Capítulo 1

9 anos antes...

O barulho do despertador em baixo do meu travesseiro era o meu primeiro estresse todos os dias, mas o único capaz de me fazer levantar. Minha mãe estava na habitual agitação matinal enquanto se arrumava para o trabalho, ela era minha única família desde que o meu pai havia decidido que não servia para o posto.

— Bom dia, filha. — Disse, enquanto arrumava seu almoço na bolsa. — Pode passar no mercado quando sair do colégio, por favor?

— Bom dia, posso sim. — Estava procurando algo para comer, na minha lentidão matinal.

— A lista está no balcão, junto com o dinheiro. Vou chegar um pouco mais tarde hoje, consegui um extra. — Minha mãe era empregada doméstica, mas essa profissão se flexibilizava todas as vezes que seus patrões precisavam explorar seu trabalho. — Preciso ir, estou atrasada. Não demore muito para sair.

  Ela pegou suas bolsas que estavam aguardando em cima da mesa, me deu um beijo rápido na testa e saiu a todo vapor como habitualmente fazia. Aquela mulher era minha maior referência de força desde que me entendo por gente, infelizmente não é um caso isolado no bairro em que vivo.

  Depois de tomar um banho e me arrumar com o uniforme, estava pronta para enfrentar o oceano de idiotas, popularmente conhecido como Ensino Médio. Não sou uma emo revoltada ou qualquer coisa parecida, mas a minha escola é realmente um amontoado de adolescentes ricos metidos a besta. Não gostava da convivência, mas era o melhor ensino que minha cidade tinha a oferecer, felizmente, havia conseguido uma bolsa de estudos.

  Cheguei ao meu lugar na sala de aula antes do horário, aproveitei o tempo para escutar música, os meus fones altos eram desculpa suficiente para não precisar ouvir a conversa de ninguém. Contudo, alguém resolveu estragar meus poucos minutos de paz quando cutucou meu ombro. Fingi que não tinha sentido, na esperança de continuar ouvindo a voz orgástica do Harry Styles. Tentativa frustrada, já que continuei sentindo alguém apertar meu ombro.

— Oi? — Me virei para trás, mantendo minha expressão controlada. — Eu te conheço? — É óbvio que eu não conhecia, eu sei quem são as pessoas que estudam comigo. O garoto que me cutucou não tinha um rosto de se esquecer. Seu cabelo escuro era uma bagunça que caía perto dos olhos puxados, como se tivesse mexido várias vezes, até o uniforme ridículo da escola ficava bem nele. Os olhos se estreitaram um pouco mais quando um sorriso surgiu de seus lábios, e nesse momento foi difícil não ficar encarando demais.

— Ah, perdão pela falta de educação. — Sua voz era grave em contraste com um sotaque fofo. — É o meu primeiro dia, sou Kim Taehyung.

— Me chamo Zendaya. — Respondi, sem vontade de ter muita interação. Não me julgue mal, mas tive algumas experiências ruins com as pessoas dessa escola, especialmente com as do sexo masculino, eu tinha meus motivos para ser reticente.

— Você pode me ajudar a entender esse organograma com as disciplinas que estão estudando? A secretária do diretor se esforçou, mas falou um pouco rápido demais. — O sorriso retornou ao rosto com a menção da secretária. Ela era realmente uma mulher agitada.

— Acho que é melhor você perguntar para a Bella, ela vai conseguir te explicar melhor, já que é a representante. Está sentada a primeira cadeira perto da janela.  — Me virei para a frente, e foi o momento que o sinal tocou, anunciando o início da aula. Ok Harry Styles, a gente se encontra na hora da saída.

   A professora de literatura havia recebido as instruções de dar boas vindas para o novato diante da turma, notei as olhadas nada sutis das cheerleraders quando o tal Kim Taehyung se apresentou. Ele passou a mão pela cabeleira, interpretei como um ato de nervosismo, mas contou que havia acabado de chegar aos Estados Unidos. Admito, o cara além de gato, tinha uma oratória muito boa.

Três tempos depois, o sinal anunciou o intervalo. Minha cabeça sempre saía fervendo das aulas de cálculo, mas quando eu adentrava a sala de música, era reconfortante. O meu lugar preferido da escola era esse espaço, eu relaxava quando conseguia sentar de frente para o piano e praticar canções novas. Música ocupa um espaço importante na minha vida, aprendi a tocar alguns instrumentos num curso comunitário de uma igreja do meu bairro.

  A música que eu estava praticando se chamava Supermodel, era sobre uma mulher que não era assumida no seu relacionamento romântico. Aproveitei a sala vazia para cantar conforme meus dedos dançavam pelas teclas.

I could be your supermodel if you believe

Eu poderia ser sua supermodelo, se você acreditar

If you see it in me, see it in me, see it in me

Se você visse isso em mim, visse em mim, visse em mim

I don't see myself

O que eu não vejo em mim mesma

Mesmo não tendo vivido nenhuma experiência romântica de abandono, conseguia sentir a profundidade da letra. Ok, não é como se eu tivesse tanta história pra contar sobre minhas relações amorosas. Ainda assim, mulheres e mães solteiras no meu bairro não era um fenômeno tão isolado.

— ... A nossa sala de música. — Ouvi uma voz atrás de mim, que finalmente me tirou dos meus próprios devaneios. Quando me virei, estavam Bella e o novato, ela seguia concentrada na tarefa de apresentar a sala de música, mas ele tinha os olhos vidrados na minha direção. Fala sério, não fez nem questão de disfarçar, estava me sentido vulnerável e invadida de certa forma. Eu sei que a sala de música é de uso coletivo, mas não custava nada anunciar a presença, enquanto eu derramava sentimentos naquela canção.

Não consegui disfarçar minha irritação e desconforto quando saí apressada. Que seja, já estava quase no fim do intervalo, de qualquer forma. Fiz o máximo para ocupar minha mente com todas as tarefas propostas pelos professores, e esquecer a vergonha que estava sentido até o fim do dia. Quando o sinal tocou outra vez, já estava com os fones de ouvido e a mochila a caminho da saída.

— Já vai correndo para o segundo emprego, Zendaya? — Jacob, um dos idiotas que achava engraçado tirar sarro da minha cara, falou quando passei. Era disso que eu falava, algumas pessoas dessa escola achavam engraçado rir às custas de alunos bolsistas. Ricos estúpidos.

  Estava dominando a arte de ignorar esses imbecis, e foi o que fiz.

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