Capítulo 25

Quintou com capítulo novo!!

Aproveitem 💜



***



David Cooper

Ei, não precisa chorar! – uma garotinha pequena de bochechas gordinhas e um sorriso doce diz a mim.

— Eu não estou chorando! – exclamo enxugando as lágrimas.

— Está sim, eu vi a lágrima descer. – ela diz com convicção.

— Vai embora, não quero conversar! – exclamo voltando a me encolher próximo a janela.

— Menino bravo. – disse com um beicinho. — Não precisa ficar triste, logo um papai e uma mamãe vão te levar. – diz sorrindo.

— Sempre dizem isso mas eu sempre acabo voltando. – resmunguei.

— Aquedite em mim. – ela diz colocando a mochila que estava nas costas no chão e a abrindo. — Cadê você? – ela perguntou para a mochila. — Achei! – disse sorrindo. Caminhou até mim e me entregou um pedaço de pano cor de rosa.

— O que é isso? – perguntei.

— É o meu paninho da sorte. – sorriu. — Toda vez que eu abraçava ele na hora de dormir eu pedia para ter um papai e uma mamãe. – sorriu mais largamente. — E agora eu vou ter.

— As coisas não são bem assim. – murmuro encarando o pedaço de pano. — E por que só tem um pedaço?

— Porque a menina chata rasgou. – fez um beicinho.

— Tem certeza que ele da sorte? – ela sorri afirmando.

— Sim. – sorriu doce.

— Maria? – a voz da senhora diretora apareceu. — Já está arrumada? Venha, eles chegaram.

A menina abriu um grande sorriso e correu em direção a mulher, mas antes virou para mim.

— Tchau menino bravo. – acenou com a pequena mão e sumiu pelo corredor.

O sonho rodeava a minha cabeça. Era a terceira vez que eu sonhava com a mesma coisa e não entendia o motivo. Essa cena ocorreu a tanto tempo atrás, por que justamente agora ela estaria voltando a minha cabeça?

Aquela menina de certa forma estava certa, depois dela ter me dado aquele pedaço de pano meus pais conseguiram me adotar e nunca mais precisei voltar para aquele lugar.

Deixando os pensamentos de lado, me concentrei em me olhar no espelho. Hoje seria o grande dia em que eu conheceria a família de Kiera e eu já estava nervoso o suficiente para querer me atirar da janela.

Vestindo uma camisa social preta dobrada até o cotovelo e uma calça jeans preta um pouco justa visto minha jaqueta preta e saio do quarto encarando Luna.

— Como estou? – questiono. Minha gata apenas me olha de cima a baixo e sai me ignorando.

Kiera diz que eu sou louco por ficar esperando que ela me responda, como se ela tivesse alguma moral para falar sobre. Ela discute com os sapatos dela e eu nem posso falar nada.

Nossa relação é tão boa que as vezes me pergunto se resolvessemos rotular o que temos poderia estragar tudo. É uma relação confortável, brigamos muitas vezes mas depois tudo passa e estamos rindo e nos... e nos amando de novo.

Talvez Kiera fosse o barulho que eu precisava na minha vida.

Pego as chaves em cima do balcão e procuro pelo meu celular, quando o encontro vejo que Kiera está ligando.

— Onde você está? – ela pergunta assim que eu atendo.

— Bom dia, estou muito bem e você? – digo irônico já saindo do apartamento e fechando a porta.

— Bom dia, estou bem sim. Mas onde você está?

— Estou chegando. – digo chamando o elevador.

— Chegando onde, exatamente?

— Estou quase entrando na rua dos seus pais. – minto entrando no elevador.

— Mentiroso, acabei de ouvir o elevador! – ela exclama.

— Eu estou tão atrasado assim? Você disse onze horas. – olho meu relógio de pulso. — Ainda é dez e meia!

— Ainda? Jura? – a ouço resmungar e rio.

— Isso tudo é saudade? – provoco me colocando para fora do elevador e entrando no estacionamento.

— Se eu disser que sim, o que vai dizer? – sorrio.

— Quer que eu diga algo ou faça? – provoco e a ouço rir.

— Que bom que acordou animadinho, está menos tenso com o lance do almoço né? – suspiro.

— Por que foi me lembrar? Agora estou tenso de novo! – ela ri novamente. Quando chego até meu carro avisto Karen se aproximar.

— Bom dia, David. – ela diz passando por mim e acenando.

— Bom dia, Karen. – respondo acenando de volta e entrando no carro. — O que diziamos mesmo?

Bom dia, Karen! – Kiera fez uma voz enjoada. — Muito educado você, tão educado que até vomitei. – rio colocando o celular no suporte e deixando a chamada no viva-voz.

— Não vai me dizer que está com ciúmes da Karen de novo, Kiera. – digo ligando o carro e manobrando para sair.

— Eu? Com ciúmes de você? – forçou uma risada debochada. — Jamais!

— Kiera, eu conheço você mais do que imagina. – digo saindo do estacionamento. — Está com ciúmes, confessa. – ela fica em silêncio.

— Claro que estou! – confessou me fazendo rir. — A mulher tem a mesma inicial que eu, vai que um dia desses você confunde Kieeraa com Ah Kaareen! – ela "geme" me fazendo ter um ataque de risos. — Não ria, idiota!

— Kiera, a probabilidade disso acontecer eram inexistentes. Mas depois do que eu acabei de ouvir, eu não tenho mais certeza disso.

— Experimenta fazer isso que eu te chuto daqui até a China sem direito a parada! – ela exclama irritada me fazendo rir mais ainda.

— Eu sou todo seu, não se preocupe com isso. – respondo. — Coloque isso nessa sua cabecinha oca!

— Tudo bem. – a ouço suspirar. — Chega logo.

— Estou chegando.

— Ótimo, vou desligar. – e sem dizer mais nada ela desliga.

Aproveito e ligo o rádio e coloco em uma música baixa de uma das minhas bandas favoritas. Cantarolo um pouco enquanto vou ouvindo a melodia.

Minutos mais tarde, paro o carro em frente a grande mansão dos Portilho Evans. Quando desço do carro, sou recebido pelo segurança que diz cuidar de manobrar o meu carro. Agradeço e com isso pego a torta de avelã que eu mesmo preparei.

Toco a campainha e em segundos a porta é aberta por Kiera. Ela veste um vestido soltinho branco e azul e sandálias baixas. O cabelo está preso em um coque bem alto.

Ela me abre um grande sorriso, e antes que eu possa falar algo ela me puxa pelas golas da camisa e me da um beijo.

— Bom dia! – ela diz contra meus lábios.

— Bom dia? – pergunto confuso e ela ri.

— Eu só queria beijar logo já que vamos ficar o resto do dia sem poder nos tocar como mereçemos. – explicou.

— Por que não avisou antes? – a puxei pela cintura a beijando. Ao romper o beijo ela me sorri e me puxa para dentro.

— O que é isso? – apontou para o pacote que eu segurava.

— Trouxe a sobremesa. – digo e ela me olha surpresa. — Não queria vir sem trazer nada.

— Assim me deixa sem graça, não levei nada ontem para seus pais. – sorrio.

— Não se preocupe, isso só é coisa minha. – digo e ela afirma.

— Vamos deixar na cozinha então. – ela diz me puxando pela mão até a espaçosa cozinha que estávamos a semanas atrás. Ela abre a geladeira e coloca a torta lá. — Mesmo que eu tenha tentado, eu não consegui escapar. – ela murmura e não entendo. — Gerluza, David chegou. – ela diz.

A senhora que vi na noite passada estava distraída com outros empregados no fogão. Ela se vira e me encara de cima abaixo, assim como fez na noite passada. Depois da análise, seus olhos ganham um certo brilho.

Ela enxuga as mãos no avental verde que vestia e se aproxima.

— Finalmente estou conhecendo-o como mereço! – ela diz me abraçando, e eu retribuo de bom grado. — Se dependesse dessa ingrata ai, nunca iria ve-lo.

— Não mesmo. – Kiera resmunga.

Gerluza corta o abraço e encara Kiera.

— Não me faça te estapear na frente do seu namorado.

— Ele não é meu namorado, e para de ficar me estapeando. Vou te processar por agressão! – Kiera rebate e a senhora a minha frente faz uma careta.

— Essa menina ai, é assim mesmo. Não pense que ela ficou assim depois de adulta, desde pequena é assim. Acredita que quando ela parecia um cisco de gente ela saia por ai vestida com uma única fralda? – perguntou-me e fiz cara de surpresa. — Ela e essa mania dela de ficar correndo pela casa pelada, parece que nasceu do Tarzan! – gargalhei alto sem conseguir me segurar.

— Ei, Ei! Da para parar? – Kiera pediu emburrada.

— Vivia pendura pelos móveis, sem falar que ela não podia ver comida que ela já se entupia. Pensa numa criança gulosa, ninguém dava conta de comprar comida nessa casa. Ela acabava com tudo! – continuou Gerluza.

— Queima mesmo meu filme, sua chata! – Kiera diz mostrando a língua como se fosse uma criança.

— Está vendo só isso? Cuidei, dei banho, alimentei para isso. – Gerluza aponta para Kiera negando com a cabeça. — Quando casar com ela, tome muito cuidado. Essa menina não foi vacinada.

— Eu vou contar tudo para minha mãe, que você me maltrata e tudo! – Kiera resmungou com um beicinho.

Eu ri mas por um momento fiquei sério. Aquela expressão não me era estranha, mas eu só podia estar louco.

— Já estão se provocando de novo? – Bárbara Portilho pergunta entrando na cozinha de forma elegante. Ela tem um grande e doce sorriso nos lábios e uma beleza invejável. — E logo na frente de nosso convidado? – ela diz me sorrindo.

— Mãe, foi ela quem começou. Ela só me maltrata! – Kiera diz apontando para Gerluza.

— Ai, essa menina! – Gerluza resmunga. — Case-se com ela e a leve, já me deu muita dor de cabeça. Se quiser eu pago para despacha-la. – ela continuou me olhando e se afastando logo depois.

— Viu só mãe? – Kiera questiona. Bárbara apenas revira os olhos.

— Não liga, isso ai é a forma delas se amarem. – Bárbara diz a mim me estendendo a mão. — É um prazer finalmente conhecer você. – ela diz agora me dando dois beijos no rosto.

— O prazer é todo meu em conhece-la! – digo sem jeito. — Sou muito fã do trabalho da senhora.

— Fico feliz em saber disso. Mas por favor, me chame de Bárbara. – ela pede.

— Claro.

— Venha, vamos sentar-nos no jardim. Meu esposo e meu filho estão lá. – puxou-me pela mão. Caminhando ao meu lado Kiera fazia sinal de positivo com o dedo enquanto sorria animada.

Ao chegar no grande e largo jardim, avisto William Evans sentado sobre uma mesa com um jornal em mãos e um jovem rapaz que eu já conhecia como Austin.

— Olhem quem chegou! – Bárbara diz a sorrisos. Os dois homens me olham, William sorri levemente mas não parece passar disso.

Ele se levanta e me estende a mão.

— William Evans. – ele diz.

— David Cooper. – aperto sua mão. — É um prazer! – ele afirma parecendo itimidador.

Minha atenção vai para Austin que me sorri um pouco. Não a tanto quanto da última vez que o vi.

— Já nos vimos antes, e ai? – ele pergunta apertando minha mão.

— Tudo bem. E você, como está? – perguntei sem jeito.

— Tudo normal, foi uma facadinha de nada. – brincou.

— Ignore-o. – Kiera me diz.

— Sente-se por favor, o almoço vai ser servido daqui a pouco. – Bárbara diz e com isso obedeço ela.

— Pai, já pode parar de bancar o pai ciumento. – Kiera disse fazendo William a olhar feio. — Austin, isso não combina com essa sua cara feia! – ela disse entendiada.

— O que há com essa garota hoje? É a segunda vez que ela me ataca! – Austin exclama indignado.

— Você provoca, eu só devolvo. – Kiera responde. Austin resmunga algo e não diz nada.

— Então, meu rapaz. – William começa me chamando a atenção. — Você tem um restaurante famoso.

— Ah, sim. – sorrio.

— Imagino que deve ser trabalhoso.

— Realmente é, mas só de ter minha equipe ao meu lado o trabalho é mais suportável. – digo sincero. Olho para Kiera que está me olhando de uma maneira indecifrável.

— Você só tem um em Atlanta, não pretendo abrir em outros lugares? – Austin pergunta me fazendo desviar o olhar de Kiera. — Digo, você tem o melhor restaurante da cidade. Não sente vontade em expandir?

— Bem, não sei. Eu já tenho vinte e nove anos, não sei se vou ter disposição para ficar cuidando de tantos lugares ao mesmo tempo. Só de saber que ele existe já fico satisfeito. – os empregados começam a entrar com as comidas.

— Uh, isso é bacana! – William diz surpreso.

— Kiera tem sido uma boa funcionária? – Bárbara questiona e encara Kiera.

— Bem, ela tem evoluído muito desde o primeiro dia. – respondo em um misto de orgulho. — Ela vem melhorando a cada dia que passa, uma verdadeira chef. – Kiera me sorri.

— Isso é novo. – Austin quem diz. — O nome dela deveria ser Kiera Destruição, tudo o que ela toca ela destrói. É uma surpresa o seu restaurante estar de pé. – disse rindo.

— Me admira eu ainda não te te afogado na piscina! – Kiera exclama. — Austin zomba de mim mas ele mesmo uma vergonha. Sabia que ele com vinte e seis anos na cara se mijou todo por causa de um filme de terror?

— Ei! Isso é pura calúnia, eu suei! – Austin exclama.

— Suou pelo–

— Kiera! – William, Bárbara e eu exclamamos em uníssono. Nos encaramos os três surpresos.

— Que ótimo, agora há um trio feito exclusivamente para me censurar! – Kiera diz indignada.

— Por isso eu digo que essa menina deveria ter a boca lavada com alvejante! – Gerluza diz colocando um prato na mesa. — Nunca vi uma menina falar tanto palavrão quanto essa, valha-me Deus! – exclamou se afastando.  

— É sempre assim, não se preocupe. – Bárbara me diz. — Fica pior quando Angelique está aqui.

— Angelique é um demônio loiro criado propriamente para representar o capeta na terra. – Austin diz.

— Você e ela combinam, por que não namoram? – William questiona o filho.

— Ficou maluco? Eu não! Aquela mulher é o demônio. – Austin insiste. — E nem vem, eu nunca irei namorar ninguém. Meu único relacionamento é com a lei.

— Ele diz nunca, mas eu sei que a primeira que aparecer ele estará de quatro por ela. – Bárbara diz.

— Por que o foco está em mim? Quem trouxe namorado aqui não  fui eu! – Austin diz mudando o foco para eu e Kiera.

— Ele é ridículo. – ela resmunga. — Austin Mônica!

— Maria Kiera! – e assim os dois começam a discutir.

Demoro alguns segundos até que minha mente faz eu parar minhas ações. Meus olhos se arregalam.

"Maria!"

Encaro Kiera, a expressão que ela vez antes e o sorriso doce. Tudo me lembra a menina do sonho, a menina que conheci a mais de vinte anos no orfanato.

Puta merda?

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