Capítulo 16👟Vó Cleusa faz setenta!👟

O movimento na casa da família Machado começou cedo no sábado. Quando entrei na cozinha ainda sonolenta pela manhã, Vó Cleusa parecia já estar acordada há horas.

__ Ei, o que está fazendo já em pé? Hoje é seu aniversário deveria esperar seu café da manhã na cama.__ A abraço por trás e beijo sua cabeça.

__ Ah, desculpe minha neta! Mas nem consegui dormir essa noite! Sei que gosta de seguir essa tradição, mas estava muito elétrica para esperar na cama!

__ Te entendo. Afinal, não é todo dia que minha vozinha linda faz setenta!__ A aperto com carinho.

__ Se quiser posso ajudá-la a queimar toda essa energia, minha rosa!__ Vô J entra na cozinha.

__ Lá vem ele com as piadinhas de mal gosto...__ Vó Cleusa se vira para começar a discussão, mas não termina a frase quando recebe um buquê de rosas vermelhas nas mãos.

Saio de fininho e deixo os dois se confraternizarem ao modo deles. Passo pela sala e encontro Vó Ló e Vô Abner assistindo o jornalismo da manhã na TV. Beijo os dois e sigo pelo corredor. Drica ainda dorme profundamente, então solto Tik Tok, saio para o quintal dos fundos. Começo a organizar o espaço para a comemoração de mais tarde. Deixo a mangueira enchendo a piscina, o carvão próximo a churrasqueira e algumas cadeiras espalhadas no gramado...

●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●

__ Que horas que a mãe disse que vai chegar?__ Drica se ocupa da decoração. Um vaso com madressilvas brancas e pequenas rosas vermelhas, as preferidas de vó Cleusa, enfeita a mesa rústica.

__ Ela disse que por volta de meio dia sairá do plantão. __ Prendo os balões dourados formando o número setenta na grade atrás da mesa.

__ Tomara que ela não esqueça o bolo!__ Drica termina de arrumar os cupcakes na mesa.

Vô J está entretido na churrasqueira, enquanto vó Cleusa e vó Ló terminam de preparar algo na cozinha. Vô Abner briga com Tik Tok, que não para de rodear o churrasco. Fico satisfeita com o resultado da arrumação e subo para tomar um banho e trocar de roupa.

De chinelo, short jeans e apenas a parte de cima de um biquíni desço com Drica para começarmos a desfrutar do dia quente e ensolarado. Apesar de nossa piscina ser de lona sempre nos rendeu muito divertimento.

__ Eleanor disse que já está a caminho!__ Vô J guarda o celular no bolso.

__ Ainda bem! Porque estou morrendo de fome!__ Vô Abner reclama.

__ Então, Abi como tem lidado com seu chefe?__ Drica pergunta de dentro da piscina com olhar curioso.

__ Por favor, pelo menos hoje prefiro esquecer que Kayke Avellar existe.__ Respondo deitada de olhos fechados em uma espreguiçadeira.

__ Pensa que não notei que ele mexe contigo?__ Ela insiste.

__ De onde tirou isso, sua fedelha?!__ Sento e faço sinal para que fale baixo.

__ Posso ser uma fedelha, mas "saco" as coisas! Já notei como se olham.__ Ela vem para a borda da piscina.__ Confesse, Abi! Ele pode ser antipático, mas é bem bonito!

__ Não vou confessar nada! E pare de inventar história. Kayke Avellar é apenas meu chefe, fora isso nos detestamos.

__ Ok! Se prefere se enganar, não está mais aqui quem falou!__ Drica se afasta com um mergulho. Volto a fechar os olhos e tentar relaxar ao sol, mas as lembranças daquele sorriso de vilão de HQ não saem de minha cabeça.

__ Eleanor chegou!__ Vó Cleusa anuncia animada de dentro da casa.

__ Finalmente! Já estava ficando verde de fome.__ Vô Abner se levanta e vai pegar um prato.

__ Olhem quem eu trouxe para comemorar conosco!__ Minha mãe aparece no quintal acompanhada de Hugo, que carrega um bolo. Logo atrás surge Kayke, que me encara parecendo sem jeito.

__ Ah, que maravilha! Sejam bem-vindos!__ Vó Cleusa recebe as felicitações dos dois e desaparece no interior da casa carregando um embrulho dado por Hugo.

__ Não vai cumprimentar seu chefe, Abi?__ Drica solta um risinho malicioso.

__ Não começa!__ Resmungo baixo.

●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●

O almoço ocorreu bem animado como todos que acontecem na casa da família Machado. Apenas Kayke e eu mantivemos certa distância e evitamos falar e interagir. Uma longa mesa de piquenique, que fica no quintal, serviu para que todos fizessem a refeição ao ar livre. Mas com o passar do tempo um ou outro foi se levantando para se servir de mais churrasco ou para fazer outras atividades. No fim, restou apenas minha mãe e Hugo em uma ponta conversando baixinho, vô Abner sentado na outra ponta com seu segundo prato de comida e Kayke e eu em lados opostos.

__ Com licença. __ Levanto e carrego meu prato para a cozinha.

__ Posso a ajudar?__ Kayke surge por trás com seu prato.

__ Não é preciso. Pode deixar aí que lavo.__ Respondo sem olhá-lo. Pego a esponja e começo a lavar a louça.

__ Abigail, escute. __ Ele apoia um braço na pia de modo a ficar em uma posição que veja meu rosto.__ Sei que não está satisfeita com minha presença em sua casa.

__ Não disse isso.__ Olho para ele depois de um bom tempo desde que chegou.__ Ele me encara e sorri de lado.

__ Não é preciso que diga. Sua atitude demonstra que não está à vontade.__ Pega um pano e começa a secar a louça.

__ Só está acontecendo tudo muito rápido entre eles.__ Olho para fora em direção a nossos pais.__ Além de você ser meu chefe agora e...__ Paro no meio da frase.

__ E? Continue, Abigail.__ Olho de lado.

__ E o fato de nunca termos nos dado muito bem.__ Faço um careta.

__ Entendo. Mas acho que podemos nos esforçar um pouco pelo bem deles.__ Kayke aponta para fora com o queixo.__ Sei que não me suporta, mas acho que podemos manter um relacionamento civilizado. O que acha?

__ Claro.__ Sorrio incerta de que a ideia de Kayke dará certo.

Para isso você precisaria cooperar um pouco mais, meu caro!

●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●

A ideia de Kayke de "erguer uma bandeira branca" entre nós talvez dê certo, pelo menos no convívio familiar, porque na empresa isso é praticamente impossível. Seu temperamento azedo e a mania de desconfiar de todos o torna um ser humano intratável.

Enquanto a maioria descansa e conversa no interior da casa aproveito um tempo sozinha para relaxar e rever minha conversa com Kayke. Organizo algumas coisas no quintal. A tarde esquentou mais. Parece ser um daqueles típicos dias de verão no Rio em que faz muito calor durante o dia e a tarde cai uma pancada de chuva. Observo algumas nuvens se formarem no céu.

__ Está muito quente, não é rapaz?__ Tik Tok se aproxima abanando o rabo e com um palmo de língua para fora.__ Venha cá, vou te dar uma água fresquinha.

Depois de servir meu cão e lhe dar um pouco de carinho acabo resolvendo lhe dar um banho com a mangueira do quintal para aliviar seu calor. A tarefa acaba virando uma grande farra para Tik Tok, rendendo muita espuma, correria e gargalhadas. Até que ouço ele rosnar baixinho em direção à porta.

__ O que foi, garoto?__ Ergo a cabeça e vejo Kayke parado com as mãos nos bolsos nos observando.

__ Acho que seu cão não gosta de mim.__ Kayke se aproxima cuidadoso.

__ Ele só não está acostumado com você ainda. __ Termino de secar o pelo preto e branco de Tik Tok.

__ Não é só isso. Acho que sente ciúmes.

__ Pode ser.__ Tik Tok se aproveita de minha distração enquanto converso e sai correndo em disparada. __ Ah, não! Volte aqui! Não acabei de te secar!__ O cão se esfrega no gramado.

Me surpreendo com o som de uma risada diferente. Encaro Kayke. O sorriso é genuíno. Sem resquícios de deboche ou zombaria. Olho para meu estado lamentável. A roupa encharcada e espuma em algumas partes do corpo. Sorrio também.

__ Toda vez que dou banho nele isso acontece.__ Largo a borracha e me desvio das poças d'água.

__ Venha. Eu te ajudo.__ Kayke me estende a mão.

__ Obrigada. __ Seguro sua mão bem a tempo de não cair. Escorrego na grama molhada. Se não fosse Kayke me segurar teria levado um tombo feio.

Ele me puxa tão rápido que meu corpo se projeta para frente e tromba com o seu. Minhas mãos se apoiam em seu peito. Kayke me segura firme pela cintura. Arfo com o susto e ergo a cabeça. Nossos rostos estão a poucos centímetros de distância. Seus olhos descem dos meus até minha boca. Remexo-me aflita na tentativa de me afastar, mas seus braços me apertam junto ao seu corpo.

__ Estou molhando sua roupa. Me desculpe.__ Minha voz sai arfante.

__ Quem disse que me importo.__ Kayke desce o rosto em minha direção. Sinto seu hálito quente. Fecho os olhos completamente hipnotizada. Mas seus lábios não alcançam os meus. Um som surdo seguido de um espraguejar me despertam.

__ Que isso?__ Ele ainda me mantém entre seus braços.

__ Não disse que ele não gosta de mim!__ Kayke olha para baixo.

__ Tik Tok, pare com isso!__ Meu cão está agarrado na borda da calça de Kayke...

●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●●

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top