Capítulo 13: Não Existem Coincidências.


O dia amanhecera como o anterior, com o céu envolto de nuvens acinzentadas e trovoadas ao sul, fazendo Thereza assustar-se a cada 15 minutos.

Marine decidiu sair e avisou que usaria o carro. Guardou o diário de Claire em uma bolsa média e rumou para a garagem. Girou a chave da picape na ignição e saiu pelas ruas devagar, observando os lugares e principalmente as pessoas. Necessitava explorar a cidade em busca de mais respostas. Se ali existia uma sociedade secreta, era óbvio que os membros vagavam por Ennead.

Pegou o celular no bolso do casaco, observou as chamadas ignoradas de Joanne e fixou o olhar diante do nome de William. Parou no primeiro semáforo e ficou tentada a enviar uma mensagem, porém conteve-se, a raiva do dia anterior ainda estava presente, principalmente após ler o diário. Decidiu chateada que enquanto ele não revelasse toda a verdade, manter-se-ia distante.

Avançou pelas ruas, poucos automóveis cruzavam o seu ao passo que a chuva fina descia pelo para-brisa. Ennead não era tão pequena como Susan relatara, pôde notar inúmeros cafés e pubs ao longo do trajeto. Passou diante do hospital, de lojas e outro bosque, além de uma praça pequena com chafarizes, fontes, bancos e um belo gramado. A floresta sempre circundando a cidade com aquela muralha marrom e verde do tronco às copas, como se as hastes fossem engolir os prédios e não o oposto.

Moveu o rosto para o lado direito e quase bateu no carro à frente ao ver William saindo de um supermercado, acompanhado por um rapaz alto de porte atlético, que segurava algumas embalagens de compras. Estacionou de qualquer jeito do outro lado da rua, esperou que ambos entrassem no carro e os seguiu pela cidade cautelosamente.

A chuva começou a cair com mais violência à medida que se distanciavam do centro comercial e encaminhavam-se para a estrada que interligava a cidade com a rodovia. O vidro embaçado dificultava a visão de Marine, que tentava manter uma distância regular para não ser vista.

Ao passarem pelo local do acidente, o veículo guiado pelo rapaz dobrou a direita e seguiu por uma estrada de terra. A garota mantinha a distância, obstinada em saber o destino final. Tomar aquele caminho já configurava algo suspeito em seu raciocínio, já que adentravam na densa floresta.

Atravessaram uma larga ponte de concreto onde um riacho límpido corria suas águas por uma vasta planície. A chuva torrencial continuava a cair, criando grandes enxurradas advindas da floresta que eclodiam na estrada, formando um grande rio acinzentado, impedindo-a de perceber e desviar dos buracos, fazendo com que o veículo sacolejasse bruscamente.

As mãos mantinham-se firmes no volante, o olhar fixo no automóvel adiante, e o coração explodindo no peito. Não iria se importar com o clima, posto a curiosidade que imperava e não se dissipava. Assustou-se quando o carro emitiu a seta para a direita e adentrou um grande portão de aço escuro, após estender o braço para fora da janela e inserir um cartão magnético em um leitor, que autorizou a entrada.

Assim que o veículo cruzou as grades, Marine avançou e estacionou diante do portão. Percebeu algumas câmeras de segurança e estendeu o braço, apertando em um botão de interfone. Não obteve resultado.

Desceu do carro debaixo da chuva e segurou nas grades, olhando a imensidão do caminho de terra e a formação de um belo túnel de árvores da espécie faia, fornecendo ao local um visual encantador e sombrio com seus galhos retorcidos nas copas, pareciam estar interligados e movendo-se simetricamente.

A garota apertou novamente o botão e gesticulou para a câmera. Entrou no carro e discou para William, uma, duas vezes e nada. Enviou uma mensagem de voz desaforada e bateu com força no volante para tentar canalizar sua raiva. Buzinou reiteradas vezes e não obteve nenhuma resposta.

A chuva se intensificou, e o rio na estrada aumentou. Deixou escapar uma respiração pesada e decidiu voltar. À medida que avançava pela rua, a chuva diminuía.

— Será que ele mora ali ou é a sede da Congregação? — perguntava-se frustrada. — Por que ele mentiu sobre o amuleto?

Era como se soubesse de todas as respostas, porém uma cortina de fumaça a bloqueasse da verdade.

Acelerou com raiva, mordiscando o lábio inferior, cortando-o. Estreitou os olhos para a estrada e, ao atravessar a ponte, enxergou um homem caminhando pela margem enlameada. Era alto e usava um casaco de veludo verde-escuro. Decidiu parar e perguntou se ele queria carona.

Parou e abaixou o vidro.

— Você está indo para Ennead? — Encostou no vidro do carro, revelando um rosto branco e macilento com um par de olhos de um ofuscante azul-turquesa, assim como os dela.

— Sim — respondeu indecisa.

Ele aparentava ter pouco mais de 40 anos, cabelo preto e liso e um porte elegante. Empunhava um guarda-chuva preto.

Adentrou, pôs o cinto de segurança e limpou-se nos ombros de maneira engraçada.

— Ainda me surpreendo com a chuva. — Sorriu, olhando para a estrada.

— O senhor mora por aqui? — Deu partida.

— Sim. — Apontou para a curva ao lado da ponte. — Uns dois quilômetros naquela direção.

— E o senhor ia andando? — perguntou surpresa, era uma grande de uma caminhada.

— Era o que me restava. — Riu de si mesmo, retirou as luvas e colocou as mãos no aquecedor. — Ocorreu um problema com meu carro, está na revisão e só vão entregar em dois dias. Mas me chame de você, por favor. Sinto-me com 70 anos quando me chamam de senhor — falou em tom de brincadeira.

— Como quiser — respondeu sorrindo pela simpatia do homem.

— Obrigado, estou indo na casa de uma amiga, marquei uma visita.

A conversa fez recuar seus pensamentos borbulhantes e conseguiu distrair-se com o estranho.

— Me chamo Marine, e você? — Estendeu a mão esquerda por cima do braço, que manteve no volante.

— Ethan Cadell.

O homem a observava atentamente com a visão periférica.

— Você é natural daqui?

— Não, sou de Cardiff, País de Gales. — Encarou-a, afável. — E você?

— De Dublin, notei o seu sotaque — pontuou.

— A passeio por aqui?

— Vim passar uns dias, dar um tempo da minha vida em casa — quis mudar o rumo da conversa.

— Buscando um refúgio no meio da floresta? — Apontou para a janela do carro.

A garota não sabia ao certo o que responder.

— Sim, descansando de certa forma — avaliou. — E buscando algumas respostas.

— Respostas? — Vincou a testa.

— Internas. — Riu do que dissera. — Você reside aqui há muito tempo?

— 20 anos — falou devagar.

Interesse brilhou nos olhos da jovem, sua mente raciocinando rápido.

— Como se trata de uma cidade do interior, a maioria das pessoas se conhece, presumo?

— Depende, conheço muita gente.

— Você conhece William Collins?

Ethan buscou em seus pensamentos.

— É um rapaz mais ou menos da minha idade, ou um pouco mais velho — continuou a garota.

— Não — demorou em responder.

Marine quis perguntar mais. As ideias não se formaram, porém as palavras fluíram.

— Você conhece quem mora em uma propriedade logo depois da ponte, onde tem um portão imenso e umas câmeras de segurança por toda a parte? — queria se conter, para não soar desesperada pelas informações.

Ethan demorou novamente para responder.

— É uma grande fazenda, mas normalmente não se vê os proprietários. Sei que é de um homem de meia-idade porque às vezes o vejo em alguns eventos sociais. — Aparentou forçar a memória.

— Você sabe se mora muitas pessoas lá? Digo, alguns trabalhadores? — Exemplificou de forma natural.

— Não sei. Apenas que alguns caminhões entram e saem com o produto, alguns carros... É uma área mais isolada e relativamente privada. Só entram pessoas credenciadas, mas a movimentação é constante.

— Você sabe qual o produto?

Ethan narrou pausadamente a respeito dos artigos e questionou o porquê do interesse sutilmente.

— William Collins, eu o segui... — Riu de si mesma. — Não pense que sou uma stalker, mas precisava saber aonde ele ia.

A garota dobrou e seguiu pela estrada asfaltada que interligava a cidade.

— Realmente nunca ouvi falar, mas se ele entrou, deve trabalhar ou é da família. — Cruzou os braços.

Marine continuou com as perguntas discretamente.

— Você sabe o nome do proprietário?

— Nicolas Hayden, se não estou enganado. — Ethan olhou para o teto.

Marine errou a marcha ao ouvir o nome e o carro deu um solavanco.

— O que houve? — preocupou-se.

— Nada, ainda estou me acostumando com esse carro — respondeu depressa, disfarçando com um sorriso.

A mente da garota voltou a entrar em ebulição. O nome do proprietário era o mesmo que estava descrito no diário místico de Claire e o do sonho em que William era o encapuzado. As certezas estavam evaporando e não conseguia conter o nervosismo em vista dessa coincidência significativa. Voltou a pisar no acelerador.

— Você parece ter ficado nervosa — analisou o estranho.

— Apenas lembrei-me de algo que precisava fazer. — Batia os dedos constantemente no volante. Adentrou na área urbanizada e dobrou algumas ruas, avistando a praça gigantesca. — Onde você quer que lhe deixe?

— Ela mora na frente da praça. — Procurou a casa. — Ali. — Apontou.

O coração de Marine parou diante da revelação, posto que Ethan apontou para a casa de Claire.

— Não pode ser, é muita coincidência — deixou escapar, abismada.

Fez mais uma curva e estacionou diante da garagem.

— É aqui que estou ficando. A casa da avó de minha amiga — Afirmou surpresa e desligou o automóvel.

— Sério? — Ergueu as sobrancelhas. — Na casa de Claire Behan?

Os dois saíram do carro, o contornaram e pararam diante da varanda.

— Mas lamento lhe informar que a senhora Claire não está, ela viajou para Cork. A neta dela, minha amiga Susan, sofreu um grave acidente. Na verdade, nós sofremos um acidente, porém o estado dela foi mais grave e precisou ser operada — informou com pesar.

— Eu não sabia, que lástima. Mas ela está melhor?

— Não sei lhe dizer, porém acredito que sim — a garganta estava travada, as palavras saíam com muita dificuldade.

Ethan viu a hora no relógio de pulso, despediu-se da garota, agradecendo pela carona, e acrescentou:

— E acredite, Marine Talbott, não existem coincidências, sempre há uma razão, mesmo quando tudo aparenta não ter sentido — declarou, tocando-a rapidamente no abdômen, exatamente sob a cicatriz do tiro.

Ele girou a grande capa e cortou o jardim a passos lentos em direção à praça, entretanto Marine permanecia ali, estagnada e com o cenho franzido ante a frase de Ethan, algo naquela voz remeteu ao atentado.

Fora transportada para o crepúsculo em Glendalough, encontrava-se cercada de pessoas. De um lado, um grupo vestido com sobretudos pretos, e do outro, mantas verdes. Disputavam uma batalha surreal onde alguns deslizavam pelo ar e golpeavam-se com athames cintilantes.

Raios cortavam o céu carregado, evocados pelas lâminas, ao mesmo tempo que pedras levitavam e chocavam-se contra a cabeça de indivíduos que caíam violentamente ao chão. A agressividade e a dança dos vultos eram estridentes.

Em determinado momento, alguém vestido de preto caminhou em um compasso elegante na direção de Marine. A destruição e brutalidade em torno não lhe importava, apenas o reflexo da garota no fundo daqueles olhos o guiava. Nada mais interessava, os olhares estavam interligados e havia uma sombra na íris de ambos, onde tal escuridão que unia os seus destinos, também os apartava.

Um revólver vermelho fora retirado lentamente de dentro de sua roupa esvoaçante e um disparo silenciou a batalha, projetando Marine sob a relva úmida. Embora estivesse imune à dor pelo choque, o sangue jorrava para fora de seu corpo como um chafariz mórbido.

O embate violento cessou ao mesmo tempo que um homem se debruçou sobre o corpo da garota.

— Ela não pode morrer!

Marine abriu os olhos enevoados e os firmou, assombrada, o reconhecera. O tom de voz a conectou ao presente, era Ethan Cadell, o desconhecido que pedira carona, suposto amigo de Claire.

As sombras se misturaram e um redemoinho de imagens difusas a fez ficar tonta.

— Eu não lhe disse meu sobrenome! — lembrou-se da conversa no carro e avançou quase cambaleando em sua direção.

Medo correu por suas veias, seus pelos arrepiados fazendo com que sua respiração estivesse superficial, mas, apesar disso tudo, percebeu que Ethan estava lá, ele poderia lhe fornecer mais respostas. Definitivamente nada do que ocorria era uma coincidência, tudo estava interligado, e apesar do medo avassalador, necessitava descobrir a verdade.

Correu pelo gramado da frente da casa e parou na calçada, enxergando-o de costas entre as pessoas.

— Ethan! — gritou desesperadamente.

O homem parou, girando devagar, e a encarou, com um sorriso malicioso estampado em sua face fria.

Prosseguiu, obstinada a rechaçá-lo de perguntas, porém após dar o terceiro passo, uma buzina soou alta em seus ouvidos e o impacto com uma caminhonete preta a arremessou metros adiante, fazendo-a girar no asfalto úmido.

Marine permaneceu imóvel, caída de costas, quando a pessoa que dirigia aproximou-se atordoada e estendeu a mão para tocar em seu rosto. Nesse instante, ela abriu os olhos e o reconheceu, era o mesmo jovem que havia saído do supermercado com William mais cedo.

Assim que ele colocou a mão no bolso do casaco e levou o aparelho celular ao ouvido, Marine viu, aturdida pela batida, que um cordão estava enrolado no pulso direito. O amuleto chamou atenção, era o mesmo que William usava no pescoço no dia em que o conheceu.

Marine apertou o braço do jovem, queria falar, contudo uma dor incomum lhe dominou, fechando seus olhos devagar, e lhe tragando para uma escuridão infinda em seu cérebro letárgico, cheio de lembranças. 


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