04: Ciúme

CHARLI, point of view
Nova Iorque

Acordar com um choro tão alto quanto um barulho de um carro som não era algo agradável, mas era o que tínhamos para hoje.

Era o nosso primeiro dia de trabalho depois da nossa "lua de mel". Além de ser o primeiro dia de trabalho, era o primeiro dia cuidando de um bebê. Como seria, onde íamos deixar Kiara?

— Hãm... devíamos falar com a polícia e deixá-la no abrigo — Disse Chase, me fazendo revirar os olhos.

As vezes ele era um príncipe, mas virava um sapo. Era tão difícil de lidar com ele, cada defeito, cada brincadeira, eu apenas não sabia como o amar. Se eu a menos o amasse, seria mais fácil, eu amaria o pacote completo dele, mas havia um bloqueio tão grande entre nós dois.

Em meses conseguimos fazer uma amizade, um laço muito lindo e pleno de amizade, mas nunca passou disso, nem tentamos. Dormimos em quarto juntos, mas literalmente só dormiamos. Comíamos juntos mas não trocávamos uma só palavra, por isso optamos comer vendo qualquer coisa na TV, assim podíamos rir e trocar algumas palavras.

— Não vamos fazer isso — Digo firme — Nós vamos ficar com ela até a mãe aparecer.

— A mãe só vai aparecer quando a filha estiver 22 anos já se formando na faculdade nos chamando de pai e mãe — As palavras dele me fizeram rir, como sempre — E quando ela tiver filhos? Vamos ser avós, não quero ser vô.

— Você percebeu que está dizendo que vamos ser avós mesmo não tendo filhos? Kiara não é nossa.

Ele fez uma cereta e aliviou a expressão de assustado. A expressão anterior era bem melhor do que essa que ele mantinha agora, uma ponta de tristeza em seu olhar e um pouco de constrangimento, como sempre amaldiçoei minhas palavras.

— Descul...

— Não, você tem toda razão — Ele respirou fundo e pegou Kiara do sofá, onde havia um montinho para ela não cair — Vamos leva-lá, eu vou providenciar uma babá quando eu estiver no escritório.

Chase saiu com Kiara pela porta e eu fiquei atrás boquiaberta.

Ia ter um bebê no escritório. Ia ter um bebê no escritório.

[...]

— Ela é tão linda — Disse a secretaria, Nessa, a esposa do Josh — Vocês fizeram uma boa escolha adotando uma criança.

Chase e eu nos olhamos e seguramos o riso. Se ele soubesse. Chase optou por dizer que tínhamos adotado um bebê por extrema necessidade de algum tipo de barulho humano em casa, e algum vínculo de amor, tipo pais e filho. Toda vez que ele falava eu fazia uma careta e continha minha enorme vontade de rir.

Depois de explicar toda a situação para o pessoal da empresa, Chase providenciou que comprassem um bebê conforto, fraldas e contratassem uma babá decente. Por fim fomos para nossas salas trabalhar, e eu fiquei com Kiara ao meu lado o tempo inteiro, já no bebê conforto, ela dormia igual a um anjinho.

— Como suportar seu pai? — Perguntei a Kiara, mesmo sabendo que ela não ia ouvir — Ops, ele não é seu pai.

Fiquei triste com minhas palavras, doía mesmo falar para uma pessoa que ela não tem filho e nunca vai ter. Quase fui até a sala de Chase me ajoelhar na frente dele e pedir desculpas, sei que provavelmente ele ia rir de mim e falar que minha atitude é bem brega, mas eu ia me sentir um monstro melhor.

— As vezes eu tento sentir algo por ele sabe — Começo a falar novamente com a garotinha — Eu acho que talvez possa nascer um amor, mas tenho tanto medo de um dia amar ele e não ser recíproco.

Eu estava ficando doida por falar com um bebê, mas eu tinha mania de conversar com qualquer ser vivo da terra, principalmente os animais e bebês.

— Olha, talvez sua mãe de verdade só apareça quando você estiver maior idade. Então, se você quiser.... sinta-se a vontade de me chamar de mamãe — Minha voz já estava trêmula — Vai ser um privilégio te chamar de filha.

Um soluço saiu da minha boca e me peguei em lágrimas. Eu estava igual as mães que ficam com depressão pós-parto, que choram por tudo e são sensíveis, e precisam de uma pessoa ao lado para um abraço quentinho: de preferência alguém amado.

Chase apareceu na porta sem bater, ele segurava alguns papéis e não olhou para cima, quando fez menção de falar, ele olhou para cima e viu meu estado de depressão pós-parto, no meu caso pós-adoção de uma criança que eu nem adotei.

— Está tudo bem? Você ta chorando — Ele disse meio confuso.

— Só estou um pouco deprimida — Digo tensa.

Ele ergueu o cenho e tive uma pequena ideia. Deus mandou uma pessoa para me confortar, mesmo que eu estivesse deixado uma nota que eram pessoas que eu amo e que me amam, qualquer pessoa nesse momento serviria.

— Chase... talvez você vá achar estranho, muito estranho, mas você pode me dar um abraço e fingir que está me dando proteção?

O semblante de Chase entrou em uma grande confusão. Ele se aproximou boquiaberto até a mesa e deixou os papéis lá, depois voltou sua atenção para mim.

— Você quer que eu finja que estou te dando proteção?

— É, não o tipo de proteção de obrigação, e sim o de carinho e proteção que a mulher sente.

— Ok — Ele balançou a cabeça e veio em minha direção.

Abri espaço para Chase sentar-se ao meu lado, assim que ele fez eu sorri, ele fez um pequeno esforço, mais saiu tão falso quanto os peitos da minha irmã. Chase colocou a mão em minha bochecha e eu estremeci. Nossa ele era bom. Os polegares dele acaricaram aquela região até que suas mãos desceram pelo meu pescoço, meu ombro e pararam nas minhas costas, assim que aconteceu, Chase me puxou para mais perto e minha cabeça pousou em seu peito.

— Sempre foi seu sonho ser mãe? — Ele perguntou com um sussurro perto do meu ouvido enquanto me abraçava forte, eu não deixei de retribuir o abraço também.

— Sim. Quando eu tinha 15 anos, meu sonho era casar com 20 e ser mãe com 21 — Confesso — Meu ex não queria, mas algo em mim disse que eu o convenceria de tentar ter um.

Ele ficou em silêncio, sua respiração era curta e leve, com se fosse treinada para não se descontrolar. Mas a minha não era treinada, quando Chase começou a subir as mãos pela minha costa, suspirei bem fundo. Também não controlei o sono quando suas mãos começaram a acariciar meu cabelo.

— Minha mãe não podia ter filhos, ele tinha um problema no útero — Ele começou a falar — Quando descobriu que só ia ter alguns anos de vida se tivesse um filho, ela pediu para meu pai um. Ele ficou desesperado, ele não queria perder o amor dele, mas ele deu a ela o que ela queria. Minha mãe engravidou e meu pai disse que foi a coisa mais perfeita ver ela feliz, ele nunca havia visto ela tão feliz em toda a vida.

— E então?

— Eu nasci. Saudável e fofinho, o herdeiro milionário — Ele riu — Minha mãe ficou entre nós por quatro ano, então ela se foi. Mas ela morreu se descrevendo a mulher mais feliz da vida.

Os soluços começaram a ressurgir novamente, as lágrimas começaram a cair com mais intensidade e percebi que ia molhar a roupa toda de Chase. Tentei levantar para impedir aquilo, mas ele me segurou firme para eu não sair.

Ele é extremamente bom quanto o assunto é fingir proteção.

— Eu aprendi uma lição com isso. Minha mãe perdeu a vida pra viver um pouco do sonho dela. Entendi que as vezes precisamos perder algumas coisas para viver ums grande felicidade — Dessa vez Chase pegou os dois lados do meu rosto com as mãos e fez com que eu olhasse nos seus olhos — Char, se algum dia você quiser sacrificar o dinheiro dessa impressa para ter um filho com o cara que você ama, você pode fazer com prazer, vou morrer te odiando por eu ter perdido a empresa, mas antes vou falar para o mundo todo a garota corajosa que você foi.

Eu piscava sem parar, mas o resto do meu corpo ficou sondado. Fiquei igual uma estátua olhando para aqueles olhos azuis. Entendi tudo Deus, você mandou uma pessoa que eu não amo, pra eu poder me apaixonar por ele, valeu, agora não é recíproco.

E se fosse?

Eu não ia ser uma covarde, ia falar a Chase que aquela foi a coisa mais linda que alguém já me disse e que eu estava me apaixonando por ele.

— Chase eu...

Dois toques na porta e ela se abre. Por que as pessoas batem na porta e entram mesmo sem ter escutado uma resposta?

— Ai Deus, me desculpem — Disse Nessa timidamente — É que entrevistamos 35 babás e selecionamos as três melhores para vocês escolherem uma.

— Ah isso é ótimo - Disse Chase se levantando da cadeira e ajeitando o paletó — Marque com elas na minha casa as 18:00 horas, Charli e eu vamos esperar por elas.

Antes que Nessa pudesse dizer qualquer coisa, a bebê começou a chorar, Chase e eu nos entreolhamos com os olhos arregalados e depois olhamos para Nessa.

— O que foi? Vocês querem que eu seja a babá agora? — Balançamos a cabeça confirmando a pergunta de Nessa — Eu vou querer um aumento tá.

— Seu marido é rico — Chase disse observando Nessa indo até o bebê conforto e pegando Kiara.

— Ele sustenta a casa e meus filhos, minhas necessidade sexuais e minha necessidade de amar intensamente, mas ele não sustenta meu cartão de crédito e minhas roupas e lingeries caras — Nessa disse tudo tão naturalmente que eu quase explodi de rir — Eu não dependo de homem — Ela fez uma pausa — Bom eu dependo do amor dele. Enfim, eu não dependo do dinheiro dele.

— A gente entendeu Nessa — Digo — Não se preocupe quanto a isso, eu só quero aprender a como trocar fralda direito e dar banho.

Nessa abriu um sorriso tímido talvez percebendo o que falou, mas deu de ombros e me guiou até o banheiro, lá Nessa me ensinou alguns truques e dicas de como deixar um bebê limpo e confortável. Prestei atenção, mas não deixei de admirar a fofura irredutível de Kiara.

Talvez nem fossemos precisar de uma babá, eu podia ser babá da minha filha (sim, eu já tenho essa intimidade). Eu não quero uma babá pra ela, eu podia fazer todos os serviços.

Não, você não pode.

[...]

A primeira babá era uma mulher séria, meio dark e meio unicórnio. Eu gostei dela, era como eu, peculiar e com um estilo estranho.

— Fala sério, prefiro seu estilo de misturar estampa com estampa do que uma mulher que é metade ogra e metade unicórnio — Disse Chase.

— Ela parecia uma boa escolha.

A próxima era uma senhora de 50 anos que que parecia rabugenta e sem humor, mas era estilosa e de bom poste.

— Sério? — Chase olhou pra mim quando eu disse que ela seria ideial — Você quer mesmo que uma velha rabugenta cuide da Kiara?

— A babá McPhee era feia e rabugenta e mesmo assim cuidou de todas aquelas crianças mimadas e fez elas ficarem boazinhas — Rebati.

— Mas a babá McPhee era feia e tinha um cajado mágico, na vida real não existe isso — Ele disse firme — E ela e muito arrogante.

Fiz cara feia e fiquei calada. Claro, ele estava certo, ela era rabugenta e arrogante, mas eu gostei dela porra.

A próxima demorou a chegar, e quando chegou se sentou toda desesperada na cadeira e ajeitou o cabelo rebelde. Chase ao meu lado riu e admirou a garota.

Ele mal olhava na cara das outras. Afirmei isso na minha mente, sentindo um leve incômodo por ele estar admirando tanto aquela mulher loira dos olhos azuis, com a beleza mais bonita do que as 7 maravilhas do mundo juntas.

— Desculpa a demora Sr. e Sra. Hudson, o trânsito ele estava uma confusão e minha colega de quatro ia descer a duas esquinas daqui e eu tive que deixa-lá bem em frente a rua, morro de medo que algo aconteça com ele e...

— Qual seu nome? — Chase a interrompeu. Ele tinha brilho nos olhos, como se estivesse apaixonado pela primeira vez.

— Ai meu Deus eu falo tanto, me desculpem. Meu nome e Alice Schneider, tenho 23 anos, sou alemã mas moro nos Estados Unidos desde a minha adolescência — Informações desnecessárias, só queríamos saber seu nome (o Chase no caso).

— A quanto tempo é babá? — Perguntei seria com os braços cruzados.

— A uns dois anos, mas cuidava dos meus irmãos antes. Sempre fiz tudo em casa, sou uma ótima cozinheira, sei levar e passar roupa e...

— Nossa você fala demais mesmo — Digo meio amarga — As crianças que você cuidou tinham quantos anos?

— Variava de 1 a 10 anos — Afirma ela já um pouco desanimada.

— Gostamos de você Alice, está contrastada — Noah disse.

— O que? — Alice e eu falamos em uníssono. Enquanto o dela era de pura importação, o meu era ao contrário.

A loira começou a gritar e pular de alegria, mas logo parou quando ouviu o choro de um bebê, o mesmo bebê que Chase e eu demoramos horas para fazer dormir.

— Olha, eu posso ir até lá — Sugeriu a loira.

— Não! — Saiu quase como um grito, fazendo Chase dar um pulo — Você ainda nem está contratada.

— Charli...

Não esperei e fui para o quarto onde estava o berço de Kiara, ela estava no berço que compramos no mesmo dia, quando cheguei, ela estava vermelha de tanto de chorar, assim que me viu abriu um sorriso, peguei ela no meu colo e a garotinha fez questão de dar mais gargalhadas.

Os papéis foram revertidos e comecei a chorar. De alegria, gratidão, mas chorei principalmente por me dar conta de que Deus me deu ela de presente, ela não seria minha para sempre, mas seria minha filhinha enquanto eu pudesse e eu seria sua mãe.

Kiara dormiu nos meus braços e sentei no chão e encostei no berço, a porta se abriu mostrando Chase.

— Desculpa por ter a contratado sem ao menos ter falado com você — Ele disse — Podemos ficar com a babá McPhee.

— Não, você tem razão, Alice será uma ótima babá — Digo tentando ser sincera — Você pode contrata-lá.

— Tem certeza? — Não.

— Tenho — Digo com um sorriso fraco — Hum, pode me deixar um pouco sozinha com ela?

— Claro — A voz de Chase parecia um pouco decepcionada, mas mesmo assim ele saiu e me deixou sozinha.

Um suspiro escapou assim que ele saiu. Nunca será recíproco, o jeito que ele olhou para Alice, nunca será o jeito que ele me olha.

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