FRANÇA - PARIS
Escola Saint Gertrudes, Quarta-feira, 05 de Novembro de 2019, 11:45 am, Paris.
— A França sempre foi o primeiro destino escolhido para se viajar, pela maioria das pessoas. — O professor Marlon Bertrand, está sentado sobre sua mesa, com os pés balançando, e com cada mão apoiada ao lado de cada perna. — O moderno convivendo com o retrô. As histórias seculares gravadas em cada rua, fazem com o que os turistas sintam-se dentro de uma máquina do tempo. — Ele é professor de História e Filosofia do Colégio de Ensino Médio Saint Gertrudes. — E quem não conhece a história da Revolução Francesa? — Marlon gaba-se um pouco nessa pergunta. — Talvez tenha sido a Revolução Popular mais sangrenta de todos os tempos. São vários filmes e musicais retratando esse período infame. Tem até um game da Ubisoft! O Assassins Creed Unity, onde jogamos com Arno e aprendemos quão foi sangrento esse período. — Marlon Bertrand salta da mesa e vai até o quadro verde, escrevendo a palavra "Cabeça", com um giz, para depois bater as mãos. Tirando o pó.
— Alguém sabe dizer o porquê de ter escrito essa palavra no quadro?
As respostas foram as mais variadas. Um aluno disse que uma revolução, começa-se pelas uniões das ideias... e isso não deixava de ser verdade.
Já outro, uma aluna, com cabelo colorido e escorrido respondeu:
— Por que era o bem mais preciso da época. — Marlon olhou intrigado para a jovem, que usava uma camisa preta com o texto: "F* YOUR SELF".
— Minha jovem — Marlon não possuía mais do que trinta e seis anos, e a jovem deveria ter uns dezessete anos. Mas, ele gostava de imaginar-se um receptáculo da sabedoria. Mesmo sendo tão novo, já havia terminado o doutorado. —, você poderia ser mais clara? — Pergunta para aluna.
— Reclamou do rei, cabeça no cesto. — Falou a jovem de forma simples e completa.
— Qual o seu nome?
— Mediva Courrie.
— Muito obrigado Mediva. — Agradece Marlon. Porém ele está intrigado. Intrigado porque durante todas suas aulas, a menina parecia está vivendo num outro mundo. — Exatamente isso pessoal. Foi o período que mais houve decapitação.
— Quando o senhor faz essa afirmação — Mediva interrompe Marlon, que não gostava de ser interrompido. —, acredito que está se referindo ao período com mais decapitação, divulgado.
As cadeiras na sala, mexem-se nervosamente em conjunto.
— Mediva, qual o período na história que houve mais decapitação do que a Revolução Francesa? Por favor — Marlon pergunta com ironia, e com as palmas das mãos abertas para cima, pedindo que a jovem explique-se à classe. —, revele-nós essa novidade.
— A Revolução Francesa começou, pelos registros históricos, dia 5 de Maio de 1789, até a queda da Bastilha em Novembro de 1799. Totalizando um pouco mais de dez anos.
— Perfeito. E em qual momento teríamos um outro período, onde houve mais decapitação? — Marlon encosta-se na mesa. E pela primeira vez Mediva olha para ele.
— Houve um período pré-histórico, onde a Irlanda, que ainda não era Irlanda, mas o conjunto de vários clãs, começou a decapitação e durou centenas de anos.
— Continue.
— O rei desse período pré-histórico era chamado Rei Tighermas. Ele herdou o reino do seu pai, Rei Follach, filho do Rei Ethriel... todos descendentes do primeiro líder desses clãs, chamado: Érimón.
— Eu ainda não estou entendendo aonde quer chegar.
— Érimón, o primeiro em sua linhagem, invocou uma divindade chamada Crom Dubn, para que acabasse com uma peste, que estava matando de fome todos os clãs.
— Você leu isso aonde? Espero que a senhora não esteja inventando.
— Professor, Mediva pode continuar? — Pede Lucie, uma jovem loira, que gosta de vestir rosa.
— Eu não posso aceitar todas as fábulas que escuto, Lucie.
— Minha família é irlandesa. E minha tataravó, fazia parte de um dos primeiros clãs. — A sala começa um pequeno tumulto, porque todos queriam ouvir o fim da história, independente dela ter sido passada de pai para filhos, ou fosse mentira.
— Mediva continua! — Grita Jean Martin, que está sentado perto da porta da sala.
— Crom Dubn atenderia o pedido de Érimón, porém teria uma condição: O povo nunca poderia usar o ouro para nada. De início, Érimón ficou tentado a desistir. Como assim? Ouro? O mineral mais valioso da Terra? Porém, era isso ou ver todos os clãs que formariam a Irlanda no futuro, morrerem de fome ou fugirem para outros lugares como nômades. Érimón aceitou a oferta. As terras ficaram novamente férteis. Mas, os clãs esqueceram o pacto feito pelo seu líder, e voltaram a usar e a negociar com ouro. Num certo dia, o deus Crom Dubn cobrou alto pela desobediência dos Clãs.
— O que aconteceu? — Perguntou Lucie.
— O deus Crom Dubn pediu que todo mês, quando iniciasse o período solstício de verão, para que as pragas não voltassem e o povo morresse de fome, ele queria a morte de dez pessoas, decapitadas, durante os primeiros trinta dias do verão. E esse ritual continuou até a chegada do cristianismo, a uns mil e setecentos anos atrás.
— Professor... sem querer fazer cálculos, acho que Mediva tem razão quando o assunto é cortar a cabeça fora! — A sala inteira sorriu. Menos os dois envolvidos.
— É acho que vocês tem razão. Bem, pesquisem sobre A Revolução Francesa e na quinta-feira, venham preparados, porque vou sortear dez alunos para falarem por cinco minutos, o que aprenderam sobre o tema. Tenham um bom dia.
Há um pequeno burburinho na sala. Mas os alunos vão saindo.
— Mediva, você poderia ficar mais um pouco? — A menina de cabelos coloridos não gosta muito, mas fazer o quê?
— Professor, se o senhor ficou chateado por causa do que falei, desculpa aí.
— Na verdade, desejaria agradecer pela participação. — Mediva olha sem entender para o professor. — A minha família também é irlandesa, e gostavam de contar algumas lendas. — Conclui ele.
— Ufa! Pensava que o senhor havia ficado chateado.
— De forma nenhuma! Pelo menos a classe interagiu. Foi ótimo e mais uma vez obrigado.
Depois que Mediva vai embora, Marlon Bertrand segue guardando seus livros na sua bolsa de couro tiracolo. Ele a coloca de um lado para o outro, cruzando seu corpo.
Ao chegar em casa, Marlon senta no sofá e lembra-se da história que sua avó contava sobre um cavaleiro chamado: Dullahan.
Quantas vezes, na festa do dias das bruxas, já morando na França, saiu vestido pela sua avó, com uma roupa de soldado de camisa vermelha e calça azul, onde o colarinho chegava a cima da cabeça dele, e no seu braço direito carregava uma "abóbora diabólica", para o Halloween na escola. Marlon enxergava por dois buracos no colarinho.
O sono o domina. Na verdade o cansaço. Ele dá aula em três escolas. Hoje é o único dia da semana, que ele tem a tarde e a noite livres.
Ainda com os olhos fechados, sente um cheiro desagradável. Podre. Um vento frio entra pela janela, passando pelas suas costas, diminuindo assim o cheiro.
Marlon Bertrand aperta com força os braços da cadeira que está sentado. Ele engole seco. O cheiro podre está sentado de frente para ele.
Uma cabeça pálida, está sendo segurada sobre as pernas de um corpo sentado de frente para ele, com os olhos, que parecem duas pedras de carvão de tão pretas, olhando para ele.
As roupas não são vermelhas ou azul. Ele veste preto. É uma roupa militar, mas na cor preta. Marlon não sabe dizer se está sonhando ou se está acordado.
Ele sente o estômago embrulhar, quando assiste um cavalo, sair de dentro da sua cozinha. Os olhos diabólicos do animal, parecem sorri para Marlon.
— Marlon Bertrand?
— V-você fala! — A cabeça gargalha, mostrando os dentes podres. — Vamos Marlon! Acorda! Acorda! — Novamente ele abre os olhos e seca a barriga assustado.
O corpo agora está em pé, segurando um machado preso pela mão direita, e a cabeça postada junta ao corpo pelo braço esquerdo.... como um motoqueiro que segura seu capacete.
A violência do golpe, depois de pronunciado a maldição, faz a cabeça de Marlon chocar-se contra a parede, caindo próxima a porta.
Assim como o aguador, joga água sobre a grama, da mesma forma é o sangue esguichado do pescoço de Marlon... sofás, cortinas e móveis são banhados e decorados com tons vermelhos.
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