Capítulo 50: O Amuleto.


Os olhos de Sarah mantinham-se saltados, a angústia lhe consumia ao perceber que a amiga não regia. Gritou alto, segurando-a no braço, então percebeu que uma luz corpórea de coloração cinza brotou da testa da amiga, desacordada e espalhou-se rapidamente por todo o corpo. Sarah tentou tocar, porém foi repelida violentamente.

O corpo de Marine desapareceu naquela nuvem cintilante, seguida por um ruído aterrorizante, todas as luzes da casa oscilaram e Marine desapareceu.

— Marine! — berrou Sarah com dificuldade para ergueu-se do chão.

A porta da sala abriu-se, dois vigilantes adentraram, seguidos por Nora e William, o qual perguntou onde estava Marine.

— Ela sumiu! Ela estava aqui e desapareceu. — Contou Sarah assustada e cambaleante. Da arritmia frenética, o coração de Marine congelou, espalhando por suas veias um amargor denso e venenoso, petrificando-a

Os vigilantes analisaram a energia deixada no ar, dentro do cômodo e concluíram que havia uma poderosa magia pairando, enquanto Sarah tentava explicar o que vira.

Nora concentrou-se, suas pupilas dilataram e tracejou com o athame no ar. Os vigilantes espalharam-se pela casa. Já Sarah tocou forte no braço de William, desesperada. Olhou profundamente nos olhos dele e não sentiu o chão desaparecer abaixo dos pés. Os olhos de Sarah marejaram e aquela dor latente espalhou-se não apenas pelo seu corpo, dominou sua alma.

William mantinha seu olhar fixo no dela.

Toda a realidade em torno fugira do ângulo de visão de Sarah, a qual se manteve em silêncio.

William a chamou, contudo Nora percebeu que ela estava em uma espécie de transe.

— O objeto, William. — Indicou a mulher para ele, que o retirou de dentro das vestes. Havia um brilho intenso e vibratório. — Bote no pescoço dela.

William temeu, contudo Nora o mirou certa de seu intuito.

— Ela pode nos indicar algo — pontuou Nora com os lábios pesados e a voz dura.

Então, com os dedos trêmulos, William colocou rapidamente. Precisavam fazer algo o mais rápido possível.

Instantaneamente os globos oculares de Sarah foram tomados por uma coloração branca.

Sarah caminhava pela escuridão de sua casa silenciosa e sem móveis. Andava de um lado para o outro, extremamente assustada, quando uma voz sussurrante invadiu os ouvidos de Sarah, chamando seu nome. Logo atrás, o espectro de sua mãe surgiu da escuridão, iluminando a penumbra.

— Minha filha... — Fez uma pequena pausa. Estava materializada. — Marine Talbott, a que renasceu dos mortos, necessita de ajuda. Ela caminha para a libertação deste plano terreno.

— Mãe? — O corpo tremia. A voz saía com dificuldade.

— O destino será selado, a chave para a destruição do Pacto se aproxima. A Congregação sucumbirá. O sangue abrirá o labirinto e a união dos mundos será iniciada. — Tocou nas mãos da filha. — Não queria que este dom estivesse no seu sangue, contudo não há escolha. Somos porta-vozes do destino. — Kiara ergueu o rosto e os olhos ficaram brancos. — Diga para Sayne me perdoar.

Tudo ficou escuro, seguido por um sussurro fantasmagórico e, segundos depois, que pareceram uma eternidade aterrorizante, tudo voltou ao normal.

Assim que seus olhos voltaram a coloração normal, tombou para frente, sendo amparada por William, que não conseguia conter o medo em sua face.

— O labirinto. — sussurrou Sarah ofegante. — A levaram para o labirinto.

Um raio cruzou o céu acinzentado, seguido por grossos pingos de chuva que caíam sob o chão onde um arco de feiticeiros liderados por Kael conduzia a conjuração. Todos mantinham o tom de voz alto, até que o casulo insurgiu diante dos olhos famintos de Kael.

A névoa luminosa se desfez e Marine acordou tossindo, como se estivesse se afogando. Buscou entender se ainda estava dentro do pesadelo, olhando do chão para os homens, até reconhecer Kael. O tinha visto na sala do Conselho dias atrás.

— Você... Onde estou? — perguntou Marine sufocada.

Kael se aproximou de Marine, ergueu a mão direita e a essência dualista brotou de sua cabeça.

— Dhorion sentenciou a todos vocês — afirmou o feiticeiro meneando a cabeça. — Sigam-me sem questionar nada.

— O que está acontecendo?

O arco de feiticeiros alinharam-se em torno dela e ordenaram que se levantasse.

A garota apoiou as mãos no chão. O frio alastrou-se. Ficou de pé com dificuldade, sentiu uma força lhe conduzir.

Seguiram por um caminho gélido e enevoado, o pânico a dominava.

A chuva havia encharcado o chão, e muitas vezes Marine tropeçou em galhos, porém a força controlada mentalmente por Kael não a deixou cair.

Após uma longa caminhada, a força a obrigou a ficar de joelhos diante do arcebispo Teodorus, o qual estava cercado por padres mais novos.

Marine apoiou as mãos trêmulas na relva molhada. Ergueu o olhar para ele, o qual virou-se vagarosamente, segurando uma bíblia na mão esquerda.

Padre George se movimentou, olhando diretamente para Marine, e retirou a capa de chuva do arcebispo, revelando suas vestes oficiais.

— Marine Talbott... — A observava impressionado. — Confesso que não estou surpreso, mas indignado...

— Por favor, o que está acontecendo? — Tremia de pânico.

O arcebispo a fitava minuciosamente.

— Então tudo foi uma mentira. — Aproximou-se sorrateiramente. — Você está viva.

— Do que você está falando? — perguntou receosa.

Teodorus a ergueu do chão, segurando-a pelo casaco, e a mirou dentro dos olhos.

— Da Luz e das Sombras ela se erguerá e trará consigo a perdição... — sibilou ele.

Marine respirava rapidamente e sentia seu coração pulsar em sua têmpora.

— Quem é você? — Tentava se desvencilhar.

— Eu, pobre alma condenada... — Sorriu com os olhos ávidos. — Serei teu salvador.

Padre George apanhou um punhal, enquanto outro segurou com violência o braço de Marine, e perfurou a pele, próximo ao pulso. Assim que o sangue gotejou ao chão, os Feiticeiros emitiram um coro sincronizado de encantamentos.

— O sangue dela rompe qualquer portal — desfechou Kael sentindo o imenso poder.

As árvores revelaram o imenso paredão rochoso. Em seguida, os blocos de pedra abriram-se vagarosamente, ecoando o barulho seco e extremamente fantasmagórico.

Padre George surpreendeu-se com a magnitude do lugar.

— O labirinto — anunciou pasmado.

Teodorus elevou o rosto com altivez e proferiu:

— A redenção da sua alma começa agora — avisou Teodorus, avançando para o emaranhado de pedras.

Na Congregação, Dhorion olhava para Claire, Sayne e Mel com vigor nos olhos. Ele canalizava, do livro branco ao fundo da sala, uma forte energia que recaía sobre todos e estendeu o braço empunhando o athame sobre a cabeça de cada bruxo presente.

— Rogo a proteção dos deuses da magia para nos fortalecer diante da escuridão que marcha em nossa direção de maneira enérgica. Não aceitar o hoje é ironizar a existência, porque a vida é feita de ciclos. E Marine Talbott é o nosso agora, a nossa esperança de aniquilar o mal com a sua própria essência. — Conjurava espirais que eram absorvidas pelos corpos que tocavam. — A dualidade não é apenas elemental, é cura e veneno. — Fez uma breve pausa e olhou para cada um com sentimentos divergentes corroendo seu cérebro. — Que sejamos fiéis como Dylan foi até o último momento, pois perdas fazem parte da guerra. Embora a vida, sopro dos deuses, seja nossa força motriz, a morte é sempre nossa principal aliada, pois dela nunca conseguiremos fugir, apenas renascer. É nesse infinito que rogo a força de que precisamos.

Dhorion policiou-se diante de todos, que desembainharam seus athames, e continuou a dizer:

— Fizemos uma escolha no passado que nos atrelou a um destino infungível.

Nora, William e Sarah entraram junto com a guarda de vigilantes por uma entrada secreta, que leva diretamente ao segundo patamar. Os vigilantes optaram por avisar pessoalmente, diante da testemunha. Era um assunto extremamente sigiloso e não poderia gerar um caos.

Josh foi informado por Nora da chegada de emergência e os esperou muito nervoso na entrada, no fim do corredor céltico. Todos seguiram para a escada de mármore quando ouviram a porta lacrada bater fortemente. Sarah assustou-se de imediato, quase caindo no primeiro degrau. Sussurros indecifráveis formigavam em seu cérebro. As vozes gritavam e pessoas que pareciam estar presas esmurravam a porta.

Josh a segurou no braço, temeroso.

— O que aconteceu, Sarah?

— É um prenúncio — sentenciou, segurando firmemente nos braços dele. — É um prenúncio de morte. — Olhou para o alto da escada.

Todos subiram a escada, William estava muito aflito, não conseguia esconder o medo do que poderia acontecer com Marine.

Wagner surgiu de sua sala, surpreso com a movimentação. Nora prontamente explicou.

— A Marine, ela corre perigo. — bradou Sarah.

Wagner vincou a testa.

— O sangue abrirá o labirinto e a união dos mundos será iniciada — afirmou nervosa.

Wagner surpreendeu-se, nem mesmo e mirou no amuleto no pescoço de Sarah, reconhecendo-o. O Conselheiro os conduziu à sua sala e pediu autorização para entrar pela porta que a interligava, precisava do desbloqueio de Dhorion.

Wagner entrou com todos e Sayne protestou. Logo calou-se ao ouvir Sarah com os olhos brancos.

— O início do fim se dará após a lâmina da morte insurgir das águas. Marine Talbott passará a ser mortal.

Tombou para o lado e Josh a apoiou extremamente nervoso.

Dhorion foi até ela enquanto Sayne petrificou-se.

— Guardião, eu acabo de ver a minha mãe. Ela disse que a Marine vai morrer.

Wagner comunicou-se com a guarda confidencial, relatando a emergência.

Claire aproximou-se de Sarah e olhou para sua alma.

— Estão levando-a para o Labirinto — informou a senhora.

Dhorion prontamente demandou a Wagner e Josh que convocassem o exército para patrulhar todos os limites da Congregação e avisassem todos os bruxos que estavam na cidade que estavam sob grave ameaça.

— Precisamos ir até lá agora — bradou Sayne.

Mel preocupou-se com Marine e ao mesmo tempo com o que isso poderia acarretar.

— A minha única preocupação é ela — afirmou Sayne efusivamente.

Dhorion tocou em Claire e disse:

— Preciso que fique e coordene tudo daqui. Wagner vai conosco. — Apontou para o Conselheiro. — Não podemos deixar que essa informação escape. Arruinaríamos o plano. Entre em contato com Cybele e peça que volte — sobrepôs agitado.

— Não consigo falar com ela — informou angustiada.

Sayne bradou da porta para que fossem naquele momento. Já empunhava seu athame.

Sarah a observava receosa e dirigiu-se a ela dizendo:

— Minha mãe pediu para que você a perdoasse — afirmou a jovem com os lábios trêmulos.

Todos repousaram o olhar na Diretriz, que balançou a cabeça em negativa sem entender.

Wagner guardou o celular e disse:

— Um dos vigilantes sentiu a presença dos Feiticeiros e um indício de um bruxo natural, sem dominação nenhuma.

Dhorion cerrou os olhos cinza e concluiu que Teodorus estava por trás disso.

— Um bruxo não detectado aliado à igreja? — questionou Claire.

Mel voltou sua atenção para o guardião e não conseguiu disfarçar a apreensão.

— Iremos apenas nós quatro?

Dhorion virou-se para ela e sentenciou:

— Tenho os Magos do nosso lado.

Parte do exército e vigilantes movimentaram-se em torno da sede, sob a ordem de Peter. A maioria dos membros espalhados pela casa de campo percebiam a movimentação silenciosa, contudo nada perguntavam, os assuntos dos vigilantes sempre foram restritos. Zenneher questionou Peter a respeito do que estava acontecendo e perguntou onde estava a tríade administrativa, quando Claire surgiu na sala do Conselho.

— O que você está fazendo aqui?

— Estou no comando — ela respondeu secamente, mostrando um documento assinado pelos três.

Nora conduzia William, Josh e Sarah pelo corredor e chegaram à grande escadaria de mármore, avistando um fluxo de pessoas sendo conduzidas para a casa de campo. A Congregação seria lacrada.

— Preciso que tire a joia de sua mãe. — Comandou Nora tocando, no objeto, e foi prontamente repelida.

— Ela está comigo e permanecerá comigo — respondeu Sarah.

Josh arregalou os olhos, sem entender.

— Isso pode ser muito perigoso, Sarah — aconselhou William.

— Será que você não percebe que tudo está interligado? — Virou-se para o amigo. — O acidente, a minha seleção, a sua vinda dos Estados Unidos... — Olhou para Josh. — Tudo que nos rege, está sendo emanado daqui, deste lugar. A sincronicidade do universo não erra o endereço.

Nora pediu para William ficar responsável por Sarah e que iria em busca de informações sobre Marine.

— Por favor, não nos deixe sem informações — suplicou hesitante.

Nora concordou com um gesto de cabeça e pediu para que eles não se aproximassem de Zenneher. Em seguida, desceu correndo.

O primeiro e o segundo patamar da Congregação já tinham sido evacuados.

Os três desceram a escada devagar.

— Isso é por causa da anormalidade elemental de Marine? — perguntou Josh.

— Tenho certeza de que não é apenas uma anormalidade. — Mirava os dois, cansada. — É algo muito pior, ligado ao pacto sagrado.

— Pior quanto? — continuou Josh.

Sarah baixou os olhos e respondeu com pesar:

— Ela pode morrer.

Assim que falou a última palavra, um ruído ensurdecedor ecoou da porta, onde havia um lacre em cima com uma mensagem: "Não entre".

Os três enfileiraram-se, observando. Sarah temia pelo pior.

Debaixo da porta, uma fumaça perolada se fez e muitos murmúrios assolaram a mente dos três, os quais se curvaram para frente, quase enlouquecendo. Uma espiral subiu, ecoando ainda mais o barulho infernal, até um silêncio perturbador se fazer presente e a cortina de fumaça avançou sobre eles, refletindo um rio de sangue nos olhos de Sarah. Josh caiu, contorcendo-se, e William foi asfixiado pelos espíritos, que o ergueram do chão até perder os sentidos e desmaiar.

Sarah os mirava, e eles anunciavam o fim. 


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