༺VII - SEBASTIAN༻
ஜீ፝͜͜͡͡O silêncio era ensurdecedor.
Dorian finalmente havia conseguido voltar a dormir depois do pesadelo que havia o deixado tão irrequieto. Os batimentos cardíacos dele estavam finalmente estáveis, juntamente com a sua respiração. Ele tinha uma expressão tão angelical debruçado sobre o meu peito que eu tinha até receio de me mexer e acabar acordando-o depois de tantos minutos vendo-o completamente perturbado. Não gostava de vê-lo daquele jeito. Depois de tudo o que ele já havia passado há alguns meses atrás, não era justo que não tivesse um mínimo de paz.
Encostei minha cabeça na dele, fechando os olhos e sentindo a sensação do corpo dele no meu, passando aquele calor que apenas um ser que estava totalmente vivo poderia dispor. Eu era como uma espécie morta viva. Haviam partes do meu corpo que não estavam totalmente como antes. Meu coração era uma delas. Não bombeavam sangue como antes. Eu era como uma casca vazia por dentro, dependendo do sangue efêmero para me completar. Sem aquilo eu não era nada. Ressecaria até não ter mais um pingo que consciência.
Gostava tanto de estar assim com ele. Poderia facilmente passar a eternidade que me restava apenas ao lado dele, desfrutando de sua companhia, mesmo que soubesse que a vida não poderia ser apenas aquilo.
Com os olhos fechados, sentia que poderia cair no sono, pois tudo estava propício àquilo. Estava aninhado no amor da minha vida, totalmente relaxado. Não via porque não. Fitava o completo vazio, quando uma voz irrompeu minha cabeça, fazendo com que eu abrisse os olhos atônito. A voz era similar a de Blair. Será que eu havia sonhado aquilo mesmo que rapidamente ou realmente tinha escutado?
Olhei para os lados e não vi ninguém no recinto. Não poderia ser Blair, afinal de contas ela bateria na porta antes de qualquer coisa, mesmo que fosse um caso de vida ou morte. Era o mínimo de educação possível. Respeitávamos os limites um do outro como qualquer relacionamento sadio.
Voltei a pousar minha cabeça no travesseiro, encarando o teto. A pintura dos anjos mirins voando num amontoado de nuvens de certa forma me trazia bastante calma, além de me fazer lembrar da pureza e inocência que ainda existia no mundo, quando ouvi a voz me chamar novamente ainda mais clara e alta como antes, chamando meu nome. Pude notar um tom de desespero vindo dela. Olhei para os lados e novamente não vi Blair ao redor, então supus que ela deveria estar falando em minha mente de onde quer que ela estivesse. Talvez aquela fosse a tal ligação mágica que ela tanto falava existir.
Olhei para Dorian que dormia como um anjo sobre mim, mas precisava levantar e procurar um local um pouco mais distante para responder à Blair, afinal de contas não queria acordá-lo depois de tanto esforço para voltar à cair no sono novamente. Me mexi vagarosamente, tentando desvencilhar o meu corpo do dele e atender a ligação mágica do lado de fora do quarto. Assim que tentei tirar meu braço ele se mexeu e eu parei por um momento até que fosse seguro prosseguir com os movimentos. Os olhos dele não se abriram, o que me aliviou um pouco. Segurei a cabeça dele com a minha mão livre e puxei o outro braço, voltando a deitá-lo no travesseiro e conseguindo escorregar para fora da cama, enquanto botava meu roupão e corria para o corredor.
Assim que fechei a porta, respondi, mas nada aconteceu. Talvez Blair tivesse desistido de falar comigo e fiz todo aquele esforço para sair do quarto sem acordar Dorian em vão. Respirei fundo sem saber se esperava mais um pouco para ver se ela poderia voltar a tentar contato comigo, ou se voltava para a cama e me deitava novamente, quando a voz de Blair ecoou novamente e dessa vez eu respondi em alto e bom som para que ela pudesse me ouvir de onde quer que estivesse.
― Blair, estou aqui, pode falar.
― Sebastian, preciso da sua ajuda, Sofia sumiu.
― Como assim Sofia sumiu? ― interpelei atordoado com aquela informação repentina. ― Como isso aconteceu?
― Sebastian eu não tenho muito tempo para explicar, só preciso que vá até o quarto dela e pegue um objeto pessoal dela e me traga aqui naquela boate onde pegamos o Dorian pela primeira vez. É um caso de vida ou morte.
― Mas Blair... ― chamei-a novamente, mas tudo o que seguiu fora um silêncio ensurdecedor por segundos e mais segundos e tinha certeza de que ela não me responderia mais.
Tudo acontecera tão rápido que eu nem mesmo tive tempo de entender o que estava acontecendo. Tudo o que eu sabia era que Sofia tinha sumido e como ela era uma vampira novata aquilo poderia significar um perigo muito grave para os efêmeros, afinal um vampiro sem controle pode drenar cerca de um corpo por minuto e cada novo minuto poderia significar a morte de alguém inocente. Tudo o que tinha que fazer era correr o mais rápido possível e tentar achá-la no meio daquela cidade, torcendo para que ela não tivesse ido muito longe.
Com minha velocidade vampira corri de volta para o quarto e vesti meu sobretudo, pouco me importando se estava apenas de pijama por baixo. Calcei minhas botas em couro preta e escrevi um bilhete resumido, deixando-o na cabeceira da cama para que Dorian pudesse ver, caso ele acordasse novamente por causa de outro pesadelo. Saí rápido do quarto fechando a porta e indo em direção ao quarto de Sofia, onde abri a porta e procurei qualquer objeto fácil à vista, portanto acabei pegando uma escova de cabelo sobre a cômoda com alguns fios longos presos nos dentes, então pensei que poderia servir, já que ela não me especificou nenhum tipo de material, então imaginei que qualquer coisa serviria.
Avancei pelas ruas desertas daquela madrugada, torcendo para não ser tarde demais para nenhum efêmero e principalmente para Sofia, já que ela até então nunca tinha sofrido do sentimento avassalador que se dava depois de se realizar a primeira morte.
A minha cabeça estava um caos, mas eu precisava tentar chegar à tempo de salvar Sofia dela mesma ou pelo menos do sentimento que estava se apoderando dela até transformá-la em um completo mostro.
Passei por vários sinais vermelhos na cidade, deixando muitos carros apressados para trás tudo o que eu sabia era que se conseguisse livrar Sofia à tempo, ela poderia ter a salvação que eu não tive em minha vida e quem sabe ser a primeira vampira limpa que nunca matou alguém quando estava com sede por sangue efêmero.
Ao longe pude enxergar a avenida que me levaria direto à boate onde vi Dorian pela primeira vez naquela vida. Me esforcei um pouco mais para ir mais rápido, porém meus movimentos estavam bem limitados e eu sabia que aquele era o meu limite, caso eu me esforçasse mais poderia acabar desintegrando.
Assim que adentrei a avenida, senti uma pontada gélida em meu coração. Sofia estava mais perto e o medo por chegar atrasado apenas aumentavam em níveis exorbitantes. Cada segundo estava contando. Seria de suma importância que o relógio colaborasse ao menos uma vez na vida. Esperava ao menos que Blair a tivesse achado e impedido antes de finalizar qualquer loucura que estivesse prestes à fazer e que iria de lamentar pelo resto da vida.
Já podia visualizar a boate ao longe e não havia tempo para nenhuma parada, portanto entrei correndo sem ao menos passar pela fila como da primeira vez em que estive ali. Filas eram coisas para efêmeros, não para mim, afinal. Usei a minha visão vampira para remexer cada canto sem ao menos sair do lugar e vi que não havia nenhum sinal das duas por ali. A música estava tão alta como da primeira vez e os mesmos homens seminus dançavam naquele palco para outros homens que jogavam aquelas notas valiosas para eles por um pouco mais de rebolado.
Era um tanto estranho estar de volta novamente naquela boate depois de tudo o que havia acontecido meses atrás. Não esperava que fosse me apaixonar pelo Dorian e muito menos que aquele lugar se tornaria uma boa lembrança de como nos reencontramos depois de uma verdadeira eternidade, as talvez realmente existisse uma primeira vez para cada coisa, ainda mais para quem vive para sempre.
Senti alguém tocar o meu ombro e já estava pronto para me recusar a atenção de quem quer que fosse, afinal eu já estava perdidamente apaixonado, quando notei a cor dos cabelos arroxeados e percebi que se tratava de Blair, que perecia estar completamente perturbada. Pelo seu estado atual era mais que óbvio que ela não havia encontrado Sofia ainda. Aquilo com que meu coração disparasse nervoso ainda mais que antes.
― Sebastian, trouxe o que eu te pedi? ― inquiriu ela com a expressão mais preocupada do que jamais havia a visto.
Estava preses a lhe refutar, pelo modo como senti um certo incômodo com sua fala, já que ela sabia mais do que ninguém como eu havia vivido tempos sombrios na minha vida, mas resolvi dar um desconto, pois ela estava muito aflita para pensar em qualquer coisa com a clareza exigida, portanto apenas puxei a escova de dentro do meu sobretudo sem dizer nenhuma palavra, entregando diretamente em suas mãos. Ela olhou para o objeto, então começou a caminhar e eu apenas a segui em meio a multidão enlouquecida de homens libertinos que se esfregavam uns nos outros sem um mínimo de decência. Talvez nunca fosse me acostumar com aquilo.
Decidimos seguir por uma porta que dava nos fundos da boate que dava em um beco bastante escuro, onde poderíamos ter um pouco mais de privacidade para usar magia, então Blair segurou a escova com bastante força e recitou as palavras mágicas em latim, língua nativa das bruxas. Os olhos dela ficaram completamente brancos, então ela soltou a escova que flutuou no ar e começou a seguir em alguma direção sozinha, fazendo com que nós tivéssemos que segui-la para fora daquele beco escuro e sujo com cheiro de urina de efêmeros.
Seguimos a escova flutuante pelas ruas que rumava em uma certa velocidade que fazia com que Blair e eu tivéssemos que correr para não perdê-la de vista. As ruas tinham pouco movimento, portanto não estávamos nenhum pouco preocupados de ninguém nos ver. Dava para notar em toda a linguagem corporal de Blair que ela estava desesperada, mesmo mantendo a expressão séria e rígida em meio ao seu rosto cor de chocolate.
― Por que você trouxe uma vampira recém-convertida até uma boate onde estaria rodeada pelo seu prato favorito nas veias desses efêmeros idiotas? ― questionei enquanto ainda corríamos, tentando entender a decisão tão descuidada dela depois de tantos anos sendo tão cautelosa com vampiros recém-formados como eu era na época. ― O que deu na sua cabeça?
― Acho que esse não é um bom momento para a gente conversar sobre isso Sebastian ― repreendeu ela em meio a respiros ofegantes pela movimentação acelerada de seu corpo limitado.
― Se não fosse essa decisão tão inconsequente da sua parte eu não estaria aqui no meio da noite correndo para salvar efêmeros que eu nem conheço de uma vampira recém-nascida. Acho que eu mereço pelo menos saber o porquê, não acha?
― Olha só Sebastian, já basta a culpa que eu estou sentindo por ter me deixado levar pelos olhos bonitos dela, estou me sentindo como uma idiota. Não preciso de nenhum sermão seu, pois já estou bem grandinha para saber o peso das consequências das minhas ações meio impensadas.
― Você gosta dela! ― sorri em meio aquela discussão vendo que sua expressão mudava para espanto.
― Cala a boca! ― disse ela institivamente tentando tirar o foco da minha afirmação sobre ela num intuito falho de mascarar o quanto estava corada e era perceptível mesmo na sua pele escura e na pouca luz que nos rodeava, sobrepondo o fato de que estávamos em movimento.
A escova agora entrava em algum outro beco há uns dez metros da gente. Usei minha velocidade vampira para alcançar a escova de cabelo, deixando Blair um pouco mais para trás, parando bem de frente para o beco sem saída, onde alguns latões de lixo estavam revirados. A escova caiu bem no chão depois de termos corrido dois quarteirões, assim como o meu queixo que ficou boquiaberto quando eu vi o que estava acontecendo ali. Um rastro de sangue efêmero impregnava o chão cinzento do asfalto, enquanto não apenas um corpo, mas dez jaziam totalmente sem vida no chão perante a uma Sofia totalmente fora de si.
Os olhos dela estavam totalmente negros e sua boca estava toda ensanguentada e eu sabia que aquele sangue não era o seu. Os latões de lixo revirados indicavam que talvez houvesse tido uma luta corporal ali dela com aqueles homens que agora nada mais eram do que cadáveres sem nenhuma gota de sangue em seu organismo. Os passos de Blair finalmente me alcançaram e ela parou ao meu lado tendo a mesma reação que eu vendo em meio aquela escuridão o nascimento de um monstro.
― Sofia ― chamou Blair quase que em um sussurro com a voz embragada e os olhos marejados perplexa com a cena que vislumbrava. ― O que você fez?
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