Capítulo 10: Sonho ou Realidade?


Marine mergulhou em um sono profundo, no qual lhe transportou para uma realidade assustadora e demasiadamente real. Sentiu o chão materializar-se debaixo de seus pés descalços, enquanto seu corpo pareceu montar-se do invisível para o real como em um quebra-cabeça solto no ar. As pequenas partes se agrupavam ao centro daquela grande praça georgiana de Ennead.

As casas estavam no lugar, porém não eram as mesmas. Não havia aquele colorido fascinante que a encantou assim que chegara. A residência dos Behan mantinha-se ali, no entanto envelhecida, como uma fotografia perdida por anos. Os olhos da jovem captavam todas as imagens como se enxergasse no efeito sépia, o ambiente desértico a sufocou, mas o ar não fluía de seus pulmões congelados pela frieza do clima.

Ousou dar o primeiro passo quando sentiu uma brisa gélida lhe cortar o rosto e um nevoeiro emergir das gigantescas árvores, na densa floresta ao lado.

— O que está acontecendo? — perguntou de forma arrastada, como se a língua estivesse pesada.

Inclinou o corpo para a direita e sentiu um peso gigante sob seu torso, algo invisível lhe prendendo ao solo. Avistou a majestosa igreja que ecoava o badalo sincronizado e perturbador do sino, enquanto a porta dupla de madeira abriu-se sozinha, rangendo assombrosamente.

Uma enxurrada de sangue desceu pelos degraus de pedra, avançando para a praça, em sua direção. Arriscou afastar-se, entretanto, continuava estagnada, enraizada e asfixiada pelo medo que devastava seu emocional. Tentou gritar, gesticular em meio ao nevoeiro que descia acima de sua cabeça, mas nada mudava. Ouvia o eco de seu grito se propagar.

O líquido quente de cheiro metálico banhou seus pés e espalhou-se por todo o lugar, projetando imagens de pessoas com tochas e bastões nas mãos, as quais gritavam, bracejavam, protestavam, contudo, a garota permanecia ali, como um fantasma em meio à multidão.

Uma voz grave ecoou em seu cérebro aturdido.

— Por que você fez isso comigo? — indagou com ódio.

Era a mesma voz do homem que se materializou em sua cozinha e a fez afundar em um lago vermelho.

O nevoeiro se dissipou instantaneamente, levando junto a sensação de peso que havia recaído sobre seu corpo. Girou nos calcanhares devagar, ainda presa ao sangue que submergiu seus pés. Adiante, havia sete pessoas de costas, com vestes escuras e capuzes, enfileiradas diante de um elevado de madeira com muitos troncos de lenha e uma estaca de madeira ao centro, onde o dono da voz permanecia amarrado por grossas cordas e correntes.

— Eu não fiz nada! — respondeu assombrada.

Ele ergueu a cabeça e a espreitou friamente, comprimindo os lábios.

— Onde estou? Quem é você? — Moveu o corpo de um lado para o outro, desesperada, e pôde notar que as pessoas desapareciam na velocidade que olhava.

— Bem-vinda ao desconhecido. — pronunciou de forma sombria.

O colorido se fez e uma grande chama brotou do elevado, consumindo-o vivo. Os gritos e o cheiro de carne queimada fizeram-na recuar, perplexa e assustada.

As sete pessoas diante da grande fogueira viraram-se devagar, com athames em punho, e inesperadamente avançaram em sua direção. Não havia como se defender, eles pareciam deslizar sobre o chão vermelho. Ao aproximarem-se, girando ao seu redor como abutres, notou que não existiam rostos definidos, apenas a cor da pele, como se fossem manequins vivos.

Um grito avassalador rompeu sua garganta e agachou-se, tentando se proteger com os braços, fechando os olhos quando o primeiro golpe foi desferido.

O silêncio dominou, conseguia ouvir apenas as céleres batidas do coração que estourava em seu peito, abriu os olhos e nada enxergou. O silêncio e escuridão lhe cercaram, notou algo em sua mão. O objeto perdido no acidente. Árvores enfileiradas materializaram-se e repousou o olhar em uma árvore seca ao fundo.

O brilho da Lua cheia foi preenchendo o ambiente, crescendo ao longo dos galhos das árvores de carvalho em meio à densa floresta, a garota estava posicionada ao centro de um caminho feito de pedras.

— Eu não acredito. — Colocou o objeto na altura dos olhos, que foram cobertos pela escuridão.

A voz do homem voltou a congelar sua alma.

— Venha para mim.

O timbre grave e sussurrante a fez oscilar entre o pavor e a coragem, algo a seduzia naquela sonoridade.

A claridade fez a planta morta parecer iluminada de dentro para fora, chamando sua atenção, e logo notou uma seiva defluindo pelo tronco.

Ficou confusa, prestando atenção no som do deslizar do líquido, de modo que se assemelhava com o pulsar de um coração em um ritmo brando. A árvore de grande porte, embora morta, causou um encanto instantâneo, hipnotizando-a para além do seu corpo. Era como se sua alma estivesse conectada com aquele vegetal sem vida.

Os olhos flamejantes cederam ao encanto, ao passo que seus membros inferiores a conduziram rumo à luminosidade. A partir do terceiro passo, sentiu-se leve ao ponto de planar, o invisível lhe conduzia de encontro ao desconhecido.

Jazia algo detrás daquela luz, algo muito mais forte do que a sua própria vida, algo que a fez flutuar a metros do chão, algo que a motivava a buscar por respostas...

A escuridão dos olhos desapareceu, assim como a pedra de sua mão esquerda. Foi tragada pelas trevas e abriu os olhos extremamente assustada. Percebeu o teto diante do seu rosto, gritou de forma estridente e moveu os braços freneticamente, como se buscasse algo sólido para se firmar, pois flutuava sobre a cama.

Moveu o corpo para o lado e despencou no colchão, quicando para o lado. Ergueu-se depressa e olhou em torno como se estivesse presa naquela realidade. Seus lábios tremiam, seu corpo à deriva naquele oceano de medo. Olhou através da janela e contemplou a tarde lá fora.

O som da notificação da mensagem do celular a assustou, o aparelho estava ao lado da cama, no chão. Avançou em linha reta até o celular e visualizou o texto, enviado por William.

"Você está bem? "

Então notou que havia oito mensagens e treze chamadas perdidas datadas do dia anterior.

— Isso é impossível!

Alarmou-se, verificando o relógio, à mesma hora da tarde que deitara, só que no dia anterior. Girou o corpo e correu para a porta, atravessando o corredor quase caindo. Desceu as escadas desesperadamente, vendo a porta do escritório de Claire aberta.

Dobrou para a sala de jantar, cozinha, quintal, procurou por Thereza, chamou por ela, nada. Estava absolutamente sozinha.

Retornou para a sala e impulsivamente entrou no escritório de Claire.

A parede frontal tinha três quadros, todos no estilo barroco. O do centro relatava cinco pessoas em um círculo, todos de mãos dadas; o da esquerda, uma fogueira com uma pessoa sendo queimada; o outro, uma casa cinza gigantesca, com inúmeras pessoas de vestes escuras ao longo do jardim na pintura.

Com a respiração ofegante, foi tragada para uma estante abarrotada de livros à sua direita, todos alinhados e colocados em ordem alfabética. Apenas um mantinha-se fora da ordem e logo lhe chamou atenção, retirando-o e abrindo em uma página marcada com a foto de seu pai, a mesma que encontrara em Dublin.

— O que essa foto está fazendo aqui? — indagou, absurdamente surpresa.

A página em branco possuía anotações. Leu-a de imediato. Era uma caligrafia dobrada datada há trinta anos.

"Eu o tive por perto mais uma vez, mas a presença dele me faz mal. Amá-lo é como descer uma corredeira, nunca se sabe aonde vai se chocar, o impacto é a única certeza e fatalmente violento, mortal. Porém, o sentimento é mais forte. Embora me machucando, estou lá, como sempre estive. Nicolas, você representa tudo e ao mesmo tempo tão pouco... Onde está a coerência? Existe coerência no amor? Não.

Quando Bernard Milligan se aproxima com ela, você me afasta indiretamente. Por que você não me nota?"

Um misto de emoções fez todos os pelos de Marine arrepiarem-se, interrompendo a leitura.

Uma pessoa com vestes de couro marrom e encapuzada mantinha-se parada junto à porta do escritório.

— Vê o que eles fazem? Eles apenas mentem! — anunciou, assustando-a.

Marine encarou a figura boquiaberta.

Pela descrição de Susan, era o Encapuzado.

— Onde está a chave? — retirou um athame das vestes.

— Que chave? — sua voz saiu trêmula dos lábios secos.

O ser indefinido foi erguendo o rosto, revelando um sorriso ardiloso.

— Avance para a floresta. — sussurrou de maneira tenebrosa. — Nicolas Hayden sempre mente.

A voz distorcida foi se tornando familiar, assim como o rosto diante da jovem incrédula.

— Você? — engasgou.

William avançou ameaçadoramente contra ela, que se manteve imóvel, em choque, sentindo a lâmina cortá-la na altura da cicatriz do tiro que sofrera no mês anterior.

Marine abriu os olhos em horror, suas pupilas dilatadas pelo medo focaram o teto, moveu-se desvairadamente sobre os lençóis, o corpo exausto a prendeu na cama, forçou os braços e conseguiu levantar-se ao comando de um cérebro devastado.

Puxou a blusa e o moletom para observar a cicatriz do tiro. Apesar de não estar apunhalada, sentia embaixo da pele o corte desferido por William no sonho. Fora um sonho?

Realidade e fantasia se confrontavam entre seus pensamentos bloqueados, um entrave se instalou, associado ao terror que corroía cada célula do seu corpo. Sentou-se na cama e ouviu a notificação de mensagem no celular.

Dedos trêmulos agarraram o aparelho e verificou as chamadas perdidas de sua mãe, além de uma mensagem de William.

"Você está bem?"

Ao ler, sentiu como se uma injeção de adrenalina tivesse sido aplicada em seu coração, libertou todo o ar contido nos pulmões e correu para a porta. Ainda zonza, esbarrou em alguns móveis e desceu pela escada, deparando-se com a porta do escritório de Claire fechada. Não eram apenas os seus membros que tremiam, sentia como se estivesse imersa em um lago congelado.

Caminhou com dificuldade até a porta e girou a maçaneta inúmeras vezes em vão. Começou a bater à porta.

— Abre! — falou com dificuldade.

— Marine? — investigou a diarista, da sala de jantar, surpresa.

A garota sufocou um grito.

— Thereza! — Aproximou-se da mulher, ainda hesitante.

— O que houve? Não está se sentindo bem?

— Você tem a chave do escritório? — Apontou.

Thereza a estudou de cima a baixo, intrigada.

— Por favor, Thereza — insistiu nervosa. — Você tem?

— Não, a senhora Claire sempre o mantém trancado. — Uniu as sobrancelhas.

Marine olhou em volta, aturdida.

— Você está me deixando preocupada! Vou ligar para a senhora Claire.

— Não — disparou, segurando-a com força nos braços. — Que dia é hoje?

Thereza respondeu receosa, enquanto o rosto da garota ficava mais pálido.

— Eu dormi um dia inteiro? — chocou-se ao ter certeza que dormira por 24 horas seguidas e ainda mais pelas coisas estarem acontecendo quase iguais como no seu sonho.

— Tentei acordá-la inúmeras vezes! Até liguei para a senhora Claire, mas ela disse que era um efeito colateral do medicamento — sentenciou aflita.

— Não pode ser! — Soltou os braços de Thereza e colocou a mão direita sobre os lábios, suor frio escorrendo por seu rosto.

— Fiquei bastante preocupada, mas ela me tranquilizou. — Aproximou-se cautelosa. — Você precisa beber algo, comer alguma coisa.

Marine afundou na cadeira e aceitou o copo de água. Sentia-se como se tivesse sido dopada, apoiou os cotovelos nas coxas e mirou a porta do escritório.

Thereza perguntou se era melhor chamarem um médico, porém a garota achou melhor não.

— Preciso acordar! — A aflição era pulsante.

Thereza a observava visivelmente receosa.

— Você precisa se alimentar. — Foi para a cozinha preparar uma sopa.

Marine voltou a olhar para a porta, as figuras do sonho se emaranhavam como em um turbilhão de imagens desfocadas. Aquilo não era normal, constatou, com um zumbido nos ouvidos.

Apesar de ter despertado, ainda se mantinha imersa dentro da falsa realidade que vivenciou enquanto dormia, podia sentir a lâmina arder de dentro para fora, como se o calor do metal lhe cortasse naquele instante. Tocou novamente o abdômen e sentiu algo viscoso, mirou os dedos assustada, era sangue.


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