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Quando se é criança e algum sentimento lhe aflige, os braços da mãe são sempre um refúgio. Não há como temer coisa alguma ali, pois o quente dos braços da pessoa que te trouxe ao mundo é a única coisa que importa. Infelizmente, nunca presenciei tal feito. Minha mãe morreu enquanto me segurava nos braços, então o único calor que conheço, é proveniente daquele que saira do seu corpo em seu último suspiro.
Não existe um refúgio para mim. Quando os sentimentos me dominam, apenas silencio e deixo o mundo falar ao meu redor. Internamente, sempre encaro a besta, esperando que ela me devore ou eu o faça. Desta mesma forma, ocorre esta mão, todos ao meu redor tentam escolher o penteado perfeito, a roupa que combine com o penteado, nenhum deles presenciam em meu rosto a eterna insatisfação. A única pessoa que me observa, está sentada diante de mim com um tablet tão grande que cobre parte do seu rosto, fazendo anotações matinais.
Seus cabelos ruivos estão presos no alto da cabeça e seus olhos verdes me inspecionam com cuidado. Melany, não parece se intimidar com minha expressão de poucos amigos.
— Um passarinho me contou sobre ontem à noite — há um pequeno sorriso no canto do seu lábio. Faz uma semana que a conheço, e ainda não entendi essa sua capacidade de achar graça em tudo.
— O seu passarinho também lhe informou que não saio deste quarto até falar com o meu pai?
— Um dia como futura rainha e já está dando ordens. É impressionante como você aprende rápido.
Mordo o lábio superior sendo incisiva com meu olhar. A ruiva revira os olhos antes de abandonar o eletrônico sobre a escrivaninha que nos separa e inclina o braço direito sobre os joelhos entrelaçados.
— Sabe que a Madame Conce me mata se eu não te levar para fora deste quarto hoje.
A pessoa responsável pelo meu penteado, faz um leve movimento com a mão e sinto minha nuca repuxar. Antes mesmo que eu possa reclamar, a voz fina do responsável sussurra-me um perdão, e rapidamente seu toque se suaviza.
— Espero que esteja preparada então.
Cruzo os braços e levo meus olhos para longe. Se iria viver presa às decisões dos outros que eu ao menos pudesse fazer as minhas. Não havia proposta, lei de casamento, pedido real, acordo pré-nupcial que me obrigasse a sair daquele quarto.
— Peça para eles se retirarem, eu quero ficar sozinha.
— Rose... — ela começa, como se já tivéssemos intimidade o suficiente para usar tal apelido. — Não entendo como está reclamando da oportunidade que quase todas as garotas deste país morreriam para ter.
— Perfeito, e de quem foi a ideia de trazer a única garota que não dá a mínima?
Ela dá de ombros e levanta as mãos na defensiva, recobrando sua postura.
— Minha que não foi, eu teria dado minhas roupas do corpo para estar no seu lugar.
— Quem não gostaria de ter sido enganada pelo próprio pai e acabar em um casamento arranjado? Essas garotas sonham muito baixo.
As últimas palavras devem ter ofendido Melany, pois suas duas palminhas pedindo para que todos saiam soa mais alta do que o normal. A criadagem real é tão ágil que sequer tenho tempo de recobrar a postura antes que todos abandonem os aposentos. Minha dama de companhia, observa com o canto dos olhos o último criado sumir de nosso campo de visão e depois fita-me com perspicácia.
— Está bem, você venceu. Gostaria de me dizer suas últimas palavras antes de me mandarem para a forca? — ela passa a mão em volta do pescoço dramaticamente.
— Não — respondo com seriedade e em resposta seus olhos verdes energizam-se em minha direção.
— Você é cruel quando quer. Cruzes. Tá, eu vou lá convencer o seu pai da emergência. Enquanto isso, tente não fugir outra vez.
Ela aponta seu dedo indicador para mim, mas há tanta doçura em seu olhar que mesmo se tentasse uma vida inteira, não conseguiria intimidar ninguém. Vislumbro seu corpo se ausentar do quarto e silêncio reinar tão imensamente sobre o ambiente que faz meus pensamentos latentes se tornarem barulhentos além do normal.
Meu pai não é o tipo de homem que passa despercebido, sua capacidade de chamar atenção é tão grande que seu andar se faz grandioso no meio da multidão. Não me surpreende eu ter acabado aqui, como futura integrante da realiza. Imagino que este deveria ser o seu desejo interno, mas sua idade e gênero o impede de se candidatar a tal cargo. Afinal, é disso que se trata este casamento, um cargo. Não é um presente, não é um encontro de almas. São apenas negócios.
Sei que meu pai está chegando, pelo barulho do lado de fora do corredor. O seu tom de voz geralmente alcança timbres muito alto o que faz parecer que ele está sempre empolgado ou gritando, em algumas ocasiões as duas coisas. Ajeito meu corpo na cadeira, repassando toda a conversa imaginário que tive em minha cabeça durante essas quatro horas de espera. Eu sei muito bem o que vou dizer, e não há argumentos que me impeçam de sair deste palácio ainda hoje.
Batidas na porta, e Melany é a primeira a entrar. Ela ainda está com o mesmo blazer e calças claras de hoje de manhã, mas desta vez seus cabelos ruivos estão presos e no lugar de um belo sorriso, há somente o semblante apreensivo de quem certamente está pagando pelas minhas decisões. Ao seu lado, a Madame Conce, seus olhos rudes e frios inspecionam o ambiente e sei que até o final desta conversa ela terá encontrado no mínimo três defeitos no quarto que precisarão ser arrumados.
A seguir, entra ele, o homem do momento, o Omar, estimadamente conhecido como meu pai. Porém, não há muito em sua aparência que denuncie nosso parentesco. Seu corpo é forte e alto, com uma pele branca sem nenhum vestígio de envelhecimento, seus olhos escuros possuem sempre uma curiosidade impregnada e seus cabelos castanhos claro, quase o fazem parecer jovem demais para a sua idade. Mesmo sendo a personificação de algo intrigante, está sempre sorrindo para tudo e todos, mesmo quando está bravo. O que torna sua personalidade um tanto quanto medonha. Nessas horas sempre agradeço por não ter passado muito tempo com ele.
E por último, e totalmente insignificante. O fiel escudeiro da família Florence, o advogado do diabo, como eu gosto de chamá-lo, Santos German. O mesmo gentil cavalheiro que me tirou do colégio a uma semana. Se eu soubesse que a sua boa ação era somente para me mudar de uma cela a outra, eu teria pulado do carro em movimento.
Estou sentada na sacada, observando os quatro elementos se dirigem a mim. É uma combinação intrigante confesso, Santos, é baixinho e gordo e tem olhos de crocodilo. A Madame Conce, por outro lado, é o crocodilo. Meu pai, parece ser mais da realeza do que eu. E Melany, flutua como uma fada entre eles. Apenas três chegam até mim, Conce fica para trás inspecionando a limpeza dos móveis, é claro.
— Senhorita Florence — Melany diz com cordialidade. — Santos German e Omar Florence.
Levanto-me e estendo a mão. Sei que é assim que devo agir, embora ainda não tenha sido iniciada nas aulas de etiqueta real. Ninguém a aperta de imediato, mas logo Santos o faz, tentando apaziguar o clima tenso que se instaura tão de repente como uma brisa leve.
— Eu vou deixá-los a sós. — Mel diz, curvando seu corpo antes de se retirar.
Adoraria pedir que ela ficasse, o seu sorriso é tão gentil que poderia facilmente quebrar a geleira nos olhos de meu pai. Volto a me sentar, e os homens a minha frente o fazem.
— Querida... — essa é a pior palavra que Omar poderia usar para se dirigir a mim. — O que houve de tão urgente que a fez achar pertinente me tirar de uma reunião com o conselho de fundadores para estar aqui?
Busco todo o ar que há ao meu redor para dizer as palavras certas no tom perfeito, e não tornar essa conversa mais desagradável do que ela precisa ser.
— Me leve embora — digo com firmeza.
— Como assim, te levar embora?
Observo seu corpo se fechar com uma cruzada de pernas e o olhar pairando sobre o jardim à nossa frente.
— Você me disse que eu estaria aqui para ser uma dama de companhia. Em momento nenhum me informou sobre noivar com o futuro rei. Acredito que este não é o tipo de informação que se deva dispensar. — Faço uma pausa para recuperar o fôlego e afastar um fio de cabelo que se aproxima dos meus olhos. — Pai, eu não quero me casar. Eu quero ajudar as pessoas e não tem como eu fazer isso trancada nesse lugar.
Um longo suspiro, me preparo para o que virá a seguir. Seus olhos de geleira fitam os meus.
— Roselyn, você acha que fazer parte do exército da salvação vai ajudar as pessoas em que? Se você deseja ajudar as pessoas de verdade, essa é a sua oportunidade. Sendo bem otimista, diria que a única. É daqui que as ordens vêm. Não pousa uma mosca sobre um café sem que o rei não tenha dito que o faça. — Ele se inclina sobre a mesa com as mãos cruzadas. — Poder, minha filha, é assim que você muda o mundo. Com poder.
A ambição dança em seus olhos como uma criança, e percebo meu coração se desmantelar.
— Um poder que me acorrenta a uma vida que eu não quero, há uma pessoa que eu nem conheço. Nem amo....
— Por favor, querida. Não haja como se o amor fosse a maior das suas prioridades agora. Você só tem dezessete anos, não sabe nada sobre o que é o amor...
— Eu sei que o amor é deixar uma filha trancada em um colégio por dezessete anos e depois a oferecê-la como uma prostituta para satisfazer seus próprios interesses egoístas.
As palavras saem com tanta veracidade de minha boca, que sequer percebo o impacto que elas causam. Fecho os olhos e espero que sua mão atinja meu rosto. Era algo bem comum no colégio. Eu dizer a coisa errada e em contrapartida, ser castigada. Mas nada acontece. Apenas um silêncio ensurdecedor se faz presente. E
E enquanto o mesmo cresce, um criado se aproxima com uma mesa de café da tarde e pede licença para nos servir. Sorrio para o garoto que deve ter um pouco mais do que a minha idade, mas que não foi vendido pelos pais para estar aqui. Certamente ele fez a escolha dele. Algo que parece que foi me tirado desde o nascimento.
— Servida? — pergunta Santos me apontando um cookie. Eu adoraria enfiá-la goela abaixo dele, porém seria um desperdício de tempo.
O silêncio retoma, mas não perdura por muito tempo.
— Eu não escolhi te deixar naquele colégio. Sabia que não conseguiria te criar sozinho depois que sua mãe partiu, e gostaria de garantir que você tivesse a melhor das educações. Porque esse era o sonho da sua mãe. Ela queria que você estivesse aqui, e quando essa oportunidade surgiu, eu fiz questão de honrá-la. Porque isso é o amor.
Sou engolida por uma avalanche de culpa. Posso sentir os olhos queimando, implorando para que a primeira lágrima caia, mas não irei ceder. Pelo menos não as lágrimas. Tudo o que eu sabia sobre a minha mãe, ouvira de outras pessoas. Quando eu era criança, meu pai enviava algumas cartas que ela havia me feito durante a gravidez. Pela forma como suas palavras saiam, ela tinha certeza que não iria sobreviver. Ela sabia que me dar a vida, tiraria a dela.
Suspiro amargurada. Há mil e um motivos pelos quais eu quero fugir deste lugar. Porém, o único motivo que me faz querer ficar é o mais importante agora. De repente a raiva de ser abandonada, arranjada para um príncipe idiota não faz mais diferença nenhuma, porque eu sei que faria qualquer coisa pela minha mãe. Para honrar a vida que ela me deu.
— Você não precisa amá-lo. Mas ame o que sua mãe queria para você. De uma forma que eu não sei explicar ela sabia que você iria mudar o mundo, e agora você tem essa chance. Não seja teimosa. Eu não teria lhe trazido aqui se não soubesse que pode ser a melhor rainha que este país já teve.
Penso na rainha Vitória, a mãe de Tristan. Será que ela teria a mesma opinião que meu pai?
— Todos vão amar você, inclusive o príncipe.
A última frase aperta meu coração. Será que eu realmente quero ser amada por ele?
Desolada, retiro a última camada da armadura que vesti para vencer essa discussão.
— Eu vou fazer o meu melhor para honrar a mamãe. Mas saiba que eu não serei uma rainha Vitória, não vou ficar presa em um castelo nos confins dos tempos, para que um mimadinho desfile com a sua amante por aí enquanto o povo morre de fome.
Pela primeira vez no dia, o clima se amena e meu pai sorri.
— Claro que não. Você não é uma Vitória, você é uma Roselyn. Não existe ninguém como você, querida. — Ele segura minhas mãos e beija o topo da direita.
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