3. Guardas, sardas e constelações
- James – Sirius chamou, quando percebeu que o amigo não ouvia, distraído pela visão do outro príncipe, o Black mais novo – James, está me ouvindo?
- Claro – o garoto retrucou, passando a mão pelos cachos no cabelo enquanto se virava para Sirius. Não era possível distinguir se ele tentava arrumar as madeixas ou desarrumá-las mais ainda – Você estava falando sobre os novos guardas da família real que chegam aqui hoje. Sei que vai ficar procurando um garoto bonito, não precisa esconder isso de mim. Deve estar sendo tão triste para o coitado príncipe herdeiro desde que as damas da Ilha dos Corvos foram embora, tão sozinho, sem companhia, ninguém para se esgueirar até seu quarto à noite... – ele disse, em tom de falsa pena.
Sirius revirou os olhos.
- Não é sobre garotos, tonto. É sobre... essa inconveniência desnecessária. Um bando de gente nova caminhando pelo castelo, perdidos igual idiotas, sem saber se localizar direito e nem o que devem fazer...
- Tudo bem, tudo bem. Já entendi seu sofrimento. Será que podemos ir para o café da manhã agora?
Sirius revirou os olhos pela segunda vez. Infelizmente, a manhã só estava começando, e seria um longo dia. Foi caminhando em direção ao Salão de Refeições, James logo atrás de si.
James Potter era o capitão da guarda pessoal de Sirius, e seu melhor amigo também. Haviam se conhecido quando James tinha apenas 18 anos, e o príncipe se afeiçoou ao soldado de cabelos cacheados e olhos brilhantes a medida que passavam cada vez mais tempo juntos. Com o passar dos anos, foi promovido a general, e se tornou um dos guardas mais respeitados do palácio. Além de ser um ótimo profissional, fazia ao príncipe o favor de enviar damas e rapazes ao seu quarto quando solicitado. Ter seu melhor amigo como chefe de sua segurança pessoal garantia muitos benefícios ao príncipe.
Durante o café, Sirius podia ouvir os barulhos no exterior do castelo: os soldados chegando, arrastando suas malas, cumprimentando uns aos outros em voz baixa. James não estava de todo errado, é claro que Sirius daria uma olhada nos recém-chegados, já que o príncipe costumava ter suas aventuras com alguns dos soldados novatos, tão solitários e com saudades de casa. Mas nada mais do que beijos acalorados e gemidos sussurrados entre as paredes de seu quarto. Nada de conversas profundas, passeios à luz da lua ou encontros planejados e esperados com ansiedade.
Quando subiu para a sacada de seus aposentos, depois de comer, Sirius conseguiu ter uma vista dos novos soldados. Alguns eram fortes, com braços musculosos e exaustivamente treinados, mas outros não, pois estavam ali por outros motivos. Raciocínio rápido, lógica. Elementos que também eram necessários na segurança de um castelo. Era um grupo bastante heterogêneo, como sempre. Homens de diferentes reinos e feições, todos com uma missão em comum. Proteger a família real. No entanto, grande parte deles não poderia se importar menos com seu reino, e se alistavam apenas pelo alto salário. Sirius não os julgava. Porque se importariam com um reino que só os havia dado angústias?
O olhar de Sirius se demorou por um segundo a mais do que o necessário em dos soldados, alto e loiro, que parecia ter mais ou menos a sua idade. As sardas na pele denunciavam que provavelmente tinha vindo da Ilha do Sul.
Depois disso, o resto da manhã e a tarde do príncipe passaram sem maiores complicações. Apenas mais do mesmo: estudar, se exercitar, revisar documentos que seu pai assinaria mais tarde. Apenas mais da mesma vida fingida que tinha dentro do castelo, uma vida de mentira. Um desrespeito a todos aqueles que precisavam mais do que nunca de seus reis e rainhas, uma vida de papel. Ele sempre sentia essa angústia, esse desespero. Deveria estar fazendo mais pelo seu povo.
Foi quando a noite caía que Sirius levantou da sua cadeira, se espreguiçando, e encaminhou-se à uma das torres, a da esquerda, que era aberta e permitia uma vista deslumbrante do céu. O príncipe sempre gostou de subir até lá e admirar as estrelas em um silêncio confortável, abraçado na própria companhia. Quando o mundo fazia barulho demais, ele se dirigia para lá. Era como se a torre fosse tão alta que os gritos de seu pai não podiam alcançar, nem as palavras duras de sua mãe, ou o choro baixinho de Regulus que latejava em sua cabeça por horas. Era o seu lugar de conforto.
Talvez por isso mesmo que ele tenha ficado tão surpreso ao encontrar outra pessoa lá. Um soldado – o mesmo que ele havia visto durante a manhã. Iluminado pela luz da lua, parecia ainda mais bonito, alto, esguio, com traços graciosos e algumas sardas espalhadas pelo rosto. Sirius pensou em constelações. Como se cada uma fosse uma estrela no céu noturno. Quis passar a ponta dos dedos por cada um dos pontinhos e montar desenhos ligando-os. Afastou o pensamento.
O soldado se virou, sentindo a presença de Sirius. Pareceu constrangido, talvez envergonhado, de ter sido encontrado ali. Fez uma mesura perfeita, murmurando um "vossa alteza" em voz baixa.
- Gostou da vista?
O soldado pareceu nervoso pelo início de uma conversa. Sirius esticou o olhar para ler seu nome, bordado no uniforme. John.
- Sim, Vossa Alteza. Sempre gostei de estrelas.
Os lábios do príncipe se curvaram em uma sugestão de sorriso.
- Já está com saudades de casa?
John assentiu, suspirando.
- Minha mãe. Sei que ela vai ficar bem sem mim, mas... Gostaria de estar lá para garantir.
- Entendo – respondeu Sirius. Ele não entendia. – Bem, senhor John, seja bem-vindo ao palácio. Se me permite perguntar, porque está aqui?
O garoto olhou nos olhos do príncipe, sem desviar o olhar, pela primeira vez na conversa. Seus olhos eram da cor de mel.
- Para proteger meu reino. Proteger minha mãe, que precisa do dinheiro. Para fazer minha parte. Não é por isso que todos estão aqui?
A resposta fez o príncipe pensar em uma criança sendo enganada pelos pais. O lembrou das histórias de ninar que Minnie o contava, sobre criaturas mágicas e animais míticos. Aos dez anos, ele costumava acreditar nesse tipo de mentira. Agora, não conseguia mais.
- Acredita mesmo nisso, senhor John? Que todos estão aqui para fazer sua parte?
Foi uma pergunta retórica, e o silêncio se instalou. Os dois apenas se encararam. Olhos cor de mel, cílios longos. John não falou mais nada, mas não parecia desconfortável. Seus lábios pareciam macios. Sirius precisou de três tentativas até conseguir finalmente desviar o olhar.
- Acho que você tem um longo caminho pela frente aqui no palácio. E que tem o que é necessário para estar aqui. Estou errado, senhor John?
- Não, Vossa Alteza – ele murmurou.
- Ótimo. Então fale com o general Potter amanhã. Quero você em minha guarda pessoal.
O garoto sorriu com o canto dos lábios. Pareceu grato pelo voto de confiança.
- Obrigado. Vou me retirar, sei que apreciar as estrelas é um hábito solitário. – Um brilho correu por seus olhos e Sirius sentiu faíscas correndo por sua espinha. – Espero que Vossa Alteza tenha uma boa noite.
Sirius não tirou os olhos de John até que ele estivesse longe, caminhando pelos corredores do castelo em direção ao recinto dos soldados novatos. Depois, virou-se para a sacada da torre. Quando viu as constelações, lembrou das sardas na pele do outro.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top