Prólogo
"Ninguém pode dominar o vento, nem segurá-lo. Assim também ninguém pode evitar a morte, nem deixá-la para outro dia. Nós temos de enfrentar essa batalha, e não há jeito de escapar."
Eclesiastes 8:8
Eram seis horas, do dia 22 de fevereiro de 2017. O sol ainda não tinha invadido a minha janela. Estava fraco por trás das nuvens. O primeiro noticiário do dia anunciava tempo instável, com previsão de pancadas de chuva até o fim da tarde. Minha prova de matemática estava marcada para o segundo período, e eu mataria o primeiro para dar mais uma revisada na matéria. Ouvi os ruídos do despertar de Verônica, minha irmã mais nova, e enquanto a cafeteira preparava meu café, fui até o quarto de Ophelia, minha avó, com quem eu morava desde os meus quatro anos. Ela sempre gostava que eu a acordasse antes de partir para o colégio.
Caminhei, preguiçosa, pelo corredor do nosso apartamento no centro de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, ao sul do Brasil. As paredes brancas, vazias, sem vestígios de quem morava ali. Minha avó não mantinha nada pessoal nas casas em que morávamos, talvez porque estávamos sempre nos mudando, não sei. Nunca recebi uma explicação sensata sobre isso, mas acreditava que ela tentava nos proteger de alguém. Alguém que já havia feito muito mal a nossa família.
Quando cheguei à metade do caminho, notei a porta do quarto de Ophelia entreaberta. Estranhei. Ela não gostava de portas abertas, nem mesmo quando estava sozinha. Bocejei enquanto abria a porta de madeira escura e chamei seu nome.
Ela estava deitada com as costas na cama, descoberta, ainda com as roupas da noite anterior. Um frio percorreu minha espinha. Chamei seu nome novamente.
Nenhuma resposta.
Tentei afastar os pensamentos ruins, e pensei, com certa esperança, que o fato de ela estar ainda com as roupas de ontem era porque tinha tomado vinho demais. Isso acontecia as vezes, e ela apagava onde estivesse. Fiquei com pena de acordá-la, eu sabia como era acordar de ressaca e não era nada prazeroso, mas sabia que se não o fizesse, vovó brigaria comigo depois.
Então, mesmo contra a minha vontade, caminhei até a grande janela de vidro, abrindo as cortinas para que a claridade entrasse e batesse em seu rosto. Fui até ela e a chamei mais uma vez, encostando em suas mãos que estavam sob o suéter verde musgo. Ela estava gelada. Chamei novamente seu nome, a chacoalhando um pouco e notei a dureza de seu corpo. Um desespero lá no fundo começou a tomar conta de mim.
Meio desorientada, continuei chamando seu nome e tentando acordá-la. Mas não obtive nenhuma resposta.
— Vovó, pelo amor de Deus! Acorda! — minha voz saía tremula e sufocada.
— O que houve? — Verônica surgiu na porta. Eu a olhei, tentando conter o desespero, mas certamente ela o viu em meus olhos, e correu até onde eu estava.
— Não venha aqui! — disse, tarde demais. Verônica subiu na cama pelo outro lado, e começou a chacoalhar Ophelia também.
— Vovó! Vovó! Nathalie! — olhou-me desesperada — O que está acontecendo? Porque ela não acorda?
Eu me afastei, desnorteada, com a visão turva. Ao longe via Verônica ainda tentando acordar minha avó aos prantos.
"Essa é a sua tarefa, Nathalie. Cuidar de sua irmã. Verônica precisará de você mais do que nunca. Uma deve cuidar da outra, mas você terá que ser a mais forte. Em todos os sentidos." Lembrei-me de uma conversa que eu e vovó tivemos há três ou quatro semanas atrás. As palavras dela invadiram minha mente, e agora eu conseguia compreender. Ophelia não estava falando sobre uma possível mudança de cidade. Estava falando sobre nos deixar. E estava me deixando uma responsabilidade.
O que eu deveria fazer?
Num ato de consciência, ou loucura talvez, caminhei rispidamente até a cama e puxei Verônica de lá. Ela, completamente fraca e transtornada, relutou em meus braços, gritando por Ophelia.
— Verônica! Me escute! — eu tentava prender sua atenção puxando seu rosto para me olhar — Nós temos que ligar para a ambulância, ok? Eu preciso que você me ajude agora. — ela me olhou, os olhos loucos, mal mantendo o foco — Você faz isso por mim? Liga para a emergência? — ela assentiu, e foi aos tropeços para a sala.
Peguei o celular de Ophelia e disquei o numero do único familiar ainda vivo.
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