II

A caçada se inicia


Como todos os dias acordei antes do sol nascer, tomei um rápido banho, vesti uma legging preta e um cumprido moletom preto largo, calcei meu coturno preto verniz e fiz um coque frouxo em meu cabelo. Pego minha mochila esvaziando-a e jogo algumas coisas dentro dela, depois de me dar por satisfeita fecho o zíper e engancho sua alça em meu ombro direito, saio silenciosamente do quarto, sem fome decido dar o fora daqui logo.

Solto um suspiro aliviada por ter saído de casa sem ninguém ter me importunado, abro a porta da minha picape jogando a mochila no banco do passageiro, dou partida sentindo o vento entrar pela janela e estralo meu pescoço, hoje o dia vai ser cansativo.

Dirijo até o centro da cidade e não posso deixar de pensar em como vou fazer a morte do tal lobisomem acontecer, tudo tem que sair perfeitamente, pois eu sei que se algo der errado minha mãe não vai me deixar sair disso nunca mais por puro sadismo.

As coisas seriam tão mais fáceis se eu tivesse herdado seus malditos poderes. Por que a vida tem que ser uma merda? Bem, qual seria a graça se todos fossem felizes? De qualquer forma quem gostaria de ser uma bruxa? Magia e beleza eterna? Hum... Não obrigada!

No entanto, devo admitir que já foi tudo o que quis ser. Mas agora tudo o que eu consigo sentir é desprezo e não apenas por bruxas, todos esses seres sobrenaturais me enojam. Se engana quem acha que eles podem ser melhores que humanos, você fantasia que ser um deles é incrível e empolgante, que são legais e íntegros, mas tudo o que eles querem é poder e não pensam duas vezes em matar quem entra em seu caminho, no final, são iguais aqueles que tanto repugnam: os mortais. 

E é por isso que esse será meu último trabalho, estou tão cansada, nunca foi uma escolha minha ser caçadora. Mas quando minha mãe me falou aos sete anos que eu não era uma bruxa e que devia ter alguma utilidade, eu concordei. E quando ela disse aos meus oito que me mandaria para um casal me treinar, eu não contestei. Enquanto eles me torturavam e sorriam  das minhas lágrimas dizendo que eu devia ser forte ou minha mãe ficaria chateada, eu acreditei. Aos doze quando me deram um nome e endereço, eu fui e fiz o que me foi mandado. Não parei mais, eu aceitei tudo.

Primeiro eu achava que minha mãe passaria a me amar se eu fizesse tudo o que me era ordenado, logo eu soube que não aconteceria e mesmo assim continuei porque era a única coisa que sabia fazer muito bem e estava ajudando pessoas livrando-as de alguns monstros. Demorei para perceber que estava me tornando um deles, sem ações moralistas, estava apenas fazendo o trabalho sujo daqueles mais fortes. E tudo o que sei agora, é que preciso me afastar, recomeçar, saber quem de fato sou, não sei, só necessito do simples e fácil.

Solto um suspiro parando o carro no estacionamento da biblioteca, desço ao pegar minha mochila e tranco a porta. Como minha última caçada foi exterminar toda uma linhagem de vampiros, esses que se dividiam em pequenos clãs por todo o país, fiquei um tempo consideravel longe de casa dessa vez, faz quase um ano desde a última vez que estive aqui e não mudou quase nada, os mesmos fofoqueiros sentados na pequena praça rodeada por flores, algumas construções novas e as ruas estão um pouco mais movimentadas.

Arrumo a mochila em meu ombro ignorando os olhares das senhoras e senhores sentados no banco da praça que cochicham entre si com seus olhos em mim. Nessa cidade vivem humanos e seres sobrenaturais, sendo poucos do primeiro tendo conhecimento sobre o segundo, os mais antigos vivendo aqui geralmente são os que sabem, mas possuem esperteza o suficiente para não comentarem. E são esses que me observam, eu sei que eles não sabem quem de fato eu sou, para todos sou apenas a neta da cozinheira, sendo essa Olga, uma humana. No entanto, eles me encaram por saberem onde moro, Abgail, minha mãe, não acha eles dignos o suficiente para saber quem ela é, o que não impede com que eles desconfiem, sendo o bastante para temerem todos que naquela casa vivem.

Assim que entro na biblioteca uma garota loira e com uma enorme armação de grau me olha por trás de um balcão com um imenso sorriso, ignoro ela andando pela biblioteca vazia até uma mesa de quatro lugares no fundo, me sento virada de costas para a parede e de frente para a porta. Pego um caderno de desenhos e uma caneta preta em minha bolsa deixando-a em cima da mesa, abro um página em branco e olhando-a começo a formular um plano.

Solto uma risada em escárnio ao notar que me sinto mais a vontade em uma biblioteca do que na minha própria casa, tanto que sai de lá até aqui para conseguir planejar como vou matar alguém, eu sou ridícula.

Balanço a cabeça voltando a me concentrar e com a caneta faço alguns traços no papel. Pela primeira vez não sei muito bem como prosseguir, nenhuma caçada anterior foi nessa cidade, o que deixa as coisas complicadas, por ter vivido boa parte da minha vida e ainda morar aqui. Solto um suspiro focando nos traços por alguns minutos, não acho que será simples observar sua rotina sem que alguém me veja, é uma família importante que tem sempre olhos voltados para eles. Como farei isso então?

Acabo apertando a caneta com um pouco mais de força e aplico leveza rapidamente, enquanto tento pensar em algo. Terei que me aproximar? Fazê-lo confiar em mim? Mas como farei parecer algo natural? Agora começo a entender porque um mês.

-Uau! Que desenho lindo! -levanto os olhos rapidamente vendo a garota do balcão do outro lado da mesa com alguns livros na mão olhar com fascínio meu desenho. -Tem nome? -pergunta agora me olhando com entusiasmo.

-Não gosto de por nomes. -digo sem muita vontade de responder olhando a paisagem um tanto sombria.

Ela acena com a cabeça não falando mais talvez percebendo que não quero conversar, ela leva os livros para mais perto de si parecendo meio incerta e se vira para sair me fazendo relaxar, mas então de alguma forma tropeça na cadeira espalhando os livros no chão conseguindo ficar segurando apenas um que aperta firmemente se agacha começando a pegar muito rapidamente os que haviam caído e consegue ficar de mãos vazias ao não manter o equilíbrio. Faço uma careta ao me levantar para ajudá-la que me dá um daqueles seus enormes sorrisos em agradecimento.

Não sei de que maneira, mas desde então ela não para de tagarelar no meu ouvido sobre livros, meu desenho e em como ela é péssima não conseguindo fazer nem uma linha reta, algo sobre como seu irmão é chato e coisas que não dou a mínima. Sem saber direito o que fazer, acabo por ajudar ela a arrumar os livros nas estantes, sem parar de tentar achar respostas para minhas perguntas.

-Ah... Eu nem mesmo me apresentei. -ela continua falando. -Eu sou Emmy...Emmy Carter. -paro totalmente quando a escuto falar seu nome o que ela não percebe por estar focada em falar mais algumas coisas sobre si. -E qual seu nome? Não me lembro de vê-la. Mas também passei um tempo fora e voltei faz um mês, consegui esse serviço na biblioteca porque eles estavam quase que desesperados, não sei porque ninguém quer trabalhar aqui é tão bom estar rodeada de livros, a única coisa ruim que consigo ver é que não vem quase ninguém, por isso fiquei tão feliz quando você entrou aqui, por um mês além do meu irmão, mas isso foi mais por mim porque ele não gosta muito de ler, só veio você o que é um absurdo. Ler é fundamental para qualquer um, engrandece tanto e é tão triste que tão poucas pessoas leem... -saio do meu transe quando não escuto mais sua voz ao fundo e percebo ela me encarando em expectativa e lembro que perguntou meu nome.

-Clarissa Zawkly -digo mentindo meu sobrenome colocando o último livro na prateleira.

Alguns minutos depois saio com um convite que não sei muito bem para o que é e que aceitei porque essa garota é quem vai me aproximar do meu alvo.

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