IV - Ruínas milenares

Subindo a escadaria consegui ver um pouco do que se estendia a frente. Vários complexos de pirâmides hexagonais, se intercalavam com áreas que pareciam torres de vigia com pilares cilíndricos. Tudo devia ter sido muito branco séculos ou milênios atrás, mas naquele momento estavam acinzentados e tomados pela hera.

A nossa frente havia um portão, pelas laterais escadarias seguiam contornando a primeira pirâmide e pareciam seguir por trilhas para as próximas.

— Vamos seguir as escadas, temos que atravessar isso o mais rápido possível e chegar logo na Floresta Drow. — Linkas tomou a frente subindo as escadas.

Olhei curioso para a porta, mas segui o grupo.

Subimos a escadaria por um tempo e começamos a nos aproximar de uma das torres de vigia. Primeiro eu vi asas se abrindo no topo da torre onde parecia haver um ninho, depois duas criaturas alçaram voo na nossa direção.

— Manticoras. — Ouvi Maltael dizer para si mesmo.

Sim, manticoras.

Cabeças de leão, asas de morcego, cauda cheia de espinhos. O primeiro ataque veio. Darius levantou o escudo mas acabou atingido por um dos espinhos.

Corremos da área aberta e fomos para debaixo das arvores que tomavam as laterais. Darius tentou acertar uma das criaturas com o arco, mas não conseguiu.

Linkas começou a correr de volta para a entrada da cidade e eu segui ele. Quando olhei para trás vi que o resto do grupo nos seguia.

— Admito... péssima ideia — disse o druida ofegando.

— Então... e agora? — perguntei.

— Por que não fazemos o obvio? — Maltael cruzou os braços.

— Que seria?

— Passar pelo portão de entrada.

— E como você acha que vamos atravessar um bloco maciço de mármore? - Linkas levantou uma sobrancelha.

Eu pensei em dizer que eu podia tentar, sabe, eu sou bom com fechaduras, mas Maltael foi mais rápido.

— Não estão vendo? É um jogo?

— O que?

— Na porta. Não veem as imagens?

O anjo colocou uma das mãos no bloco de mármore e foi então que vimos. As imagens apareceram para todos, de um lado uma figura grande de um celestial. Do outro lado a mesma imagem, mas com pequenas diferenças.

— Acho que precisamos descobrir os erros.

— Como um jogo de criança? — Linkas ainda parecia incrédulo.

— Sim, mas provavelmente com consequências maiores.

Dito isso todo o grupo se reuniu próximo ao portão e o analisamos atentamente. A cada erro que víamos pressionávamos a imagem. Quando repetimos o processo dez vezes ouvimos um barulho e o bloco se moveu, abrindo passagem.

Assim que passamos pela entrada sentimos uma força agindo sobre nós, uma espécie de magia que parecia nos fortalecer um pouco. Lembrava o que Samhaime costumava fazer antes das batalhas.

Andamos por dentro da primeira pirâmide até chegarmos a uma grande porta dupla. Me aproximei dela.

— Wow... acho que não vamos passar daqui não galera. Isso é porta de calabouço, prisões. A tranca dessa coisa é um trabalho e tanto.

— Eu crio uma passagem.

Era difícil ver as expressões no rosto de Darius já que ele não tinha sobrancelhas..., mas eu diria que ele as estava franzindo.

Ele começou a procurar por algo no chão, enquanto isso Samhaime se aproximou da porta.

— Acho que daria para arrebentar essa dobradiça aqui.

— É isso que vou fazer, então.

Arregalei os olhos quando o guerreiro destruiu a dobradiça, a porta abriu um buraco por onde poderíamos passar, Samhaime jogou uma tocha la dentro, mas de onde estávamos não dava para ver.

— Ótimo, agora alguém tem que entrar para ver se é seg...

Não precisei terminar de falar, os olhares de todos, virados para mim, foi resposta o bastante.

— Oooook...

Resignado passei pela porta e verifiquei o outro lado. Aquele lugar fedia, e vi ossos de criaturas humanoides lá dentro, assim como um crânio de cachorro.

Como não vi mais nada dei sinal para o resto do grupo me seguir. Descemos por uma escadaria e saímos em um ambiente que parecia composto por celas.

As grades onde estávamos pareciam ter sido dissolvidas, no meio do lugar havia um grande espelho inclinado, e pedras altas estavam localizadas embaixo de grandes aberturas verticais que pareciam ir até o topo da pirâmide.

Maltael e Oguway avançaram para o centro do lugar quando o monge percebeu algo de errado nas poças de água, elas saltaram do lugar para cima deles.

Uma conseguiu grudar no anjo que gritou. Elliot avançou e socou uma delas, ouvi ele xingar balançando a mão e percebi que elas deviam ser meio corrosivas.

Atirei uma flecha e apesar de acertar a flecha se dissolveu dentro da criatura.

— São limos. Nossas armas serão dissolvidas se encostarmos neles.

— Então é com a gente - disse Oguway para Elliot.

O monge careca sorriu e acenou. E com alguns socos rápidos eles conseguiram destruir as criaturas.

Samhaime curou os ferimentos de Maltael e dos monges. Enquanto estava agachado cuidando deles viu um rubi onde uma das criaturas tinha se dissolvido.

— Bem, parece que conseguimos algo bom nisso.

Resolvemos continuar andando e seguimos por uma passagem escura, em volta do portal havia varias runas. Linkas e Samhaime começaram a analisa-las.

— Bem, é algum tipo de proteção. Prende algo aí dentro. — disse Linkas

— Algo maligno pelo jeito, vamos destruí-lo. — Darius começou a estalar os dedos.

— Para que? Esqueceram que estamos com pressa? Temos que atravessar essa cidade de uma vez.

— Estou curioso, para ser sincero. — Oguway coçou o queixo.

Parecia que a maioria concordava com ele, então dei de ombros e os segui.

A passagem ficava cada vez mais escura, e quanto mais andávamos, mais estranho ficava. Vi todos começarem a ficar incomodados, eu parei para pensar. Por que estávamos ali? Que idiotice era aquela? Que fama eu iria conseguir em ruinas?

Esse grupo não era nada do que eu esperava, um bando de pessoas sem a menor ideia do que fazer ou por onde seguir. No que estava me metendo?

Alguns começaram a se virar e voltar, Linkas foi o primeiro, resmungando e xingando.

Eu ia continuar, ia até o final, e era bom ter algo valioso.

E havia.

Selando um grande portão havia uma corrente de metal branco. Um metal ainda mais valioso que o negro. Deveria estar selando algo maligno lá dentro, mas era muito dinheiro para desperdiçar.

Dei um sorriso e avancei, estendi a mão para a corrente quando recebi um soco.

Olhei para o lado e vi Darius me encarando.

— Vamos voltar.

Olhei em volta e percebi que só estávamos nós dois ali. Eu não tinha chances de lutar contra aquele guerreiro. Mas eu tinha outra saída.

— Claro, tudo bem. Vamos embora.

Comecei a andar na frente dele, e adentrei a escuridão, tentei me esconder, mas não fui rápido o bastante.

— Você vai sair — disse Darius segurando meu manto.

— Tem ideia do quanto aquilo custa?

- Não interessa, não é para você.

— Eu vou pegá-lo!

— Não vai.

Eu mal tive tempo de reagir, ele me atingiu na nuca com o cabo da espada e desmaiei.

Acordei sentindo o chão frio. Uma voz chamava por mim, uma voz chiada e estranha.

— Levante-se, garoto, você precisa se concentrar.

Me levantei e olhei em volta, estava de frente para a saída da passagem, quase embaixo das runas. Todo o grupo havia atravessado as runas, mas por algum motivo me largaram do lado de dentro.

— Concentre-se, garoto. Feche os olhos e lembre-se de quem você é.

A voz me fez levantar os olhos, e foi quando vi a criatura que voava acima do grupo. Achei que meu queixo cairia no chão.

Era uma serpente com grandes asas de anjo. Ela me encarava firme e eu mal conseguia sustentar a pressão de seu olhar.

Fechei os olhos e tentei fazer o que ela disse. Algo coçava minha mente, uma coceirinha mostrando que algo de errado estava acontecendo.

Espera... eu tinha mesmo tentado roubar o metal branco sabendo que ia libertar um poder maligno? Por que eu não parei para pensar que aquilo me mataria? Tinha sim algo de errado. E quando percebi isso algo mudou, abri os olhos e foi como se o mundo que eu vi tivesse voltado ao normal, eu estiver vendo as coisas embaçadas desde que passamos pelas runas.

Que diabos de lugar era aquele?

— Agora você pode atravessar garoto.

E eu passei, nada aconteceu.

— Por que só pude passar agora?

— Nenhum ser maligno pode atravessar essas runas ileso.

— Eu não sou maligno.

— Não mais.

— Que? Ooooooooohh... entendi.

— No entanto, você não é mais como já foi.

— O que quer dizer?

— Por conta de seu contato com a aura maligna ali dentro, uma parte da sua bondade se foi. Assim como a de alguns de seus amigos. — A serpente balançou a cabeça. — Vocês não deveriam estar aqui.

— Ah... bem... eu deveria me desculpar?

— Provavelmente é algo que você faria antes.

Não consegui entender bem o que ele quis dizer.

— Couath — disse Maltael se aproximando.

— Sim. — A serpente se virou para ele.

— O que está acontecendo aqui?

— Agora nada, mas algo aconteceu muito tempo atrás, e infelizmente só cheguei aqui a pouco tempo então não sei de tudo. Mas algo destruiu essa cidade, a transformou em ruinas. E julgando pelo estado de uma das pirâmides, foi algo que saiu de uma prisão como essa.

— E os que moravam aqui?

— Os celestiais? Não há mais nenhum, pelo menos não aqui.

— E como atravessamos essa cidade. — Linkas se levantou, cruzou os braços e parecia inquieto. — Temos que sair logo daqui, precisamos chegar ao reino Drow e conseguir metal negro.

— Metal negro? Creio ter visto um pouco disso na pirâmide destruída... Bem, se querem atravessar, vão ter que passar pela pirâmide central. É um lugar bem interessante, vocês vão gostar. — Ela começou a subir, batendo as asas mais fortemente. — Agora tenho que ir, tenho uma ronda para fazer, talvez encontre vocês de novo lá.

E ela se foi, e tudo o que consegui fazer foi ficar olhando, boquiaberto, para aquela criatura.

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