Prólogo
"Um corpo sumamente transparente não se torna escuro ou colorido como resultado da passagem da luz por ele. "
Sete Sermões aos Mortos.
Os olhos refletiam a infelicidade assombrosa causada pelo peso no ventre de Joanne Talbott, a qual observava o findar do dia pela janela do escritório de seu marido a espera absortiva de uma pessoa que repudiava. Apenas ele poderia conceder-lhe tal libertação atrelada ao egoísmo intrínseco em sua alma seca. Assim que descobrira os dons de Dylan após o casamento, automaticamente rejeitou o assunto e desprezou o mundo e as tradições mágicas que ele professava. Era como se ele vivesse duas realidades e aquele desconhecido furtasse sua felicidade. Ao mesmo tempo, via no bebê em seu útero um competidor e não aceitaria repartir mais nada, principalmente por apresentar problemas comprovados com os exames que estavam sobre a mesa e fizera junto com um membro da Congregação, uma das poucas pessoas pela qual demonstrava simpatia, Kiara Finnin.
O ranger da porta anunciou a chegada da jovem mulher de olhar lascivo, que adentrou energicamente seguida por Dhorion, a passos lentos e mãos para trás.
— Você tem absoluta certeza do que viu, Kiara? – Questionou Joanne com a voz embargada.
Kiara aproximou-se da mesa, tocou na pasta com exames e a mirou concentradamente.
— Infelizmente. – Respondeu devagar. – Não tem como prever com afinco os passos de uma criança que sequer nasceu. – A tocou devagar na barriga. – Contudo, pude vislumbrar com nitidez que este menino desencadeará uma sequência impossível de se bloquear, resultando fatalmente na morte de Dylan. Entretanto, o amor que possas vir a ter pelo seu filho, poderá alterar futuro, mas isso dependerá exclusivamente de você.
Dhorion baixou os olhos, quando Joanne virou-se para Kiara e engoliu sua saliva amarga.
— Eu nunca quis engravidar. Jamais gostei de algo que dependesse de mim. – Explicou Joanne friamente. – Principalmente tendo uma má formação e sendo bruxo. – Completou com asco.
Dhorion ergueu o rosto e afirmou com precisão:
— A magia pode curá-lo.
— Para depois ele matar Dylan? Nunca. – Rebateu Joanne extremamente decidida.
Dhorion aproximou-se estudando-a e disse:
— Já que o amor pelo seu marido é maior que o amor pelo seu filho. Aqui está. – Estendeu braço entregando um frasco médio com um líquido vermelho. – Não concordo com a sua escolha, mas respeito. Certamente por que admiro o potencial de Dylan e não quero que o bebê que cresce dentro de você, o mate futuramente, como Kiara previu. Não sou a favor a sentenças de morte, contudo a alternativa é sua e vim aqui exclusivamente por isso. – Queria deixar óbvio.
Joanne tocou o frasco como se estivesse com a felicidade em suas mãos.
— Dylan jamais poderá saber. – Pediu Joanne ansiosa.
— Cabe apenas a você contar. – Graduou Dhorion virando-se de costas. – As consequências serão suas.
Joanne oscilou momentaneamente, porém voltou a olhar para Kiara com esperança. Não conseguia explicar que não se tratava apenas da má formação ou da previsão fúnebre de Kiara, e sim da sua felicidade.
— Se é assim que você quer, assim será. – Arguiu Dhorion. – Após tomar este conteúdo, a vida que floresce em você sucumbirá e seu útero jamais poderá gerar outra criança.
Joanne surpreendeu-se respirando de maneira ofegante.
— Para tudo há um preço. – Esclareceu Kiara viavelmente incomodada com a alternativa. – Por isso lhe pergunto, estás realmente decidida?
Joanne demorou para responder, pensando em tudo que vivera até aquele momento.
— Estou. – Findou a jovem mulher hesitante.
Dhorion fechou os olhos e saiu do escritório deixando-as sozinha.
O sorriso estampado no rosto de Joanne há vinte dois anos atrás se desfez, mantinha-se apática, no mesmo lugar, dentro do escritório com uma foto em mãos. O silêncio da lágrima que declinava pelo rosto fino gritava espinhosamente em seus pensamentos.
— Embora ninguém possa voltar atrás, podemos tracejar um novo fim. – Expôs friamente o homem que entrou pela porta.
Joanne virou-se depressa para vê-lo, assustando-se perguntando quem era.
— A sua escolha foi uma mentira, Joanne. – Afirmou Notwen apresentando-se elegantemente. – E também fui enganado por Dhorion.
As mãos tocaram-se.
— Todas as suas renúncias e dores lhe fizeram andar em círculos. – Enxugou a lágrima dela, a qual afastou-se assustada. – Você foi usada e seu filho sacrificado para que você recebesse em sua casa, uma menina.
— Do que você está falando? – Inquiriu ofegante.
— A criança portadora da esperança de um casamento frágil substituiria a perda avassaladora do aborto cometido por vocês três. – Elevou o rosto.
— Como você sabe disso? – Questionou muito nervosa.
Notwen sorriu largamente e olhou em torno dizendo:
— Nas últimas semanas após descobrir a existência de Marine, passei a investigar praticamente tudo que anulou não apenas os meus planos, mas o destino de muitas pessoas, incluindo Dylan.
Joanne o olhava estarrecida.
— Não há como fugir o destino. – Notwen comprimiu os lábios. – Ele não morreu pelas mãos do filho, no entanto sacrificou-se pela minha filha que cresceu longe de tudo que a pertencia.
Joanne estremeceu, não conseguia articular nenhuma palavra. O analisava silenciosamente, o cabelo preto, a cor azul turquesa dos olhos, a palidez da pele, o delineamento dos lábios vermelhos e baixou a cabeça trepidante.
— Você nunca perguntou-se quem eram os pais da criança que Dylan afastou da magia? – Sorriu ainda mais próximo dela. – Dhorion e companhia fomentaram está falsa realidade sem pensar nas consequências que isto traria para todos nós. – Fez uma pausa. Seu timbre persuasivo e gélido apoderava-se da mulher. – Seu filho e marido poderiam estar vivos, se você não fosse persuadida covardemente por Dhorion.
Joanne não conseguia dizer nada, apenas absorver o que ouvia até que disse sobressaltada:
— Kiara, ela me confirmou. Ela era uma clarividente, acertava tudo, tudo o que me dizia.
— Por isso ela morreu no início deste ano. – Riu. – Afogada em culpa. Porém, tudo pode ser mudado. – A tocou no rosto.
— Como? – A voz pesou.
— Terá sua vingança contra Marine, a verdadeira filha de Dylan com uma bruxa do Congregação.
Joanne baixou os olhos sentindo a certeza queimar suas veias e lembrou-se de um encontro mais recente com Kiara.
— "Da Luz e das Sombras nasceu um mistério.". – Olhou fixamente para Notwen. – Dylan era da Congregação.
— Mas a mãe, tem a natureza das Sombras. – Assegurou ele friamente. – E eu posso te ajudar a pôr um fim em todo esse sofrimento.
— Não consigo compreender, como?
— Basta você me entregar a chave que está Ben. – Ordenou persuasivamente.
— Ben? – Balançou a cabeça negativamente. – Não.
— Sim, Taylor Greene o entregou e ele esconde de você para ir atrás de Marine. Porém, tudo precisa ser executado na hora certa.
— Por que ele iria atrás dela? – Os lábios tremiam.
Notwen sorriu largamente respondendo:
— Por que além de deseja-la, ele quer vingança.
As pupilas de Joanne dilataram e um ódio crescente deflagrou em seu peito.
— Todos a querem, Joanne. – A tocava no rosto, bem próximo. – Todos. Por isso preciso de você, para que isso se finde.
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