III - Conhecendo e Reconhecendo
Marcelo*
Acordei às seis e quarenta e cinco da manhã, com a Vânia, a enfermeira boazinha me chamando para receber a medicação e fazer minha higiene, pois às sete e meia seria levado para fazer alguns exames. Bem foi o que me disseram.
Pontualmente às sete e meia, dois enfermeiros vieram me buscar. Me colocaram em uma cadeira de rodas, porque devido aos anos em coma, houve uma leve atrofia dos músculos inferiores, mas nada que uma boa fisioterapia não resolva, segundo a Vânia.
Foi uma manhã muito cansativa, passei por, pelo menos, cinco exames diferentes e por vários especialistas que me explicaram como proceder de agora em diante.
Já passava do meio do dia quando voltei para meu quarto, e Vânia já me esperava com minha refeição e mais remédios. Conversamos um pouco e ela foi terminar suas obrigações enquanto eu fui descansar um pouco.
Acredito que devo ter dormido à tarde toda, porque quando acordei já estava escuro, vasculhei o quarto com os olhos na intenção de achar uma forma de chamar alguém para acender as luzes, pois odeio a sensação que o escuro me traz e me acompanhar ao banheiro. Forço minhas vistas e encontro algo inesperado.
Na poltrona no canto do quarto vejo alguém dormindo, não sei quem é, pois me disseram que nesses cinco anos nunca recebi uma única visita de fora desse hospital. Fico observando mais um tempo, tentando ver o rosto da pessoa que dorme tão profundamente, mas desisto porque realmente não gosto do escuro. Dou um pigarro, no intuito de chamar a atenção da pessoa adormecida e parece funcionar, pois ela se levanta e acende a luz.
No instante em que seus olhos cruzam com os meus, senti como se o universo inteiro estivesse girando. Meu coração disparou, mas, ao mesmo tempo, me senti acalentado, como se ali fosse meu lugar no mundo.
Minhas mãos começaram a suar, me assustei porque não sabia o que estava acontecendo comigo. Saí do meu estupor com sua voz invadindo meus ouvidos, com uma pergunta que não prestei atenção. Ele me olhava como se esperasse por minha resposta, mas eu nem sabia qual tinha sido a pergunta.
Fiquei olhando para ele, sem saber o que dizer, mas ele percebeu que eu estava confuso e refez a pergunta.
— Você precisa de algo? - Desta vez eu ouvi, mas minha voz não saía, eu estava hipnotizado pelo homem na minha frente.
Ele se aproximou mais e tocou minha mão, senti como se uma corrente elétrica percorresse todo meu corpo e sei que ele sentiu a mesma coisa, porque no mesmo instante ele recuou a sua, mas continuou ali a centímetros de mim.
Gustavo
A cirurgia foi exaustiva, foi um pouco mais complicada do que achamos que seria, mas no fim tudo deu certo e meu paciente se recupera no CTI.
Depois que saí do bloco, fui a procura de notícias sobre os exames do Marcelo, conversei com alguns dos meus colegas e fiquei bastante satisfeito com os progressos dele após acordar.
Quando consegui voltar para meu consultório já passava das quinze horas. Me joguei na cadeira e meus olhos se fecharam pelo cansaço, mas não demora muito, ouço uma batida leve na porta, respondi no automático. — Entre. - E quando a porta se abriu, era a enfermeira Vânia com uma bandeja contendo uma refeição. Foi só aí que me dei conta de que não havia almoçado e estava com apenas uma xícara de café preto.
— Vânia, você salvou meu dia, estou faminto. - Falo já me levantando para chegar até a comida.
— Eu sabia Dr. Gustavo, o senhor sempre cuida de todos e sempre se esquece de comer. - Ela diz fingindo-se de brava.
— Obrigado! - Digo colocando uma garfada de comida na boca.
— Por nada! - Ela diz e me olha pensativa. — Bom, tem outro motivo para eu ter vindo. - Ela fala e faz uma pausa, eu a olho com curiosidade e a estímulo a continuar.
— Então me fale o que a traz aqui? - Ela arqueia uma Sobrancelha, forçando um pequeno sorriso.
— Doutor, há cinco anos vejo o senhor acompanhar o Marcelo, mas desde que ele acordou, não o vi ir vê-lo nenhuma vez. Posso perguntar o por que? - Eu paro de comer e penso um pouco antes de lhe responder, mas nada me vem a cabeça a não ser a verdade, então respiro fundo e digo tudo de uma vez.
— Vânia, e se eu lhe disser que não fui lá por medo, o que você me diria? - Pergunto e observo suas reações.
— Medo de que doutor? - Ela me pergunta sem nenhuma mudança de humor.
— De não ser aceito, de ser rejeitado, dele não entender meus sentimentos. - Falo e ela me olha com um olhar interrogativo e logo abre um sorriso largo para mim. A princípio não entendo bem sua reação, mas aí ela começa a falar.
— Doutor Gustavo! O senhor se apaixonou por um garoto que estava mais morto do que vivo?!
Aquilo não soou como uma pergunta e sim como uma maldita afirmação e ela continuou a falar.
— Eu sabia que não era só cuidado de médico para com um paciente que o senhor tinha com aquele garoto. Seus olhos brilhavam todas as vezes que entrava naquele quarto.
Eu apenas fiquei lá, inerte, ouvindo o que saía de sua boca e me questionando se as outras pessoas haviam notado também. Saio do meu transe ouvindo ela me chamar para a realidade.
— Você ouviu minha pergunta doutor?
— Desculpe-me, acho que me distraí, mas qual foi a pergunta mesmo? - Pergunto meio sem jeito por não tê-la ouvido. Ela cerra os olhos para mim como forma de advertência, mas repete a pergunta.
— Eu perguntei se o senhor é gay ou apenas se encantou por esse garoto? Ou se isso não é apenas pena, pela forma que ele chegou aqui?
Me assusto com suas perguntas, mas não deixo de respondê-la.
— Olha Vânia, primeiro, nunca me senti atraído por outro homem, mas também nunca me senti tão atraído por uma mulher, nem por… - Paro de falar, porque não quero falar sobre aquela pessoa, que tanto me fez mal no passado. Respiro fundo algumas vezes e continuo a falar.
— Olha Eu não sou bobo ou inocente de achar que sou cem por cento hétero, porque não sou. Eu tive cinco anos para ter certeza do que sinto por ele, mas aí entra o meu medo, antes ele estava dormindo, era um amor unilateral, eu não tinha expectativas nenhuma de ser correspondido, mas agora ele acordou e tenho medo, muito medo mesmo, dele não aceitar esse amor. Abaixo minha cabeça, e me sinto tão vulnerável naquele momento.
— E se ele for hétero e sentir repulsa de mim? E eu nunca confundiria amor com pena. - Ela me ouviu calada e quando terminei, me disse uma única frase.
— Gustavo, levanta essa bunda daí e vá lutar pelo seu amor, nada vem de graça ou cai do céu.
Eu ri alto do modo como ela falou comigo, e apenas assenti com a cabeça. Depois disso ela se levantou e saiu da minha sala, me deixando sozinho com meus pensamentos.
1182 palavras
E aí quem gostou de saber que nosso anjinho e nosso doutor gatão estão na mesma sintonia, sem saberem?
Espero que tenham gostado.
Beijos StramberyBlack💕💕
Revisado*
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