O Bicho Papão

Poderia basicamente distinguir isso como o próprio inferno. Eu estava de volta ao meu passado e revivendo o meu maior trauma.

Era sempre de forma explícita a maneira em que me olhavam. Tanto Kwan quanto o desgraçado do meu pai. Aquela velha sensação de angústia e ansiedade voltará, um futuro imprevisível.

Todas as noite eu trancada a porta de meu quarto por segura, tanto para ir dormir ou até mesmo para ficar sozinho tentando me reconectar comigo mesmo. Eu precisava começar aceitar a realidade e que ela nunca mais irá voltar. E com tudo, eu preciso me esforçar ao máximo para sair daqui. É eu sei, eu sou basicamente de maior, mas existe um problema em mim que me faz se tornar dependente de alguém, apenas por enquanto. Eu já fui um grande problema, quer dizer um problema causado pelos meus pais. Desde novinho segundos os laudos clínicos, eu apresentava tendências suicidas e transtornos alimentares.

Eu nunca quis isso, eu tinha medo do bicho papão, mas depois dos meus seis anos, ele foi embora e me deixou, assim dando espaço para dois abusadores. Meus pais.

Estar aqui só me faz lembrar do quão doloroso foi. De quanto aquele garotinho o Jimin de seis aninhos, precisava de ajuda.

Felizmente o destino decidiu que eu não seria mais uma daquelas trágicas matérias dos jornais. Minha avó entrou com uma ação na justiça para conseguir a minha guarda. Meu corpo era lesionado e haviam muitas marcas de mutilação. Após exames compraverem a verdade dos fatos, decidiram então passar a minha guarda para a minha avó e assim meus pais não tinham sequer direito a visitas e sempre manterem mais de um metro de distância.

A situação piorou após isso, eu estava liberto deles, mas as sequelas vieram, cicatrizes ficaram. Minha avó disse que eu passei meses calados, não queria ficar perto de absolutamente ninguém. Eu tinha medo das pessoas. Medo de me tocarem, medo de me machucaram.

Conforme eu fui crescendo tudo parecia estar bem, acompanhamento médico, medicações, psicóloga, além do mais não é normal uma criança estar tentando se matar e afirmar aos adultos que não há motivos para continuar a viver. Isso é pesado eu sei, mas foi assim que me aconteceu. Eu tive a minha inocência roubada por aqueles que deveriam ser as pessoas a me protegerem.

Eu ainda me lembro de todas as vezes que eu apanhava de meu pai, ele dizia que era para me educar. Mas, no fundo ele gostava de me torturar. Um psicopata e tanto. Eram praticamente o dia inteiro, eu implorava por ajuda, eu pedia todos os dias para aquilo acabar.

Ainda sim a justiça é falha, meu pai nunca foi preso, mesmo após ser comprovado que me mentiam em cárcere privado, me espacavam todos os dias e fazia abuso psicológico comigo. Uma criança. Mas o dinheiro, ainda sim compra tudo e isso é algo que não falta a ele.

Minha mãe, sumiu no mundo. Após finalmente minha avó entrar com um processo de guarda na justiça, ela fugiu, acredito que por medo de algo lhe acontecer.

– Jimin?— Ouço a voz da esposa de meu pai do outro lado da porta.
— Kath?— Fecho meu notebook e caminho até a porta. Viro a chave e me deparo com a mesma, completamente elegante, com belos brincos de pérolas e um colar extravagante.— Está pronto? Seu pai pediu para chama-lo.
— Ah sim, estou...— jogo meu livro sobre a cama e a acompanho.

Essa noite estaria ocorrendo mais um dos jantares de negócios de meu pai. Provavelmente estaria aqui um grande empresário e sua família.

A sala de jantar estava impecável. Tudo em ordem e em seu perfeito lugar. A mesa enorme estava decorada com o jogo de louças mais caro que tinham.

Ao longo da mesa se encontrava uma mulher beirando aos cinquenta, com um yorkshire embaixo do braço. Estranho a presença do animal, pois pelo o que eu soube Kath e Kwan odeiam animais, mas talvez não tenham falado nada para não desagradar as visitas e arruinar esse jantar. Seus cabelos brancos caiam sobre seus ombros e ao seu lado, segurava com a mão direita sobre a mesa a mão do homem no qual acredito ser seu marido e o negociador dessa noite. O terno denunciava o alto padrão em que viviam, pois aquele modelo eu reconheceria em qualquer lugar é que por acaso foi uma ótima escolha, pois ficou extremamente bom, todo o caimento a cor de chumbo. Para um homem muito mais velho até que ele não era tão feio assim. Cabelo grisalho e bem arrumado, alto, voz rouca, enfim eu gosto.

Ao canto da mesa, havia uma garota na qual me lembro bem. Estava de cabeça baixa e parecia forçar sorriso quando seu pai a olhava. Era nítido o quão desconfortável se encontrava. Os belos cabelos negros já não estavam soltos igual da última vez que a encontrei. Presos em um coque bem alto e volumoso, com uma linda presilha prata com pequenos cristais que formavam flores. Ela estava muito bonita.

— Boa noite senhores...— me curvo como forma de respeito.
— Tradicional...— a mais velha dizia impressionada— os jovens de sua idade não costumam mais serem tão formais e educados dessa maneira.
— Muito obrigado senhora.— Me sento ao lado da garoto.

Em resumo só seria mais um jantar tosco e chato, no qual passariam horas e horas falando sibre ações da empresa. Se eu pudesse escolher não participar disso, com toda certeza já estaria dormindo.

— Eu sou a Genevive...— sussurrou ao meu lado.
— Olá, sou o Jimin. Sinto muito por não termos nos conhecido na melhor ocasião.— Tento conforta-la, já que estavam de frente à Kwan. O cara babaca a qual encurraçou a garota no meu primeiro dia aqui.
— Lamento por isso também. Da última vez eu estava chorando e passarei direto por você sem nem ao menos olhar em sua cara direito.— A vejo dar de ombros e sorrio. Essa era a primeira vez na qual eu sorria dentro dessa casa.

Achamos companhia e um bom bate papo, enquanto todos estavam concentrados. Kwan em alguns momento nos encarava como se houvesse algo a questionar. Pois bem, não havia nada mesmo.

— Jimin?— Ao outro lado da mesa, meu pai me chama— porque não leva Genevive para conhecer os jardins? Kwan os acompanhe, essa conversa deve estar entediante para vocês.
— Vá Genevive, respire um pouco lá fora...— sua mãe a permitiu.

A ideia de ter Kwan tão próximo era desconfortável, claro que ele não tentaria nada com um de nós próximos, mas ainda sim era de se ter receio.

— Fique entre nós...— Genevive sussurrou.
— Claro.— Respondo enquanto a mesma segurava meu braço.

As luzes coloridas do Jardim estavam ligadas, perfeitamente iluminando as flores e os caminhos de pedra até o chafariz.

— Me fale sobre você?— Pergunto quebrando o silêncio.
— O que gostaria de saber? Não tenho muitos segredos.— Respondeu.
— O que gosta de fazer?— Pergunto esperando sua resposta.
— Essa é fácil...— reviro os olhos após Kwan se intrometer em nossa conversa— ela gosta de provocar os rapazes, mas tem medo de liberar o que tem entre...
— Kwan cala a boca, deixe de ser desagradável.— Me puxa pelo o braço o apertando— O que foi? Vai tentar me pegar a força também igual você tentou com ela?
— Não sou de ficar com restos...— me encarava.
— Não foi isso que você disse alguns dias atrás...— me solto e logo após sorrio debochando— seu babaca.

Continuamos sozinhos andando, Kwan aparentemente havia desistido, mas sei muito bem que ele tentaria fazer algo só por vingança de alguém ter o contrariado.

— Porque não contou aos seus pais o que ele fez?— Ela estava calada.
— Medo, sua família não são bem as pessoas mais adoráveis. São pessoas temidas e além do mais todos sabem o que ele fez com você.— Responde.
— Ah...vejo que ainda continuo famoso.— Penso no quanto aquilo me provocava uma sensação tão estranha.
— Nessa cidade, não há quem não conheça. Fico feliz que tenha superado. Mas, eu não entendo o porquê voltou a morar com seu pai depois de tantos anos?— Se eu tivesse escolha não estaria aqui.,
— Eu não tive muita escolha.
— Não consigo imaginar o quão ruim deve estar sendo para você.— Sorrio tentando acalentar a conversa que já estava começando a ficar deprimente.
— De qualquer forma eu não tenho muitas opções, mas se eu pudesse eu fugiria, fugiria para qualquer lugar desse mundo.— Aperto sua mão.
— Estamos com as mesmas vontades aparentemente.— A encaro sem entender.— Quer dizer, você ainda não entendeu o porquê desse jantar está acontecendo?— Nego pois imaginava que seria algo voltado a empresa de eletrônicos do meu pai.— Casamento...— a encaro incrédulo o que estava dizendo.
— Isso é tão antigo, casamento arranjado. Sinto muito por isso, não consigo nem ao menos imaginar o que é ser esposa do Kwan, ainda mais dele.— A vejo dar alguns passos ficando de frente para eu, assim segurando as minhas mãos.
— Jimin, seu pai não te contou, mas não diga nada a ele, não fale que contei. O casamento é entre nós dois, você é o filho legítimo dele.— Solto suas mãos.
— Enlouqueceu? Eu não vou casar, que história absurda é essa?— Me afasto.
— Jimin, pensa um pouco, porque acha que sei pai o trouxe para a casa dele, na maior boa vontade?— Pergunta.
— Por causa dos meus problemas.— Respondo o óbvio.
— Não Jimin, aquele documento é falso. Eu ouvi nossos pais conversando, ele falsificou o documento com o laudo, para traze-lo e força-lo a se casar comigo. É uma relação de negócios.
— Cara, eu sou gay, você está entendendo isso? Eu não sinto atração por mulheres, eu...— encosto em uma das árvores.
— Eu sei, eu não quero casar Jimin, eu nunca quis isso, você não imagina o quão horrível está sendo tudo isso.— Olho para o lado, com os braços cruzados, tentando processar. Mesmo sabendo que isso não seria uma surpresa caso seja realmente verdade, pois vindo do meu pai, mas a questão aqui era. O que eu vou fazer?
— Precisamos fazer alguma coisa, eu não irei casar com você, contra a minha vontade.— Digo de forma fria.
— Concordo, eu não quero isso...— a vejo mexer em seu celuler— coloque seu número e poderemos conversar sobre isso, precisamos ser rápido.— Faço o que pede.
— Genevive!— Todos estavam reunidos próximo ao Hall principal, provavelmente de saída.— Vamos...
— Prometo que pensarei em algo.
— Eu faço qualquer coisa, independente do que seja...

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