Parte 2 - POV Roger
— Se você soubesse como eu odeio esse macacão...
Ainda absorto em meus próprios pensamentos, mal ouço Carla.
— Ei, estou falando com você!
— Não Carla, você não está falando comigo. Você está falando para mim. Mais uma reclamação sem sentido dentre tantos problemas que eu tenho pra me preocupar.
— Você devia comprar logo a parte do seu irmão. Ele é um irresponsável! Não quer nada com nada, você sabe disso. — esbraveja Carla.
— Já te falei que estou vendo isso.
— Você não percebe o quanto é humilhante usar esse macacão? Você é o chefe agora! Seu pai deixou a oficina pra você ser gestor e não continuar como empregado. Precisa contratar mais funcionários e agora você tem condições pra isso!
— Eu não estou me humilhando, estou trabalhando. Agora, dá um tempo! Eu tô cansado e louco pra quebrar um hoje!
— Então deveria quebrar o Cleiton! Eu não acredi...
— Chega, Carla! É tão difícil assim de entender?
O silêncio imperou pelo restante do caminho. Antes de abrir o portão da garagem, Carla coloca a mão na minha coxa, fazendo movimentos estimulantes.
— Desculpa, Ro. Eu tô meio de cabeça quente hoje. Lá no estúdio também não tá fácil. A gente planejou uma noite tão legal... por favor, não acabe com os meus planos...
Sua mão agora estava no meu pau. A desgraçada sabia como me acalmar.
Transamos no capô do carro como de costume. Percebo que a garota do terceiro andar apareceu novamente. Carla adorava isso e não perdia uma oportunidade de se expor para o prédio da frente.
— Eu gosto dela. Poderíamos convidá-la um dia desses... — sussurrou, enquanto eu começava a penetrá-la.
— Não acho que aceitaria.
Confesso que ver a garota se tocando me deixava louco, no entanto, não conseguia imaginá-la fazendo sexo com a gente (embora, tivéssemos esse hábito). Não era possível ver seu rosto com clareza, apenas a sombra de longos cabelos lisos e um corpo curvilíneo. Enquanto me afundo cada vez mais forte em Carla, procuro minha garota como combustível. Meu orgasmo veio em segundos com a imagem dela gemendo sob mim.
***
— Você pegou café?
— Nossa, esqueci! Vai indo pra fila que eu pego — respondeu Carla, voltando alguns corredores.
Encontro uma cesta que estava largada num corredor e guardo os itens que havia pegado. Já na fila, a garota à minha frente acabava de derrubar algumas coisas que segurava. Ela parecia meio estabanada e me senti na obrigação de ajudá-la. Pela sua cara, percebi que ficou envergonhada quando lhe entreguei o absorvente. Era só o que me faltava.
Assim que bati os olhos na moça notei algo familiar. Fiquei pensando se era alguma cliente da oficina ou uma das garotas das quais saíamos. Sou péssimo com rostos.
— Parece que eu te conheço...
Com a rapidez que negou e logo me ignorou, eu só poderia estar enganado. No entanto, sentia seu olhar de soslaio e um clima estranho... Acho que na verdade ela não batia muito bem da cabeça. Muito bonita, mas bem esquisita. Peguei um chocolate e, como celíaco, olhei o rótulo para ver se tinha glúten. A garota me encarou.
— Esse é muito bom! — disse, tentando aliviar a tensão.
Definitivamente ela era estranha. Arregalou os olhos e se virou rapidamente assim que Carla a cumprimentou (minha mulher nunca resistia a um rosto bonito). Pra completar a maluquice, jogou as compras na sacola e saiu quase correndo do mercado, mas ao passar pela parede de vidro, se virou para mim e sorriu, meio constrangida, meio cúmplice. A forma como a sombra bateu no seu rosto, seus cabelos voando em câmera lenta e uma expressão meio descarada me fez lembrar de onde a conhecia, ou melhor, não conhecia.
— Carla... eu acho que...
— Eu sei, Ro. É ela. É nossa garota.
***
Carla desmaiou novamente. A médica disse para não me preocupar, que isso poderia acontecer caso ela não se alimente direito, por isso, neste caso, eu só precisava de alguém para abrir a porra do portão para entrar com ela, mas aquele porteiro prestativo pra caralho começou a chamar o mundo todo para ajudar. Ligou até para os bombeiros, pelo amor de Deus! Contudo, antes que chegassem, uma moradora do prédio dele veio correndo .
— O que houve?
Assim que vi a garota senti como se tudo se encaixasse.
— Por que não a levou pra dentro?
Não disfarcei a surpresa por sua pergunta e se não fosse por aquela situação emergencial, me divertiria com seu desconcerto.
***
No instante que olhei em seus olhos eu sabia que era ela. Seus olhos brilhantes pareciam estar a todo o tempo prestes a chorar. Percebi que meu toque a deixava alerta e isso me atiçou. A imagem de sua cabeça pendida para trás me veio a mente. Carla ficou louca com ideia de ser observada e sempre buscava uma forma de atrair sua presa; isso era a coisa mais estimulante que me acontecia nos últimos 12 meses. Estava cada vez mais monótona nossa relação e as garotas das quais faziam sexo conosco não nos satisfaziam mais como antes. Talvez o problema fosse nós.
Sentei no sofá e estava prestes a comentar sobre meus interesses, já que era evidente o quanto ela estava excitada — assim como eu — no entanto, nada saiu como eu esperava.
— Você é muito jovem. Quantos anos tem? 20? — no máximo 22, pensei.
— 17.
Reprimi um palavrão, mas a surpresa fora evidente. Jamais imaginaria que fosse tão nova, pois sua postura lhe dava a maioridade com total congruência. Fiquei perturbado com a informação, já que estava de pau duro com seus olhos insistentes e não podia fazer nada a respeito.
— Na verdade, vou fazer 18 semana que vem — diz com rapidez, parecendo se explicar.
— Isso é loucura.
— O que é loucura?
Sua pergunta me fez perceber que havia pensado alto demais. A garota se aproximou mais do que deveria, deixando seu cheiro abalar a distância que havia entre nós. Sem pudor, seus olhos esverdeados me encararam, sua boca entre aberta era um convite para o inferno. Respirei fundo e me afastei.
— Você não parece tão nova.
— É o que dizem.
— Você é menor de idade.
— E você é casado.
Aquela acidez e ironia me desestabilizava e apenas me vi concordar e me surpreender ainda mais com sua audácia.
Ri.
Ela não facilitava em nada aquela situação absurda e totalmente inapropriada.
— Exatamente. Ex...exatamente. Eu só quis dizer q...
— Tudo bem... Tá tudo bem. — Ela sorri levemente, exalando inocência.
Ainda agitado, mudo de assunto buscando respirar com um pouco mais de naturalidade.
— Você mora aqui há muito tempo? Devo ter te visto alguma vez pelo bairro.
— Me mudei faz pouco tempo. Desculpe, mas eu preciso ir.
Minha pergunta a desequilibrou. Sabia que estava mentindo, pois havia pelo menos um ano que a via na janela.
A garota pegou do chão sua mochila e as sacolas de compras. Com sua afobação e pressa em ir embora, tropeçou no tapete e quase caiu por cima de suas coisas. Consegui pegá-la antes de isso acontecer e seu corpo pendeu para cima do meu. Nossos rostos próximos demais me fez querer arrancar seu moletom e beijar seu corpo. No entanto, ajudei-a a levantar, coloquei parte de seu cabelo atrás da orelha e beijei sua face. Ela permaneceu com o rosto mais abaixado, mas pude ver que estava vermelha, quente. Decidi que esperaria uma semana para ter essa garota. isso valia a pena.
— Falou com ela? — perguntou Carla após a saída da garota.
— Ela não tem interesse.
***
Confesso que nunca quis ter filhos. Minha relação com Carla ficou quase insustentável durante a gravidez e muitas vezes estive prestes a largar tudo. A paternidade chegou na minha vida para me ensinar a amar alguém mais do que a mim mesmo. Agora, Helena é o centro do meu mundo.
Nesse novo universo — criança doente, brigas conjugais diárias (e sem motivos sérios), sexo cada vez mais esporádico — eu precisava de algo para aliviar a tensão. Carla é uma excelente mãe, coloca nossa filha à frente de sua própria vida, contudo, nós como um casal não existia mais. Sendo assim, decidimos abrir ainda mais nossas regras. Por hora, algumas ex-colegas de faculdade estavam sendo suficientes.
Depois de um dia fodido, debaixo de uma garoa fininha, olho para a janela que há tempos não possui mais protagonista. Enquanto lembro de seus olhos sedentos por mim, milagrosamente, a vejo saindo dentre as cortinas. A luz do poste iluminou seu corpo assim que ela se aproximou do parapeito. Parecíamos estar tão próximos que era possível ver seus traços delicados.
Será que ela esteve escondida durante todo esse tempo?
Não nego que vê-la se expondo me deixou surpreso e excitado. Sorrimos um para o outro pactuando o desejo que sempre existiu. Precisava encontrar uma forma de tê-la, já que agora não havia empecilhos.
Mas eu estava muito errado.
***
Continua...
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