16: Culpa

CHASE, point of view
Nova Iorque


A raiva ainda era grande dentro de mim, mas eu ainda me importava com Charli, e me importava mais ainda só de saber que eu era o culpado, mas agora não era hora de lamentar, não ia mudar nada.

Fiquei por duas horas no hospital, Tomás o advogado de Charli ligou em uma dessas horas e liguei para Alice, ela topou cuidar de Kiara, mas me senti mal por ter que tirar ela de algum compromisso importante.

Liguei para os pais de Charli e por sorte eles estavam na Califórnia resolvendo alguns negócios. Eles devem chegar daqui a meia hora. Eu estava nervoso de ter que encontrar eles de novo, nesse mesmo estado, novamente.

— Chase — Bianca apareceu no corredor, levantei rapidamente.

— Como ela está? — Pergunto.

— Então, o estado dela não é muito bom — Ela chega mais perto e toca meu ombro — Mas vamos fazer de tudo pra salvar os dois.

— É, o bebê — Ela afirma — Charli está grávida.

Fiquei de boquiaberto com a notícia. Agora eu me sentia péssimo, me senti uma pessoa ruim, um monstro. Eu causei isso, não devia ter falado daquele jeito com ela. Agora eu posso perder ela e meu filho. Ela eu já perdi de qualquer jeito.

Me sentei novamente na cadeira e pela primeira vez me permiti chorar. Não sei pra quem eu estava pedindo, mas pedi ajuda dúvida pra salvar a vida da minha filha e da minha mulher. Não importava se tinha divórcio, ela era minha.

— Vai ficar tudo bem, vamos salvar os dois — Bianca acaricia meu cabelo, a calma dela me acalma um pouco — Tem mais uma coisa.

— Ah não — Suspirei com medo — O que aconteceu?

— É impossível ela não ficar com sequelas depois do que aconteceu. Alguma parte do corpo dela vai sofrer um trauma, ou seja, ela vai ficar com uma sequela temporariamente — Ela explica — Pode ser uma perda de movimento dos braços, pernas. Tem sequelas menores como perda do movimento de um dedinho ou algum tique...

Não escutei o que Bianca falou depois, eu não queria mais escutar. Agora eu estava ocupado demais falando com Deus. Espero que os anos indo na igreja quando era menor sirvam de alguma coisa.

— Onde está minha filha, eu exijo ver ela — Escutei a voz alterada de Fernando.

A recepcionista estava tentando acalmar ele e a esposa, mas eles estavam exaltados demais. A recepcionista mostrou o caminho, talvez ela só quisesse se livrar dos dois.

Eles vieram na direção da sala de espera, eles estavam com uma cara de quem iam me bater, Bianca ficou na minha frente com o seu corpinho pequeno como se fosse me salvar. Não queria ser salvo, queria que ele me batesse.

Bianca recuou quando ele esbarrou nela. Ele puxou meu colarinho e deu um soco no meu rosto. Ouvi os gritos de Bianca mandando ele se afastar. Ouvi o segurança falando que se ele não se acalmasse, iam tirá-lo dali. Continuei no chão, como um cão sem dono, deprimido.

Vai ficar tudo bem — Pai? — Ela vai viver, e ele também.

Eu só podia estar delirando, escutei até a voz do meu pai do além. Mesmo assim, pareceu real e eu fingi que era real. Só a voz dele podia me confortar nesse momento, só ele podia me dizer se tudo ia ficar bem.

— Agora quem é o culpado, Chase? — Riu ironicamente Fernando — Você causou isso, foi o culpado por tudo.

Eu ri, minha sanidade não estava boa, mas eu não ri por estar louco, eu ri porque foi muito engraçado. A maior parte da culpa foi minha, mas ele não ia ficar com a consciência leve.

— Culpado, isso soa tão engraçado vindo de você, Marc — Me levanto e ando até ele — Você foi muito esperto no passado, ou tentou ser. Sabia que o relacionamento da sua filha não ia dar certo e logo ia resultar em divórcio. Isso era exatamente o que você queria.

— Do que você está falando? — Ele começou a ficar nervoso — Você tá louco, olha o seu estado.

— Meu pai foi muito mais esperto que você, D'amelio. Sua própria filha foi mais esperta do que você — Me aproximei mais, ele recuou — Ele nunca colocou você no trato, nunca seu nome apareceu em contrato nenhum, e sua filha... — Eu sorri — ...ela foi a melhor. Reverteu o contrato, se divorciou de mim e agora ela é dona de todo aquele patrimônio, três vezes mais rica que você. A um tempo atrás você tirou a felicidade dela, ela ficou bem triste, passou por estresses constantes em um casamento sem amor. Você contou um segredo do passado pra ela correr pra os braços de outro homem e se divorciar, enquanto você pegava todo o patrimônio pra si. Quem é o culpado agora, senhor D'amelio?

Todos me olhavam com os olhos arregalados, e eu sorri, talvez agora eu estivesse tendo um surto de sanidade.

— Vai embora — Ele disse com um tom autoritário — Vai embora e nunca mais apareça na vida da minha filha.

— Eu vou — Me recomponho — Mas eu vou voltar, entendeu? Vou voltar quantas vezes eu quiser.

— Isso é o que vamos ver — Confirmou ele a última vez.

Sai do hospital, eu não tinha ido de carro já que fui na ambulância. Peguei um táxi e fui direto pra casa. Minha casa seria qualquer lugar onde Kiara estivesse.

Assim que chegamos paguei o taxista e sai correndo para chegar em casa. Usei as chaves reservas já que eu não tinha ideia de onde estavam as minhas. Quando a porta se abriu, foi como se a casa tivesse sido assaltada.

— Chase, ai meu deus que bom que chegou — Alice parecia cansada — Eles disseram que iam voltar mais tarde pra pegar as coisas do quarto da Kiara.

— O que?

— Disseram que foi das suas ordens.

Tinha esquecido completamente que os móveis da casa ficariam pra mim e a casa para Charli. Acabei não cancelando o caminhão de mudança para o meu antigo apartamento. Eu não queria ficar com nada, só queria poder ver minha filha todos os dias, queria ficar com Charli e agora quero ficar com meu filho ou filha que está no útero de Charli.

— Onde Kiara está? — Perguntei, desviando do assunto dos móveis.

— No berço, quando eu sai de lá, ela estava acordada — Disse toda doce e gentil — Se o senhor precisar de mim, eu posso ficar, mas se não, posso ir? Hoje é minha folga.

— Desculpa por hoje. Você pode ir, muito obrigada Alice.

Ela vai até a cozinha e pega as suas coisas, vou para o quarto de Kiara. Meu bebê estava sentada no berço, ela balbuciou alguma coisa quando me viu e sorriu.

— Ainda bem que você ainda é só um bebê, ainda pode sorrir — Pego ela no colo e sento na cadeira ao lado — Me desculpa filha.

— Papa — Ela falou — Papa, papa, papa.

Ela disse "papai". As primeiras palavras dela foram dedicadas a mim e eu não merecia isso, mas eu estava precisando. Minha filhinha linda disse "papai".

— Eu te amo. Desde o primeiro quando você apareceu na minha porta. Eu quis levar você pra outro lugar, mas eu estava desesperado, não ia fazer bem você em um lugar sem amor. — As lágrimas começaram a escorrer — Mas você colocou amor nessa casa, me fez amar sua mãe incondicionalmente, me fez amar cada sorriso e cada gritinho seu.

Senti que Kiara estava sentindo minha dor quando ela encostou seu rostinho no meu peito.

— Sei que você não vai entender isso, meu amor, mas eu quero retribuir o que você fez. Vou encontrar sua mãe biológica, tenho certeza que você vai querer conhecê-la.

Kiara sorriu.

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