Relaxe!

Simon alcançou Paulina perto da porta principal e teve de segurar seu braço para que parasse. Ela o afastou bruscamente e ele só não zombou da atitude tempestuosa por notar as lágrimas nos cantos dos olhos claros.

— Vamos para casa.

Melancólica, Paulina concordou e não ofereceu resistência quando Simon a segurou novamente pelo braço, deixando-se guiar até o carro dele.

Por meia hora o caminho foi feito em um silêncio constrangedor. Mais tranquila e ligeiramente envergonhada da forma que saíra da mansão Salvatore, Paulina apertou as mãos, incerta do que deveria falar para quebrar a tensão dentro do carro, decidiu começar pelo pedido que seu noivo fizera para ele.

— Nathaniel me contou que pediu para você ser padrinho dele...

— E eu disse que aceitaria se você quisesse — comentou Simon sem tirar os olhos da estrada. — Você quer?

Não, ela não queria ter qualquer vínculo com ele, mas jamais diria isso.

— Nathaniel quer...

— Não perguntei o que Nathaniel quer — interrompeu rude. — Quero saber o que você quer?

— A-adoraria... — respondeu trêmula.

Viu os lábios de Simon se inclinarem em um rápido sorriso debochado.

— Você é péssima mentirosa Perez.

— Não estou...

— Está! Nós dois sabemos disso — contestou. — Decidi que gosto da ideia de ser o padrinho. Minha primeira atitude nesse cargo será lhe dar um conselho: Nathaniel é idiota, tapado e não lê mentes, se não dizer exatamente o que espera dele, dificilmente irá supor sozinho. Diga que quer casar de branco e toda a parafernália romântica.

— Nathaniel é muito ocupado...

— Desculpa de merda! — Paulina o encarou com olhos arregalados. Mas Simon não viu, pois mantinha a expressão impassível voltada para a estrada. — Se ele não consegue dedicar um pouco de seu precioso tempo fazendo algo para agrada-la, é melhor desistir dessa palhaçada de casamento.

Com os olhos fixos nele, sem saber o que dizer, notou quando os lábios se inclinaram em um sorriso de canto carregado de maldade.

— Isso me pouparia o dinheiro do presente e das strippers.

— Strippers?!

Aproveitando um sinal vermelho retirou os olhos da estrada para fixa-los na jovem noiva.

— Elas custam caro. — Paulina piscou confusa, prevendo que havia algo ruim por trás do brilho nos olhos negros. — Sou o padrinho lembra? Tenho que planejar uma grande despedida de solteiro. — Quando o entendimento apareceu no olhar chocado da Perez, Simon acrescentou: — Quando se cala o que pensa, corre o risco de receber o que não deseja, Lina.

O sinal abriu, ele voltou à atenção para a estrada e Paulina afundou o corpo no assento.

O novo silêncio a agradou.

~*~

No domingo Paulina acordou cedo e, embora fosse sua folga, seguiu para a cozinha para fazer o café da manhã.

Passará toda a tarde e noite anterior rememorando tudo que acontecera antes, durante e depois do anuncio do noivado e agora se sentia calma, controlada e de volta a sua pele. Aquela mulher que saia correndo para evitar a própria irmã não tinha sido ela.

Fora justamente isso que dissera na noite anterior quando Paola ligará para se desculpar. No fim ambas admitiram o erro. Paola por extravasar seu desgosto na frente dos Salvatore, em vez de em particular. Paulina por não ter ficado e explicado para a caçula que em um relacionamento alguém sempre tinha de abrir mão de algo em favor do outro.

Embora a mais nova não aceitasse seu argumento, pelo menos prometera nunca mais se intrometer em sua vida, principalmente no que dizia respeito ao seu casamento.

Já habituada com cada canto do cômodo, movimentava-se com destreza e rapidez. Colocou a cafeteira para funcionar, cortou e ajeitou várias frutas em uma travessa, preparou pequenos sanduíches de atum e suco de laranja. Fazia tudo cantarolando, costume que pegara de sua mãe. Distraída, deu um pulo ao ouvir a voz de Simon.

— Quanta felicidade!

Arregalou os olhos ao se deparar com ele só de calça de moletom. Corada, desviou os olhos para os pés descalços do Salvatore.

— Bom dia, senhor Simon!

Ele ignorou a saudação.

— Tem café?

— Sim. Levarei para o senhor na sala de jantar...

— Não precisa, posso beber aqui mesmo — disse sentando em uma banqueta, aguardando Paulina servir uma xícara de café.

— Você não desisti! — resmungou ao observar a Perez empurrar junto com o café, mini sanduíches e uma taça com frutas.

— Nunca — retrucou acostumada com o mau humor e reclamação matinal do Salvatore.

— Já comeu seu desjejum?

— Não.

— Então sente e tome o café comigo.

— Eu... — Olhou envergonhada para o torso nu, voltando a mover os olhos para um ponto seguro, no caso a travessa de frutas. — Não acho...

— Sou seu padrinho agora, quase da família.

— É padrinho do Nathaniel, não meu — murmurou baixinho, irritada com o tom de zombaria.

— Dá na mesma. Sente! — Depois que tensa ela se acomodou ao seu lado, questionou: — Já que desconsiderou a minha pessoa, quem são os seus padrinhos?

— Meu primo Guilherme e Paola — respondeu pegando um sanduiche e suco. — Mas ainda não fiz o convite porque Guilherme está viajando e Paola...

— Está revoltada com seu noivo.

—... não me deu oportunidade de pedir — completou ignorando o comentário dele e adotando uma postura profissional ofereceu: — Mais café?

Ele aceitou e, para alegria de Paulina, não continuou o interrogatório desnecessário e incomodo. Absorta na atmosfera pacífica, aos poucos relaxou em sua banqueta e notou o absurdo da situação. Passara a semana toda imaginando ela e Nathaniel naquela posição, lado a lado tomando o café da manhã e agora o fazia com seu pior inimigo. O destino tinha uma forma estranha de brincar com as pessoas, concluiu divertida.

— Qual o motivo do sorriso?

— Nada — respondeu ficando séria e rígida. — Me desculpe!

Simon levantou com brusquidão, assustando Paulina ao se inclinar sobre ela e segurar seus ombros com força.

— Não cansa de pedir desculpas? — questionou, irritado com a natureza derrotista da governanta. — O mundo não gira ao seu redor e nem está em suas costas. Relaxe!

Sem dizer mais nada saiu da cozinha.

Muitos pensamentos cruzaram a mente confusa da Perez, o mais forte era que Simon, mesmo quando queria tranquilizar alguém, não deixava de lado o gênio autoritário.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top