Máscara
ATENÇÃO: Esse capítulo foi difícil de escrever, então certamente será ainda mais difícil de ler. O Flashback é um tanto quanto explícito, então se tiver gatilho com assuntos delicados relacionados a violência sexual, recomendo que pule – a ausência da leitura do Flashback não impacta na compreensão do capítulo, apenas está presente para dar maior compreensão sobre o nível do distúrbio do personagem citado. De resto, leia com cuidado.
º Visão única de Yohan º
Andar por aquela penitenciária não me assustava. O que assustava, na realidade, era saber que agora todos me viam. Todos sabiam quem eu realmente era... dessa vez eles tinham sido mais espertos que o pobre e indefeso Yohan e isso estava me matando. Não suportava o fato de ter sido pego dessa forma, depois de tanto tempo por pessoas com uma capacidade tão limitada. Nunca me senti uma pessoa comum ou qualquer, pra estar em um lugar com tantas pessoas incompetentes.
Eu sabia que Felix seria um problema pra mim, desde quando ele voltou pra casa dos nossos pais – e até tentei mudar a ideia deles de trazerem, mas pra minha mãe aquilo era um simples ciúme. Ele sempre teve essa coisa carente de querer cuidar de mim, ficar de olho, ir atrás e enquanto eu precisava, por fora, demonstrar gratidão, como se amasse o cuidado do meu irmão, por dentro o cerco estava fechando e eu detestava essa sensação. Se pudesse, teria o matado com minhas próprias mãos.
Esse foi um dos motivos que me fez indicá-lo a Paul. Quando era criança, nossa mãe era costureira e nosso pai, policial. Ela passava o dia inteiro dentro de uma sala e ele, fora de casa. Cresci na rua, fazendo amizades e inimizades sem freio ou autocontrole. A primeira vez que vi muito dinheiro, foi porque um colega de turma estava fazendo alguns "trabalhos" por fora. Lembro-me que quando descobri o que era, pensei que seria fácil, já que 90% dos meninos que eram pegos, eram pretos.
Paul praticamente me adotou, nessa época. Ele me chamava de anjinho com olhos cor de mar, mas nunca encostou um dedo sequer em mim e se qualquer pessoa me olhasse com maldade, ele furava os olhos. Até cheguei a me sentir um mascote dele, mas Paul me ensinava tanta coisa que ignorava tudo e qualquer coisa que me incomodasse nele. Eu realmente o considerava alguém importante.
No final das contas eu usava praticamente todo o dinheiro que ganhava entregando as drogas dos caras, em lanches – e mesmo que meu salário não aumentasse, eu tinha começado pelo dinheiro, mas tinha ficado porque gostava isso. Fora que algumas pessoas pararam de mexer comigo, porque perceberam que algo de errado estava acontecendo e enquanto esse foi o melhor momento da minha vida, meu irmão chegou.
O caipira de Phoenix chegou "machucado", "traumatizado" e além da nossa casa virar um verdadeiro hospício por conta dos gritos e discussões constantes, ele ficava atrás de mim. Isso interferiu diretamente nos meus negócios, além de ser absolutamente irritante ter um fantasma falando que queria me ajudar a viver uma vida que eu já sabia viver. Quando Paul começou a ir atrás de meninos pra satisfazer seus desejos mais cruéis e pontuais, comentei sobre Felix.
Me lembro bem desse dia. Ele tinha usado alguma coisa nova, quando veio em minha direção, assim que cheguei em seu apartamento. Pela primeira vez me perguntei se ele poderia me oferecer algo de ruim.
CERCA DE 4 ANOS ANTES
– O que quer? – pergunto e Paul segura meu rosto, olhando em meus olhos.
– Pela primeira vez, desde que começou a trabalhar pra mim, tenho vontade de amarrar seus braços e fazer coisas com você durante muitos dias seguidos. – é o que ele responde, me soltando e indo até uma mesa.
– E o que te impede de fazer? – ele sorri.
– Você é sádico, Yohan. Quando eu via na TV crimes cometidos por crianças de forma fria, me perguntava se algum dia eu teria a sorte de encontrar um monstro assim pra chamar de meu... e agora que você está aqui, ainda me assusto contigo. – é o que ele diz, pensando um pouco. – No fim, é por isso que não faço nada com você. É um exemplar bom demais pra desperdiçar comendo por horas e dias seguidos. Sua doença te salva de mim.
Me sento em seu sofá e não falo nada pelos próximos 5 minutos seguidos. Nunca pensei que minha forma singular de encarar minha própria existência iria me proteger de alguma forma, já que sempre tive que mascarar isso para as outras pessoas.
Quando minha mãe encobria os animais que eu matava, quando criança, ela fazia questão de sempre ressaltar o quanto ninguém poderia saber de nada. Ela foi a responsável por fazer com que eu criasse uma máscara desde muito novo. Nunca pude fazer nada que tinha vontade, a não ser com Paul. Ele me abraçou, abraçou o meu lado que nem mesmo minha família de sangue sabia que eu tinha. Paul me deu um lar.
– Fez uma lista dos lugares que vai frequentar pra conseguir matar suas vontades? – pergunto ele pensa um pouco.
– É, vou investir nos meninos que os pais trabalham demais e nem terão tempo de procurá-los, porque estão focados em pagar as próprias contas. Os que eu não matar, é porque vão me dar mais dor de cabeça mortos do que vivos, mas... não posso perder a oportunidade de tê-los. – é o que ele me responde, desviando o olhar de mim por alguns segundos. – Não tem medo? De ouvir essas coisas?
– Não, se eu pudesse, veria. – é o que respondo e ele mantém os olhos fixados em mim.
– Por quê? Te excita, monstrinho? – sorrio, negando com a cabeça.
– Deve me fazer sentir algo de verdade, sem ter que simular, né? – pergunto de volta e ele parece fascinado.
– Não sei, gente como você nasce estragada.
– Já meu irmão, foi condicionado a ser ruim. – respondo. – Não aguento mais. Ele e meu pai discutem todos os dias, aposto que se ele sumisse, como você quer fazer com os outros meninos, ele nem iria atrás. No melhor dos casos, certamente ficaria tão traumatizado que não abriria mais a boca e me deixaria em paz... acho que ele nem sairia mais de casa, com medo de acontecer de novo.
– E você, como se sentiria sabendo da verdade? – dou de ombros.
– Sentir? Se eu for sentir alguma coisa, já vou estar no lucro. – é o que respondo e ele se ajeita na cadeira, tirando as calças. – O que faz?
– Quer vir descobrir? – nego com a cabeça, me levantando e indo até a porta. – Yohan... – me viro, olhando nos olhos de Paul. – Depois me conta onde seu irmão fica, faz um resumo dele pra mim. Gosto de conhecer meus pratos, antes de consumi-los. Ele se parece com você?
– Ele tá mais pra Johnny Depp nos anos 80, se ele tivesse olhos verdes. – respondo e Paul solta um gemido, enquanto continua o que estava fazendo.
– Ótimo. – ele responde e saio do apartamento em seguida.
AGORA
Meu objetivo com isso era claro, em minha mente: deixar ele ainda mais traumatizado, de forma que ele ficasse quieto, com medo de colocar os pés na rua. Automaticamente, dessa forma, ele me deixaria livre pra voltar a fazer minhas atividades.
Nem pra isso ele serviu, o tiro saiu pela minha cabeça. Quando soube da notícia que o meu irmão tinha deixado o meu chefe em coma, eu sabia que estava tudo acabado. Todos do nosso grupo certamente acreditariam que eu tinha feito isso de forma proposital, mesmo que Paul tenha sido a pessoa que eu mais me senti conectado, de alguma forma, em toda a minha vida.
Ninguém sentia mais falta dele do que eu. Por um tempo meu pai até mesmo pareceu se compadecer com a minha dor, mesmo que ele sequer soubesse que ela existia. Ele acreditou que meu irmão teve um surto de raiva e consequentemente entendeu Paul como uma vítima da fúria de Felix. Isso foi ótimo pra mim, porque o clima estava péssimo, mas pelo menos estava silencioso. Os dias após o que aconteceu me deram uma sensação de que eu poderia escrever minha carta de despedida, pois certamente deixaria de existir em breve, já que os caras começaram a me perseguir. De repente eu tinha virado a presa.
Pra minha sorte, no entanto, nem tudo realmente tinha acabado. Meu pai não aguentou a pressão e surtou com o que Felix fez. Como ele não abria a boca sobre o motivo de ter feito, sempre respondia meu pai dentro de casa e já tinha brigado em Phoenix, ficou subentendido que ele tinha apenas sido "rebelde". Criaram-se muitas histórias sobre ele ser um psicopata maluco e quando meu pai pediu a separação, mesmo que pra Felix o melhor fosse ir embora com ele, quando demonstrei uma vontade forte de vir para Milwaukee, meu irmãozinho que sempre disse querer meu melhor, não foi contra.
Pros caras que eu trabalhava, sempre foi como se eu tivesse armado pra Paul, quando na realidade eu apenas não sabia da capacidade do meu irmão de arrebentar uma pessoa. Em Milwaukee, já na minha primeira semana de aula, no entanto, Bill foi me buscar. Me lembro de ter visto Bill poucas vezes em NY, até porque Paul dizia que ele era descuidado e muito violento – e pra Paul ter dado essa definição, era porque isso provavelmente era um problema sério. Ele até mesmo chegou a me pedir para ficar longe dele... então quando ele parou na minha bota, eu tive que jurar ser útil de alguma forma e pagar pelo o que tinha feito.
Eu demarcava meus lotes de entrega com fita azul, quando comecei. Precisava separar o que eu tinha que entregar, pra não trazer nada de ninguém e me enrolar ainda mais com aqueles caras. Como eu era um simples garoto, entrava em todos os lugares e saía sem problemas. Faculdades, escolas, festas... os compradores negociavam e pagavam Bill pelas drogas e eu deixava, sempre como um fantasma. Depois de um tempo, novamente, já não fazia isso pelo dinheiro, porque quem estava em dívida era eu.
Trabalhando com Bill, peguei um verdadeiro gosto pela coisa. Isso, porque em diversas festas eu esbarrava com algumas pessoas que demonstravam interesse no fantasma – e era bom receber um reconhecimento prazeroso às vezes. Aquilo acabou se tornando divertido, de uma forma que nunca foi com Paul, porque ele levava o trabalho a sério demais. Acontece que foi quando minha fita acabou que tudo começou a desandar.
Isso, porque minha mãe se matou nesse meio tempo. Quando soube que meu irmão viria, deixei claro a Bill que ele poderia ter a vingança que queria para Paul e comecei o meu plano. Felix tinha mania de usar uma fita verde, fina, pra demarcar seus livros e eu comecei a usá-la para demarcar minha demanda de entregas. Tudo teria que ser perfeitamente alinhado, para que ele, no momento certo, fosse pego em meu lugar.
Acontece que certa noite eu errei em beber demais na festa antes da volta às aulas, mas foi inevitável. Quando vi Lisandra ficando com Nunes, foi um tiro na minha própria cabeça – eu não gostava dela ou algo do tipo, mas me senti diminuído por ela ter escolhido justamente o único latino da turma. Era ridículo. Ela queria deixar claro que tinha se cansado de tentar me convencer a assumir um relacionamento com ela, mas no final das contas não era como se eu pudesse. Precisava que a visão de Tyler sobre mim permanecesse amena, porque se ele estava por mim, ninguém seria contra. A partir daí, no entanto, eu tinha assinado uma sentença sem saber.
Pra piorar, esqueci alguns pinos na bolsa e quando desmaiei no banheiro eles ficaram no chão. Quando descobri isso, esperava conseguir reverter e jogar isso para Felix, mas lá estava Tyler, pronto pra não deixar que isso acontecesse – ao invés disso, o efeito borboleta que se deu início com esse meu pequeno erro foi o que me trouxe a esse lugar. Não sei em que ponto ele passou a me ler com um pouco mais de clareza, mas pra mim isso era absolutamente deselegante da parte dele.
Isso, porque me esforçar pra fingir que me importava ou que gostava de Tyler foi a pior parte, quando na realidade tudo o que eu sentia era repulsa. Repulsa de seu cheiro, personalidade e até a forma de falar – e a forma que ele me agradece é ficando no meu caminho, ao invés de não se meter. Quando ele encostava em mim, pras outras pessoas era como se eu estivesse apaixonado, já no fundo meu âmago eu sentia nojo. Não conseguia entender como as pessoas o achavam atraente.
No geral eu não me importo com muitas coisas além do meu bem estar – veja bem, bem estar. Quando eu falo isso, não me refiro a sentimentos de qualquer tipo, então ter que ouvir ele começar a se abrir era um porre e com a aproximação de Felix, todo o meu trabalho foi jogado fora de uma hora para outra – e o que mais me chateava era realmente o fato de eu ter fingido por todo esse tempo pra chegar em algum lugar, enquanto ele, de uma hora para outra, tomou minha posição e mais do que isso, assumiu o lugar que eu precisava. Mais uma vez ali estava ela, a pedra no meu sapato que eu teria que jogar fora o mais rápido possível.
Envolver questões pessoais, da forma como fiz, em meus trabalhos me prejudicou ainda mais. Sentia raiva por Felix sempre estar na minha bota, de olho em todos os meus passos, mas certamente meu maior problema foi esquecer do localizador no meu celular. Isso, porque fui para absolutamente todos os lugares com ele no bolso durante o tempo que morei sozinho com meu pai e esse foi um dos motivos que me fez parar onde estava agora. Erro de principiante, Yohan:
– Por quê? – meu pai pergunta, sentado diante de mim.
– A pergunta certa seria "por que não?". – respondo, olhando em seus olhos. – Pra mim foi fácil, se o Felix não tivesse apagado o Paul, seria fácil até hoje.
– Você não é o filho que eu criei. – ele responde e eu sorrio, me encostando na cadeira.
Ele claramente sequer sabia quem tinha "criado". Quando, ainda na minha primeira infância, minha mãe demonstrou descontentamento ao ver as minhas brincadeiras com animais, eu comecei a me moldar. Fiz e modelei tão bem a minha máscara social, que às vezes até pra mim era difícil me reconhecer sem ela. Nas poucas vezes que fiz o que queria fazer, me perguntei se deveria, mesmo que estivesse com muita vontade. Era instável, mas essa é a cabeça que tenho.
– Pai, tudo que as pessoas sempre tiveram de mim, foram suposições. Supuseram que eu era gay, que eu era incapaz, que eu era covarde, que eu era inocente, que eu era frágil... o que vocês tem, agora, são fatos. – ele me observa, incrédulo. Nunca tinha, sequer, conversado com meu pai como realmente falava com outras pessoas, incluindo Paul, por exemplo. – E eu não me arrependo de nada. Fiz absolutamente tudo que eu queria, enquanto a mãe se matava naquele quarto mofado e você pagava de herói, quando na realidade não conseguia enxergar o óbvio. As pessoas tiram conclusões muito precipitadas sobre outras, com base em expectativas que criaram na própria mente. Eu me aproveitei disso por muito tempo, é por isso que sou superior a todos vocês.
– Seu irmão...
– É um imbecil. – o corto. – Ele e o panaca que chama de namorado. Que se dane, não me importo nem um pouco. – respiro fundo, relaxando. Era bom falar o que eu pensava, pelo menos uma vez na vida. – Cacete, achei que nunca poderia realmente falar o que acho e acredito. Sinceramente, eu poderia chorar, dizer que não sabia de nada, que estava sendo ameaçado e me passar, mais uma vez, por vítima. Acontece que eu não aguento mais, vocês são sem graça, a vida é muito chata quando se está sempre vivendo no fácil. Eu sou isso aí mesmo, um monstro, uma criatura, eu gosto disso. No final das contas, enquanto Felix tem toda a força física pra espancar uma pessoa, eu tenho toda a força psicológica pra quase matar outra sem precisar, sequer, colocar minhas mãos nela.
– O estado vai designar um defensor pra você. – é o que ele diz, se levantando e eu observo meu pai. Sabia que minha personalidade única tinha engolido suas palavras.
– Que se dane, já perdeu a graça pra mim. Se for pena de morte, melhor ainda. Não faço questão de ficar tendo que aguentar você ou qualquer pessoa que queria conversar comigo. – é o que respondo e ele se prepara pra sair da sala. – Lúcio... – o chamo e ele me observa. – Manda um abraço pro meu irmãozão. – ele sai em seguida, sem dizer mais nada.
Quando Bill me disse o que fez com Jensen, eu fiquei pensativo. Achei genial a forma como ele lidou com uma pessoa tão inconveniente. Por esse motivo eu dei a ideia que ele fizesse o mesmo com Felix, afinal meu irmão tinha deixado Paul em coma. Bill concordou, claro. Pra minha infelicidade, no entanto, aparentemente o que protege o meu irmão não dorme mesmo.
Dessa vez, ao invés de se esfarelar no chão, como Jensen, Felix sobreviveu. E não só sobreviveu, como sua moto ficou relativamente bem após a queda, possibilitando não só sua reconstrução como seu desmonte. Eu não era idiota, sabia que estava perto do fim e por esse motivo tentei acompanhar o que pude – toda as tentativas foram falhas. Agora, quando Tyler me olhava nos olhos, de alguma forma eu sentia que ele olhava para a minha alma, se é que tenho uma.
Por alguns segundos, quando descobri que meu irmão não tinha morrido, pensei em fugir. Acontece que não fazia o meu estilo ser covarde a esse ponto. Fugir dessas pessoas incompetentes e com pensamento limitado? Jamais. Receberia o que merecia, independente do que e de quem viesse a consequência.
No final de tudo era um saco ficar preso. Parte de mim se arrependia de ter deixado o ego falar mais alto em alguns momentos, em especial porque isso era erro de principiante. Sabia que quando fosse chamado para o meu julgamento, o juiz certamente acharia que eu era apenas mais um. Eu não era mais um e essa possibilidade me cortava por dentro. Acredito que depois de tanto tempo buscando sentir algo, agora que tinha encontrado, não me sentia alegre.
Não existe, na vida, uma pessoa sequer que eu não tenha conseguido enganar ou manipular, desde criança. Me pergunto, no entanto, como sentia tanta falta de Lisandra, mesmo sem gostar dela. Com ela eu tinha poucos momentos em que conseguia desligar meu foco sobre a minha própria vida e isso não posso negar, mas se não era carinho ou até amor, o que era?
Embora nem mesmo Beth soubesse, eu gostava de sair com ela, de beijá-la... pra mim pouco importava se ela era mais velha que eu. Na realidade, poucas pessoas mais velhas que eu tiveram a minha vivência "agitada", então certamente eu tinha um olhar muito mais cru da vida.
Conforme os dias passavam, os outros detentos ficavam tentando puxar assunto comigo. Eles queriam entender o que se passava na minha mente, mas eu gostava do silêncio. Pra mim, a forma como as pessoas me descreviam sempre me favoreceu. Não ia ser agora que eu passaria a falar mais, certo? Não gostava de esclarecer quem era, em especial pra quem não merecia conhecer alguém como eu.
– O que faz aqui? – pergunto a Lisandra, que dá de ombros.
Ela já tinha sido um tanto quanto obcecada por mim. Era curioso ver esse tipo de coisa, porque eu sabia que ela tinha um pouco disso pelo Tyler também. Me perguntava se ela acreditava ser uma clínica de reabilitação pra almas maléficas ou traumatizadas.
– Eu sempre soube que você tinha alguns parafusos a menos, Yohan... mas eu nunca imaginei a proporção disso. – cruzo meus braços, olhando em seus olhos.
– Recentemente descobri que eu tenho esse dom de surpreender as pessoas. – solto um pequeno sorriso, mas ela continua séria, me observando. – E agora parece que vamos ficar um tempo sem dormirmos juntos.
– É, na realidade, eu vou embora.
– O que?
– Eu não vou conseguir viver aqui, sabendo de tudo isso. As férias de verão estão acabando, vou aproveitar pra passar meus últimos meses longe desse lugar e de você.
– Pode tentar, mas tudo que vivemos não vai ser apagado. Pensei que quando saísse, enfim poderia fazer com você o que eu quisesse. – ela parece ficar um tanto quanto curiosa. – Que foi? Achou que eu deixava você controlar nossas ficadas, porque eu gostava?
– O que? Mas você nunca disse nada.
– É, Lisa, é isso que ninguém entende. Eu não dizia nada, porque você seria um álibi meu, quando caísse. Já imagino você falando pras pessoas que sempre fui submisso a você, um rato, como meu irmão mesmo dizia... – ela parece extremamente desconfortável. Isso era bom. – É útil ser visto como um covarde, quando a realidade é bem pior que isso. Minhas duas opções de definição seriam psicopata ou covarde. Eu gosto de covarde, pelo menos as pessoas não me veriam de verdade...
A maior parte das pessoas teme o que vê, quando na realidade tem que temer o que não vê. O problema não é a pessoa que te ameaça, é a que te faz mal de forma silenciosa. Aquela pessoa que você nunca flagrou nada de errado e por isso arrasta uma amizade medíocre, quando pelas suas costas ela está te envenenando aos poucos.
Meu pai já tinha me dito a famosa frase "me diga com quem tu andas, que eu te direi quem tu és", o problema dessa frase é que ela automaticamente faz quem a escuta acreditar que as pessoas que você anda são piores que você e que poderá pagar o preço pelas amizades erradas... no meu caso, eu andava com pessoas ruins, para tentar mascarar o quão pior eu era.
– O que vivemos será apagado, Yohan. E eu vou depor contra você no seu julgamento. Vou falar todas as coisas estranhas que já me disse, inclusive, eu já falei em depoimento. E falei pro Tyler que você nunca gostou dele. Eu disse que você só o queria, porque ele era uma figura de poder. Se acha que alguma das suas faces ainda está de pé, acho bom reconsiderar. – ela comenta e eu começo a rir.
– É, se o Erick não fosse um fodido aidético eu teria tentado ele. Tyler é inteligente e sincero, tem pouco ego, se desse pra ir no idiota manipulável eu teria ido. Agora tanto faz. – é o que respondo e os olhos dela marejam.
– O que?
– Não sabe de nenhuma parte boa da nossa vida, Lisa? – pergunto, olhando no fundo de seus olhos, sem piscar. – A ex mulher e melhor amiga do meu chefe transava com ele na sala do treinador praticamente todos dias. O que ele não sabia, era que ela fazia isso com ele e com outros. É complicado, mas ela já tá morta e enterrada, porque tudo que não precisávamos era que ela tivesse um filho com alguém como p Erick. Então hoje esse é outro ponto pra ir se danar. – explico, enquanto ela se mantém fixa em mim, incrédula. – Tá aí outra coisa pra você falar no seu depoimento. – Lisandra fica de pé. – Beijo, amor. – ela me observa, saindo sem falar nada.
No minuto que ela sai, dou um soco na mesa, mesmo com as mãos presas. Me arrependia um pouco por nunca ter seguido, com pessoas, minhas vontades mórbidas. Sentia que não tinha aproveitado a vida o suficiente como gostaria e agora estava ali. O menor dos meus problema seria continuar preso pra sempre.
Acredito que dado certo momento eu tenha perdido a direção de tempo. Pra mim eu já estava naquele lugar há uma eternidade e pra quem dizia se importar comigo, Felix não tirou nem sequer um dia pra me visitar. Deselegante.
Outro ponto que me deixou chateado, foi descobrir que tinha deixado o arquivo de Paul no meu storage. Eu jurava que ele estava no meu quarto, precisava queimá-lo, mas simplesmente não o encontrei e o rato do Tyler conseguiu isso pra firmar ainda mais o argumento que eu conhecia bem aquela gangue. Isso era uma tragédia, mas não maior que sentir que estava sendo observado, como agora.
– Diga. – me viro, encarando um detento que estava diante de mim.
– Sabe o que vim fazer, não é? – ele pergunta. Eu era um arquivo vivo, com informações demais pra permanecer ali.
– Sim. Mas lembrem-se que eu tinha todos os arquivos da organização guardados e eles têm isso agora. Todos os componentes pra todas as drogas que traficam, fornecedores, localizações de todas as fazendas... eles têm tudo.
– Sabemos, mas mais perigoso que esses arquivos, são as coisas que seus olhos viram. – concordo com a cabeça e ele vem até mim. – Quando eu morrer, tomamos uma cerveja juntos. – ele bate minha cabeça na parede e minha visão fica turva. Eu sabia que aquele seria meu fim. No segundo golpe, apago.
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