Traduzindo
Uma corrente gélida percorreu todo o corpo de Paulina, fazendo-a tremer levemente. Os olhos claros estavam arregalados e a boca abria e fechava nervosamente, embora nenhum som saísse.
— Você é maravilhosa, linda, gentil e compreensiva, a melhor pessoa que conheço. — Nathaniel acariciou seus dedos. Longe de transmitir conforto, aquele gesto, junto com a declaração seguinte, levou lágrimas aos olhos da Perez. — Qualquer homem seria feliz ao seu lado. O problema é comigo. Eu não te mereço.
— Não entendo... — murmurou com dificuldade, já que sua garganta formigava como se tivesse areia.
— Não quero iludi-la Lina. Valorizo demais sua amizade.
— Amizade? — Paulina chiou com voz aguda.
Desnorteada, respirou fundo e sacudiu a cabeça, necessitando colocar os pensamentos em ordem. Nathaniel não podia larga-la, não podia. Ela o amava e ele a amava.
— Tudo bem... — murmurou sustentando um sorriso trêmulo. — Podemos dar um tempo... alguns dias... meses talvez?
— Desculpe-me, Lina. É definitivo.
— Por quê?! Estamos felizes, planejando o nosso casamento... — De repente achou um motivo para a decisão de Nathaniel. — Se for por causa da festa, cancelamos... Não foi ideia minha... — justificou apertando as mãos dele. Percebera ha dias que Nathaniel não aprovara a festa após o casamento, só a mantivera para agradar a sogra.
— Paulina...
— Porque quer me deixar? — questionou desesperada. Lágrimas quentes escorriam por seu rosto, pingando sobre a toalha de mesa.
— Não é fácil explicar — Nathaniel disse olhando as mãos unidas sobre a mesa.
— Eu quero uma explicação... Mereço uma...
Nathaniel inspirou profundamente e desviou o olhar para a janela por alguns instantes antes de encarar Paulina com firmeza.
— Eu dormi com outra. Tentei resistir ao que sentia, mas uma noite bebi além da conta e... Simplesmente aconteceu. — Pálida, Paulina levou uma mão até a boca trêmula, o rosto tomado pelas lágrimas e pelo choque. — Prezo sua amizade, jamais pretendi ofende-la ou magoa-la. Eu... — engoliu em seco — juro que foi uma única noite de fraqueza. — explicou na esperança de obter o perdão da Perez.
— Foi... uma aventura? — Paulina arquejou, tentando limpar com a mão livre o rosto molhado. Observou a versão desfocada de Nathaniel. Ele era tão lindo, um homem maravilhoso, cuidadoso. Dera um passo errado, mas estava arrependido. — É normal isso acontecer com os homens às vésperas do... Não tem problema... Eu te perdoo... — Forçou os lábios trêmulos a sustentarem um sorriso. — Está tudo bem, não precisamos cancelar nada... Eu te perdoo... — repetiu voltando a apertar as mãos dele.
— Preciso do seu perdão, mas o casamento está cancelado, definitivamente — completou resoluto.
— Por quê? — choramingou em um fio de voz.
— Ela está grávida.
— Grávida...?! — Arfou diante de mais essa revelação, lembrando que o plano de esperar alguns anos antes de terem filhos fora um dos motivos para seu estresse dos últimos meses.
Ele assentiu, parecendo verdadeiramente chateado por dar a notícia.
— Agora entende?
Entender? Ele pedia para entender, quando tudo que queria era lançar algo na parede, gritar, bater, se jogar em um poço.
— Eu... eu... entendo... mas... Céus! — Chorou, sem se importar que as pessoas nas mesas ao redor escutassem. Não ligava em chamar a atenção, ser discreta quando seu coração estava dilacerado não era prioridade.
— Queria poder mudar o que fiz, mas... Eu lamento muito.
Um riso angustiado subiu pela garganta dolorida da Perez. Seu mundo desmoronava a sua frente e ele lamentava. Fechou os olhos com força, desejando que ao abri-los tudo fosse apenas um sonho ruim. Mas isso não aconteceu. Continuava no restaurante favorito dele, com as mãos frias envolvidas pelas dele, observada discretamente pelos outros clientes do local, sendo motivo de curiosidade e pena. Juntando o resto de dignidade o encarou fixamente, procurando imaginar um futuro sem ele. Não conseguiria viver sem ele.
— Podemos criar a criança juntos... — propôs. — Casaremos... caso ela não te dê a guarda, deixarei que nos visitem. Eu te amo... Também amarei a criança... Não precisa se separar de mim... — choramingou desesperada.
Nathaniel apertou os lábios, soltou um longo suspiro e removeu as mãos.
— Não posso fazer isso com você e nem com a Cherry. Vou me casar, mas será com ela — anunciou para desespero da ex-noiva.
— Cherry? — Um estalo brilhou em sua mente. — A secretária do Simon?
— Sim. Compreenda Paulina...
— Não! Chega de "compreenda Paulina", "entenda Paulina". Estou farta! — murmurou desnorteada, uma vez que sua garganta doía impedindo que gritasse de frustação, raiva e dor. Agarrou a bolsa encostada na cadeira e levantou depressa, fazendo a cadeira virar para trás e cair em um estrondo no chão. Mordeu o lábio inferior com força ao ser alvo da atenção, agora indisfarçável, dos clientes nas outras mesas.
— Paulina... — Nathaniel levantou e estendeu a mão para segurar seu braço.
Sentindo-se humilhada e exposta, Paulina se afastou e correu para fora do restaurante aos prantos. Ouviu o grito de Nathaniel chamando-a, mas não parou, com o coração disparado continuou o mais rápido que suas pernas permitiam, sem olhar para trás um só instante.
~*~
Concentrado nos relatórios da próxima reunião com um cliente, Simon franziu o cenho ao ouvir um barulho semelhante ao lamento de gato ou bebê. Como não tinha ambos, ergueu a vista do notebook e prestou atenção ao seu redor, procurando captar a origem. Olhou para a porta aberta do escritório a tempo de ver Paulina passar chorando.
Supondo que o encontro com Nathaniel terminara mal, levantou e foi rapidamente para a porta, parando pouco antes de atravessa-la. Da mesma forma que exigia que ela não se intrometesse em sua vida, não podia se intrometer na dela. Embora, mas de uma vez, Paulina desacatara essa regra, estabelecida após anos convivendo com uma mãe bisbilhoteira. O que abria uma exceção para ele também, decidiu ao escutar uma porta batendo com força.
Aproximou-se do quarto da governanta. A porta fechada não atenuava os soluços e o choro.
— Paulina. — Bateu, mas não obteve resposta. — Posso entrar? — Bateu novamente e sentiu-se um idiota. Caso ela abrisse, o que no momento parecia improvável, o que faria? Não trouxera um copo de água como bandeira da paz, estava longe de ser o tipo que ameniza o sofrimento alheio e ouvir os problemas dela com os preparativos do casamento parecia sentença de morte. Era mais inteligente ignorar a situação e voltar ao trabalho.
Sem tirar os olhos da porta fechada, decidiu que bateria só mais uma vez, se ela não respondesse e nem abrisse retornaria para seu escritório.
— Paulina — chamou e novamente não obteve resposta.
Levou a mão a maçaneta, determinando que desistiria se estivesse trancada. Não estava. A abriu e, parado no mesmo lugar, observou o quarto iluminado pela luz do corredor.
Paulina estava sentada na beira da cama, a cabeça abaixada e as mãos espremendo as alças da bolsa em seu colo. Chorava copiosamente, o corpo tremendo com os soluços.
Mentalmente, reafirmou que, seja lá o que aconteceu, Nathaniel era o rei dos babacas e pesou suas escolhas diante do estrago deixado pelo Muller. Embora, desde o momento em que largou o trabalho para segui-la até ali, só existia uma. Mesmo que sua atitude fosse contra todas as suas regras, Simon entrou no quarto, se agachou em frente à governanta e segurou o rosto pequeno com ambas as mãos para erguê-lo. Em meio às lágrimas que desciam velozes pelos olhos cor de mel, Simon notou a surpresa com a qual Paulina o fitou.
— O que houve? — perguntou enquanto tentava, sem muito sucesso, apagar com os polegares o rastro que as lágrimas deixavam na face alva.
— Nathaniel d-disse que sou b-boa demais pra e-ele, q-que não quer me i-iludir e p-por isso não p-pode c-continuar c-comigo... — respondeu Paulina entre soluços, enquanto mais lágrimas caiam de seus olhos.
— Traduzindo: Ele te deu um fora — Simon resumiu sem pensar e se arrependeu logo depois quando a Perez se entregou a um choro compulsivo.
O novo lote de lágrimas causou o arrependimento imediato de Simon. Caçou o celular no bolso da calça, ansioso em desfazer seu erro. Se soubesse que Nathaniel cancelara o casamento jamais entraria naquele quarto.
— Ligarei para a minha mãe. Ela saberá te consolar — O ergueu resmungando: — Sou péssimo nisso.
— Não! — Paulina agarrou o aparelho pressionando-o contra o peito. — Não quero que ela saiba... Ninguém deve saber...
— Todos saberão mais cedo ou tarde, que diferença faz se ligar? Pelo menos agora ela ficará aqui. — concluiu exasperado.
— Nathaniel vai mudar de ideia... eu sei que vai — pronunciou, secando o rosto com aflição.
Simon respirou fundo para conter os comentários ferinos, mas Paulina tornava a tarefa impossível.
— Ele precisa de um tempo sozinho...
— Ele disse isso ou é seu coração iludido falando?
Os lábios trêmulos se apertaram e os olhos claros se encheram de lágrimas. Com um suspiro derrotado, Simon sentou ao lado e a abraçou pelos ombros.
— Juro que não direi mais nada. Chore o quanto precisar.
Paulina se agarrou a ele com força e fez exatamente o que ele disse. Chorou até não poder mais, até os pensamentos esvaírem de sua mente, até adormecer.
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