Caminhos Cruzados
Jed Smith
Minha nossa, quanto tempo não durmo tão bem assim!
Mesmo escondido atrás desse baú, eu dormi a noite toda. Talvez seja porque não tenho dormido bem nos últimos dias. As preocupações com o projeto do canhão de luz e com as Solititas, não têm me deixado pregar os olhos durante muito tempo desde que fugi de Nova York. Vendo a minha bolsa ao lado da janela por onde eu entrei ontem, eu me lembro de que não faço ideia do que farei com isso e, se não fosse uma descoberta tão incrível, já teria destruído o projeto e jogado as pedras fora há muito tempo.
Quem é essa mulher que me ajudou e como ela pode dormir assim tão tranquilamente sabendo que tem um desconhecido na mesma cabine? Talvez o fato de eu ter contado toda a minha história para ela, tenha feito com que ela confiasse em mim a esse ponto, mas eu preciso começar a controlar a minha língua, ou acabarei nas mãos de um caçador de recompensas ou de outro louco que vai querer roubar o projeto e as pedras. Eu sempre tive esse problema de falar demais quando estou nervoso e a minha última fuga foi bastante estressante.
Como ela é linda, meu Deus e como eu não tinha reparado nisso antes? Os cabelos castanhos caindo como ondas sobre o rosto dela enquanto ela respira suavemente com os olhos fechados, são como uma cortina que esconde uma obra de arte valiosa. Eu tenho que me controlar, não posso arriscar perder a ajuda dela, mesmo com esses lábios pedindo para serem beijados, e... controle-se Jed, não vá estragar tudo outra vez!
Essas roupas que ela está usando sugerem que não é de família pobre, mas porque ela está viajando sozinha? A camisa, a saia e o chapéu são de tecido de qualidade, mas ela não usa nenhuma jóia. Talvez seja só questão de não gostar de jóias, mas isso pode mostrar que ela não é uma riquinha arrogante que gosta de se exibir. Eu poderia ficar aqui analisando ela o dia inteiro com prazer, mas eu estou com fome. Não como nada desde o café de ontem. Acho que vou até o vagão restaurante comer alguma coisa e trazer algo para ela também, para mostrar o meu agradecimento.
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Hannah Lawyer
Minha nossa, não aguentava mais fingir que estou dormindo!
Ainda bem que ele saiu, já estava pronta para me levantar aplicando-lhe um golpe qualquer. Ele estava parecendo um maníaco parado e olhando para mim daquela forma, como se fosse me atacar a qualquer momento. Ficar com os olhos quase fechados requer muito controle e se não fosse pelo meu treinamento em Kung Fu, jamais conseguiria fazer isso por tantos minutos.
Como pode ser tão bonito assim, mesmo tendo acabado de acordar e após dormir no chão de um trem? Olha só o que você está pensando, Hannah. Sabe muito bem que não deve misturar negócios e prazer, então contenha-se! Acho que enquanto ele está fora dá tempo de vasculhar a mochila dele para ver se as tais Solititas realmente existem e se ele esconde alguma coisa. Não o vi carregando nenhuma arma também, o que é estranho para um homem que cruza o velho oeste.
Então essas são as pedras que armazenam energia? São semelhantes ao vidro, mas deve ser por terem sido bem lapidadas. Elas estão frias, mas pode ser porque não estão em atrito ou não têm contato com o sol há muito tempo. Minha nossa! Esse projeto parece ser bem complexo e engenhoso. Se foi realmente Jed Smith quem o criou, ele certamente é um gênio e, é uma pena que esteja fugindo dessa forma, pois já poderia ser um inventor bem-sucedido e ajudar no progresso do país e do mundo. É melhor eu guardar isso e deixar tudo como estava, porque ele já deve estar voltando.
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Após deixar a bolsa de Jed conforme estava, Hannah voltou para o leito, voltando a fingir que dormia quando o ouviu mexer na porta. Ela abriu os olhos após ele entrar e colocar uma bandeja em cima da mesa e os esfregou para reforçar o seu disfarce.
- Bom dia, senhorita - ele disse, de modo cortês, fazendo uma reverência de leve -, não era a minha intenção acordá-la, mas quis trazer-lhe o café da manhã como prova de minha gratidão por estar me ajudando. Peço perdão novamente por não ter um chapéu para tirar, mas a senhorita já sabe o que aconteceu com ele e, na próxima parada, eu tratarei de providenciar um novo.
Ela sentiu vontade de sorrir. Ele era engraçado em sua forma de querer ser cortês e educado e parecia que a sua sedução era quase involuntária, como se fosse uma espécie de poder sobrenatural.
- É muita gentileza de sua parte, senhor Smith - ela respondeu com um sorriso simpático, enquanto sentava-se e ajeitava o cabelo em um coque que deixava algumas mechas soltas -, na sacola atrás do senhor tem um chapéu que eu tinha comprado para presentear o meu pai. Fique com ele e, caso encontre um na próxima parada, o senhor me devolve.
- Me perdoe, senhorita - ele falou, enquanto pegava o chapéu na sacola e dava uma boa olhada -, mas não é de bom tom aceitar um chapéu de alguém de quem não sei nem o nome.
- Earle - ela respondeu, quase soltando um riso mais alto e contendo o em apenas um sorriso. Esse era o disfarce que usava em suas viagens de caça à recompensas - Beatrice Earle.
- É um grande prazer conhecê-la, senhorita Earle! - ele fez uma reverência completa retirando o chapéu, após colocá-lo pela primeira vez - Espero que a refeição que lhe trouxe esteja do seu agrado.
Aquele homem era um perigo, ela pensou enquanto sentava-se à mesa. Além da beleza e do magnetismo natural, ele ainda parecia ter um forte poder de dedução, pois tinha adivinhado exatamente o que ela gostava - pão de centeio, bolo de frutas secas, ovos, bacon e café. Até o ponto dos ovos ele tinha acertado.
- Está tudo ótimo, obrigada - ela agradeceu, antes de começar a comer -, o senhor tomou o seu café?
Tomei no vagão restaurante, enquanto a senhorita dormia - ele respondeu, sentando-se do outro lado da mesa. - Perdoe-me se estiver sendo invasivo, mas estou curioso quanto ao fato da senhorita viajar sozinha.
- Tudo bem, não tem problema perguntar - Hannah disse, rindo do modo cuidadoso como ele falou. Era quase impossível não sorrir para ele e ela já não sabia se quem sorria era a Hannah Lawyer, ou a Beatrice Earle -, até porque o senhor me contou muita coisa sobre si ontem à noite.
- Minha nossa - Ele suspirou desconcertado, ao se lembrar -, peço perdão por aquilo, mas eu não consigo conter a minha língua em momentos de tensão. Foi até deselegante de minha parte as coisas que falei sobre as mulheres. Eu juro que é algo involuntário.
- Não precisa se preocupar, Jed - ela o pegou desprevenido ao chamá-lo assim e o viu dar um leve sorriso -, seus segredos estão guardados comigo. E, respondendo a sua pergunta, eu estou indo para São Francisco, onde irei tutoriar a filha mais nova dos Worthington. Sou professora de piano.
- Achei que estava voltando para casa, porque disse que o chapéu era para presentear o seu pai - Jed falou, segurando o chapéu contra o peito.
- Eu comprei o chapéu porque achei que era a cara dele - ela respondeu dando de ombros -, mas ficarei alguns meses sem vê-lo.
- Não parece ser a primeira vez que fica longe de casa - ele deduziu, parecendo analisá-la profundamente -, parece tão independente e segura.
- E não é - Hannah respondeu dando de ombros mais uma vez. Ele estava correto mais uma vez em sua dedução, o que a fez pensar que ele poderia ser um ótimo investigador se quisesse -, eu fiquei um bom tempo longe de casa estudando e já fui tutora de outras meninas.
Eles seguiram conversando enquanto ela comia. Hannah, ou Beatrice, como se apresentou, contou que tinha perdido a mãe quando ainda era bem jovem. Os médicos disseram que era a doença conhecida por Vômito Negro, que tinha matado várias pessoas na região. Essa história não era um disfarce, Elisabeth Lawyer era uma mulher forte, que se destacava mesmo sendo esposa do Xerife Lawyer, mas a doença a atacou fulminantemente. Mesmo tendo morrido jovem, a vida e a postura dela como mulher em uma sociedade altamente machista, foram um grande exemplo para ela.
Jed também contou sobre a sua mãe e sobre como precisou fazê-la odiá-lo. Quando precisou fugir, teve o cuidado de fazer a sua mãe acreditar que ele tinha realmente traído Everett Patterson e, inclusive, que era o culpado pela surra que o seu pai tinha levado e que causou a morte dele. Ela não sabia absolutamente nada sobre a invenção ou sobre as Solititas e, caso não a fizesse odiá-lo, Everett ou qualquer outra pessoa poderia usá-la para atingi-lo. Era visível o quanto aquilo o machucava, mas também era visível a seriedade com que ele tratava a promessa que tinha feito ao seu pai.
Eles sentiram um forte solavanco que derrubou a bandeja que estava na mesa, quebrando louças e espalhando a comida pelo chão. O trem tinha parado bruscamente e, olhando pela grande janela, Jed pode ver um bando de caubóis mascarados rendendo o maquinista enquanto outros entravam no trem.
- Parece que é um assalto! Vamos permanecer na cabine e talvez eles vão embora sem nos incomodar. - ele disse, olhando para ela, mas mal tinha terminado a fala quando a porta da cabine se violentamente, revelando dois homens mascarados.
- Olha só, Ox, parece que encontramos o maior tesouro aqui - o bandido que, pelos olhos, parecia ser o mais jovem disse, olhando na direção de Beatrice e dando uns passos na direção dela.
- Deixe ela em paz, facínora, ou eu... - Jed gritou imediatamente, ameaçando se aproximar, mas se conteve ao ver o jovem pistoleiro apontar-lhe a arma com um movimento rápido, mesmo sem olhar na sua direção.
- Não faça nada estúpido, herói - o mascarado disse, com uma calma que deixava as suas palavras mais sombrias e intimidadoras -, eles me chamam de Viper porque eu sou ágil, traiçoeiro e na grande maioria das vezes, letal. Você não teria qualquer chance nem se estivesse armado, mas desarmado e em uma briga, teria menos chance ainda contra o meu irmão aqui. O chamam de Ox, porque ele é forte como um touro e nunca perdeu uma briga.
- Já chega de papo, Viper - o mascarado chamado Ox ordenou, impaciente -, e vocês dois, peguem as suas coisas e nos sigam até o vagão restaurante. Não nos faça pedir duas vezes!
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