2. O príncipe nebelvir
Remus John Lupin não havia nascido com direito a montanhas de moedas, convites para os bailes da sociedade ou a companhia de princesas encantadoras.
Havia, na realidade, nascido com muita dificuldade após um parto doloroso na casa humilde de Hope. Aqueles foram os momentos mais difíceis da vida dela, a agonia de dar à luz completamente sozinha. Sem seus pais, que haviam morrido em uma epidemia, sem sua irmã, assassinada brutalmente durante uma viagem ao Sul, sem o pai de seu filho, um camponês que fugira assustado quando soube que havia engravidado sua namorada.
Hope estava sozinha, dando à luz ao seu filho sem saber ao menos se conseguiria sobreviver. A cena deixa algo bem claro: Remus tinha tudo para ser uma criança doente e deprimida, talvez morrer nos primeiros anos de vida, castigado pelo árduo trabalho na lavoura e pelo medo da guerra. Ele só não contava com os furacões e tempestades que insistiriam em aparecer durante sua vida, bagunçando seu mundo, virando tudo que ele sabia de ponta cabeça e o obrigando a se adaptar a um novo modo de viver.
As coisas correram surpreendentemente bem, por um tempo. Aos oito anos, Remus ajudava sua mãe trabalhando no campo todos os dias. Eles plantavam, colhiam, regavam. Hope cozinhava para os dois, e toda semana Remus caminhava até a feira local para vender os seus produtos e comprar outros. A guerra não chegava tão ao norte, e as notícias de batalhas só os alcançavam pelas notícias impressas no jornal.
Remus foi uma nova esperança na vida de Hope. Apesar de ela ter amaldiçoado a si mesma e ao mundo quando descobriu a gravidez, acabou se tornando grata por ter um filho. Era ele, afinal, que impedia que ela se tornasse uma mulher sozinha, melancólica e sem rumo. Ele a dava um novo propósito todas as manhãs e um motivo para ir dormir sorrindo, mesmo que seus braços doessem e seu peito apertasse de saudades da irmã e dos pais. Remus era seu mundo, e as coisas estavam bem.
Então veio o primeiro furacão. O ataque.
Os soldados do reino Spendat chegaram ao norte, em uma missão secreta e de alto custo para o reino vizinho. Remus se lembra de ouvir os tiros, altos como nada que ele tivesse ouvido antes. Era como se os estouros cortassem sua linha de raciocínio, como se ele não fosse capaz de pensar em nada. Só o que sabia era que ele e sua mãe precisavam sobreviver.
Eles correram como nunca imaginaram que fossem capazes. Correram até um abrigo, as pernas doendo, uma bala alojada no ombro do garoto. Quando chegaram, quando a adrenalina passou, quando se deram por conta do que havia acontecido, nenhum dos dois sabia bem o que fazer. Tinham sobrevivido, mas perdido seu lar, sua terra, seu sustento. Tudo que tinham era um ao outro, e ninguém imaginaria que as coisas poderiam, de alguma maneira, melhorar, justo em um momento tão frágil. Mas foi exatamente o que aconteceu.
Três dias após o ataque, os sobreviventes receberam uma visita do príncipe Lupin mais novo. Ele veio em roupas elegantes, mas modestas, com um olhar genuinamente preocupado e uma expressão carregada de pesar por aqueles que foram mortos. Só então Hope e seu filho receberam notícias. Seu vilarejo havia sido devastado.
Todos haviam morrido, a senhora simpática que vendia maçãs na feira, o homem barbudo que costumava entregar copos de chá de graça para Remus nos dias frios. Não havia sobrado nada, ninguém além deles.
Remus não percebeu, a princípio, estando abalado demais pelo ataque. Foi a partir da terceira visita, em que o príncipe pediu especificamente para conversar com Hope, e a perguntou se ela gostaria de passar um tempo em um dos castelos reais até se recuperar, que se tornou impossível não ver.
Então eles se mudaram. Os dois foram para o menor castelo dentre as propriedades reais, mas que ainda assim parecia imenso aos olhos do pequeno Remus. O príncipe vinha visitá-los, conversava com Hope em sussurros atenciosos, esticava seus dedos e colocava o cabelo dela para trás da orelha. Se fosse o príncipe mais velho, nunca teria permissão de se relacionar com uma camponesa, mas como era o mais novo e o rei tinha maiores problemas para lidar, em alguns meses Hope e o príncipe Lupin estavam noivos.
Apesar de o príncipe estar sempre em compromissos e viagens em nome do reino, era atencioso e simpático com Remus. Nunca o tratou com grosseira ou como um pedaço da vida antiga de Hope, uma vida que não existia mais. E, o melhor de tudo: Lupin fazia Hope a mulher mais feliz do mundo. Remus percebia o brilho que iluminava seus traços, a paz e alegria que exalava dela enquanto ela se deslocava pelos jardins do castelo. E nada faria Remus mais feliz do que a felicidade de sua mãe.
Por alguns meses, o garoto nem lembrava que havia uma guerra.
Foi então que veio o segundo divisor de águas em sua vida.
Tudo aconteceu em uma tarde ensolarada. Remus estava com sua mãe nos jardins. O sol aquecia os dois e iluminava aquele oceano de flores, como se fosse a paisagem de um quadro. Os dias frequentemente eram assim naquela época: parecendo simplesmente bons demais para ser verdade. Talvez fosse porque constituíssem apenas uma ilusão, algo construído especialmente para Remus ver, sendo tão protegido pela mãe e o padrasto, criado tão longe da realidade de um reino em guerra. Até aquele dia, o fatídico momento em que um dos criados correu até os dois, a expressão preocupada, a testa franzida em confusão.
— O príncipe gostaria de ver a senhora. É urgente. — Foi tudo que o homem disse, seu lábio inferior tremendo. Uma sensação ruim se espalhou pelo peito de Remus.
Hope foi correndo, o garoto atrás dela por não saber o que deveria fazer. Lupin estava em um dos salões, encarando a parede enquanto tremia, a mandíbula travada, os olhos vermelhos.
— Querido? — Hope perguntou. Seu noivo não respondeu. Ela então caminhou até ele, e quando o abraçou, Remus pode perceber que o príncipe praticamente desabou. Soltou seu peso sobre ela, segurando Hope tão forte que as juntas de seus dedos ficaram brancas, a respiração vindo em soluços enquanto suas lágrimas molhavam o vestido da noiva. Remus nunca o tinha visto daquele jeito.
E Hope o segurou, como vinha fazendo desde o dia em que se conheceram. Ela o vinha mantendo de pé, mesmo durante os piores dias, porque apesar do que Remus acreditava, a vida dos dois não era tão fácil assim, e toda semana, o príncipe recebia alguma carta sobre tropas suas que haviam morrido ou sido capturadas. As coisas eram mais difíceis do que pareciam, e na realidade, Lupin só se mantinha de pé por ter Hope ao seu lado.
— Eles entraram — era tudo que o príncipe parecia ser capaz de dizer, quando finalmente foi capaz de controlar sua respiração — Entraram no castelo.
Foi só mais tarde que Remus entendeu o que aconteceu. Haviam invadido o castelo, aquele onde morava a família real de verdade. Foi um massacre. Mataram o rei, a rainha e o príncipe herdeiro, irmão mais velho de Lupin. Remus se lembrou do massacre da sua vila, que ocorreu quando era um pouco mais novo, e imaginou como seu padrasto deveria se sentir mal. Era como se Hope e Lupin fossem flores cujas árvores haviam sido cortadas, os dois sozinhos no mundo exceto à Remus e um ao outro – e o garoto se perguntou, pesaroso, por quanto tempo eles aguentariam. Sabia muito bem que flores de árvores mortas não levam muito tempo até murcharem.
Apesar disso, do sentimento profundo de luto e pesar que se espalhou pelo castelo, as providências foram tomadas rapidamente. Em um dia Remus estava caminhando com sua mãe pelo jardim, no outro, assistindo o seu casamento. Sua mãe, Hope, que se tornava Hope Lupin, a nova rainha de Nebelvir.
A mudança para o castelo da família real foi feita às pressas, e os três ocuparam o lugar daqueles que foram mortos durante o ataque com tanta rapidez que Remus sentiu-se tonto. No meio desse processo, os novos reis acabaram atolados de trabalho, assumindo novas funções e encarregando-se de cada vez mais coisas.
Remus sentia-se solitário. Sua mãe tentava, mas acabava sem ter tempo suficiente para ele. O garoto então andava pelos enormes salões e corredores, encarando o teto, cheio de pinturas delicadas, e se sentindo minúsculo naquele palácio enorme. Como se pudesse desaparecer de tão sozinho, evaporar do mundo em um instante sem ninguém notar sua ausência.
Foi então que ela surgiu. Uma menina com cabelos da cor de fogo que vinha se escondendo em seu quarto há três meses, desde a morte de seu pai, o príncipe herdeiro. Ela abriu as portas, segurando o poodle de estimação no colo, e marchou até as cozinhas, parecendo determinada e definitivamente ameaçadora, apesar de ser apenas um ano mais velha do que Remus.
Ela não foi mais um dos furacões que atingiu a vida de Remus. Não, ela foi uma tempestade de verão, intensa, forte e memorável, aquela que ele um dia reconheceria como sua alma gêmea platônica, sua melhor amiga e futura esposa.
Seu nome era Lily Evans-Lupin.
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