Capítulo 49: Prisão no Limbo.


O sol se findava por detrás das vultosas nuvens acinzentadas, o ar rarefeito e gélido era sufocante, assim como a apreensão que se instalara logo após perceber um foco de magia sombria pairando pela vegetação rasteira de uma montanha em Derryveagh, no condado de Donegal. Os olhos semicerrados e escuros de Cybele varreram o local e avistaram um casebre engolido pela mata. Avançou temerosa sobre o que poderia encontrar.

Logo que chegou à porta, percebeu que estava selada com magia evocada em um dos reinos dos mortos que recusam a morte. Respirou profundamente e traçou diante da propriedade uma linha no chão conjurando espíritos protetores.

Lux placant — conjurou Cybele.

Luzes brotaram do chão e ricochetearam ao tentar avançar para a propriedade. Cybele ergueu o athame e usou de toda sua concentração e força para canalizar sua essência para quebrar aquela barreira.

Ouvidos e boca começaram a sangrar após um grito desesperador, pois sentiu como se sua pele tivesse sido derretida após a evaporação de uma luz amarronzada. Recuou alguns passos com a energia sombria do local e limpou a boca e orelhas com um lenço que tirara do casaco. Prosseguiu sem medo e abriu a porta, que rangeu fantasmagoricamente.

O lugar era realmente pequeno e sujo, com restos de comida e de odor insuportável. Cybele acionou a chama em um isqueiro e ele subiu como uma cobra serpenteando o lugar. Ao canto, viu uma pessoa encolhida e tremendo.

— Olá, quem é você? — Aproximou-se com cautela.

A pessoa continuava encolhida e tremeu ainda mais de pavor cobrindo os ouvidos. Chegou a grunhir de desespero.

Cybele olhou de cima e percebeu que era uma mulher de meia-idade e cabelos castanhos. Curvou-se devagar e tocou no ombro dela com precaução, afastando-se em seguida e apontando o athame quando a mulher se sentou, fraca e desesperada.

— Não me mate, por favor, não me mate! — mal conseguia falar.

Cybele voltou a aproximar-se com a serpente de fogo girando ainda mais próximo e pasmou-se ao reconhecê-la.

— Martha, é você mesmo? — Agachou-se vagarosamente. — Martha Milligan?

A mulher gritou ao ouvir o sobrenome.

— Me perdoa, me perdoa, eu não quis... — suplicava chorando. — Ele iria matar meu filho, ele iria matar o meu filho! — repetiu completamente fora de si. — Eu juro que não queria... mas precisava, era Bernard ou meu filho. — Tremia como se estivesse em uma convulsão.

Cybele aproximou-se retirando seu casaco e colocando na mulher que se assustou ainda mais. O frio intensificou-se.

— Me diz onde ele está? Para onde você levou o meu filho? — perguntou Martha atônita.

Cybele não sabia ao certo o que dizer e tocou nas mãos sujas da senhora.

— Você se lembra de mim? Me chamo Cybele, filha de Claire Behan. — Aproximou o rosto.

Martha assustou-se ainda mais tentando fugir e caiu em seguida.

— Não vou fazer mal a você — assegurou aflita. — Não sou mais das Sombras. Estou a serviço da Congregação, de Dhorion — alertou abismada e com pena.

Ao ouvir o nome, petrificou-se e observou a mulher atentamente.

— Notwen te mantém aprisionada aqui? Há quanto tempo? — perguntou quase murmurando. As palavras saíam com dificuldade.

Ela balançou a cabeça negando e usou do resto de suas forças para apanhar Cybele pelos braços em desespero falando:

— Eu não queria matar o Bernard. — Lágrimas escorriam pelo rosto coberto de cinzas. — Ela me mantém presa e levou meu filho por isso.

Cybele surpreendeu-se com a revelação.

— Você o matou? Foi você quem matou seu marido? — Arregalou os olhos.

Martha chorou e confirmou com a cabeça suspirando em agonia.

— Ele descobriu tudo, ele descobriu que eu amava o Dhorion, que sempre o amei. — A dor que sentia era dilacerante. — Não podia deixar que ele o matasse, depois de ter assassinado o Dylan. — Chorou mais alto. — Ele ia matar o Dhorion e, em seguida, nosso filho.

— Como assim? Ele ia matar o próprio filho? — queria entender.

Martha baixou a cabeça recordando a cena.

— Ele descobriu que não era o pai.

Cybele levou a mão à boca absurdamente surpresa.

— Por isso ele queria revelar ao mundo que a criança estava viva. Humilhá-lo diante de toda assembleia e depois assassiná-lo quando Feltrin retornasse ao trono. — As lembranças regressavam como se incinerassem seu corpo. — E por fim ele mataria o meu filho. — Colocou as mãos na cabeça. — Não podia deixar que isso acontecesse... Eu não podia.

Cybele tentou acalmá-la e ficou de pé analisando o ambiente. Foi até a porta observar o local.

— Não me deixe aqui, por favor, não me deixe. Liberte-me, ou me mate de uma vez — suplicou desesperada, rastejando.

Cybele praticamente correu até ela e a fez se sentar, segurando-a pelos braços finos.

— Jamais lhe deixaria aqui — disse angustiada com o que via e ouvia. — Onde está o seu filho?

— Ela o levou — anunciou em assombro olhando para o vazio.

— Quem?

Martha olhou para baixo e tremeu novamente.

— Quem a mantém prisioneira? — Tocou-a no queixo e a encarou nos olhos. — Quem levou o seu filho?

Martha ergueu a cabeça e apontou para a porta, dizendo em desesperança:

— Ela.

Uma sombra cruzou o chão, ao passo que Cybele virou-se de maneira rápida. O fogo se desfez e a porta fechou-se abruptamente.

Nora decidiu estacionar o veículo do lado de trás da loja e saíram sem levantar suspeitas de onde iriam. Entraram pela lateral e cumprimentaram alguns membros da Congregação, aprendizes e instrutores. Ela apanhou o cartão magnético do bolso e subiram a escada.

A respiração de Nora depunha contra ela, sentia o coração pulsar na têmpora, os dedos tremiam ao ponto de errar o último dígito da senha. William pediu calma, ela assentiu.

A porta abriu e eles avançaram pelo corredor iluminado, mais aprendizes cumprimentavam Nora, enquanto William mantinha a expressão macilenta, fechou os dedos contra as palmas das mãos e andava quase que roboticamente.

Dobraram à esquerda e caminharam pelo ambiente vazio, até chegarem a uma porta acinzentada angular, a mulher ergueu a mão direita e desfechou o feitiço com os lábios rígidos.

Abriu-se e uma ampla sala escura se fez diante dos dois.

Nora pediu que ele a seguisse, assim que deram o primeiro passo, a porta se fechou em um estrondo agourento. Seguiram pelo lugar, ela sabia exatamente onde estava indo.

— Retire o athame William — ordenou ela.

Ele prontamente fez, ao parar diante de uma parede vazia.

Nora ergueu o athame e encostou a lâmina diante da superfície de alvenaria e tracejou o símbolo da Congregação. Então, armários surgiram diante dos dois. William teve que se afastar alguns passos para não ser derrubado.

— Insira o athame — preceituou Nora apontado o local.

William reflexamente acatou.

Uma gaveta se abriu revelando duas caixas do tamanho de duas mãos adultas, uma verde com o nome e sobrenome de Sarah e a outra, preta com o nome Aiden Moore. William apanhou a de sua aprendiz e Nora a de Aiden. Notaram que não tinha fecho.

Nora pediu o athame e colocou sob a caixa que William segurava, o objeto vibrou e a parte superior abriu-se revelando todos os documentos e um objeto brilhante no fundo.

Os olhos ávidos de William percorreram os papeis jamais lidos e constataram uma verdade assombrosa.

"As profecias sempre foram um julgamento em tempo real daquilo que fomos, contudo também assinalavam para algo que ainda aconteceria."

Em minha filha habita a linhagem que execrou a minha vida e a de todos os meus ascendentes. O nosso sangue é um código alinhado com o universo capaz de grandes feitos e catástrofes apocalípticas. A última parte da profecia morrerá comigo, mas habitará nela. E despertará se ela cruzar com a predestinada da escuridão. Há um rastro de sangue nessa dualidade, o que pode destruir a minha filha. E quando cruzado as paredes de sangue, o mar de fogo será o túmulo dos mortos.

O futuro jaz no passado.

— Foi datado um dia antes da morte de Kiara Finnin. — constatou Nora surpresa.

— Ele matou a mãe da Sarah? — avaliou William.

Nora colocou a mão na caixa e retirou um medalhão em uma corrente de prata, o abriram e nele estava um olho vibrante, dentro de um círculo branco e um triângulo escuro.

Os dois se entreolharam por muitos segundos.

— Não sei se a matou, mas por algum motivo ele quer a Sarah dentro da Congregação e próximo a Talbott — concluiu Nora.

William refletiu cerrando os olhos e cogitou:

— Nora, nessa parte "destruir a minha filha", você acha que...

— Que Sarah pode estar em perigo — pontuou, respirando profundamente e voltou-se para a caixa de Aiden.

A mulher fez o mesmo movimento, contudo sentiu um vibrar seguido por um leve choque. Olhou fixamente para William.

— É necessário o sangue dele para abrir. — Assustou-se.

— Nora precisamos ir até as duas, agora — findou William.

Taylor Greene observava o crepúsculo de um dia cinzento, com uma brisa gélida cortando seus lábios aveludados. Os ouvidos sempre atentos aos ruídos emitidos entre as árvores, na encosta de um belo bosque, próximo aos limites de Ennead.

— Sempre pontual — pronunciou ela, com a altivez rotineira.

Notwen deteve o caminhar e crispou a boca, arrogante.

— Como sempre fui, senhorita Greene — aquela voz fria a estremeceu.

A jovem parou diante do homem alto e colocou as mãos no bolso do casaco escuro.

— Acredito que nossa parceria se encerra aqui — esquadrinhou ele.

— Fiz o que foi ordenado, Notwen — preocupou-se.

O homem chegou mais perto sorrateiramente e a observou com cobiça, desembainhando seu athame e passando a lâmina pelo rosto da jovem, que manteve o olhar fixo nele.

— Você não cumpriu com o acordo. — Fez um pequeno corte próximo do olho e desceu para o pescoço, ameaçando com o mesmo sorriso ardiloso. — A ordem era para você se tornar amiga dela. Ganhar a confiança dela, não disputar um ser tão insignificante quanto William Collins.

— Foi mais forte do que eu, lamento. — Manteve a postura dura. — Essa garota é insuportável.

Notwen riu ironicamente e confirmou, com a lâmina no pescoço de Taylor.

— Eu sei, a conheço. Mas era sua missão e você falhou. — Moveu para cortar a garganta, quando ela o segurou no pulso.

— Olhe diretamente nos meus olhos — pediu friamente.

— Você não vai querer usar seu dom contra mim — debochou.

— Não. Olhe, por favor, e veja o que sou capaz de fazer pelo lema das Sombras.

Notwen baixou o athame e concentrou-se atentamente nos olhos verdes, que lhe tragaram para dentro de sua alma e o fez ver o que Marine fazia naquele exato momento, na casa de Sarah.

— Eu sou os olhos dela! — afirmou concentrada.

Notwen elevou o rosto e franziu o cenho.

— Estamos interligadas através de uma evocação ao submundo — confirmou arrogante.

— Qual?

— Possessão... mas vejo apenas o lado obscuro, e, acredite, é muito vasto! — acrescentou temerosa.

O homem a puxou, segurando-a pelo queixo.

— Não tente me persuadir! — ordenou.

A ruiva abriu sua mente e localizou a sombra que interligava as duas e lá se encontrava Marine Talbott, diante do espelho, encarando-o.

Na casa de Sarah, precisamente diante do espelho do banheiro, Marine observava-se rotineiramente quando viu o corte próximo à orelha e, em seguida, Notwen surgiu no reflexo. Automaticamente gritou assustada.

O chão desaparecera embaixo dos seus pés e a cena difusa voltou a dominar seus pensamentos. Um tiro disparado atingiu seu abdômen e uma conversa reveladora narcotizou os ouvidos de Marine.

Sarah bateu fortemente na porta, enquanto Marine, caída ao chão, continuava gritando e sentindo como se tivesse acabado de levar o tiro.

A lâmpada oscilou e o espelho estilhaçou.

As bordas dos olhos voltaram a ficar vermelhas.

A fechadura arrebentou e a amiga invadiu o banheiro, ajoelhando-se ao lado da amiga, hesitante.

Da arritmia frenética, o coração de Marine congelou, espalhando por suas veias um amargor denso e venenoso, petrificando-a.

A conexão fora desfeita e Taylor tombou para trás.

— Perfeito! — Notwen umedeceu os lábios com uma sensação de vitória. — Sayne indiretamente está se preparando para mim.

Taylor endireitou a postura e o encarou lívida.

— O seu encontro com a morte foi adiado por hoje, minha bela jovem. — Notwen a estudou com desejo. — Sabe que há uma linha tênue nessa sua possessão, correto?

— Sei. — Moveu a cabeça para frente.

— Podem te descobrir. Vocês estão interligadas... Se a mente dela entrar em curto, a sua também entrará. Além do que Kael conjurou um arriscado feitiço que será executado a qualquer instante — revelou de maneira ardilosa.

Taylor sentiu um frio paralisar o seu corpo.

— As Sombras aliaram-se aos feiticeiros?

— Nunca. — Delineou o sorriso frio. — Com um irmão, que está do lado errado, mas que em breve encontrará sua libertação. A igreja está aqui, diante dos muros do labirinto.

Notwen moveu a cabeça para o lado e olhou para o céu.

Uma brisa gélida desceu da copa das árvores e um murmúrio aterrorizante ecoou pelos troncos.

— Se fatalmente ela morrer, você também morrerá.

— Ela não pode morrer, sabemos disso. — Disse ela com medo dominando cada centímetro de seu corpo.

Notwen esquadrinhou um sorriso e curvou o rosto, observando-a detalhadamente.

— Muito bem. — Abriu um largo sorriso. — Você foi útil, pois poderei ver o que ocorrerá em alguns instantes.

— Como assim? — Franziu o cenho.

Notwen conectou-se com padre George e magia negra que pairava no ar, alastrou-se pela floresta. Então ele ondulou seu athame com uma mão e com a outra tocou bruscamente a testa de Taylor, que instantaneamente sentiu-se tragada para dentro de Notwen, e a escuridão se fez. 



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