Capítulo 4
Passei o restante do dia em casa, nem fui à praia. Só conseguia lembrar do beijo que dei na Lígia, o beijo mais perfeito do mundo.
Ao cair da noite eu resolvi descobrir o número do apartamento dela, o que não ia ser difícil. Fui até o sétimo andar e toquei no 701, um cara todo tatuado apareceu na porta e disse que não morava nenhuma Lígia ali, ainda alegou que ele também não se chamava Lígia e sim Jônatas, e eu ainda recebi um convite para jantar o que recusei bem rapidamente.
Na quinta vez eu tive sorte, ela morava no 705, ainda bem porque eu já estava prestes a desistir, a senhora do 704 foi bem grosseira ao dizer que não tinha pão velho. Será se eu estava tão mal vestida assim?
— O que está fazendo aqui? – Lígia pergunta depois de abrir a porta. Ela estava com os cabelos molhados e vestida com um roupão branco, o cheiro que emanava de sua pele era maravilhoso. Assim que me viu, ela tratou de arrumar o roupão já que antes deixava uma parte dos seios amostra.
— Eu... Eu vim ver se você tem açúcar. – Falo na maior cara de pau olhando o busto dela.
— Aham, sei. Porque está aqui? – Ela volta a perguntar. — Ei. – Ela estala os dedos para tirar minha atenção dos seios dela.
— Desculpa. – Dei um sorrisinho sapeca. — Está bem, eu estava curiosa. Você terminou com o Júlio? – Vejo Lígia levantar uma sobrancelha.
— Não é por acaso que a curiosidade matou o gato, sabia? – Ela diz, em nenhum momento seus olhos castanhos deixam os meus. — Eu sei quando alguém está mentindo, Alex.
— Primeira vez que você diz meu nome sem ser fazendo chamada, foi até mágico, você sentiu? – Digo com um sorriso sapeca e sou presenteada com um leve e rápido sorriso dela.
— Deixa de besteira, diz logo. – Ela faz uma careta.
— Eu queria te ver. – Falo. Lígia abriu espaço para que eu entrasse.
Entro meia sem jeito e reparo no apartamento dela, a sala era bem grande com paredes brancas e quadros espalhados estrategicamente dando um ar elegante. O sofá cinza era em L e ocupava uma parte da sala, lá também tinha uma mesa de centro e algumas poltronas combinando com todo o resto. Lígia realmente tinha bom gosto e eu mal esperava para conhecer o quarto dela.
— Você tem muito bom gosto.
— Obrigada. Aceita alguma coisa, água, suco, refrigerante...? – Lígia me pergunta apontando o sofá para que eu me sentasse.
— Tem conhaque ou vodca? – Lígia me olha surpresa. — É brincadeira. Eu estou bem, obrigada.
Ela senta um pouco afastada de mim no sofá e vira em minha direção.
— E então, o que você fez ontem lá na boate? – Perguntei sem jeito.
— Quer mesmo saber? – Lígia pergunta. Confirmo com a cabeça. — Eu fui na direção que você apontou e vi os dois dentro daquele carro.
— E o que você fez?
— Eu não sou mulher de fazer escândalo se é que você quer saber. Bati na janela e quando aquele idiota abriu, joguei a aliança dentro do carro e disse que ia me divorciar dele.
— Nossa. Ele te procurou depois? – Continuo meu interrogatório.
— Ele tentou me alcançar na boate, mas não dei chance e tentou entrar aqui hoje também, mas eu troquei a fechadura.
— Você vai mesmo se divorciar? – Pergunto com um fiozinho de esperança transparecendo em minha voz.
— Vou. – Ela diz firme. — Traição para mim é o fim. – Mesmo tendo uma feição dura, eu sabia que ela estava chateada e até mesmo triste, pois tinha casado há poucos dias atrás.
— E como você está realmente? – Eu me sentia mal por ela.
— Bem. É melhor descobrir no começo e cortar logo o mal pela raiz. – Lígia parecia bem cansada.
— É verdade. – Fez-se um silêncio perturbador. — Me desculpa por ter mentido ontem, eu...
— Esquece isso. – Lígia se levanta, parecia incomodada. Ela se encaminhou até um mini bar que eu nem tinha visto antes, pelo menos era o que parecia, e fez uma bebida.
— Você não dá aula amanhã? – Pergunto vendo-a encher o copo pela segunda vez.
— Dou e a primeira turma é a sua. – Ela diz me encarando do mini bar, parecia querer me desvendar.
— Certo. Eu já vou então, está tarde e temos que acordar cedo amanhã. – Me levanto e vou até a porta, quando me viro para me despedir vejo-a ainda parada perto do mini bar. — Tchau.
— Alex, espera. – Lígia veio andando lentamente com uma cara safada.
Tenho certeza que ela fez isso para me provocar porque ela umedeceu os lábios com a pontinha da língua e deu um sorriso sedutor quando já estava perto o suficiente de mim. Quem aguenta isso meu Deus?
— Di... Diga. – Falei com a voz falhando.
Lígia não disse nada, apenas me encarou, mordendo o lábio de um jeito sexy. Já eu, estava em brasas e completamente em dúvida se a beijava logo ou se eu ia com calma. Ela levantou uma sobrancelha sugerindo que eu fizesse o que pretendia ou que eu saísse dali para ela fechar a porta, optei pelo primeiro. Aproximei-me mais dela e segurei seu queixo delicadamente, nossas bocas se aproximaram, eu ansiava pelo beijo que viria a seguir. Beijei aquela boca macia, dessa vez ela não me deu joelhadas, mas me deu uma bela mordida.
— Ai. – Falei me afastando e vendo um pouquinho de sangue ao levar o dedo até meu lábio. — Achei que você quisesse.
— Eu já disse que não fico com mulher. – Lígia diz sorrindo.
Soltei um suspiro de frustração, mulher difícil essa viu? Mas eu bem que mereci, fico aqui me humilhando, levando bofetada e patada, então é isso o que eu ganho por ser trouxa. Com certeza ela está só brincando comigo.
Me virei para sair mas ela me puxou e me surpreendeu com um beijo, nossas línguas bailavam lentamente em uma sincronia perfeita, minhas mãos já estavam em sua cintura e as dela ao redor do meu pescoço. Fechei a porta com o pé e empurrei Lígia para o sofá me deitando por cima dela delicadamente, sua mão esquerda saiu da minha nuca e foi parar nas minhas costas, puxava minha blusa para cima com pretensão de tirá-la. Eu não queria que fosse assim, rápido, queria que fosse especial.
— Tira a blusa vai. – Ela diz sem fôlego voltando a me beijar.
— Lí... Lígia espera. – Interrompo o beijo.
— O que foi agora garota? – Lígia me olhava impaciente. — Não era isso o que você queria? Transar comigo?
— Sim, quer dizer... Não. Na verdade... – Saio de cima dela e me sento arrumando a minha blusa, ela também se senta.
— O que foi? Broxou? Não está acostumada com uma mulher como eu né? – Ela diz e levanta indo ao mini bar preparar outra bebida. Realmente eu não entendia o comportamento dela, diz que não fica com mulher e coisa e tal e do nada muda de ideia.
— Qual o seu problema? Porque você fez isso? – Pergunto sem entender.
— Me deu vontade, só isso. – Ela responde com uma voz indiferente. — Vai me dizer agora por que você broxou? – Ela me encara com uma sobrancelha erguida.
— Não é isso, eu realmente quero, mas não assim. Olha, eu nunca vi uma mulher tão linda como você, mas eu quero que seja diferente. – Me levanto e paro na sua frente. — Agora que você está livre, namora comigo?
— Ficou maluca? – Lígia me olha perplexa e depois ri.
— Qual o problema? Você disse que ia se divorciar.
— Eu não vou namorar com você, ainda sou casada.
— Mas... Mas...
— Alex, é melhor você ir embora. – Lígia suspira.
— Lígia, me escuta. – Tentei mais uma vez, vai que agora eu conseguiria. — Eu quero você pra mim todos os dias. – Eu realmente disse isso? Sim. Eu já estava completamente apaixonada por ela e nem sabia mais como negar.
— Pois assim você não vai me ter. – Ela diz e se afasta. — Não vou namorar com você, Alex. E... Não é o que eu quero para mim.
— Como assim? Você tem medo de ser vista com outra mulher? De ser criticada? – Pergunto.
— Do que eu tenho medo ou não é assunto meu, eu só te conheço a cinco dias garota, como você diz essas coisas? É impossível você já estar apaixonada por mim. Você está confundindo as coisas. – Lígia suspira. — É melhor você ir embora e esquecer tudo o que aconteceu aqui.
— Sabe o que eu acho? – Não dei chance de ela responder. — Você está com medo do que sente. Sabe que nesses poucos dias você se apaixonou por mim, coisa que você nem sentia pelo Júlio. Você provavelmente sentiu mais prazer com um beijo meu do que com uma transa com ele. – Me aproximei dela. — Diz a verdade Lígia? Você está louca por mim. – Eu respirava com dificuldade e ela só me olhava sem dizer nada. — Me deixa cuidar de você? – Falei baixo e fui chegando mais perto dela. — Te proteger, te amar e te dar o maior prazer que você já sentiu? – Parei na frente dela e dei um beijo de leve em seus lábios. — Deixa?
— É melhor você ir e me esquecer de uma vez. – Ela disse de forma dura e se afastou, sua respiração estava acelerada. Lígia abriu a porta e esperou que eu passasse.
Passei pela porta sem dizer tchau e sem olhar para ela, entrei no elevador e fui para casa.
Segunda feira, dia da preguiça total. Eu estava completamente sem ânimo para ir para a faculdade, ainda mais que as primeiras aulas iam ser com a Lígia. Fiz um esforço e levantei, depois de arrumada e depois de escovar os dentes, fiquei esperando meus pais e o Dylan na sala.
— Que foi filha? – Mamãe aparece na sala e me pergunta.
— Nada não. – Dou um sorrisinho.
— Acha que me engana senhorita? – Minha mãe diz, balançando a cabeça. — Te conheço muito bem. Alguém anda mexendo com esse coraçãozinho né? – Ela se senta ao meu lado.
— Eu conheci uma pessoa, só isso. – Falo.
— Que bom filha. – Ela sorri.
— Ela é uma mulher difícil de lidar, mãe. Acho que não sente nada por mim e as vezes me trata mal.
— Já conversamos sobre isso antes Alex. Você sabe o que eu penso. – Mamãe diz séria.
— Eu sei, é melhor sair fora antes que eu me machuque né? – Falo a frase que minha mãe sempre repete para mim e para o Dylan.
Mamãe sempre se preocupou com a gente, diz que arranjar namorada que nos trate mal é uma furada.
— Exatamente. Você merece alguém que te trate como uma princesa e não menos que isso. – Ela faz carinho em meus cabelos.
— Dessa vez é diferente mãe.
— Diferente como, meu anjo?
— Eu nunca senti isso antes, por ninguém. – Suspirei.
— Ela te trata mal, mas você a acha especial. – Mamãe faz uma careta.
— Pela primeira vez eu estou com medo, mãe. – Falo triste e preocupada. — Vejo ela me tratar mal e mesmo assim, quando a vejo na minha frente, eu esqueço tudo e esse maldito sentimento volta com força total. – Dou um suspiro. — Será se vale a pena lutar por ela? Pelo o que eu estou sentindo? – Pergunto e abaixo a cabeça.
— E por que não valeria a pena? – Mamãe pergunta. — Não vai ser diferente de nenhuma outra vez que você se envolveu com uma mulher. Você sempre conseguiu todas as mulheres que quis.
— Porque era mais fácil. Essa é diferente. – Suspirei.
— Diferente como? – Mamãe pergunta.
— Ela é casada.
— É, dessa vez é diferente mesmo. – Minha mãe fala preocupada.
— Tem mais... – Faço uma carinha de culpa.
— Manda.
— Ela... Ela é minha professora. – Vejo minha mãe suspirar e balançar a cabeça. — E ela mora no andar de baixo, mais especificamente no 705.
— Nossa. – Acho que minha mãe estava sem palavras. — Alex, o que deu em você? Uma mulher casada? – Ela pergunta quase histérica.
— Eu sei, mãe. Eu não escolhi isso. – Me defendi. — A senhora sabe que eu sempre passei bem longe de mulheres casadas.
— Agora é tarde não é? – Mamãe fala suspirando novamente. — Não se pode competir com o coração. Ele sempre ganha.
Eu não entendi muito bem essa parte, mas deixei de lado.
— O que eu faço mãe? – Pergunto cabisbaixa.
— Uma vez eu li uma frase muito interessante, dizia assim: "Muitas vezes por ouvir o coração, perdemos a razão, mas sem a emoção, a nossa mente seria um mundo vazio. Devemos ter equilíbrio entre razão e emoção, mente e coração, para que não sejamos prejudicados por nenhum dos dois lados." Essa frase é de um autor desconhecido.
— Eu não entendi nada. – Falei e minha mãe suspirou. Eu aqui nesse estado e minha mãe filosofando? Pode uma coisa dessas?
— Nunca se esqueça de ouvir seu coração, pois ele mostra coisas que nem mesmo a razão é capaz de compreender. – Ela sorriu. — Segue seu coração filha. Por mais que você ache que a sua cabeça é a certa... Ela não é. – Mamãe diz e me dá um beijo na cabeça bem na hora que papai chega na sala apressando todos nós.
Cheguei na faculdade e me sentei no mesmo lugar dos outros dias. Hoje eu estava pensativa, olhava o lado de fora da janela, mas sem de fato ver nada. Estava lembrando do que mamãe disse, "Não se pode competir com o coração. Ele sempre ganha". Será mesmo que eu já houvesse perdido essa batalha? Não quero ser dependente desse amor que sinto pela Lígia.
Talvez a melhor maneira de esquecer alguém seja estando com outro alguém. Quem sabe a Brenda não seria essa válvula de escape, hein? Vamos ver no que dá.
Lígia chegou vinte minutos atrasada.
— Desculpa o atraso. – Disse, colocando os materiais dela na mesa. Meu coração acelerou só de ouvir aquela voz maravilhosa. Ela sentou-se, abriu o caderno e começou a chamada. Parecia não ter dormido nada a noite.
Quando ela chamou meu nome, nossos olhos se encontraram, mas eu não respondi. Não sabia se ela tinha me dado falta por não responder. Ela terminou a chamada e começou a aula.
A sala estava quieta, todos prestavam atenção na explicação dela. Alguns meninos ficavam olhando o bumbum dela na cara dura. O tempo passou voando e quando eu menos esperava, ela já se despedia.
— Bom galerinha, por hoje chega né? Muitas informações para absorverem. Quarta nos vemos novamente. – Lígia guardava as coisas dela.
Nossos olhares se cruzaram mais uma vez, eu percebi que durante toda a aula ela estava doida para me olhar, olhava para alguém atrás de mim ou na minha frente, mas não ousava me encarar. Naquele momento ficamos nos olhando, Lígia estava com o caderno a meio caminho da bolsa, suspenso no ar.
— Professora, quer ajuda com o material? – Flavinho perguntou, fazendo Lígia tomar um pequeno susto e tirar os olhos de mim e encará-lo.
— Claro, obrigada Flavio. É Flavio, não é? – Flavinho assentiu, pegou alguns diários e o caderno dela e saiu da sala, esperando-a do lado de fora. Lígia me deu mais um olhar rápido, pegou a bolsa e saiu.
O resto das aulas foi um borrão, eu estava prestando mais atenção do lado de fora do que no professor.
— O que houve Alex? – Brenda me pergunta, enquanto descíamos as escadas. — Você estava bem longe hoje nas aulas.
— É Alex, você ficou aérea a manhã toda. – Kimi comenta.
— Problemas? – Caio também entra na conversa.
— É, problemas. – Falei. — Mas está tudo bem.
— Se quiser conversar, pode contar comigo. – Kimi falou.
— Obrigada Kimi, mas eu estou bem.
Despendi-me de Kimi e de Caio.
— Bom, já que moramos perto uma da outra, vou te acompanhar. – Brenda disse enquanto caminhávamos. — Esses problemas que você mencionou... Tem algo a ver com termos ficado? – Ela pergunta depois de um tempo em silêncio.
— Não. Eu gostei de ter ficado com você, mas é que... – Suspirei. — Eu estou começando a gostar de uma pessoa e não sou correspondida da mesma forma. – Falei.
— Sei. E essa pessoa, seria a professora Lígia? – Brenda pergunta.
— Porque acha que é ela? – Perguntei assustada.
— Não sei, vocês se olham de um jeito diferente desde o primeiro dia de aula. Mas é claro que pode ser só besteira da minha cabeça. – Ela sorri.
— Você é bem observadora.
— Sim, sou. E então?
— Sim, é ela mesma. Mas eu não pedi por isso, quando a vi pela primeira vez eu fiquei encantada e agora não consigo parar de pensar nela. – É claro que eu não ia dizer que beijei a Lígia. — Achei que era só algo do momento.
— Você está encrencada sabia? – Brenda ri.
— Poxa, você faz rir? Isso é sério, Brenda. – Falei emburrada.
Durante o percurso todo fomos conversando sobre essa situação. Quando descemos na parada e estávamos prestes a nos despedirmos, já que Brenda ia para o outro lado, ela teve uma ideia absurda.
— O que você acha de fazer ciúme nela?
— Nela quem? – Pergunto sem entender.
— Na Lígia. – Brenda deu um sorriso cafajeste.
— E o que você sugere? – Perguntei.
— Nada demais... Só um namoro falso. – Ela sorriu mais ainda. — O que acha disso?
— Olha Brenda...
— Pensa direitinho. Eu posso ser a sua "namorada falsa". – Ela estava mais animada do que antes.
— Eu realmente não sei se é uma boa ideia. Não quero que você confunda as coisas.
— Claro que eu não vou confundir Alex, confia em mim. – Ela deu uma piscadinha.
— Não tem nem duas semanas que eu te conheço, como você já quer que eu confie em você?
— Porque todas nós vamos sair ganhando. Eu fico com você a vontade e depois que a Lígia estiver caidinha na sua, você dá o bote. – Brenda olhava para um ponto distante, parecia pensar em algo.
— Parece um plano muito falho. – Ela me olhou como se lembrasse de que eu estava ali.
— Ai Alex, claro que não. Deixa comigo e você não vai se arrepender. – E depois disso Brenda se inclinou e me deu um selinho. — Tchau namorada. – Disse sorrindo e se foi.
É, eu estava enrascada, enrolada, ferrada... o que vocês acharem melhor.
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