ponto. Já vi o papai amanhecer com arranhões no rosto e algumas marcas vermelhas pelo corpo mas eu nunca liguei pois pensava que não era nada demais.
Eu caí na real. Catarina era uma pessoa deplorável.
Depois de ter arrumado minhas malas, apenas coloquei uma calça jeans e uma blusa de mangas para esconder meus hematomas do corpo e fiz uma maquiagem leve pra esconder os do rosto. Saí do meu quarto com a mala em mãos e vi a Catarina segurando a porta aberta, com os olhos parados no chão para não me encarar. Neguei com a cabeça e me direcionei até a porta, mas fui impedida pela voz da mulher que estava ali.
— Beatrice.
Com uma pontada de esperança, a encarei com meus olhos vermelhos.
— Diga.
— Me dá o seu celular. — Ela falou, estendendo sua mão e eu a olhei incrédula.
— O que? Por que?
Sem me dar chance de perguntar mais nada, Catarina arrancou meu celular da minha mão e eu pude jurar que meu coração foi estraçalhado ao ver ela pressionar com as duas mãos as beiras do celular na perna e o dobrar no meio, quebrando toda a sua tela. Minhas lágrimas de choque desceram pelas minha bochechas e borrou um pouco da minha maquiagem, mas isso não pareceu mexer com aquele diabo nenhum pouco.
— Não quero que você faça mais nenhum tipo de contato comigo, com seu pai e muito menos com a nossa família. Some da minha vida, Beatrice.
Comigo já do lado de fora, Catarina fechou a porta com força e trancou a mesma, me deixando sozinha ali e deixando minha ficha cair ali mesmo.
Encostei minhas costas na porta e fui deslizando até eu cair sentada, chorando copiosamente.
Eu não sabia o que eu iria fazer. Eu estava perdida e completamente desesperada.
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