XXVII - Uma Nova Família

                                  Gustavo

       Voltamos para a sala e encontro meu anjo em uma conversa animada com Natália, ali não vejo rivalidade ou animosidades, vejo respeito de ambos os lados, o que me faz pensar que talvez possamos conviver bem pela Melissa, porque agora que eu sei que ela é minha filha não deixarei que Natália a leve embora. Caminho até os dois e quando me veem abrem um grande sorriso, não vejo minha mãe em lugar nenhum a vista o que me faz pensar que ela já fugiu daquela situação toda, mas eu ainda pego ela, tenho que resolver que história de visita na minha casa é essa.

        — Amor, estava aqui perguntando mais sobre como a Mel é, vem ouvir também. Quero saber tudo sobre aquela princesinha lá dentro. — Ele fala e isso aquece meu coração, por que o que menos quero agora é brigar por causa da minha filha. Me sento ao seu lado e fico na espectativa de voltarem a conversa, mas Natália me surpreende novamente.

       — Não Matheus, eu acho que você entendeu errado. Eu disse que vou embora para sempre. — Meu coração gela no mesmo momento.

       — Você vai levar minha filha embora novamente? Nos dê essa oportunidade Natália. — Tento soar o mais calmo possível, porém a furia já começa a me tomar.

       — Calma Gustavo, eu não vou levar ninguém embora. Eu disse que "eu" vou embora e não que "nós" vamos embora. Foi por isso que eu pedi para conversarmos todos juntos, eu quero que a Melissa fique com vocês dois. — Ela fala e eu tomo um grande susto, como assim ficar com agente? Será que ela realmente faria isso?

       — Depois do que nos aconteceu estou com medo deles a usarem para querer ferir vocês dois e nas minhas condições eu não posso protegê-la. Eu amo Minha filha, fiz tudo ao meu alcance para que ela tivesse uma boa educação, mas agora é a sua vez de cuidar e proteger ela do perigo. Eu sei que tenho a palavra de Hector que tudo vai dar certo, porém de qualquer maneira meu tempo é curto. — Ela fala e não consigo entender o por que dela ficar repetindo que seu tempo é curto.

       — Natália o que você quer dizer com " meu tempo é curto?". —  Matheus pergunta, e vejo que ele prestou atenção Nas mesmas coisas que eu.

       — Eu prefiro não falar sobre isso, de qualquer maneira não há nada que você possa fazer para me ajudar. — Ela diz e eu começo a me preocupar de verdade, suas palavras soam como despedida, como se ela estivesse morrendo. Paro por um minuto assimilando todas as suas palavras e é isso, Natália está doente.

       — O que você tem? Qual doença você tem? Qual a probabilidade de cura? — Meu modo médico entra em alerta e as perguntas saem como enxurradas.

       — Eu tenho Hemangioblastoma, não tem o que fazer mais. — Ela diz e eu paro de respirar, sinto as mãos de Matheus apertar minha perna, eu preciso pensar.

       — Natália, pra tudo temos um jeito. Eu vou olhar seus diagnósticos e estudar seu caso e vamos conseguir uma solução, não precisa abandonar nossa filha. — Falo e sei que tanto ela quanto Matheus estão surpresos, mas se eu posso tentar ver, por que eu não faria, afinal acima de tudo sou um médico.

       — Gustavo eu só preciso que vocês dois cuidem da Mel, a ensinem a ter respeito pela relação de vocês, a ensinem a chamar ambos de pai, só peço que deem todo amor do mundo a ela, se vocês me prometerem isso eu já ficarei muito feliz. — Ela diz, mas eu não me conformo, ela tem que lutar.

       — Tudo bem em prometo, mas você precisa lutar. — Eu falo e seu olhar vai pra longe.

       — Nós fizemos de tudo já, posso te mostrar, mas eu estive nas mãos do melhor oncologista de de Boston e nas melhores clínicas, graças ao meu ex marido, mas tudo isso foi inútil. — Ela fala e novamente sou pego de surpresa. Quando ela foi casada? São só cinco anos sem nos vermos.

       — Qual o nome do seu onco?
— Pergunto e ela me olha tão intensamente que me perco um pouco, sabe aquela raiva toda? Não existe mais, tudo que sinto agora é empatia por sua dor.

       — Doutor Scot Filiph. — Ela diz e minhas esperanças morrem no mesmo momento. Esse cara é uma lenda no nosso meio, e se ele é seu médico tenho certeza que ele fez tudo ao seu alcance.

       Abaixo minha cabeça e seguro meus cabelos com tanta força que sei que os nós dos meus dedos estão perdendo a cor . Sinto Matheus me abraçar e me trazer para seu colo, me sinto frágil nesse momento, não porque eu goste da Natália, nem de longe é isso, mas como minha filha vai ficar sem uma mãe, como vou explicar ao meu bebê que sua mãe foi embora para protegê-la da morte? Fico ali deitado alguns minutos e o silêncio de ambos começa a me incomodar.

       — Então como você escolheu acontecer? — Pergunto, porque muitas pessoas preferem ficar em casa, outras no conforto do hospital, então eu preciso saber.

       — Eu vou voltar para Boston hoje a noite, já estão me esperando por lá. Eu ter vindo me despedir da minha família fez com que Pedro me achasse, e por consequência me fez ver que fugir de você não tinha sido o certo, eu deixei escrito em um testamento, que você é o pai biológico dela, então de qualquer forma ela chegaria aos seus braços, tudo isso só acelerou o processo. Não deixe aquele desequilibrado por as mãos nela novamente só te peço isso, e não deixe que ela se esqueça de mim também.

       — Olha, eu ja conversei com ela sobre tudo isso, a Mel é uma criança muito inteligente, ela sabe que estou morrendo e ela sabe que você e Matheus serão seus novos pais. Tudo que vocês precisarem falar com ela é só sentar e explicar que ela entenderá, ela tem a inteligência da sua mãe. — Ela fala e como posso fazer tudo que ela me pede sem me preocupar? Como ela pode contar para uma criança que ficará sem sua mãe? Natália às vezes é muito cruel, mesmo eu sabendo que é a melhor forma.

       Natália levanta e vem em minha direção, observo seus braços me rodearam e fico sem reação, mas não a afasto, sei que aquele é um abraço de despedida. Logo em seguida ela se abaixa em frente onde Matheus está sentado e repete o mesmo gesto com ele, lhe fazendo os mesmos pedidos. Sinto um aperto enorme no meu peito quando minha mãe entra novamente na sala e abre os braços para Natália e sem muita demora ela também a abraça, um abraço cheio de desculpas e agradecimentos. Minha mãe diz algo em seu ouvido e elas se separam e ela caminha para a cozinha, seu tempo ela é curto e quando ela volta pega sua bolsa e sai sem dizer mais nenhuma palavra.

       O silêncio na sala é sepulcral até um furacãozinho entrar na chamando pela mãe, lágrimas escorrem por seu rostinho e tenho uma enorme vontade de chorar também. Vou em sua direção e me abaixo em sua frente, abro meus braços e ela se encaixa ali, sinto suas lágrimas molharem minha camisa e isso me faz ter uma pequena raiva momentânea de Natália novamente, como ela tem coragem? Eu nem conheço minha filha e já sei que jamais teria coragem de abandoná-lá.

                             Marcelo/Matheus

       No momento em que vi Natália entrar pela porta acompanhada pela linda garotinha eu já sabia, aqueles olhos, aquele olhar, eram os mesmos do Gustavo. Eu sabia que ela poderia usar disso para tê-lo nas mãos, mas algo me dizia que não era essa a intenção dela. Então ela nos contou tudo aquilo e eu me compadeci dela, ouvir ela me pedir que cuidasse da Mel como se fosse minha filha, fez algo dentro de mim mudar, fez algo se abrir. Eu sei o quanto minha vida nesse momento está uma bagunça, que não só eu, mas como Gustavo também está correndo risco, não sabemos o que esses loucos vão tentar ainda.

       Tivemos um mês tranquilo, mas até quando essa paz vai durar? Não sei e tudo que me importa agora é me recuperar ainda mais rápido, agora sou responsável por uma vida, uma vida encantadoramente linda. A Mel tem a pele negra como a da mãe, cabelos com lindos cachos e olhos tão azuis como o do pai, fora a simpatia que ela exala, nem a conhecia e já havia me encantado por ela.

       — Anjo! — Ouço Gustavo me chamar e só então percebo que eu viajei em meus pensamentos.

       — Oi amor. — Respondo e vejo ele me olhar com preocupação nos olhos.

       — Está tudo bem com você? — Ele pergunta e minhas suspeitas são confirmadas.

       — Estou bem sim, estava aqui pensando que agora sou pai. Que serei tão responsável por ela quanto você e no quanto eu já estou apaixonado por aquele ser tão pequeno. — Digo e sinto ele suspirar aliviado.

       — Como vamos fazer isso funcionar anjo? Estou tão assustado com todas essas informações que não sei qual melhor caminho a seguir. Não sei se eu fiz certo ao deixá-la sair daqui dessa forma. — Ele fala e posso sentir seu olhar sobre mim. Então ele continua sem me dar a chance de responder.

       — Como vamos fazer isso com cada um morando em uma casa? Nenhum de nós dois faz a minima ideia de como criar um filho, já imaginou como está a cabecinha dela nesse momento? A minha está uma verdadeira bagunça. — Ele fala e só então paro para pensar no quanto estamos ferrados, eu só estava pensando na parte boa da coisa toda, mas me esqueci da parte prática e nem é só nosso estado cívil ou as duas casas, também teremos que pensar na parte jurídica, sei que ele não está pensando nisso, porém precisaremos ver todas essas formalidades.

       — Nós vamos transformar um noivado em um casamento. — Minha sogra fala nos tirando de nossas bolhas.

       — Mas Bárbara está muito encima da hora e nosso casamento queremos do nosso jeitinho, esse noivado está muito exagerado já imagina ele se transformando em um casamento. Sei que você é minha mãe estão fazendo tudo com muito amor, mas eu realmente queria algo mais simples no casamento. Nós concordamos com isso. — Falo e vejo ela fazer um enorme bico, eu sei que serei voto vencido, mas se elas irão transformar isso em um casamento então eu vou ter a última palavra desta vez.

       Olho para o traidor do meu namorado e ele apenas dá de ombros. — Traidor! — Digo e vejos os dois rirem de mim.

       — Olha Bárbara, se isso vai realmente se tornar um casamento então chame minha mãe porque teremos que mudar algumas coisas, vamos deixar esse casamento com a minha cara e do Gustavo. — Digo e vejo minha sogra bater palmas feliz da vida, Bárbara é uma figura depois que se conhece bem ela.

       Ela sai deixando eu e Gustavo para trás, quando ela passa acaba deixando a porta entreaberta e alguns minutos depois eu vejo minha bonequinha se abaixar e ficar encolhidinha no canto do corredor. Tão linda!

       — Amor, olha quem está ali encolhidinha no corredor. Pega ela pra mim por favor? — Na mesma hora em que peço Gustavo se levanta e segue até onde Mel está. Vejo ela olhar para cima e quando ele estende os braços ela não demora muito para estar em seu colo.

       Sei que será muito difícil essa adaptação, será complicado não ter a Natália ali do lado dela, mas se depender de mim naonlhe faltará nada, nunca.

       — Oi bonequinha, está tudo bem? — Pergunto assim que Gustavo a coloca em meu colo. Ela não me responde, mas se agarra em mim como um coala, fico ali naquele abraço muito apertado um tempinho e quando me dou conta ela está dormindo.  Gustavo a levou com cuidado e a pôs em minha cama.

       Como não sabíamos o que fazer com a Mel até o dia do casamento, fomos conversar com a Bárbara que resolveu que era melhor Gustavo passar a dormir aqui também, para que nossa pequena bonequinha já fosse se acostumando com a nossa presença como um casal.

       Agora estou eu aqui tendo pensamentos nada impuros com o meu doutor, já que desde aquele dia no hospital não tivemos mais nenhum contato mais íntimo e isso já está me enlouquecendo. Esse dia havia sido extremamente cansativo, mas também muito gratificante.

       Bárbara em pouco tempo arrumou um quarto lindo para Mel, cheio de flores na parede e alguns brinquedo que não sei de onde surgiram, mas que deixaram a nova integrante da família radiante. Ela nos contou que teve que deixar todos os seus brinquedos para trás e quando aquele imbecil a pegou ele rasgou o único urso que ela tinha consigo, mas em momento algum eu ouvi ela reclamar, sempre com um sorriso no rosto.

       Barbara também arrumou o quarto onde eu estou instalado para acomodar também as coisas do Gustavo, que segundo ela tem um mês que a vem azucrinando por isso. Eu não sabia dessa parte onde ele ficava a questionando sobre não poder dormir lá, mas amei saber que ele também sente minha falta.

No jantar tardio, Bárbara convidou meus pais para virem me ver e conhecer a nova integrante da família, minha mãe ficou encantada pela Mel, mas meu pai ficou um tanto incomodado, é claro que ele não disse isso a ninguém, mas eu perguntei e ele me disse, " filho vocês nem se casaram e já estão assumindo uma responsabilidade dessas.", ele pode até ter razão, mas eu não trocaria nada do que tenho vivido, e quando eu digo nada é nada mesmo, porque afinal se aquela tragédia não estivesse acontecido comigo possivelmente eu jamais estaria vivendo meu conto de fadas.

      Agora são onze e quarenta e cinco e eles acabaram de ir embora, minha cabeça doi de tanto fazer planos e mudar planos para nosso casameno, só agora consegui respirar aliviado.

       — Amor! — Chamo Gustavo que está deitado no outro sofá, sua cara denúncia seu cansaço, afinal ele trabalhou o dia todo.

       — Oi, pode falar. — Ele diz sem ao menos levantar a cabeça para me olhar.

       — Vamos subir, a Mel precisa ir para a cama e nós dois também. — Falo e sem muita demora ele levanta e me ajuda com a Mel. Acho que ele só estava me esperando chamar.

       Ele a leva para seu novo quartinho e eu sei que está tão cansada que só acordará amanhã. Resolvemos que amanhã seria um bom dia para dar um passeio no shopping com ela e quem sabe escolhermos juntos seu quartinho para nossa casa.

       Saio dos meus pensamentos com meu corpo sendo levantado e tomo um pequeno susto, meu muito malvado "noivo" apenas ri da minha expressão e acaba levando um tapa que o faz ri ainda mais. Ele sobe as escadas e eu acabo me aninhando em seu peito, ouvindo seu coração bater descompassado.

        Entramos no quarto que agora é nosso e posso ver fogo em seus olhos, eu quero muito dar esse passo na nossa relação, mas ainda tenho certo receio, apesar de não me lembrar como foi, sei que não sou mais virgem, mas me sinto como se fosse. Eu quero me entregar, quero viver essa nova descoberta com ele, porém agora não sei se hoje será esse dia. E se ele não gostar? E se eu não conseguir fazer ele sentir prazer? Mas quando olho para ele novamente ele está com aquele olhar de lobo mau que está pronto para comer a chapeuzinho.

       Não sei no que fazer, mas sei que faço qualquer coisa por esse homem.

                              2614 palavras

      Desculpa não ter aparecido ontem, mas houveram alguns contra tempos.

   Beijinhos StramberyBlack💕💕

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