Capítulo 2: Necromante.
Antes dos acontecimentos dentro do Labirinto.
A certeza de que permaneceria encarcerada para sempre por detrás daquele círculo de espíritos conjurado na mais profunda escuridão bloqueava qualquer fagulha de esperança em Martha Milligan. Resistia em meio a sujidade na expectativa de manter o filho vivo, embora distante. E isso lhe incisava a alma, pois havia condenado um adolescente, hoje um homem de vinte anos, a uma subvida miserável por causa de suas escolhas temorosas do passado, as quais consecutivamente ceifaram o presente de ambos. Esta culpabilidade e a inércia de sua existência prevaleceriam até o último suspiro, quando de maneira súbita repousou os olhos sobressaltados na silhueta de alguém que tinha entrado no casebre imundo e após alguns minutos conseguiu reconectar-se a vida ao reconhecer Cybele, a qual expressava com nitidez o choque ao encontrá-la.
Houve um diálogo acalorado e uma pequena perspectiva de libertação em meio a insanidade, logo findando-se ao passo que Hellen adentrou com cinco espíritos cintilantes sob seu comando, surpreendendo Cybele que levantou-se de pressa, em vão, pois os espectros a circundaram ameaçadoramente e tomaram-lhe o athame.
Martha afastou-se e se encolheu ao canto, trêmula pediu clemência.
— Você a mantém presa aqui, por quê? – Inquiriu Cybele tentando escapar, contudo aquela magia era imbatível.
— Isso é algo que vocês terão bastante tempo para conversar. – Respondeu concentradamente.
Havia uma frieza imensurável naquele semblante até então desatencioso, que ocultava tristeza, ódio e vingança latente desde a morte de Bernard. Era naquela expressão felina e demoníaca que encontrava-se sua verdadeira face e essência.
Os espectros giraram com mais intensidade até que um clarão de luz atravessou Cybele, fazendo seus olhos ficarem brancos. Ela gritou desesperadamente e caiu bruscamente sob o chão, desacordada.
Antes de guardar o athame de Cybele nas vestes, Hellen olhou para as pedras em rubi no cabo e sorriu sabendo que ali também existia forças sombrias. Em seguida foi até Martha e a ergueu do chão segurando com agressividade em seu queixo machucado.
— Esse é o teu destino, sua maldita. Apodrecer entre os vivos e os mortos. – Acrescentou friamente. – Nada, absolutamente nada a salvará desta prisão, pois esse é o teu destino e de todos que aqui ousarem entrar.
— Por favor, não fiz nada.
Hellen moveu rapidamente seu athame e incisou a pele de Martha do cotovelo a mão, o que a projetou ao chão, de joelhos, estancando o sangue que gotejou.
— Não me obrigue a te machucar e cala boca. – Ordenou raivosamente. – Controla esse choro sua vagabunda. – Rechaçou olhando com altivez. – Ou serei obrigada a retalhar o seu maldito filho e enviar pedaço por pedaço e apenas os restos mortais dele será a fonte de alimento de vocês duas.
Martha controlou o choro segurando na boca, soluçando.
Hellen jogou um saco com resto de frutas e afastou-se, precisava regressar a Congregação.
— Por favor, ele está realmente vivo? – Perguntou achanada e com muito medo.
Da porta, os dedos de Hellen giraram e um círculo pérola surgiu do chão, dentro, um jovem magro e alto, de cabelos amendoados e olhos cinza como os de Dhorion tentou escapar e avistou a mãe assustado, no chão. Martha estendeu o braço e rastejou até eles.
— Mãe, por que isso está acontecendo? O que fizemos para merecer isso? – Perguntava ele transtornado.
Martha não o via há muito tempo e não conseguiu reagir, apenas olhar diretamente para ele e disse entre soluços e tosses.
— Mamãe te ama, me perdoa, meu amor. Me perdoa. – Acrescentou ao tocar no círculo e em seguida desapareceu.
Hellen a observou da porta conjurando o bloqueio.
— Vê como ainda tenho piedade de você.
Martha ergueu o braço que sangrava e gritou desesperadamente "Não! "
A porta fechou, lacrando-se em um estampido sepulcral.
A penumbra imperou, seguidos por mais gritos avassaladores de Martha, enquanto Cybele mantinha-se petrificada ao chão.
Assim que Hellen atravessou pela entrada lateral próximo a estrada que interligada Ennead, no entardecer do dia seguinte, decidiu apanhar certos corredores que a levariam diretamente para a sala do Conselho após perceber certa movimentação adversa. Mantinha o rosto com a expressão desnorteada e averiguou com certos vigilantes que não sabiam o que de fato ocorria.
Logo que abriu a porta do Conselho surpreendeu-se com Claire liderando a proteção e informando que seria um procedimento padrão diante um ataque que não sabiam a procedência. Tinha que bloquear com alta magia o que sua mente gritava, pois Claire poderia perceber dado ao seu dom peculiar de ler almas.
Zenneher estava visivelmente aborrecido, então decidiu sair disfarçadamente. Necessitava investigar o que ocorria e repassar ao Encapuzado que precisaria entrar em contato com Feltrin. Pelo pouco que ouviu, poderia ser algo das Sombras, e seguiu pelo corredor deserto do terceiro patamar em busca de Taylor. Desde que a invadira a mente, avistou lacunas de fogo e um núcleo sombrio ao centro, onde Marine mantinha-se desacordada, como uma boneca suspensa no ar, logo atrás Notwen a observa como se estivesse hipnotizado. Necessitava confrontá-la e ao chegar na escada de mármore, surpreendeu-se com o nevoeiro de mortos que brotara da porta e pairavam sob William e Josh, desacordados e Sarah encarando-os em choque. O amuleto de Kiara Finnin havia desaparecido.
Aqueles sussurros desesperadores absorveram a energia dos três, o que fez Hellen erguer o athame e conjurar uma proteção. Foi necessário um uso extremo de magia, que a deixou extremamente zonza, pois aqueles espíritos eram amaldiçoados e jaziam atrás daquela porta a centenas de anos em busca de libertação.
Sarah contemplou Hellen fazendo a densa energia retroceder e notou que ela falava com eles em latim e eles suplicavam ajuda. Até que tudo se desfez após a mulher bradar com propriedade:
— Revertetur in carcere animarum suarum. – Finalizou indo até a porta e tocando-a com a respiração oscilante. Aquilo não poderia estar acontecendo. Se eles estavam prestes a sair era por que Marine Talbott havia entrado em contato carnal com o espírito amaldiçoado do Primeiro Guardião. – Não pode ser.
O olhar de Sarah fitava Hellen severamente, e quando a mulher virou-se percebeu algo diferente.
— O que vocês fizeram para libertá-los? Onde está Marine Talbott? Eles a levaram? – Inquiriu controlando o nervosismo.
— Você é uma necromante. – Sentenciou Sarah com a voz diferente.
Hellen aproximou-se com seus olhos grandes e feições perturbadoras.
— Do que você está falando? – Perguntou de maneira incisiva.
O espírito de Kiara Finnin deixou sua filha e atravessou Hellen que a repeliu em vão, caindo ao chão, ainda sob o olhar condenatório da jovem. A mulher não conseguia pensar, precisava silenciá-la. Elevou-se do chão com o athame em mãos, quando Zenneher surgiu no alto da escada.
Hellen disfarçou instantaneamente, abraçando-a pelo ombro e relatou o que acabara de enfrentar expressando medo e confusão mental.
Claire que vinha logo atrás preocupou-se com Sarah e os dois rapazes que despertaram, após Zenneher perceber que os espíritos haviam sugado a vitalidade dos dois, concedendo-as de volta. Ambos sentaram ofegantes e perdidos.
— Nunca vi isso antes. – Alertou Hellen a Zenneher. – É como se o segredo habita atrás desta porta tivesse despertado.
Zenneher olhou para Claire desconfiado e absurdamente nervoso e tentou perguntar algo a senhora, contudo fora interrompido por William.
— Onde está Marine? – Perguntou o jovem aflito.
Claire pediu calma e afirmou que tudo iria se resolver, ao passo que Zenneher ordenou que os três fossem para a casa de campo, como os demais aprendizes.
William fitou Zenneher como se o desafiasse, logo interrompido por Josh que praticamente o arrastou para a passagem. Sarah permaneceu imóvel, os olhos ávidos em Hellen, que manteve o sorriso.
— Há algo em você que está interligado ao plano dos mortos. – Disse a jovem em sussurro.
Claire a ouviu vincando a testa e buscou Hellen com o olhar, a qual encarou surpresa e sensatez, embora por dentro estivesse colapsando.
— É óbvio, sou uma necromante. – Fitou Sarah com ironia.
— Não, há algo mais intenso...
— E o que seria, senhorita Finnin? – Questionou Claire.
Sarah mantinha os olhos cerrados e silenciou virando de costas e seguindo Josh que a aguardava com William.
Assim que os três sumiram na passagem que interliga a casa, Zenneher confrontou Claire exasperado:
— Esses espíritos estão presos nessa câmara por tentarem descobrir o segredo e apossarem-se dos legados deixados por Letes. Qualquer um que atravesse esta porta terá o espírito aprisionado e seu corpo jazerá para sempre na escuridão, exclusivamente libertada por Ele. – Zenneher olhou de Claire para Hellen. – Se houve uma fuga, é por que Letes está perto de concluir a sua jornada, ou entre nós.
Hellen de fato demonstrou preocupação. Necessitava falar com o Encapuzado o mais rápido possível.
Zenneher tentava estabilizar os pensamentos e ponderou indagando a Claire que sempre fugira do assunto:
— Porém, como concluir, se a amaldiçoada está morta? – Questionou com as sobrancelhas vincadas recordando-se da irmã e sobrinha.
Claire desejava fugir daquela resposta dolorosa e arguiu:
— Há uma magia poderosa naquele labirinto e sabemos o que ele oculta. Talvez por isso, os espíritos tenham saído da câmara.
Zenneher encarava Claire delineando uma certeza que não poderia afirmar.
Hellen interrompeu a ligação entre os dois e perguntou:
— Eles realmente foram ao Labirinto?
— Sim. – Confirmou a senhora. – Precisam ter a certeza de que há como equilibrar a dualidade.
Hellen sentiu o estômago despencar, mas era obrigada a camuflar sua preocupação com o fato e disse que precisava sair.
Zenneher não importou-se e virou-se para Claire tocando-a fortemente no braço.
— Você acha mesmo que o poder do Labirinto pode equilibrar ou findar esta anormalidade?
Claire viu nitidamente uma preocupação muito intensa emanando dele, contudo não refletia Marine.
— É uma incógnita. Precisamos aguardar. – Respondeu devagar, enquanto Hellen saía.
Zenneher que estava totalmente inconfortável por não ter acompanhado, misteriosamente acalmou-se. Aquelas respostas eram necessárias para o assunto que permeava sua mente.
— Então esperaremos. – Confirmou suando nas mãos. – O que for melhor para resolver tal dualidade já é um avanço.
Claire o contemplou vincando a testa indagou:
— Você está preocupado com Marine ou outra pessoa que ricocheteou em sua alma?
Zenneher a encarou lívido.
— Do que você está falando?
— Onde está o seu aprendiz, Zenneher?
O homem petrificou-se com a pergunta.
Havia uma aglomeração por todos os corredores da casa de campo, a qual estava cercada por vigilantes que exprimiam semblantes fechados. Um feitiço de proteção ainda mais perceptível sob as árvores protetoras foi conjurado por Peter, ao passo que um denso nevoeiro cobriu todos os limites da propriedade.
Logo que subiram os degraus da passagem e chegaram na ampla sala de paredes de vidro na casa de campo, William que caminhava perdido a frente dos amigos focalizou Gregory conversando com um dos vigilantes e soltou uma respiração presa.
Josh pedia permissão para passar e segurava firme na mão de Sarah que mantinha-se com o olhar ausente. Posicionaram-se do outro lado e observaram a névoa adentrando a casa. A gelidez no ar fez todos no ambiente entreolharem-se receosos. Seria mais um ataque das Sombras? Questionavam-se de maneira discreta.
— Sarah você está bem? – Perguntou Josh tocando-a delicadamente no rosto.
No mesmo instante, Hellen cruzou a multidão com o semblante aluado e rumou para as escadas. Sarah a acompanhava com o olhar e sentiu um sabor adverso em seu paladar. Intuía algo extremamente tenebroso, contudo não conseguia visualizar nada.
— Tudo está interligado. – Afirmou ela que segurou os braços dos dois amigos com força. – Em todos os tempos, em todos mundos, em todas as vidas.
Josh olhou para William confuso e curvou-se para amiga preocupado.
— Do que você está falando? – Investigou Josh com os olhos arregalados.
— Nascemos para proclamar o fim. – Olhou para o teto. – Todos nós.
A névoa que entrava pelas portas e janelas e preenchia paulatinamente todo o espaço.
— A água e fogo irão se encontrar antes do alvorecer.
William absorvia as palavras e virou para a amiga visivelmente aflito, pois sabia de sua clarividência.
— Sarah... – Buscava palavras. – Marine corre perigo?
— Todos. – Concluiu ela baixo.
Josh buscou respostas em William.
Sarah repousou o olhar lascivo em seu Guia em magia e proferiu:
— Ela pertence a Letes. Não há como fugir do que ela nasceu para ser.
Assim que terminou a frase, seus olhos fecharam-se e a jovem desmaiou.
No corredor andares acima, na ala dos quartos, Hellen cruzava rapidamente, apesar da dificuldade de enxergar em meio a neblina, e logo parou diante do quarto de Taylor Greene tentando abrir a porta com um feitiço, que fora repelido. Detectou um poder intenso de magia e encostou o rosto na madeira para tentar ouvir algo, em vão.
— Abra a porta. Greene. Estamos em emergência. – Bradou Hellen em tom de aflição batendo severamente em advertência. – Estamos em uma situação de perigo. – Olhava em torno alguns membros que passavam e sorria afirmando que todos deveriam descer. – Todos os aprendizes para o corredor principal. Agora.
Antes de fingir preocupação novamente, a porta abriu-se e logo sua expressão angustiada transformou-se em exaltação, logo avançou fechando a porta e rumando para janela, onde Taylor olhava para a imensidão branca. Ela retornou para Congregação após o encontro do Notwen e mantinha-se em estado de choque.
Hellen a puxou pelo braço bruscamente, enquanto Taylor exprimia exaustão, pois experimentou todas as dores e tormentos que Marine sentiu dentro do labirinto, por estarem conectadas devido a conjuração ao submundo.
— Sabia que irias me procurar. – Adiantou Taylor encarando-a furtivamente. – Você está com Feltrin e o Encapuzado.
Hellen apanhou o athame rapidamente e a colocou contra a parede inquirindo:
— Quem é você?
— Alguém que sobrevive sozinha. Sem doutrinas, sem Luz, sem Sombras, sem nada. – As palavras saíam como um desabafo. – Pairando no ar entre os acontecimentos, esperando a hora certa de agir e viver o que me foi tirado.
A lâmina foi posta no pescoço de Taylor, que parecia estar anestesiada.
— Não sabia quem era você, mas desconfiava... Até deixar invadir minha mente. Foi o preço, deixar-me ver, para também lhe ver. – Assegurou Taylor. – Entendo e não julgo sua dor.
Hellen foi ainda mais violenta e disparou:
— Cala boca! Ah, Taylor, via muito vigor em você. Seu ódio de certa maneira alimentou ainda mais o meu desejo por vingança. – Enfiava o athame na jovem. – Você falhou e irá pagar com a vida por isso, pois não há mais tempo para sua verdade.
Taylor voltou a observá-la extasiada e disse:
— A minha verdade é igual ou superior a sua.
Hellen a fechou os dedos no pescoço de Taylor, precisava assassiná-la naquele exato momento, enquanto todos estavam absorvidos pelo temor do nevoeiro.
— Não ouse ironizar a minha história e principalmente as minhas dores. – Elevou a voz e a machucou com violência.
— Não diminuo a sua dor, ela talvez seja proporcional à minha. – Confessou Taylor.
Hellen a esbofeteou e a segurou forte nos cabelos vermelhos. Necessitaria assassiná-la.
— Sinto informar, mas se você me matar por medo de descobrirem que és a infiltrada, Marine morrerá comigo. – Informou Taylor inerte.
Hellen fechou o rosto delineando um sorriso no canto da boca, sem acreditar.
— Vá em frente e assassine também a portadora da maldição.
— Se você realmente soubesse de tudo, sua infeliz, compreenderia que ela é imortal. – Acrescentou Hellen compelindo a lâmina.
Taylor delineou outro sorriso e baixou o olhar proferindo:
— Ela retirou o athame de Letes das profundezas lago, e a partir de agora se tornou mortal.
O corpo de Hellen enrijeceu mirando-a com os olhos bem abertos.
— Mate-nos e arruíne os seus planos. Mas por favor, se prosseguir, revele-me quem é o Encapuzado. – Elevou os braços na altura do peito, sem importar-se com as consequências. Se morresse, a levaria consigo. – Preciso saber antes de morrer.
— Você está mentindo.
Taylor ágil rapidamente, tocando-a no braço e conduzindo a mão de Hellen até sua testa, então as imagens da conjuração ao submundo se solidificaram em sua mente, repelindo-a agressivamente.
O athame foi retirado depressa e solto ao chão de madeira, ao passo que um filete de sangue declinou no abdômen de Marine, acima da cicatriz do tiro, quilômetros de distância da Congregação, a qual sentiu o ardor incisar o seu peito. Repentinamente murmurou com dor baixando o olhar e tocou no corte que fez-se de maneira misteriosa sob sua pele alva, retornou a mirar em Dhorion que se mantinha paralisado diante da jovem, aguardando a resposta dentro do labirinto silencioso.
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