Reconstrução

º Visão de F. Knox º

Yohan foi assassinado na cadeia. Bem, isso aconteceu, certamente, porque ele sabia demais e meu pai e eu sabíamos disso – na verdade, ele também. Ele deixou um pequeno bilhete, onde pedia para ser cremado discretamente, caso acontecesse e assim foi. Acabou que, de qualquer forma, meu pai ficou relativamente abatido com tudo isso, por isso nos mudamos de casa – ele chegou a me dizer que mesmo que tudo que tinha vivido com Yohan fosse mentira, ainda assim ele amava o filho que ele parecia ser. Bem, entendo, eu acho.

Eu não fui ver meu irmão na cadeia, porque não conseguia. Pra algumas pessoas, pensar que "apesar de tudo ele é seu irmão" pode ser mais fácil, mas eu realmente não conseguia, não mais. Me esforcei pra demonstrar o quanto eu o amava no tempo em que ficamos juntos e apenas me veio na mente o que minha mãe falava sobre "isso não ser suficiente". Realmente, com Yohan todos os meus esforços tiveram o efeito contrário.  

Pra mim era péssimo admitir que mais uma vez não fui suficiente, embora Tyler sempre ressaltasse que o problema ali não era eu – meu pai também me disse várias vezes que Yohan parecia outra pessoa, quando preso. Todas as vezes que ele foi visitá-lo, voltava cada vez pior, até que deixou de ir. Foi, provavelmente, o período mais estranho da nossa vida.

Bem, depois disso tudo eu passei as férias inteiras em fisioterapia intensiva. Assim que saí do hospital, tudo o que eu mais queria era pilotar, mas meu pai e Tyler seguraram minha onda por algumas semanas, até minhas articulações estarem prontas pra aguentar pilotar uma moto com o peso da minha. A única coisa que vivenciei realmente foi a dificuldade de conseguir meu equilíbrio de novo.

Nesse meio tempo, Tyler postava alguns vídeos sobre a minha recuperação, tanto na vida pessoal, quando em alguns exercícios bom para o basquete. As pessoas pareciam animadas com a minha rotina e por mais que no começo isso fosse estranho, quando deixou de ser, se tornou um hobby curioso e quando eu já estava melhor, minha pequena "torcida" parecia realmente vibrar de felicidade. 

– Bom dia, família. – Tyler nos cumprimenta, entrando em casa. Meu pai o observa e eu sorrio, vendo a cara de pau dele. – Bom dia, sogrão. – meu pai continua observando-o. Ele brincava que tinha perdido um filho, mas tinha ganhado outros, já que Tyler e Anista estavam sempre lá em casa. 

– Que animação é essa? – meu pai pergunta, vendo Tyler se sentar pra tomar café com a gente naquele sábado que era último dia das nossas férias. 

– Nada, só queria saber se o senhor Felix aceita ir ao cinema comigo. Estava procurando algo pra fazer de diferente. 

– Claro, eu ia no dia do acidente e não pude. Vai ser incrível. – respondo e ele concorda com a cabeça. 

– Certamente vai. – é o que ele responde, comendo. 

– Vão de moto? Espero que o Knox saiba que... – meu pai pergunta, mas antes que ele termine de falar, eu o interrompo.

– Felix. – meu pai olha nos meus olhos. – Pode me chamar de Felix. – ele concorda com a cabeça e seus olhos marejam. 

Ele me chamava de Knox, por uma briga que tivemos, onde eu disse que sequer o considerava meu pai. E por esse motivo, era melhor ele me chamar de Knox, como todas as outras pessoas, afinal, somente quem eu amava exponencialmente – ou sabia que chegaria a esse ponto – poderia me chamar de Felix.  

– Espero que o Felix saiba que ainda não pode andar de moto. – ele termina a frase e eu sorrio. 

– Me chame de Knox. – respondo e rimos.

– Não, sogrão, não vamos de moto, o Vante vai nos levar e nos trazer. – é o que Tyler responde e eu respiro fundo. Nem mesmo como garupa dele ele deixava eu subir em uma moto. 

Terminamos de tomar nosso café da manhã e depois disso meu pai foi trabalhar, enquanto fomos pro meu quarto. Lá, assistimos alguns episódios da série que estávamos acompanhando, Tyler me fez massagem e depois disso o puxei pra mim, encaixando seu corpo no meu. Tyler começou, então, a morder minha orelha e descer os beijos pelo meu pescoço. 

– O que acha? – pergunto, sussurrando e ele se distancia um pouco. Me viro pra Tyler, olhando em seus olhos. 

– Eu vou ser o homem mais feliz do mundo, se você também for. – é o que ele responde, olhando em meus olhos e eu sorrio, puxando-o pra mim. 

– Confio em você, amor. – é o que respondo e ele sorri, me colocando cuidadosamente na cama e passando delicadamente seu dedão pela minha boca. 

Tyler me tratou com cuidado e carinho. Era perceptível que ele tinha medo de me despertar algum gatilho, mas todas as vezes que sua boca encontrava o meu corpo, tudo que eu queria era mais. Ele me beijava e puxava para si com tanta força, que era como se ele quisesse nos juntar em um corpo só. 

Os braços dele tinham praticamente o dobro da largura dos meus, suas costas também e quanto estava por trás, ele me segurava com uma firmeza que na mesma medida que me deixava excitado, me deixava pensativo – Tyler parecia degustar cada segundo de sua refeição, como se tivesse desejado isso com todas as forças.  

Nossa primeira vez não foi rápida, muito pelo contrário. Beijamos todas as partes dos nossos corpos, nos tocamos por muito tempo e quando Tyler penetrou meu corpo, embora eu tenha sentido uma dor aguda por um curto espaço de tempo, o amor com que ele me tratou logo fez tudo fluir da melhor forma possível. Ele sentia tanto prazer, que diversas vezes mordeu minhas costas, em uma tentativa desesperada de não fazer tanto barulho. Isso era bom, como se eu fosse tudo que ele queria naquele momento.

Eu queria muito, estava com ele há um tempo e Tyler nunca tinha encostado um dedo em mim que eu não quisesse. Com ele, aprendi meus limites e vontades de forma transparente, sem o medo de ser usado e descartado. Fora isso, eu confiava verdadeiramente nele e sabia que poderia contar. Ele fez eu me sentir tão amado que só de pensar nisso sinto um arrepio subir pela minha espinha. Mesmo depois que "acabamos" ele continuou me fazendo carícias e mordendo meu corpo, como se ainda estivesse com fome. 

– Meu Deus... – é o que ele diz, depois de um tempo, enquanto ainda continua me tocando e apertando. 

– Não sei se fui bem, eu... – começo a falar e ele me dá um selinho. 

– Espero que já tenha se acostumado com a ideia de viver comigo pro resto da vida, porque eu não te solto nunca mais. – sorrio. – Meu Deus. – ele respira fundo e me puxa pra si, fazendo com que eu deite em seu peito. – Deixa eu te comer todos os dias, por favor. Preciso disso pra viver. 

– Deixo. – respondo e ele me observa. 

– Foi bom pra você? 

– Muito. – beijo seu queixo e ele me observa. – Muito mesmo.

– Superou todas as minhas expectativas. – é o que ele diz, e eu começo a beijá-lo novamente, ficando por cima de seu corpo mais uma vez, descendo minha boca pelo seu peito. – Tem certeza? Minha fome é grande, Felix. 

– Não só sua fome. – sinto o sangue dele se concentrando em apenas um lugar novamente, como ele disse que tinha acontecido no vestiário quando nos beijamos pela primeira vez e ele sorri. – Mas pra sua sorte eu tenho 1,95 de altura, então... – respondo e ele me puxa pra si. 

Não fazia ideia que iria gostar tanto disso, mas sabia que muitas coisas podiam influenciar esse momento. A principal, sem dúvida, era o fato de eu me sentir confortável com Tyler. Quando eu queria comandar, ele permitia e quando eu queria ser comandado, ele assumia. 

Isso também acontecia na nossa vida a dois. Quando eu queria que ele resolvesse tudo, para que eu pudesse apenas seguir o fluxo da vida, ele assumia. E quando ele estava aéreo e claramente queria que eu tomasse conta de tudo, eu fazia. Dessa forma, os dois tinham seus momentos de superficialidade, sem sentir uma sobrecarga.

Quando terminamos a segunda vez, Tyler foi embora, pra se arrumar pro nosso compromisso. Fiquei em casa e me vesti, para esperá-lo com o motorista – já que ainda não estava pilotando ele, junto com meu pai, estavam de complô contra minha paixão. Até porque eu sequer tinha conseguido a autorização do meu pai pra ir ver minha moto – já que ele sabia que quando acontecesse, eu certamente iria pilotá-la.

– Olha só, muito elegante. – meu pai comenta, assim que desço as escadas. Ainda era incômodo fazer alguns movimentos, mas nada que fosse insuportável. 

Vinha treinando pra conseguir pular, quando voltasse pro último semestre da escola – e Tyler, juntamente com os profissionais que me acompanhavam, não me deixavam ficar de moleza. Além de mim, todos ao meu redor estavam trabalhando ao máximo pra que eu já pudesse jogar assim que voltasse. 

– Oi, você... – Tyler trava, depois de me ver, assim que entra em casa. – Tá pronto? 

– Claro. – é o que respondo. Cumprimento meu pai, que acena pra ele e saímos em seguida. 

– Tá lindo. Absolutamente lindo. – é o que ele diz e eu sorrio. 

– Você também. – respondo e entramos no carro. 

Não estava a noite, na realidade era fim de tarde. Fomos atravessando a cidade e enquanto isso, estávamos conversando. Quando o carro parou e olhei ao redor, percebi que na verdade estávamos no parque. 

– O que é isso? – pergunto.

– Queria passar aqui, antes de irmos, sabe? Pra relaxar um pouco, faz um tempo que não venho, desde tudo. Acho que o Jensen iria gostar. – é o que ele fala e eu concordo com a cabeça. 

Descemos juntos do carro e fomos andando até o ponto em que costumávamos ficar. Quando virei a curva que dava acesso ao lugar, no entanto, vi minha moto parada de frente para o banco, na "calçada" que tinha para as pessoas caminharem. Corri até ela, enquanto Tyler ficou para trás. 

Abraçá-la foi como receber conforto na alma. Ela estava linda, novinha e eu sabia que era a minha, porque ele não tinha tirado o adesivo da tampa do tanque. Era um adesivo pequeno, escrito "com amor, mamãe". Passei minha mão por ele e as lágrimas vieram. Sentia como se ela me abraçasse naquele momento.

– Deve ter usado muito dinhe... – quando me viro, Tyler segurava um capacete de cabeça pra baixo, era um AGV Pista GP RR, como o que eu tinha. A diferença é que esse era todo preto. 

– Por quê?

– Ele salvou sua vida, acha mesmo que eu te daria um diferente? – sorrio, pegando o capacete. Quando viro para vê-lo de frente, uma caixinha cai. 

– Tyler... – ele se abaixa, pegando a caixinha, enquanto meus olhos o encaram, sem conseguir piscar. 

– Eu ia te pedir em namoro no dia que tudo aconteceu e depois acabou que... sabe? Muitas coisas aconteceram. – Tyler se ajoelha. – Então acho que oficialmente agora é o momento de te perguntar, Felix, se aceita namorar comigo. Mas tem que saber que eu não pretendo deixar você ir embora nunca, pense no custo benefício a longo prazo. – sorrio. 

– É claro que eu aceito. – respondo, puxando-o e beijando Tyler em seguida. 

Tyler me abraça com força e eu enterro meu rosto em seu ombro. 

– Quero casar com você, construir uma vida ao seu lado. Sou completamente apaixonado por você, Felix. – encostamos nossas testas e ele puxa meu rosto, dando um beijo na minha testa. – Eu já volto, vou buscar meu capacete. 

– É sério? Vai ser minha mochila? 

– Pro resto da vida. – é o que ele responde e eu sorrio. 

Tyler me dá um selinho e vai até Vante. Me sento, esperando ele voltar, enquanto olho as pessoas do parque. Então essa era sensação de viver? É por esse motivo que as pessoas gostam tanto disso e se esforçam tanto pra conseguir passar pelos momentos difíceis? 

– O que está pensando? – ele pergunta, se sentando ao meu lado. 

– Passou a vida inteira buscando algo, sem perceber o mais importante... – ele me observa. – Você é determinado. Queria, porque queria ser como o seu irmão e viveu a vida inteira dessa forma, depois, quando entendeu que isso não era necessário, focou em ser livre e não parou até se sentir assim. Acho que busca muito seu sonho da vida, quando na realidade tinha que valorizar mais suas qualidades, porque elas te guiam pra caminhos que talvez de primeira você tenha virado o rosto... mas você não aceitar de cara não faz com que sua vocação te abandone. 

– Eu percebi que sempre odiei quebra-cabeças, porque não queria pensar. Minha cabeça se potencializa muito, quando penso... mas resolvendo tudo isso, percebi que a melhor parte de um quebra cabeça é terminar de montar e observar o trabalho excelente que fez. – ele responde e eu começo a fazer cafuné em sua nuca. 

– E então? Enfim encontrou o que te representa? 

– Sim, eu quero ser policial. Investigador. – é o que ele responde e eu sorrio. 

– Seu irmão ficaria orgulhoso. Em especial, porque agora que conseguiu prender todos que estavam envolvidos com a morte dele, além de se encontrar, você se libertou e garantiu que ele nunca morrerá pela segunda vez. Isso, porque o Jensen também foi um herói, todos sabem disso e heróis não morrem. – as lágrimas começam a sair dos olhos de Tyler e eu o abraço. 

Esse momento me lembra claramente a primeira vez que ele se abriu comigo. Eu não fazia ideia que a vida me reservava tantas surpresas, muito menos que ela me tiraria da miséria dessa forma. A única coisa que eu podia dizer é que era extremamente grato a ela por isso. 

Fomos juntos ao cinema, pilotei pela primeira vez desde o acidente e depois disso fui dormir na casa de Tyler. A família dele tinha ido viajar, então só voltariam no meio da semana. Acabamos nos relacionando várias vezes – porque aparentemente assim como ele, eu me sentia insaciável. 

Ele tinha uma forma de me seduzir que parecia me hipnotizar. Todas as vezes que Tyler me observava com um olhar baixo, eu sabia que ele queria me devorar mais uma vez. 

– Meu Deus. – ele fala, parando na porta do banheiro. 

Eu já tinha acordado, como sempre, antes dele. Tyler ficou me observando por trás, por alguns segundos. Eu estava com a blusa dele e nada mais, escovando meus dentes, quando ele se encaixou por trás de mim e começou a morder minhas costas e pescoço. 

– Não falta muito tempo pra gente ter que ir pra escola. – falo, enquanto ele continua. 

– Uma rapidinha não mata ninguém, vai te desestressar. Hoje todos vão ficar te encarando, se perguntando sobre você... precisa tirar todos esses estímulos antes. – ele comenta, mordendo minha orelha. Tyler entrelaça nossas mãos e, como a minha estava por baixo, ele passa em seu corpo. 

– Acha que eles vão ser cruéis comigo? – pergunto e ele me olha nos olhos, pelo reflexo do espelho. 

– Se forem, estarei aqui pra te dar apoio. – ele encosta sua testa no meu ombro, me dando alguns beijinhos. – Vou tomar banho, se quiser se juntar, certamente estarei estralando. – sorrio. Não entendia como ele conseguia falar essas coisas sem rir. 

– Vou sim. – respondo e ele parece ficar animado pra tomar banho, correndo pro box e ligando o chuveiro, me chamando com a mão. É claro que vou até ele. A sorte de Tyler é que eu, aparentemente, sou tão carnal quanto ele. 

Quando voltei pra escola, as pessoas me olhavam estranho. Eu já andava, um pouco torto às vezes, mas andava. Algumas pessoas me cumprimentaram e desejaram melhoras. Depois que Yohan foi preso, diversas matérias foram feitas sobre o esquema inteiro que ele fazia parte. 

Também foram expostas as ações de Paul, com depoimentos dos meninos que sobreviveram ao seu sadismo. Bem, quando as pessoas descobriram que eu tinha deixado ele em coma, porque ele tinha tentado abusar de mim, fui de delinquente a herói em menos de uma semana. Além disso eu estava prestes a ser absolvido de algumas acusações e rolava uma certa pressão para que o caso fosse arquivado. 

Meu pai chegou a receber algumas ligações dos pais dele, ofendidos pelo nosso último encontro. Na verdade até entrevistas eles tinham feito, pra afirmar que tentamos manipulá-los e negar o que paul vinha sendo acusado. Bem, no final das contas acredito que uma fruta realmente não cai muito longe do pé, certo? 

No treino de basquete, quando pisei na quadra o meu time começou a aplaudir e vieram me cumprimentar. Realmente eu sentia como se eles fossem parte da minha família. O fisioterapeuta que me acompanhava, veio acompanhar meu treino, que foi pesado pras condições que eu me encontrava, mas pelo menos me sentia útil de alguma forma.

Ainda tive cerca de 2 ou 3 semanas treinando e fazendo fisioterapia intensa pra conseguir correr e melhorar minha movimentação. Com alguns meses eu já estava nas quadras, jogando os primeiros jogos da última temporada do colégio. 

– A gente ainda não conversou sobre, mas... pra qual faculdade aplicou? – Tyler pergunta. Não tínhamos conversado sobre, porque não queríamos que um ou o outro abrisse mão dos sonhos.  

– Harvard. – observo ele, que sorri. – Que foi? Não acha que sou capaz pra conseguir uma bolsa? 

– Não. É engraçado que mesmo que a gente não combine as coisas, sempre estamos na mesma página. 

– Mentira. 

– É, apliquei pra Harvard também. – ele responde e sorrimos, observando as pessoas no parque. – Demorei demais pra achar meu amor, não vou perdê-lo assim. Até meu subconsciente e minha intuição sabe do que eu tô falando. 

– Tá esperando que eu fique derretido com isso e arranque minha roupa quando ficarmos sozinhos em um lugar privado? 

– Não. – observo Tyler. – Pra isso eu já conto com seu fogo, o que eu quero mesmo é ver se consigo expressar em palavras o que meu peito sente todas as vezes que olho pra você. – sorrio e ele se aproxima, me dando um selinho e me puxando pra si. 


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