1 - Descobertas

Eu não entendo e nem ao menos sei o porque, mas lembro de tudo o que aconteceu naquela noite, perdi tudo o que havia no mundo, fiquei sem chão não podia imaginar como seria minha vida dali para frente. O chão coberto de sangue, os gritos de desespero deles e a forma brutal de como foram mortos, aqueles malditos sentindo prazer em os matar, sem piedade como se fossem animais...

— Amara? — disse meu tio. — Tudo bem? — pergunta cauteloso.

— Sim... — tento disfarça.

Olho da varanda o deserto que infesta a rua sem pessoas ou sons deixando sobressair apenas as nossas vozes.

— Não precisa mentir — disse convencido.

Não respondo.

— Quando ira superar? — pergunta cabisbaixo.

— Pensa que é fácil pra mim
lidar com tudo o que aconteceu? — digo. 

— Amara você ficar pensando nisso não vai ajudar. — diz ele.

— Charlie eu nunca vou superar, nunca vou esquecer ou perdoa se é isso que quer saber. — digo séria.

Me levanto já sem paciência e me viro em direção a porta, mas paro e olho para Charlie, arrependida por minhas duras palavras, ninguém tinha culpa da dor que eu sentia.

— Desculpe, eu só não quero falar sobre isso! — distancio o olhar e contínuo andando.

Subo as escadas, que já não viam uma tinta a muito tempo, apenas escutando os sons agudos que elas faziam a cada degrau que eu subia.

Charlie talvez nunca entenda a dor que sinto o vazio que me intercede, hoje com dezessete anos parece que tudo é sem sentido, eu não sou como os demais jovens, não tenho uma expectativa de vida não penso em fazer faculdade ou seguir uma profissão, eu era uma simples jovem desconfiada e cheia de dúvidas. Esses olhos que um dia tivessem inocência e doçura, hoje não dizem quase nada, há apenas um vazio e muitos mistérios.

Toda minha vida foi assim, tem algo que não me faz evoluir não me faz seguir em frente, tudo me prende aquela noite e como tudo aconteceu. Um trauma que me possui até hoje.

• • • •

Naquela manhã quando acordei me deparei com Charlie sentado na varando pensativo de uma maneira que a tempos não via...

— Atrapalho? — pergunto calmamente.

— Bom dia! — disse sorrindo.

— Bom dia, no que está pensando? — me ajeito ao seu lado.

— Nada de importante!

Foi ai que eu percebi que minhas atitudes estavam me afastando cada vez mais de Charlie e eu sabia o quão isso o magoava.

— Sei que ultimamente não tenho conversado direito com você, que eu tenho sofrido todos esses tempos sozinha, mas ainda não sei lidar com isso, e espero que me desculpe, e espero que daqui em diante sejamos sinceros um com outro. — digo a ele.

Ele abre um longo sorriso.

— Estava pensando no seu pai! — disse me deixando surpresa, pois Charlie não costumava comentar sobre meus pais.

— Em que exatamente?

— Ele era um ótimo irmão, e um ótimo polícia!

— Igual a minha mãe! — afirmo.

— Sim, Robert e Helena eram ótimos policiais!

— O senhor também era! — digo sorrindo.

— Talvez, mas deixei a polícia muito cedo! - disse sério.

— Não conversamos muito sobre isso, na verdade nem conversamos sobre isso. — digo.

Ele pensa um pouco.

— Você é muito parecida com sua mãe, mas é incrível que sua personalidade seja toda do seu pai! — disse olhando em minha direção. — Marrenta, irônica, convencida, cabeça dura... — disse sarcástico.

— Eu já entendi! — digo fingindo uma falsa raiva.

Para um pouco.

— Mas também a pessoa mais doce, atenciosa e corajosa que eu conheço! — disse docemente. — Suas qualidades não são pra quem quer, mais sim pra quem merece.

Eu o abraço.

— Eu nunca te disse, mas obrigada por me acolher, me dá carinho e atenção todos esses anos! — digo em seu ouvido.

Nós ficamos conversando a manhã inteira sobre eles, parecia que o tempo não passava, ficava cada vez mais interessante a vida deles e seus feitos como policiais.
Nunca vir a saber como era sua carreira ou costumes, eles morreram muito cedo, eu tinha seis anos quando tudo aconteceu, lembro vagamente deles, minha mãe era linda, e seu sorriso marcou minha infância até os seis anos, meu pai era alto, e lembro até hoje de sua voz, me auxiliando, me dizendo o que era certo ou errado, e suas pequenas frases repetitivas, mas indispensáveis de todo dia.

Passou se horas é já estava ficando tarde, subi até meu quarto e vi ele todo bagunçado, e encontrei alguns arranhões, logo vi minha janela aberta, me veio a cabeça que fosse algum animal que havia invadido, pelo fato de minha janela estar quebrada. Então desci até o porão e para encontrar algo que pudesse a consertar. O porão estava com as paredes bem velhas, descascando toda a tinta cinza que tinha lá e que com certeza só tinha sido pintada uma vez na vida. E como todo porão se acumula coisas velhas e desnecessárias que já deveríamos nos desfazer.
Como estava empoeirado fazia tempo que ninguém vinha aqui, procurava por um baú antigo que poderia ter esse matérias, no final do porão estava o baú, peguei um pano e comecei a tirar a poeira, e fui abrindo devagar com receio de que ele quebrasse. Comecei a revirar ele todo, mas só havia documentos, estranho pois Charlie guardava essas coisas no quarto, puxei uma pasta de papel e como era antiga ela rasgou, deixando cair vários papéis no chão. Rapidamente me abaixe para pegar, revirando alguns papéis me deparei com um jornal antigo que tinha apenas a página policial, abri vi a foto de uma casa que me era família, fiquei intrigada com aquela casa e ali mesmo comecei a ler a coluna que falava sobre ela...

"Nesta quarta-feira, dia 14 de março, está casa foi cenário de um assassinato cruel, Helena e Robert Martinez foram brutalmente assassinados nesta madrugada por bandidos encapuzados. O casal eram polícias federais a 8 anos, tinham uma filha de seis anos que foi encontrada a dois quilômetros de distância da casa, a polícia desconfia de que os assassinos tenham envolvimento com facções perigosas."

"Policiais federais são mortos por bandidos encapuzados na madrugada de quarta-feira, a polícia supõe que eles façam parte de facções perigosas. Até agora ninguém foi preso."

"Depois de dois anos do assassinato de Helena e Robert Martinez, a polícia não tem nem um suspeito e ninguém foi preso."

A cada palavra que li dos jornais uma lágrima caia, sentia uma angústia e ao mesmo tempo um ódio que não conseguia explicar, saber exatamente o que aconteceu com eles era ainda mais dolorido, ainda mais saber que ninguém foi punido, me trazia mais ódio. Me levantei lentamente ainda em choque com alguns jornais antigos na mão, mas a única coisa que pensava era em falar com Charlie. Subi os poucos degraus de tinha até chegar a porta, fui com os olhos cobertos de lágrimas até Charlie que estava no sofá lendo um jornal.
Quando me aproximei, ele viu o meu estado e se levantou assustado sem entender o que estava acontecendo.

— Amara o que houve? — pergunta assustado.

Não consigo responder apenas mostro os jornais.
Ele segura e sua reação e de surpreso, ele olha para mim sem saber o que dizer.

— Eu já sei de tudo. — digo com a voz embargada.

— Amara...

— Eu encontrei no porão... Por que mentiu pra mim? — meus olhos estavam cheios de lágrimas, que não conseguia mais ver com clareza o que estava acontecendo.

— Amara, me perdoe, você sofreu por tanto tempo com tudo o que aconteceu, pensei que se você achasse que os assassinos estavam presos, te ajudaria a superar! — disse com a voz abafada.

— Pois não me ajudou, não fez diferença nenhuma, eu sofro até hoje, tinha pesadelos quase todas às noites, pois isso sempre vai ser uma coisa que me atormenta!

— Devia ter me livrado disso tudo a muito tempo!

— Não, não devia... — limpo as lágrimas do meu rosto.

— Por que? — pergunta transtornado.

— Porque eu precisava saber do que aconteceu! — digo séria, tentando não fraquejar.

— Você não precisava...

— Ninguém foi punido, Charlie! — digo angustiada.

— Deixe isso pra lá!

— Não, eles vão pagar! — digo num tom alto.

— A polícia...

— A polícia é uma incompetente, eles não fizeram nada, deixaram tudo por isso mesmo!

Me viro e Charlie diz...

— Você tem razão ninguém fez nada!

Paro e olho pra ele.

— Mas eu vou fazer!

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