𝐏rólogo.

Eu estava cansada de me sentir como um peso morto para meus pais.

A constante pressão para encontrar um caminho sólido na vida estava me sufocando. Meu salário na empresa onde eu trabalhava mal cobria minhas despesas básicas, e eu sabia que precisava encontrar uma saída desse ciclo interminável de desânimo. Foi então que decidi alugar uma casa.

Eu passava horas navegando pela internet, procurando algo que se encaixasse no meu orçamento apertado. Finalmente, deparei-me com um anúncio que parecia bom demais para ser verdade: era uma casa espaçosa, com dois andares e um jardim encantador. A descrição mencionava que a proprietária residia no primeiro andar, mas isso não me preocupava. Além disso, a proprietária deixou uma observação dizendo que não havia nenhum animal na casa. Uma escada coberta de madeira separava os dois andares, proporcionando privacidade o suficiente. Também havia uma escada externa que levava diretamente ao segundo andar.

Aquela casa representava uma oportunidade para recomeçar. Imaginava-me decorando o espaço com móveis simples, mas acolhedores. Talvez até plantasse algumas flores no jardim, para adicionar um toque de cor à minha vida monótona. Se a proprietária permitisse, gostaria de adotar um gato, para me fazer companhia durante os dias que estiver carente. A proprietária, eu sabia, era uma mulher ocupada. Passava a maior parte do dia e parte da noite fora, envolvida em seu trabalho.

Essa rotina era perfeita para mim, já que os nossos horários dificilmente coincidiriam. Eu teria a liberdade de me sentir verdadeiramente em casa, sem a preocupação de incomodar alguém com a minha presença. Aquela casa era mais do que apenas um lugar para morar. Era um refúgio, parecia ser um símbolo de esperança em meio à escuridão que parecia envolver minha vida.

Contatei a proprietária da casa e nós discutimos o assunto do aluguel - que, felizmente, era acessível para mim. Também falamos sobre o dia em que eu poderia me mudar, o que foi logo. Após dois dias de espera para organizar os documentos, fui até um café para me encontrar com a proprietária, porém encontrei uma mulher que se apresentou como "Sra. Minatozaki". Deduzi que fosse a mãe da proprietária e peguei as chaves da casa.

[...]

É de manhã, o sol estava no céu e eu estava acompanhada de minha mãe dentro do carro dela. O vento frio de Seul estava batendo em meu rosto, frestas de sol nos meus olhos fazendo minha pele gelada esquentar um pouco. Suspirei com a breve sensação de calor.

━━━ Tzuyu, diga-me que você sabe cozinhar algo básico... Não quero ver minha filhinha doente. - Minha mãe falou enquanto estacionava o carro em frente à residência.

━━━ Eu aprendi um pouco quando tomei conta da cozinha da lanchonete do pai, mamãe. Não se preocupe.

O fato de que minha mãe nunca me deixava cozinhar em casa me atormentava, isso me fazia sentir ainda mais um peso morto.

━━━ Ah... - Ela arrumou seu batom enquanto se via no vidro do motorista. Abriu as portas do carro automaticamente e saiu, pegando a chave e abrindo o porta-malas.

━━━ Mamãe, pode me ajudar a organizar as coisas? - Perguntei enquanto saía do carro e ia para a traseira, pegando uma mala e tirando a chave da casa do bolso.

━━━ Sim. Mas não vou ficar por muito tempo, preciso trabalhar.

━━━ Você trabalha para si mesma, poxa, por que não fica para tomar um café hoje? Pode pegar seu notebook e...

Fui interrompida por ela.

━━━ Óbvio que não, Chou! Você está me desgastando igual o seu pai. - Ela pegou as chaves da minha mão e foi andando até o portão, o som alto dos seus saltos batendo no chão era irritante.

━━━ Ah, tudo bem. - Resmunguei baixinho, suspirando e pegando duas malas, indo até a entrada da casa.

Ao passar pelo grande portão de madeira, me deparei com um jardim limpo, mas não tão bem cuidado. Olhando reto, havia uma pequena mesa de metal com duas cadeiras ao lado da porta do primeiro andar. No lado direito da porta, havia uma escada de metal com corrimãos. Não pude deixar de reparar que tudo estava tão limpo e organizado, além de notar que o vaso de flor ao lado da porta do primeiro andar estava perfeitamente saudável.

Quando me aproximei da porta do primeiro andar, havia um post-it amarelo colado. Estava escrito "Seja bem-vinda. Eu passo o dia no trabalho, então não vamos nos ver. Tenha um bom dia :)" de caneta preta.

Sorri timidamente após ler o bilhete.

Finalmente teria uma amiga, mesmo que nós não soubéssemos nem o rosto uma da outra.

━━━ Chou Tzuyu! Venha aqui! - Ouvi minha mãe gritar do segundo andar.

Retirei o post-it e guardei no meu bolso direito, pegando as malas que antes estavam na mesa e subindo rapidamente as escadas do lado de fora. No andar de cima, pude ver uma grande sacada, com uma mesa e duas cadeiras também; e mais uma escada ao lado dela. Ao olhar para a esquerda, vi a porta da minha casa. Ao lado, havia uma grande janela sem grade que estava aberta, e lá estava a cara emburrada da minha mãe.

━━━ Você é tão inútil que não reparou se tinha grade nas janelas quando alugou essa maldita casa? E se aquela mulher for casada e o marido dela for um stalker assassino!? - Ela falou com raiva, passando a mão pelo cabelo.

━━━ Calma, mãe! Ela não é casada e eu vou providenciar uma grade assim que estiver trabalhando novamente. - Falei, levando a mão na minha boca após falar as duas últimas palavras.

Havia pedido demissão do pequeno mercado onde trabalhava, já que queria um trabalho mais próximo da minha casa e, principalmente, onde não sofresse bullying pelos funcionários.

━━━ Você não está trabalhando? - perguntou enquanto saia da casa, indo em direção a escada do lado de fora para o primeiro andar.

━━━ Não. Eu pedi demissão há dois dias.

━━━ Como você tem coragem de fazer isso? Você demorou dias para achar alguém que te contratasse! - ela agarrou meu braço, irritada, enquanto descia as escadas comigo.

━━━ Eu não sou mais uma criança, mãe. Você querendo ou não, eu sou uma adulta. - Eu soltei meu braço com força. Fui andando em silêncio até o carro, tirando todas as malas rapidamente e deixando na calçada. ━━━ Você está me dando dor de cabeça. Por favor, saia. - apontei para a rua, com raiva de mim mesma por estar expulsando minha própria mãe, a mesma que deu a vida para me dar os melhores estudos.

━━━ Você é inacreditável, Chou. - ela riu. ━━━ Uma vagabunda como sua irmãzinha. - ela parou em frente ao carro, pegando um cigarro e colocando na boca, acendendo-o em seguida.

━━━ E você é uma mulher tão egoísta que afastou todos que amavam você, principalmente o papai. Aliás, não chame aquela estúpida de minha irmã, entendeu? Sullyoon, definitivamente, não é minha irmã. - Eu cuspi as palavras na cara dela, algo que estava entalado na minha garganta desde sempre. Esperava que ela fosse rebater, sendo com palavras ou me espancando, como sempre faz. Mas, na verdade, ela apenas suspirou e foi até o banco do motorista, se sentando.

━━━ Já que você é uma adulta, quero que reconheça seus equívocos e implore perdão. - ela proferiu enquanto ligava o carro. ━━━ Quando se tornar uma pessoa de caráter e valores sólidos, sinta-se à vontade para me procurar, Chou.

E assim, ela partiu, deixando-me à mercê das lágrimas salgadas que percorriam meu rosto. Desmoronei completamente na calçada. Detestava como ela me fazia sentir-me desprezível, simplesmente por ser a primogênita de pais divorciados e por não atender às expectativas por ser lésbica e considerada "inútil". Permiti que as lágrimas fluíssem, prometendo a mim mesma que nunca mais permitiria tal humilhação.

Não seria submissa a ninguém, jamais aceitaria ser tratada como um ser humano descartável. Jamais.

Respirei fundo e ergui-me, limpando minhas lágrimas com as costas da mão sobre a calça, agora levemente empoeirada. Enxuguei os olhos e peguei o máximo de malas que pude carregar, transportando-as para dentro da minha residência. Dispus-as sobre a mesa da entrada, repetindo o processo até que todas as minhas pertences estivessem devidamente organizados.

Após uma inspiração profunda, comecei a transferir todas as malas para o andar superior. Uma vez concluída a tarefa, finalmente permiti-me sentar no sofá de couro, adornado por uma manta amarela. Aguardei que a exaustão se dissipasse, no entanto, gradualmente, meu corpo relaxou em excesso, minhas pálpebras pesaram e minha respiração desacelerou.

Gradualmente, a consciência foi se esvaindo, levando-me a sucumbir ao sono sobre o caloroso sofá.

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