Capitulo 2 - Luise Carvalho
O próximo que eu ouvir dizer que prefere levar um tiro a fazer qualquer outra coisa, eu mesma vou atirar para provar o contrário.
Meu ombro queimava e talvez estivesse começando a me infeccionar. Eu sentia meu corpo quente e muito frio. Eu diria que estava com uns 37º de febre. Talvez mais. E a dor não me deixava pensar muito.
A direção estava no automático, minha mente já sabendo para onde deveria guiar o carro para manter Jake e eu seguros.
Jake não falou nada durante o caminho. Sequer olhou para mim. E eu não poderia culpá-lo.
Eu imaginei tantas vezes como seria nosso primeiro encontro, quando finalmente ultrapassamos a barreira do celular. Nenhuma delas envolvia assassinato e fuga.
Sei que fuga faz parte da vida dele e assassinato da minha. Mas, logo no primeiro contato presencial é bem pesado.
Diversas músicas preencheram o silêncio até chegarmos no chalé Dante, que pertencia ao meu tio e não era mapeado na região turística. Estaríamos sossegados por um tempo. Pelo menos, até eu me recuperar e conversar com o Jake.
Paro o carro de qualquer jeito e o chamo para entrar, pegando minha mochila no banco de trás.
Meu primeiro impulso é acender a lareira. Não sabia se era febre ou não, mas a temperatura parecia ter caído e a cabana estava gelada.
- Fique a vontade! Os quartos ficam no andar de cima. Escolha um. Os dois têm banheiro.
Abro a mochila e pego uma cartela pequena de comprimidos e uma garrafa de água.
- O que está tomando?
- Tramal. Um remédio que consegui no Brasil. É o mais próximo da morfina que eu tenho. Ele vai me deixar dopada por umas 24 horas, no mínimo. Tenho alguns minutos antes dele fazer efeito. Você quer conversar agora?
- Onde estamos?
- Em um chalé do meu tio. Fica fora do alcance turístico e não está nos mapas antigos que tem na cidade. Estamos seguros. - afirmo com segurança.
- Como conseguiu esse remédio?
- No Brasil, ele é vendido em farmácia. Eu tenho parentes lá. Na verdade, a Jessy é minha prima. Mas, como eu estava com outro nome, combinamos de parecer desconhecidas. Ela se mudou para Duskwood para ficar mais perto do Phil. E não, ele não sabe do meu parentesco com a Jessy.
- Por que mudou de nome?
Fico desconfortável com a pergunta. A resposta envolvia muitas camadas e segredos que eu gostaria que Jake não soubesse. Pelo menos, por agora.
- É complicado, Jake. Eu vou te contar no momento certo. Mas, por agora, saiba que eu fiz porque foi preciso, para proteger minha família e a mim mesma.
Começo a sentir o corpo um pouco mais leve, a tensão me deixando aos poucos e a mente ficando distante. A dor agora começava a latejar devagar.
O remédio estava começando a fazer efeito.
Jake percebe algo, já que sugere que a gente suba e descanse.
Os quartos era iguais.
Todo feito em madeira, com janelas grandes de correr e cortinas escuras para impedir a passagem de luz. As camas eram de casal com um par de travesseiros de tecnologia Nasa - aqueles que afundam e se ajustam com o peso da cabeça. O guarda-roupa planejado era espaçoso e preto, assim como a cama e as escrivaninhas.
No banheiro, havia uma banheira espaçosa para um um banho relaxante. O vaso, pia e acessórios eram pretos, contrastando com a banheira branca e o piso em madeira.
Opto por tomar banho no chuveiro, sentindo o corpo cada vez mais pesado e a sonolência batendo forte.
Visto uma calça e uma regata e me deito na cama, adormecendo quase imediatamente.
A próxima coisa que me lembro, é de Jake em cima de mim, me chacoalhando e me chamando desesperado, os olhos preocupados e os ombros tensos.
- O que...?
Estava desnorteada, a cabeça girando e o corpo pesado. Estava mais frio?
- Eu acordei com você gritando e vim te ver. Você estava chorando e não acordava - seu dedo seca o rastro de uma lágrima de forma cuidadosa.
Seu corpo está perto, consigo sentir sua respiração e me sinto zonza. O que havia acontecido?
Ah, sim! É claro...
- Foi um pesadelo. Me desculpe... Achei que o remédio me apagaria o suficiente para não sonhar - a voz saiu embargada e tento secar o rosto, afastando seu toque. - Já faz tempo que eu o tenho... Não sei o que é dormir uma noite inteira sem pesadelos tem alguns anos.
- Você quer me contar sobre? - seu polegar acaricia minha mão e fico olhando por um segundo nossas mãos juntas. Elas parecem peças perfeitas do quebra cabeça.
- Sabe por que eu me empenhei ainda mais em achar a Hanna depois que soube que ela era sua irmã?
Quase posso ver sua expressão confusa, tentando entender qual era a relação dos assuntos.
- Eu perdi a minha irmã. Ela foi assassinada. Desde então, eu tenho o mesmo pesadelo. 10 anos do mesmo pesadelo. Eu não queria que você e a Lily tivessem que sentir a mesma dor que eu senti. Eu quis proteger vocês disso. Eu entrei no FBI para isso. Para pegar o assassino da minha irmã. Me perdoe por não ter te contado.
Jake apenas me abraçou forte, fazendo carinho na minha cabeça.
- Eu sinto muito, Luise. Eu não sabia. Eu... Me desculpa.
Sem que eu permitisse, lágrimas desceram pelo meu rosto e um soluço escapou da minha garganta. Eu nunca tinha falado sobre a morte da minha irmã desde o ocorrido.
Agora, completamente drogada e nos braços do homem que acabei me apaixonando enquanto fazia uma busca e resgate, o luto e o choro reprimidos vieram a tona com força.
Jake me apertou mais contra seu corpo, se ajeitando na cama e puxando para seu peito. Não disse nada. Apenas permitiu que eu chorasse tudo o que precisava.
O efeito do remédio não demorou a me derrubar na escuridão do sono de novo.
Eu não sonhei com minha irmã de novo, mas, também não tive um sono tranquilo. Minha mente balançou entre o estado consciente e inconsciente; o estar acordada e dormindo ao mesmo tempo.
O que sei, é que Jake levantou durante a noite e me abraçou quando voltou para cama.
Talvez tenha colocado algo no meu braço e na minha testa.
Quando acordei de verdade, estava um caco e mais cansada do que quando fui me deitar. Mas, me surpreendi ao ver Jake dormindo sentado na beira da cama, segurando minha mão.
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