Por Trás das Máscaras

Hannah Lawyer

A casa que, minutos antes era aconchegante e hospitaleira, passou a ser hostil. A descoberta de que o Pastor Charleston era parceiro dos Hurricane Brothers, por si só, já era alarmante, mas ver que Redeye tinha encontrado a minha bolsa e visto as minhas armas, foi um golpe pesado que eu ainda tentava assimilar.

O pastor tinha o chamado de Rupert Oldwood, o que significava que agora Jed e eu conhecíamos sua verdadeira identidade e isso era um motivo para os bandidos não deixá-los saírem dali com vida.

Rupert ordenou que seus irmão levassem Jed para “dar um passeio”, o que poderia significar muitas coisas, mas parecia que queria ficar a sós comigo. Eu me sentei e Jed me olhou com um olhar de súplica enquanto eles o arrastavam para fora. Eu não sabia o que ele estava pensando, mas parecia estar mais preocupado em ter que ficar sozinho com os bandidos do que com o fato de eu carregar armas em minha bagagem.

O pastor também deixou a sala e o clima ficou mais tenso quando ficamos sozinhos. Eu não conseguia ler as intenções dele. Seu olhar profundo e intenso pareciam me examinar minuciosamente, como se tentassem ver a minha alma. Eu já tinha visto um olhar assim e isso me deixava apreensiva. Aquele era o mesmo olhar do único homem que eu não ousava desafiar — o meu pai.

— Então, senhorita Earle — Rupert quebrou o silêncio. Sentando-se de frente para mim do outro lado da mesa, enquanto eu alternava o olhar entre ele, minhas armas e o ambiente. —, parece que você mentiu para mim. A menos que “H.L” sejam iniciais do fabricante das armas.

— E quem lhe disse que essas armas são minhas? — desconversei, ainda olhando ao redor. No meu treinamento com Mestre Wang, aprendi que conhecer o ambiente era essencial para uma luta. Não sabia se teria que lutar, mas se precisasse, seria bom estar preparada — Naquela confusão do trem devo ter pegado a bolsa errada.

— Ora, senhorita — ele disse, rindo —, já deve ter percebido que não sou um idiota. Inclusive reconheço um olhar treinado quando vejo um. Não percebeu que essa mesa é uma trincheira? Eu me sentei deste lado para dificultar uma tentativa sua de luta corporal. Não tenho a intenção de lutar com você, primeiro porque não sou do tipo que bate em mulheres e segundo porque acho que tem uma boa chance de você ser mais habilidosa em lutas corporais do que eu.

Redeye era um estrategista notável e, dificilmente, o pegaria desprevenido. Ainda assim, eu não estava disposta a ceder, então mantive a minha postura.

— A única coisa que sei sobre o senhor, é que é um fora-da-lei — disse, tentando provocá-lo.

— E a senhorita é uma caçadora de recompensas! — ele afirmou, com um sorriso de lado, colocando sobre a mesa alguns cartazes de procurados que eu tinha esquecido que estavam em minha bolsa.

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Rupert Oldwood

Eu a coloquei em xeque com aquela afirmação. A princípio, eu não tinha certeza de que as armas eram dela, mas os cartazes de procurados, junto com as iniciais “H.L.” nas armas, me fizeram matar a charada. Ela era Hannah Lawyer, uma temida caçadora de recompensas que tinha em seu currículo um grande número de prisões. Ela era um risco para nós e para o que fazíamos em Charleston’s Hope, ainda mais sendo filha do Xerife William H. Lawyer, então eu tinha que pensar no que fazer com ela.

Os Hurricane Brothers não são assassinos. Temos mortes em nossa conta, mas a nossa prerrogativa é poupar vidas e, apenas em casos extremos, a força letal é usada. O companheiro dela ainda era um mistério para mim. Ele não tem jeito de ser um caçador de recompensas. Nem armas ele parece levar consigo. Além disso, Hannah é conhecida por trabalhar junto de uma outra mulher — uma asiática chamada Mary Wang.

Eu precisava ganhar tempo com ela e, talvez, se ela visse o trabalho que fazemos em Charleston's Hope, pudesse ir embora e fingir que nunca esteve aqui. Essa era a única forma de deixar ela e o amigo dela irem embora, caso contrário, teriam que matá-los.

— Caçadora de recompensas, eu? — ela soltou uma gargalhada que quase me fez rir também. Eu não podia negar que ela era ótima em fingir e, em momento algum ela demonstrou qualquer tipo de medo.

— Você é muito sutil, mas eu sei que está observando todo o lugar e analisando as chances de fugir. — eu disse, antes de empurrar as pistolas até ela — Inclusive, eu sei porque você nem tenta pegar as suas armas para atirar em mim. Só pelo modo como elas deslizaram na mesa, você já consegue saber que estão descarregadas. Isso porque você não é uma professora de piano e nem se chama Beatrice Earle.

— O meu nome é Hannah Lawyer — ela enfim disse, dando-se por vencida e assumindo uma postura mais selvagem —, mas provavelmente você já sabe disso.

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A atmosfera na sala estava carregada de tensão. Hannah olhou para Rupert, que parecia completamente à vontade, sentado do outro lado da mesa. As armas descarregadas diante dela eram um lembrete de que ele estava no controle. Suspirando, ela decidiu que não tinha escolha a não ser contar parte da verdade, esperando que isso pudesse levar a uma saída segura para ela e para Jed.

— Eu estava a caminho de San Francisco, seguindo uma pista sobre o paradeiro do bando de Winona "Bloodmaid" Blackriver. — começou, observando atentamente qualquer reação no rosto de Rupert.

Rupert inclinou-se ligeiramente para a frente, interessado. — Bloodmaid? Então você está viajando a trabalho.

Hannah hesitou, mas sabia que precisava ser honesta, pelo menos até certo ponto. — Não estou à caça de recompensas. Estou à procura de justiça pela morte do pai da minha parceira. Bloodmaid e seu bando deixaram um rastro de mortes em seu último assalto, e o pai dela foi uma das vítimas.

— É estranho a sua companheira não estar com você. — ele ponderou, olhando-a fixamente, tentando verificar o grau de sinceridade nas palavras dela. — Eu sei que ela não estava entre os passageiros do trem, porque tenho informações de que ela é uma jovem asiática.

— Eu a golpeei e a deixei presa — ela admitiu, desconfortável por ele saber tantas coisas sobre ela. Ela sabia que os nomes delas ecoavam pelo velho oeste como caçadoras de recompensas temidas, visto a quantidade de bandidos que elas já tinham prendido, mas não gostava do fato de começar a se tornar famosa. —, não podia deixá-la embarcar nessa jornada cegamente.

— É muito nobre de sua parte partir sozinha para fazer justiça — o fora-da-lei viu verdade nas palavras dela, mas manteve o foco. Não queria ser pego por mentiras ocultas no meio das verdades —, mas sabe que ela não ficará parada esperando você voltar, né?

— É por isso que não posso perder tempo aqui. — Hannah enterrou o rosto nas mãos, demonstrando estar bastante frustrada com a sorte e, olhando para ele novamente, completou: — me deixe ir, fique com meu companheiro como garantia de que não mencionarei nada do que fiquei sabendo aqui e, quando terminar com Bloodmaid, eu retorno para cá e me sujeito à sua justiça.

Rupert observou Hannah em silêncio por um momento antes de perguntar: — Sobre o seu companheiro, imagino que o nome dele não seja Jeremiah Taylor, e que ele não é alfaiate. Mas ele não leva jeito nenhum para caçador de recompensas também. Na bolsa dele não havia nenhuma arma e só encontramos umas pedras estranhas e uns projetos que não fazem sentido nenhum.

Hannah mordeu o lábio inferior, pensando em como responder e, por fim, resolveu dizer a verdade. — O nome dele é Jedediah Smith e nos encontramos por acaso naquele trem quando ele pulou a janela do vagão em que eu estava. Ele está sendo procurado em algumas cidades e acabou me contando tudo sem saber quem eu era. Minha intenção era deuxá-lo sob custódia em alguma delegacia e receber a recompensa por ele depois que pegasse Bloodmaid.

— Interessante… — Rupert assentiu lentamente, parecendo ponderar as palavras dela. — Você o ofereceu como garantia, mas contou que ele é apenas uma mercadoria para você. Não acha que isso inviabiliza a sua proposta?

Hannah manteve o olhar firme. — Nesse tempo que fiquei com Jed, pude perceber que ele não é um criminoso. Ele é apenas um inventor e acredito que estão procurando ele só por suas habilidades inventivas. Estou ponderando sobre entregá-lo ou não e não vou abandoná-lo até decidir sobre isso.

Rupert permaneceu em silêncio por um momento, seus olhos nunca deixando os de Hannah. Finalmente, ele se recostou na cadeira e cruzou os braços. — Muito bem, Hannah, eu acredito em você, mas o que fazemos aqui nessa cidade é muito maior do que você e eu, então não posso simplesmente negociar te libertar em troca do Jed. 

— Vou lhe fazer uma proposta — ele continuou, após uma breve pausa — Mostrarei a você o que fazemos pelo povo de Charleston's Hope, pois preciso que entenda por que fazemos o que fazemos. Vocês serão nossos hóspedes por alguns dias. Depois disso, se ainda quiserem partir, deixaremos vocês irem. Tenho certeza de que, ao ver nosso trabalho, você entenderá nossos motivos.

Hannah respirou fundo, sabendo que estava sem opções.

— Eu aceito — disse ela finalmente, resignada. — Mas posso ficar apenas um dia.

Rupert sorriu, satisfeito. — Ótimo. Amanhã começaremos nosso tour. Até lá, descanse. Você terá tempo de sobra para fazer perguntas e ver com seus próprios olhos o que estamos tentando construir aqui.

Hannah assentiu. Ela via sinceridade nos olhos atentos de Rupert. Naquele olhar profundo não havia a mesma malícia que via no olhar do irmão chamado Viper, que parecia ser o mais jovem e nem a mesma ferocidade que via no olhar de Ox. Redeye era diferente. Ele parecia um líder justo e honrado e a fazia se lembrar de seu pai.

Uma coisa ainda a intrigava — em nenhum momento ele mencionou o nome do Xerife Lawyer. Com certeza ele sabia que ela era a filha dele, mas não quis usar isso na parte da intimidação. Continuaria a tentar um modo de fugir junto com Jed, mas começava a acreditar que poderia confiar no líder dos Hurricane Brothers.

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