Capítulo 3

O sábado amanheceu lindo, um céu azul e um solzinho forte. Depois de tomar banho, tomei café e o tempo todo que estive sentada à mesa, mamãe nos lembrou da festa cinco vezes. Não querendo ficar mais tempo lá e ser lembrada da festa uma sexta vez, fui dar uma corrida na praia.

Corri durante uma hora e fui comprar minha água de coco. Eu me sentia leve depois que corria, é claro que eu não fazia isso por estar gorda, sempre fui magra de ruim, como de tudo e ainda assim sou magra. Eu corro porque é um ótimo exercício, mesmo sendo magra tenho que me preocupar com a saúde.

Voltei ao meu prédio e estava esperando o elevador descer quando ela, Lígia, aparece. Tinha um cara ao seu lado, era até bonito, um pouco musculoso e tinha uma aliança no dedo, deduzi que era o marido dela.

— Lembra Júlio, da menina que eu falei? – Lígia diz me olhando. — É ela.

— Lembro. Mas de menina ela não parece ter nada. – Ele fala com um sorriso safado, reparando em meu corpo. Lígia fuzilou-o com os olhos. — Então é você que está deixando minha mulher irritada? – Ele fala divertido.

— Imagina, eu sou um doce de ''menina''. – Eu respondo.

— Um doce? – Lígia fala rindo. — Desde o primeiro dia que nos encontramos você me atormenta garota. – Ela me olha. Essa frase dela tinha um duplo sentido a meu ver.

— É bem difícil alguém irritá-la. – Júlio, o suposto marido diz.

— Nem vem Ju, você sabe que eu me irrito fácil. – Lígia contesta.

— Ju? – Eu pergunto, segurando o riso. — Ele é o seu marido?

— Sim. Sou o marido dela. Prazer, Júlio. – Ele estica a mão e eu a aperto.

— Alex.

Ficamos mais um tempo esperando o elevador, alguém provavelmente estava segurando ele em algum andar acima. Assim que o elevador parou entramos e logo a conversa voltou.

— Você mora em que andar, Alex? – Júlio pergunta.

— No oitavo.

— Que beleza, então vamos sempre nos esbarrar por aqui. – Ele diz empolgado. Pelo visto a Lígia não tinha falado tudo o que aconteceu no elevador aquele dia.

— Com certeza. – Falei encarando Lígia com um sorriso.

— Não pense que vamos virar amiguinhas ouviu? – Lígia diz me fuzilando. — Só porque moramos no mesmo prédio não quer dizer que vou facilitar para você.

— Isso nem sequer me passou pela cabeça. – Falei com um sorriso cínico.

— Que isso chuchu, não trate a garota assim. – Júlio diz, segurando a porta do elevador para que Lígia passasse.

— Tchau professora. – Lígia não fez nem questão de responder só me olhou com uma sobrancelha levantada e depois saiu.

— Liga não, ela anda estranha esses dias. Tchau, nos vemos por aí. – Júlio sorri para mim.

— Tchau. – Esperei que o elevador prosseguisse.

Entrei em casa e fui direto para o meu quarto, eu estava pensando naquele momento totalmente estranho no elevador.

Aqueles apelidos eram de matar né? Se Lígia fosse minha mulher eu a chamaria de princesa ou de amor e não daquele jeito. O Júlio parecia ser um cara bacana, um pouco sem noção até. Ela pelo visto nem contou a ele que eu andei dando em cima dela e que sem querer passei a mão em seu bumbum, talvez tenha contado e ele é daqueles que gostam de ver a esposa com outra mulher. Ele que aguarde porque vai ter uma bela surpresa, vou ter aquela mulher só para mim.

Passei a tarde arrumando meu quarto e respondendo as mensagens que Brenda me mandava no Whatsapp. Mesmo nos conhecendo há quatro dias, Brenda já andava falando coisas melosas, me chamando de amor nas mensagens que mandava e cobrando quando seria a próxima vez que ficaríamos. Eu adorei ficar com ela e quem sabe podemos ir um pouco mais além, só que Brenda quer algo a mais, muito mais, e que provavelmente termine em um namoro e isso eu não quero, pelo menos não com ela.

Quando deu seis horas eu me arrumei para a tal festa que mamãe falou, o aniversário da Joana. Já que em boates podem acontecer de tudo, resolvi me vestir o mais básica possível com uma calça jeans azul, uma batinha, um tênis e uma maquiagem leve para completar o visual. Fui para a sala esperar os demais.

— Porque a mamãe não me deixa aqui em casa? Vou me comportar. – Dylan aparece de cara amarrada.

— Não haverá uma casa para voltarmos se te deixarmos aqui sozinho. – Dylan me dá língua.

— Já sou um homem tá? Já sei até fazer ovo. – Reviro meus olhos.

— Não reclama garoto, não tem pra onde escapar, você vai pra casa da Joana de qualquer jeito. – Falo, dando um sorriso. Dylan me dá as costas e vai em direção ao seu quarto reclamando.

— Prontos? – Mamãe aparece na sala e logo atrás está meu pai.

— Eu espero que vocês dois se comportem lá, viu? – Falo reparando nas roupas deles. — Vocês são casados hein?

— Que isso Alex? Mais respeito menina, somos seus pais. – Minha mãe fala brava.

— Vamos. ANDA LOGO DYLAN! – Papai grita da sala e vai em direção ao elevador.

— Não vou desgrudar os olhos um segundo do seu pai. – Mamãe cochicha em meu ouvido ao passar por mim. Isso já me deixa mais tranquila.

Está bem, não vou mentir, eu acho todos os homens iguais e isso inclui meu pai, aquela desculpa de que a carne é fraca não cola. Eu acho que meu pai nunca traiu minha mãe, mas não dizem que tem sempre a primeira vez? Pois é. Basta deixar um pouquinho sozinho que já se assanha todo, espicha os olhos para uma bela mulher e é aí que nem lembra que tem uma esposa.

Deixamos Dylan na casa da Joana e fomos para a boate, mostramos os convites e entramos. Joana havia fechado a boate só para os convidados, mas já estava lotada, será se ela conhecia tanta gente assim? Quando a pessoa é rica aparece até gente do inferno dizendo ser seu amigo.

Meus pais logo se livraram de mim e foram para a pista de dança, o que me restou foi ir até o balcão pegar uma bebida. Achei um banquinho no balcão e me sentei, pedi minha bebida e me virei para ver as pessoas dançando na pista. O garçom trouxe minha bebida e quando me virei para pegá-la, avistei Júlio, marido da Lígia, do outro lado do balcão. Parecia estar sozinho. Sozinho na verdade não, ele estava conversando com uma garota, pareciam bem íntimos, tocava a perna dela em uma carícia e falava em seu ouvido.

Lígia não estava por perto ou então já estaria fazendo um escândalo. Fiquei observando os dois, em nenhum momento ele me notou, parecia mais interessado nas pernas da garota. Eu no lugar dele não deixaria uma mulher tão perfeita como a Lígia sozinha, sabe-se lá quem pode estar de olho... uma certa "Alex" talvez?

Um pouco depois os dois saíram, a garota na frente puxando Júlio pela mão em direção à saída que levava ao estacionamento.

Bebi meu drink todo e resolvi circular um pouco para ver se encontrava com a Lígia e incrivelmente minha procura não se estendeu muito, acabei topando com ela naquele lugar lotado.

— Oi. – Falei alto para ela me escutar.

— Oi. – Lígia me respondeu, parecia impaciente. — Você viu o Júlio? – Eita, e agora? Será se eu falava a verdade?

— Não o vi. – Resolvi mentir. Ele que se resolvesse com a culpa na consciência. — Se você quiser eu posso te fazer companhia enquanto ele volta.

— Não precisa, eu só quero achar o Júlio. – Ela responde de mal humor olhando ao redor.

— Tá bem. – Passei por aquela mulher maravilhosa, mas fiquei observando-a de longe, nem tão de longe assim.

Vi quando ela se encaminhou para a saída e fui atrás, se ela visse o Júlio com outra mulher fazendo sei lá o quê, o negócio ia ficar interessante.

Saí pela porta, mas Lígia já não estava lá. O lado de fora estava vazio, só tinha o estacionamento com um monte de carros, todos os convidados já tinham chegado pelo visto. Fui me embrenhando entre os carros pelo lado direito do estacionamento, tudo vazio.

Adentrei mais o estacionamento e comecei a escutar um barulho, não sabia o que era e segui na direção do som. De acordo com que eu me aproximava, o som ia ficando mais nítido só que abafado. Parei agachada atrás do carro de onde vinha o som e percebi se tratar de gemidos, os vidros estavam todos fechados, me levantei rápido e consegui ver que dentro estava o Júlio e a garota da boate. O carro balançava um pouco violentamente. Nossa, se a Lígia visse isso, ela voltaria a ser solteira. Por falar nela, acho que ela foi pelo outro lado porque eu não a vi em lugar nenhum. Resolvi sair dali antes que eu fosse pega.

Voltei para frente da porta da boate e fiquei esperando um pouco, provavelmente a Lígia apareceria. Uns minutos depois a avistei vindo do lado esquerdo, como supus que ela tinha ido.

— Não o achou? – Perguntei.

— Não. – Ela solta um suspiro.

— Você confia em deixá-lo sozinho com esse bando de mulher?

— O que está insinuando garota? – Ela me fuzila.

— Nada. É que homem é tudo igual.

— Não o Júlio. Ele é fiel e sempre será. Deve estar lá dentro conversando com algum amigo dele. – Lígia olha pelo estacionamento novamente.

— Você não parece ter tanta certeza disso.

— E o que é que você tem com isso? É assunto meu, garota. Eu não pedi a sua opinião. – Lígia diz ríspida.

— Não precisa me tratar assim, depois dessa eu vou embora. – Digo com uma dorzinha no coração. Ela nem precisava ter me tratado dessa maneira. — Quer saber? Vai por ali que você vai encontrar o Júlio. – Aponto o lado que eu fui antes. — Ah, e se prepara porque ele não está sozinho. – Entrei na boate sem nem olhar novamente para ela. Também pouco me importava como ia acabar essa história.

É engraçado né? Uns tem mulheres maravilhosas ao seu lado e estragam o casamento por uma horazinha de prazer com alguém que nem conhecem, enquanto outros dariam tudo para fazer essa mesma mulher feliz. Às vezes a vida é mesmo injusta.

Procurei meus pais e disse que eu ia embora, os dois não falaram nada, só balançaram a cabeça. Estavam se achando os paquitos, dançavam feito uns doidos.

Saí da boate e vi um ponto de taxi ali perto, era um lugar bem estratégico para falar a verdade. Chegando em casa eu só troquei de roupa e fui deitar, antes de dormir ainda lembrei do jeito que a Lígia me tratou, confesso que eu estava com muita raiva dela e bem triste também.

Naquele momento tomei uma decisão, não ia mais ficar de conversinha com ela, se me tratasse mal eu também a trataria, só porque ela é muito gata e me deixa completamente desnorteada não significa que pode tratar os outros com grosseria. Acabei pegando no sono com a promessa de mudar meu comportamento com a Lígia. Mas a pergunta que não quer calar é: será se eu realmente faria isso?

No domingo eu só queria praia, me arrumei e saí, queria aproveitar o máximo do sol.

Acabei me encontrando com Lígia ao sair do elevador, ficamos nos encarando, ela com uma raiva tremenda e eu com o coração acelerado. Já nem lembrava mais da promessa que tinha feito no dia anterior. Vendo tanta beleza na minha frente não tinha como pensar em mais nada.

— Você sabia não é? – Lígia pergunta baixo.

— Eu não sei do que você está falando. – Me finjo de desentendida.

— Você sabia desde o começo onde aquele cafajeste estava e também sabia que ele estava com aquela piranha. – Ela até parecia calma, mas acho que era só por fora mesmo.

— Ah é, como foi mesmo que você disse? Isso não é da minha conta. O marido também nem é meu. – Falei tranquila. — Quer saber? Eu sei que desde o primeiro dia eu te irritei, passei a mão no seu bumbum, mesmo que tenha sido sem querer e que você não foi com a minha cara, mas não significa que você tenha que sair por aí dando patada nos outros. Eu vi o Júlio com aquela mulher no balcão da boate sim e vi também quando os dois saíram, mas não sabia para onde eles iam. Eu achei até que aquela mulher era alguma amiga sua.

— E você acha que eu acredito nisso? Você também é cumplice dele. Você estava comendo aquelazinha também? Revezou com ele? – Agora sim a Lígia parecia prestes a explodir. Ela já falava alto chamando a atenção das pessoas que transitavam por ali.

— Você não sabe do que está falando. Prefiro comer você do que ela. – Mal terminei de falar e senti uma bela bofetada na bochecha direita. Enquanto eu massageava meu rosto, Lígia se aproximou mais de mim ficando a centímetros do meu rosto, dava para sentir sua respiração.

— Eu tenho nojo de você, acha que eu não conheço o seu tipo? Gosta de levar as mulheres para a cama, usa e abusa e depois larga o resto... – Eu não estava prestando atenção ao que ela dizia, não conseguia tirar meus olhos dos lábios dela, poderia beijá-la agora, talvez eu não tivesse outra chance como essa então eu resolvi arriscar, mesmo que eu levasse outro tapa.

Coloquei minha mão na nuca dela e puxei-a para um beijo. Pega de surpresa, Lígia não reagiu de imediato. Não sei quem apertou o botão do elevador, só ouvi quando a porta se abriu, seja quem for que tivesse esperando já não se encontrava mais lá.

Puxei Lígia para dentro do elevador. Ela me empurrou com força para o outro lado enquanto a porta se fechava.

— Ficou maluca, sua imbecil? – Eu estava em êxtase, mesmo tendo sido só um selinho, eu queria mais.

— Você gostou que eu sei. – Falei com um ar provocador. Meu coração parecia que ia saltar pela boca.

— Nem em sonho. Eu vou te denunciar por assédio, ouviu? Vou acabar com a sua raça. – Ela cuspia as palavras. Apertei o botão que deixa o elevador em suspenso e avancei, segurei as mãos dela acima da cabeça e voltei a beijá-la, eu recebi algumas joelhadas nas pernas, mas continuei firme. Forcei o beijo, mas de um jeito delicado, e como nenhuma mulher é imune a mim, Lígia correspondeu. Senti a língua de Lígia buscar a minha lentamente. Soltei os braços dela que logo foram para a minha nuca e minhas mãos seguraram sua cintura. Me segurei para não descer minha mão para seu bumbum.

Foi o melhor beijo que eu já provei, ao mesmo tempo doce e selvagem.

— Você vai... me pagar... por isso. – Lígia diz entre um beijo e outro. Me afasto o suficiente para olhá-la.

— Posso te pagar na cama, o que acha? – Falo e me aproximo para beijá-la novamente, mas recebo outro tapa no mesmo lugar que o anterior. — Ai – Passei a mão no rosto. — Porque fez isso? – Esse tapa veio com gosto.

— Quem você pensa que eu sou? Só porque me beijou já acha que vai me levar pra cama? Se enxerga garota. Até o Júlio beijava melhor que você.

— É assim? – Me afasto e encosto do outro lado do elevador cruzando os braços. — É essa a forma que você tem de me manter afastada? Me rebaixando? Você é orgulhosa demais, gostou do beijo, mas prefere dizer que não.

— Não gostei mesmo. – Lígia me encara.

— Quer saber? Eu cansei. Faz o que você quiser, me processa. — Apertei o botão e o elevador voltou a funcionar. Ele parou no meu andar e eu estranhei de ela ainda estar lá. — Pra onde você vai? – Perguntei com uma sobrancelha levantada.

— Falar com os seus pais. — Ela sai do elevador passando por mim, andando com uma segurança invejável. — Em qual apartamento você mora?

— No 803. Boa sorte então... — Fui andando atrás dela e só quando chegamos à minha porta é que eu terminei de falar. — porque meus pais não estão em casa.

— Isso é desculpa, você está morrendo de medo que eu diga a eles que você me assediou, me agarrou, me bulinou e quase me violentou.

— Ei, ei, calma aí, eu só te beijei. E quantas vezes vou ter que dizer que eu me desequilibrei àquele dia?

— Seria a minha palavra contra a sua. – Ela diz com um olhar perigoso. Soltei um suspiro.

— É verdade, eles não estão em casa, mas se você quiser entrar e confirmar, fique a vontade. – Abri a porta para que ela passasse. — Eu te levo para conhecer meu quarto. – Falei para uma Lígia ainda parada na porta. Eu não aguentava ficar muito tempo sem provocá-la.

— Se não quiser levar outro tapa, acho melhor calar a boca. – Ela parecia em dúvida se entrava ou não.

— Eu não tenho o dia todo sabia? – Provoquei.

— Eu volto outra hora.

— Agora é você que está com medo. – Ri dela.

— Não tenho medo de nada. Só lembrei que tenho uma coisa para fazer.

— Não se preocupe, eu não ia te levar para o meu quarto, lá só entra VIP. A sala ia servir de qualquer maneira, o sofá é bem aconchegante. – Sorri e dei uma piscadinha.

— Sua abusada. – Lígia se vira e caminha para o elevador.

— Tchau minha princesa. – Falo sorrindo. Ela fingiu que nem escutou e entrou no elevador.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top