Capítulo 41: Os Feiticeiros.
O dia amanhecera com nuvens carregadas e com uma chuva rala caindo sob o gramado verde-esmeralda. Brumas cobriam toda a floresta no alto da encosta e o frio se apoderava.
William mantinha-se encostado na varanda da Casa do Campo. Olhava a bela paisagem e repousou seu olhar no lago.
As gotas de chuvas desviavam do seu corpo, como se estivesse em uma cápsula transparente. Dormira pouco, o que, por sua vez, fez seus pensamentos pessimistas planarem entre imagens deprimentes.
— Acordou muito cedo! — falou Josh bocejando.
William apenas concordou com um sorriso pequeno.
— Gosto desse truque de desviar a chuva! — Josh riu, enxugando o rosto.
Ele notara algo estranho no amigo.
— Você está bem?
— Sim — mentiu, tentando desviar o assunto. — Vamos à ala médica?
— Mas ela já vai receber alta? — investigou Josh surpreso.
William confessou ao amigo que após algumas horas retornou ao local e ouviu Mel conversando com Sayne de que a essência de Marine a deixava relativamente imortal.
— Isso é impossível. Apenas os Magos possuem o dom da imortalidade, isso se não forem assassinados. — Riu balançando a cabeça negativamente.
William confessou que temia a respeito de Marine.
— Temo por ela. Receio que essa dualidade signifique algo pior — ajuizava receoso.
— Não vamos nos precipitar — aconselhou o amigo e proferiu palavras esperançosas.
William virou para Josh com a testa vincada. Não podia falar nada da audiência. Estava selado por magia até a Elevação.
— Vamos cedo antes daquele imbecil chegar por lá. — Consultou o relógio de pulso.
Josh o alertou sobre ele ser superior a eles e pertencer ao conselho britânico.
— O que você sente por Marine, Will? — decidiu questionar.
— Eu não sei, mas nunca senti isso por alguém antes. — Gesticulou dando ênfase ao que misteriosamente ocorria dentro de si. — É como se eu já a conhecesse.
— Então, você gosta dela? — averiguou, sabendo que o amigo detestava tocar neste assunto.
— Não posso negar, mas sei que ela está focada em descobrir o que realmente é. — concluiu, olhando fixamente para Josh.
— E o que você acha que ela é?
William preferiu manter-se em silêncio, fitando o amigo com o olhar perdido. Receava o pior.
Ao meio-dia, o corpo do Conselheiro Wagner Shaw estremeceu por completo. Havia recebido a informação dos Vigilantes da Congregação que os Feiticeiros haviam chegado silenciosamente pela floresta e que aguardavam serem recebidos pelo Guardião, para surpresa de Dhorion, que, de fato, abismou-se, pois nunca haviam colocado os pés na sede em Ennead. Após a reunião com a Censora e as Classes em Magia, com a inoportuna presença de Teodorus, pressentia que viria algo mais incisivo deles.
— Fui até eles, senhor. E querem conversar com Marine Talbott e todos que participaram da audiência de aprovação dela.
Dhorion, que estava com Gregory Phelps, dialogando sobre assuntos secretos da Congregação britânica, pediu para o jovem ir até a ala médica conversar com Mel e a garota.
— O senhor acha que é necessário? — perguntou Gregory. — Ela está em observação.
— Se não virem, um caos maior se instalará. — concluiu temeroso.
Os dois tomaram caminhos diferentes, enquanto Dhorion repousou seus olhos cerrados na porta da sala do guardião. O preço seria alto, porém necessário... Refletia.
Os olhos de Mel fitavam Marine com incredibilidade ao constatar que havia apenas uma pequena cicatriz após precisar retirar os pontos. Recitou mais remédios caseiros feitos por ela, que apanhou no seu vasto estoque e assinou um laudo.
— Você possui um poder de cura, isso é um fato, porém sente a dor, perde o sangue e precisa se recuperar como um paciente comum. — alertou a médica com cautela. — Por hoje mais descanso em casa.
— E quanto a Taylor? — investigou a garota.
— Foi indiciada pelo Conselho e obteve uma advertência.
Marine baixou o olhar, reflexiva. Mel percebeu e perguntou o que a perturbava.
— Eu lembro dela de algum lugar. — constatou a garota buscando em suas memórias, em vão. — O olhar dela, a expressão quando me feriu. — Soltou uma densa respiração. — Não foi apenas proposital, sinto como se ela precisasse fazer aquilo.
Mel absorveu as palavras e informou que iria investigar com mais afinco a problemática e em seguida, a conduziu até a porta e na antessala, William, Sarah e Josh a aguardavam ansiosos.
Sarah não se conteve e a abraçou afetuosamente, seguida pelos dois amigos ao mesmo tempo.
Mel contemplou a proximidade dos quatro e alertou que ela precisava de cuidados.
William não conseguia conter seu semblante extasiado ao tocá-la.
Passos foram ouvidos nos corredores e o sorriso de William diminuiu ao encarar Gregory Phelps.
— Que maravilha ver que está bem, senhorita Talbott.
William não disfarçou o incômodo que a presença dele o causava e antes de falar qualquer coisa, Gregory disparou:
— Estou aqui a pedido do Guardião. — Mirou em Marine. — Precisamos de você na sala do Conselho. Temos visita — acresceu engolindo a seco.
Wagner avisou a todos da visita repentina e os advertiu em manter o que assinaram magicamente após a audiência de Marine e William.
Zenneher olhou a contragosto para Mel, que o tocou no braço pedindo calma. Ele realmente precisava.
Todos foram encaminhados para a sala do Conselho e cumprimentaram educadamente os sete feiticeiros de pé, enfileirados em posição triangular. Kael, o líder, era quem estava junto em Dublin na reunião com as Classes. Eles decidiram investigar o local do incêndio e ver Marine Talbott.
Dhorion adentrou com um olhar de poucos amigos e os cumprimentou à distância.
— A que devemos a honra dessa visita furtiva?
— Não usaria a palavra furtiva, mas investigativa — respondeu Kael, com as mãos para trás.
Dhorion posicionou-se no seu lugar e o focalizou impassível.
— Viemos apurar a respeito do incêndio criminoso e averiguar a jovem Talbott.
— Sob quais circunstâncias? Afinal, não possui legitimidade nenhuma para investigar qualquer membro da Congregação.
Kael riu para os demais.
Hellen o encarava um tanto assustada.
— Veja bem, Guardião, não se trata propriamente de uma investigação, apenas uma curiosidade — respondeu tentando ser simpático, em vão.
Zenneher mirava a mesa.
— Pelo o que me recordo, foi acordado de que levaria Talbott após a cerimônia de Elevação, aliás, quando iniciasse o aprendizado mestral, como está regido nas leis de nossa tradição — pontuou Dhorion.
Kael esboçou um sorriso e coçou o nariz.
— A meu ver, as leis foram burladas nas últimas semanas.
Dhorion censurou de imediato o tom do Feiticeiro.
— Viemos em paz. E analisamos algo que concerne às classes mágicas...
— Sobre o incêndio, concordo com a investigação de seu clã. No entanto, averiguar um membro da minha Congregação invalida seu empenho.
Kael voltou a delinear um sorriso e seu olhar tornou-se ainda mais incisivo.
— Sua Congregação — ironizou. — Dias atrás disse não se importar muito com seu cargo.
— Disse que se precisasse restituir a Feltrin, não iria me opor. Desde que fosse concedido por uma assembleia coletiva que não lhe diz respeito — tentava manter o equilíbrio em meio à tensão.
Kael, extremamente calmo, respirou profundamente.
— Quero apenas vê-la. Fui procurado novamente por Teodorus que quis estabelecer uma aliança atípica para investigar o que está por trás de toda essa camada cordial que expõe — informou cautelosamente. — Neguei de imediato, mas preciso vê-la para ter certeza de que tudo está certo.
— Você exigir vê-la afronta nossos dogmas e, principalmente, anula a decisão da Censora. Sua vinda aqui e essas exigências dissolvem o alicerce das Classes — explicou Dhorion revoltado. — Você compreende o que isto pode causar?
— O que não entendo é o seu medo em mostrar a garota — rebateu Kael.
Zenneher espalmou as mãos sobre a mesa e bradou:
— Se ele se dispôs a ver Talbott, traga-a, Guardião — pediu, focalizando em Dhorion com um rosto triste. — Afinal, do que desconfiam? — Moveu-se, ficando de pé e encarando Kael. — Que minha irmã e sobrinha morreram em vão?
— Sinto muito pela sua irmã, porém a morte e o aprisionamento da alma de sua sobrinha foram necessários — concluiu Kael.
Zenneher avançou raivosamente, porém Mel colocou-se diante dele e Peter o forçou a voltar ao seu lugar.
— Por favor, acreditem em mim. Não estou duvidando disso, até que me provem o contrário. Aí lamentaria muito o ocorrido, Eminente Zenneher. — Não se moveu do lugar e manteve o semblante altivo. — Mas confesso que estou curioso para saber o que tanto as Sombras veem nessa garota.
Dhorion quis responder severamente e Sayne pediu para que buscassem Marine.
Wagner pediu para um dos vigilantes à porta buscar Marine.
— Vai ver que é uma iniciante comum como todas as outras, contudo...
Todos observaram Sayne surpresos.
— Sua essência é absolutamente forte. A Água que a impera afogaria a todos nós. — continuou ela.
— Curioso — disse ele.
— O que continua a deixando absolutamente igual a qualquer iniciante — Sayne manteve o tom e o olhar repulsivo.
— Tirando o fato de ela ter substituído uma aprendiz que realmente havia passado no Pentagrama. A namorada de seu iniciante, Carl Dornan, e irmã de seu aprendiz — disse o feiticeiro mirando em Zenneher, que o observava raivosamente.
— Está sabendo de muitas informações. — Zenneher cuspiu as palavras.
— Informações expostas pelas Censoras, como Dhorion pode confirmar — contrapôs o feiticeiro. — Por favor, reitero, não entendam mal, estamos do mesmo lado. Apenas queremos encurralar as Sombras, pois se eles atacam a Congregação, que é a maior sociedade secreta do planeta, imaginem o que podem fazer conosco.
Zenneher permaneceu calado, olhando furtivamente para a parede.
— Ressalto, nobre Eminente. Lamentamos verdadeiramente pelo ocorrido com sua irmã.
Zenneher preferiu manter-se inerte, engasgado na dor e rancor que sentia.
Sayne ergueu-se depois de alguns segundos e foi até ele bastante surpresa com a visita.
— Vejo como uma perda de tempo.
— Preferimos reafirmar que nossa visita veio em prol do bem comum que nos rege, Diretriz. Se algo diferir do acordo dos Cinco, haverá represálias.
A porta se abriu após a anunciação.
Os feiticeiros repousaram o olhar na jovem, que não entendeu o motivo de ter sido chamada. Permaneceu calada, seguindo a instrução que foi repassada.
Kael repousou seu olhar invasivo na garota e aproximou-se vagarosamente. Algo surreal o hipnotizava.
Dhorion olhou para Wagner, que se concentrou disfarçadamente, usando a energia de todos os membros do conselho presentes e bloqueou a mente da garota sem que ela se sentisse invadida ou com dor.
Uma energia saiu dos dedos de Kael, que a circundou admirado pela força que vibrava de sua alma, e moveu a mão esquerda fazendo emergir uma essência azul que girava em torno dos dois.
A essência dela era contagiante e de uma maneira estranha o alimentou, sem causar nada a ela. Kael parou surpreso diante de Marine.
Hellen fechou os olhos tentando controlar, disfarçadamente, a energia que estava sendo usada para encobrir a dualidade. Tossiu e sangrou pela boca.
Alguns feiticeiros a observaram.
Um foco laranja surgiu na nuca de Marine e logo foi encoberto pelo tom azulado, com o restabelecimento de Hellen.
A conexão dos feiticeiros se desfez e o líder olhou para o guardião com um semblante ameno. A vinculação de energia entre os membros também foi encerrada e Kael percebeu.
— Estamos satisfeitos e realmente chocados com essa essência. — Voltou-se para a garota. — Será uma bruxa grandiosa se bem treinada.
— Obrigada. — Marine permaneceu paralisada.
Kael olhou para todos e desculpou-se pelo incômodo.
— Grato em estar em sua presença, senhorita Talbott — findou Kael aproximando-se perigosamente e tocando-a ligeiramente no ombro esquerdo, uma energia escura adentrou a pele da garota, que sentiu um arrepio instantâneo.
Os feiticeiros despediram-se e Wagner, junto com uma escolta de vigilantes, os acompanharam.
Sayne fugia do olhar de Marine, quando Zenneher bateu novamente na mesa.
— Até quando mentir? Isso foi uma ameaça, vocês não perceberam?
Peter entregou um lenço à Hellen, de certo modo concordando com Zenneher.
— Não precisamos ocultar por muito tempo, asseguro — proferiu Dhorion. — Afinal, ela é única. Se existisse outro dualista, talvez fosse mais fácil.
Mel olhou para Zenneher, que engoliu sua raiva e seu segredo mais uma vez e caminhou até Marine, que se surpreendeu com o semblante pacífico.
Sayne e Mel ficaram atentas.
— Não odeio você, apenas não sinto nada — foi absolutamente verdadeiro. — Compactuei por não revelar a ninguém sua dualidade por motivos pessoais, pois quero saber até onde pode ir e se isso pode ser uma salvação. Porque eu já perdi muita coisa e não quero mais perder nada — foi claro, tocando-a carinhosamente no ombro esquerdo.
Marine de fato não entendeu e ficou bastante surpresa com o gesto dele.
Em seguida, Zenneher saiu da sala e Mel preferiu acompanhá-la até outra sala.
A garota ainda olhou para Dhorion e Sayne, que lhe ignoraram.
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