Capítulo 43: Descontrole de Zenneher.
Marine permaneceu em silêncio, enquanto Sarah foi até o quarto vazio desde a morte de sua mãe. Abriu as janelas e pediu que a amiga entrasse. Marine entrou no recinto, sentindo uma vontade incontrolável de chorar. Sentia-se indiretamente culpada por esconder que ingressara na Congregação. Precisava falar com Claire. Pesar e remorso lhe consumiam. Escutava os batimentos cardíacos romper seu crânio.
— Não poderia ter mentido para ela. — Concluiu com tristeza. — Eu a traí.
— Posso imaginar como ela deve estar se sentindo, principalmente você. — Não sabia muito o que dizer. — Você quer alguma coisa?
Marine pediu um copo de água e sentou na cama, olhando ao redor... Mais uma vez em outro endereço.
Sarah trouxe o copo de água, deixando-o na mesinha de cabeceira, pois seu celular tocou. Era seu pai. Já a garota repousou seu olhar no copo e sentiu um formigamento espalhar-se por suas veias.
Imagens de Susan emergiram em sua cabeça e uma raiva absurda rompeu sua alma.
O copo ao lado estilhaçou-se e o líquido permaneceu intacto, na forma do objeto. Observava com atenção o que ocorrera, sua íris moveu-se de forma estranha, então a água planou pelo recinto, movendo-se como uma serpente. Constatara que com a fúria assumindo seu corpo, fatos surpreendentes poderiam se tornar reais.
Sarah retornou e surpreendeu-se com um grito engraçado.
A conexão fora cortada. A água caíra sob o chão.
— Acalme-se! — Soltou sorrindo. — Depois limpamos isso!
Marine a olhou desnorteada e envergonhada.
— Irei deixá-la sozinha por alguns minutos, preciso resolver algo para meu pai... Tudo bem?
— Claro. Muito obrigado, Sarah.
— Pode usar o armário. Vou buscar toalhas limpas. Quero que se sinta em casa! — Acrescentou de forma acolhedora.
— Nem sei o que dizer...
— Não precisa dizer nada. — Abriu um largo sorriso e saiu fechando a porta. — Qualquer coisa me liga.
A garota concordou em silêncio.
Após escutar a porta da frente se fechando, ergueu-se e circundou a poça de água ao chão. Concentrou-se e tentou extrair dos fundos de seus pensamentos memórias ruins e mais uma vez aquela energia incomum correu pelas suas veias, pode sentir sua pele arder. Estendeu o braço e o líquido começou a vibrar, quando uma voz feminina soprou em seus ouvidos. Tente buscar lembranças felizes.
Marine sentiu uma brisa percorrer o ambiente e a porta do quarto rangeu. A garota girou em torno de si procurando a dona da voz, sem entender. Sentia algo ali, contudo não conseguia enxergar. Não era de seu interior, era algo que estava ali, naquelas paredes. Expirou o ar pela boca e retornou onde estava, observando novamente o líquido derramado e concentrou-se, buscando dentro de toda sua tristeza, algo que inspirava felicidade.
Dylan Talbott solidificou-se em seus pensamentos, ao seu lado quando tinha 12 anos, correndo pelo jardim e brincando com suas bonecas. Pode sentir o toque dele, como se estivesse vivenciando. O sorriso moldou-se em seus lábios e a energia invisível foi canalizada de seu corpo.
A água ergueu-se crescendo e encolhendo à medida que a garota sorria, até moldar-se de maneira cilíndrica e ser conduzida até o ralo da pia.
Marine acompanhou o percurso e sorriu feliz ao olhar do chão para a pia.
A magia não se encontrava na tristeza, mas nas pequenas coisas que compõem a felicidade.
Um barulho advindo da sala desviou a atenção da garota, que logo procurou o motivo, encontrando a moldura da foto de Sarah e de sua mãe caída no chão. Agachou-se e observou firmemente Kiara Finnin na fotografia.
Nos corredores do segundo andar da Congregação, William e Josh caminhavam em direção à sala dos emissários em Magia, em busca de uma documentação e dialogavam a respeito do que havia ocorrido com Marine.
— Não acreditei quando Wagner me contou — confirmou Josh. — Como a Susan pode fazer isso com a Marine?
— Imagino como ela deve estar se sentindo, mas imaginava que isso fosse ocorrer. Susan é vingativa. A senhora Claire, já foi avisada, mas não há uma previsão de retorno.
— Pelo menos está com a Sarah — pontuou Josh antes de entrarem na sala de arquivos.
William foi até o armário por ordem alfabética e após abrir, com uma senha mágica dada aos guias, constatou o arquivo de Sarah vazio. Dirigiu-se a um dos bruxos que preside o lugar.
— Olá, havia umas pastas da aprendiz Sarah Finnin nos arquivados, você sabe se Nora realocou? — perguntou William de maneira simpática.
— O Eminente Zenneher Fricker levou todos os documentos — informou.
William vincou a testa, não entendeu. Perguntou o motivo e o jovem não soube responder. Voltou até Josh e comentou.
— Ontem ele foi até mim e pesquisou arquivos secretos a respeito da mãe da Sarah. Eu não tenho a senha, apenas os membros do Conselho, e ele inseriu no sistema e afirmou que era confidencial — confirmou receoso.
William coçou a testa e arqueou as sobrancelhas. Não fazia sentido.
— Tudo relacionado a Sarah precisa da minha autorização. — William olhou para o salão movimentado, avistando-o subir a rampa. — Preciso falar com ele.
— Will, não vai se meter em problemas — alertou o amigo colocando as mãos nos bolsos.
— Eu preciso saber o que ele está tentando me esconder — afirmou com precisão.
Nora que saía de uma sala próxima aos dois, ficou atenta à conversa e os seguiu.
O passado excruciante residia aprisionando dentro dos pensamentos mais intocados de Joanne Talbott, que lançava um olhar nostálgico e nebuloso sobre o que vivera durante a gravidez de seu único filho. O peso de suas escolhas ajuizava o mar de fel que fora sua vida. Seus olhos, dois globos ovalados, vislumbravam o que havia ocorrido naquela sala. Sua mente gritou "Se o curso da vida tivesse sido mantido, tudo seria diferente."
Ben bateu a porta despertando-a do transe melancólico e guardou uma fotografia no bolso do suéter.
— Vamos sair pra comer? — convidou alegre.
— Oh, querido. Eu pedi. — Inclinou a cabeça para ele, que a tocou nos ombros. — Estou indisposta.
— Sei o que é. Você está assim desde a visita dos padres. — Avaliou abraçando-a. — Sei que é um assunto meio tenso e tenebroso, mas sua filha quis isso.
Joanne virou para ele de imediato e contestou energicamente:
— Ela nunca foi minha filha!
— Eu sei, amor. Não precisa ficar nervosa. — Constatou ódio nos olhos dela. Poucas vezes a viu assim.
— Ela era dele. Hoje em dia eu tenho absoluta certeza. Por isso toda aquela devoção. Aquele amor incondicional. — Uma amargura tortuosa invadiu sua alma. — Quanto a mim, distância.
Ben notou que a expressão da mulher ficara ainda mais obscura. Havia algo a mais ali, contudo não quis adentrar, e preferiu discorrer a respeito do que realmente lhe interessava.
— Ela não entra mais nessa casa. Vou avaliar tudo o que ela tem direito junto com os advogados, e ir até essa cidade maldita fazer entregar o que o pai dela deixou. — Cuspia as palavras com fúria.
— Você diz ir até Ennead?
Joanne o encarou respirando profundamente e respondeu que sim.
— Ela não me atende, não retorna minhas mensagens. Vamos até lá e finalizar esse vínculo infeliz.
Ben caminhou devagar em círculos analisando as palavras da mulher.
— Vamos juntos, amor?
— Se você quiser ir comigo, me sentiria mais segura.
Ben sorriu de maneira afável e foi até ela tocando-a nos ombros com delicadeza.
— É óbvio que irei com você. Jamais te deixaria sozinha.
Joanne fechou os olhos e passou a mão direita nos cabelos.
— E sobre aquele objeto que os padres procuraram, amor? — Falou como se não tivesse interessado. — Você acha que vale alguma coisa?
Joanne caminhou lentamente até a mesa do escritório e apoiou-se como se estivesse pesando cinco vezes a mais.
— Provavelmente. Tudo o que está naquela seita são relíquias. E se a igreja está tão interessada, é porque vale muito mais do que cogitaríamos.
Os olhos de Ben se alargaram. Imaginou o preço exorbitante que pediria, contudo precisaria agir com cautela, afinal a ruiva havia pedido para ele guardar.
A campainha tocou. Era o pedido. Ben a beijou no rosto e saiu serelepe em direção a sala.
Joanne soltou uma densa respiração e voltou a pegar a foto no bolso, onde Dylan e Owen Talbott sorriam na orla de uma floresta.
— Você foi o responsável pela minha infelicidade. — Sua voz saía rancorosa. — Mas foi a partir daquela previsão que tudo deu errado... — Fechou os olhos com força e lágrimas espessas desceram pelo rosto seco. — Kiara Finnin.
Sob a luz amarelada das tochas em sua sala soturna, Zenneher mantinha-se debruçado nos livros acerca de singularidades na magia, explorando a branca, cinza e escura. Tudo era demasiadamente elucidado, exceto dualidade elemental. Frustrava-se, seu rosto sombrio e seus olhares penosos rendiam-se ao medo.
William, que o seguiu pelos corredores, bateu na porta e anunciou sua entrada.
O eminente fechou os livros rapidamente e ficou de pé com o olhar repulsivo.
— Não autorizei sua entrada.
— Desculpe, senhor. Mas o que me traz aqui é um assunto breve, porém necessário. — disse em tom ameno e avançou em direção à mesa.
Zenneher contornou ainda mais depressa e tentou impedir que o jovem visse a capa dos livros.
— Preciso de todo o arquivo de Sarah Finnin, principalmente dos seus relatórios antes mesmo da entrada dela no Pentagrama — pediu vagarosamente.
O medo se fez na pulsação da palma de sua mão. Em um ato impulsivo, retirou o athame da bainha de suas vestes e deslizou levando-o até a parede e pressionou o braço no pescoço de William, sufocando-o.
— Eu sempre soube que você faz parte das Sombras. — acusou-o berrando.
William assustou-se, tentou pegar o cabo de seu athame, contudo Zenneher o ergueu, centímetros do chão, sufocando-o.
— Me solta! — pediu com dificuldade.
—Você e Taylor Greene são aliados de Methos e desejam se apoderar dos poderes da Talbott, não é mesmo? — cogitava insano. — Aprendizes dos respectivos Guardiões, sabem mais do que outros.
— Não sei do que o senhor está falando! — Tossiu buscando ar.
— Querem usar a essência de Finnin para descobrir o futuro, mas asseguro que não existe nada lá além de morte e destruição. Ela me contou, a própria Kiara. — acresceu recordando-se do último dia que a viu. — A escuridão tomará os seus olhos.
William soltou o braço direito e com bastante força golpeou Zenneher que recuou.
— Recede a me! — gritou William estendendo o braço.
O homem foi empurrado até o outro lado da sala, esbarrando na estante de livros.
William apanhou seu athame, ao passo que Zenneher ergueu-se e uma força cintilante os aproximou.
— O que o senhor está escondendo?
Zenneher o encarava com raiva e segundos depois temeroso.
Os dois foram suspensos do chão, no mesmo instante em que Mel surgiu na porta, erguendo o braço e repelindo os athames de ambos.
William caiu de pé e Zenneher despencou descabelado.
— O que está acontecendo? — inquiriu Mel indo até o jovem.
— Ele me atacou, Mel — respondeu nervoso.
Nora surgiu na porta, olhando a cena abismada.
— Assim que perguntei dos registros de Sarah Finnin.
Zenneher moveu a cabeça na direção de William com as pálpebras fechadas.
— A culpa foi minha — admitiu ele.
William moveu a cabeça procurando seu athame e ao achar, caminhou até ele, apanhando-o ferozmente.
— O senhor me acusou de algo grave que irei reportar ao Conselho. — disse com firmeza.
Mel soltou uma respiração oscilante.
— Por favor, não faça isso Collins. — Zenneher ficou de joelhos. — Eu retiro a fiscalização de sua suspensão. Deixo você livre pra ir e vir.
— Sinto muito, senhor — rebateu com raiva e saiu apressadamente da sala.
Mel olhou para a porta e a fechou magicamente após o jovem sair.
William foi até Nora e questionou indignado:
— Você viu o que ele fez? Posso te abarcar como testemunha? — Tentava controlar sua exaltação.
Nora prontamente disse:
— Olha, William. Não sei se sua acusação vai ter eficácia... — Seus lábios tremiam.
— Por quê? — indagou aproximando-se lívido.
— Vi você no arquivo e decidi te seguir, testemunhando a mesma coisa que ele fez comigo — informou insegura.
— Precisamos denunciá-lo agora mesmo! — disse ainda mais embravecido.
— Não! — Nora elevou o tom de voz. — Já fiz e Wagner me pediu para esquecer, afirmando que ele estava descontrolado, por causa da chegada de Talbott e associação do assassinato da irmã e sobrinha dele. — Segurou no braço de William, levando-o para longe.
William ficou extremamente chocado com as informações.
— Há mais segredos nisso. — Corroborou olhando-o profundamente. — O arquivo de Aiden Morre, o aprendiz dele, também desapareceu do arquivo e eu tenho certeza que está junto com o de Sarah.
— O que faz você ter tanta certeza? — perguntou ansioso.
— Aquele rapaz possui algo que só ele sabe. Tudo piorou desde a morte de Kiara Finnin. Há alguma coisa em Sarah Finnin. Há algo sombrio relacionado à mãe dela. — Buscava palavras. — Eu a acompanhava nos ensinamentos e conseguia vislumbrar uma presença perto dela. — Não conseguia conter o nervosismo. — Há pouco estive na casa dela e senti novamente, porém mais forte.
William alinhou a coluna, apreensivo.
Nora estava com receio em dizer, mas diante de tudo o que estava ocorrendo e por ter certa relação de amizade com ele e Josh, preferiu avisar.
William escutava com bastante atenção.
— Não posso prosseguir sem entender o que está acontecendo.
Nora falou bem de perto:
— Eu sei onde está o arquivo, contudo só abre com athame dele.
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