UM|
Se por cinco segundos eu fechasse meus olhos, sem a menor dúvida, me veria no pedacinho de céu que costumava chamar de lar.
Com certeza, por volta das quatro da tarde, eu estaria deitada na rede da varanda, observando a neblina ao redor das montanhas verdinhas que cercavam a fazenda do meu avô, ouvindo os pingos da chuva caindo ritmadas no solo, formando poças e trazendo um cheiro delicioso de terra molhada que se misturava ao aroma do café coado por mamãe todos os dias no mesmo horário.
Nesse cenário paradisíaco, não poderia faltar algum livro, me fazendo suspirar por algum personagem literário. Talvez, eu acabaria rendida a um cochilo, tendo a cautela de cobrir o rosto para não acordar com as lambidas molhadas do Salomão, um dos cães labradores do vovô, ou então me dedicaria a compor uma música.
Sonecas e livros podiam ser algo maravilhoso de se fazer em um sábado ocioso, mas nada me trazia tanta alegria e prazer quanto a música.
Mamãe sempre fez questão de narrar repetidas vezes, como foi o meu primeiro contato com essa forma de arte tão singular e maravilhosa. Embora meus pais tivessem feito questão de aprimorar meus gostos musicais desde o útero, foi no auge dos meus quatro anos que papai, algum tempo antes de nos deixar, colocou-me ao seu lado no banquinho em frente ao piano velho que tínhamos em nossa casa e, pela primeira vez, me deixou bater nas teclas fazendo um barulho terrível, até que de maneira paciente me aconselhou com sabedoria:
— Querida, olhe para o papai — e segurou minhas mãozinhas frenéticas, chamando minha atenção para si, com dificuldade. — Música é transformar a bagunça em algo bonito.
E nesse mesmo dia, aprendi com ele as primeiras notas da música Grandioso És Tu e dei meu primeiro passo em direção a esse mundo de partituras, claves e composições sem fim.
Na verdade, papai esteve presente em todo o meu crescimento musical, mesmo depois de sua morte precoce atingir nossa família. Eu teria desistido de tudo que me lembrava sua presença tão pouco aproveitada na minha infância, mas suas reflexões, letras e arranjos não terminados, memórias anotadas em diários me fizeram lembrar o fim do meu talento, ou seja, glorificar a Deus. E foi com esse mesmo propósito que aceitei abrir mão da minha vida tranquila, me mudando da minha amada terra natal, Nova Canaã, para São Paulo, a fim de estudar música em um núcleo de uma renomada faculdade cristã chamada Academia Cristã de Música William Cowper, concordando assim com todos os desafios e sacrifícios que essa escolha me trouxe.
— Ester! Aí está você! — exclamou dona Nilce, a regente, vindo até mim com sua pose de durona, trazendo algumas partituras consigo, enquanto eu estava no refeitório tomando um pouco de água pela primeira vez naquela tarde intensa de ensaio. — Eu estava certa. Aqui está o compasso errado na partitura. Bem que eu te falei. — Ela parou um instante e me mediu dos pés a cabeça. — Oh! Por Deus que está nos céus! Pode me dizer por qual razão ainda não se trocou, menina? O concerto começa em quarenta minutos.
Esbocei um sorriso gentil. Não quis transparecer meu cansaço das horas de trabalho a fio. Eu me sentia feliz por estar ali naquele lugar e gostava muito de me mostrar útil a todos, mas naquele dia em especial, fui mais requisitada do que o normal e precisava admitir o quanto isso acabou sendo desgastante.
— Estou um pouquinho atrasada, sei disso e peço desculpas, mas estava passando a quinta música com os tenores e a sétima com as contraltos.
— Não, não, não. Sem desculpas. Desde que começou a participar desse coral venho te alertando para deixar esse seu jeitinho lerdo de menina da roça e agilizar. — Ela estalou os dedos finos em frente ao meu rosto, supondo, talvez, que isso mudasse minha natureza e fez questão de retirar o copo de água e as pastas das minhas mãos, colocando tudo sobre a mesa ao lado do bebedouro. — Vá se arrumar logo. Hoje teremos a presença ilustre do reitor da Academia e tudo precisa sair impecável.
— Certo, mas quanto ao compasso errado, posso ver?
— Deixe quieto, eu arrumo — decidiu, ranzinza. — Se você começar a mexer agora duvido que termine a tempo.
— Sim, senhora. — Uni as mãos e, me sentindo um pouco constrangida por aquela bronca, saí apressada do refeitório.
O aperto na garganta foi inevitável e me forcei a respirar fundo.
"Está tudo bem, Ester" eu disse a mim mesma. "Ela deve estar tendo um dia difícil. A correria sempre trás o lado mais grosseiro das pessoas à tona" completei massageando minha nuca tensa, enquanto descia as escadas, segundo para o camarim do anfiteatro da Academia, o local onde o Coral Redenção, do qual eu fazia parte, realizaria um concerto de abertura das aulas daquele novo ano, meu último ano, aliás.
Entrei no prédio e segui pelo corredor frio refletindo e me perguntando como depois de dois anos eu ainda não havia me acostumado com as mudanças.
Mas o que mais eu poderia fazer para me adaptar?
Era tudo tão diferente.
Para quem passou a vida inteira desfrutando da liberdade de se estar em um lugar cheio de cores e belezas da natureza, cercada pelo amor e solicitude de cada conterrâneo, eu sofria com todo aquele aspecto cinza da cidade, seus prédios enormes, poluição e claro, a falta de gentileza das pessoas, como a dona Nilce.
É certo que também havia os aspectos positivos e eu não podia ser de todo ingrata com a capital paulista, afinal foi ali onde recebi do Senhor a chance de aprimorar minhas habilidades musicais e servi-Lo através da arte, como meu amado pai o fez durante toda a sua vida. E bem, mesmo sentindo uma enorme saudade da vidinha simples e pacata da roça, eu me alegrava pelos aprendizados e bênçãos recebidas naquela grande metrópole.
— Finalmente você chegou! — Isabella exclamou ao surgir no fim do corredor, vindo até mim.
Bella era uma dessas bênçãos. Nos conhecemos quando eu ainda vivia em Nova Canaã, graças a minha cunhada, Marissol, e tivemos o privilégio de fortalecer nosso vínculo depois da minha mudança, pois estudávamos no mesmo campus da universidade. Ela cursava Fotografia no mesmo horário que eu, por isso, e pelo fato de também sermos colegas de quarto, estávamos sempre juntas.
— Eu já tirei algumas fotos dos bastidores para o site da universidade e estava mesmo indo ver se a Sra. Encrenca te liberou antes de voltar para os bastidores.
— Bella! — Arregalei os olhos e averiguei os arredores, temendo que alguém tivesse lhe ouvido. — Já não conversamos sobre você dando apelido para os outros? Imagine se alguém estivesse passando?
A garota morena de longos cachos deu de ombros e revirou os olhos.
— E estou mentindo? Aliás, como posso chamar uma mulher mandona, grosseira e rude que fica perturbando o juízo da minha doce amiga pianista? — Cruzou os braços. — É sério, Ester. A próxima vez que eu a ouvir te chamando de "Garotinha da Roça" nos ensaios, vou deixar minha compostura de lado e ir tirar satisfações.
— Obrigada, Bella, mas eu tenho certeza que a dona Nilce apenas estava estressada. É uma noite importante. A previsão é de casa cheia. Até eu estou nervosa — confessei e, conhecendo bem o temperamento da minha amiga, achei por bem não estender muito a conversa. — Por falar nisso, é melhor eu correr para me vestir. Não quero ser chamada de lerda de novo.
Quando vi o vinco se formando entre as sobrancelhas dela, soube que meu discurso apaziguador estava indo na direção errada. Por isso, pensei em outra solução.
— Será que você pode ir checar se a minha família já chegou?
Ela me encarou com os olhos franzidos.
— Certo, mocinha. Você vai ficar bem sozinha, não é?
Ri do exagero dela e não pude evitar compará-la a um certo rapaz superprotetor.
— Agora você soou como o meu irmão. — Desvencilhei-me dela. — E o que eu diria para ele, digo a você também: sou uma moça crescida e não um bebê, sei me cuidar.
Bella me olhou supostamente emocionada e fez todo um drama.
— Ah! — Fingiu secar uma lágrima no canto do olho. — A doce Esterzinha me dando uma resposta dura! Como eu esperei para ver isso!
Assustada, balancei a cabeça negativamente.
— Não, desculpa, eu não quis dizer isso!
Ela fez um sinal pedindo silêncio e, sem me deixar terminar, disse que estava tudo bem, apertou minha bochecha e após pedir licença, saiu na direção contrária a minha.
Prossegui o restante do caminho e chegando ao camarim me deparei com um grande fluxo de garotas agitadas se preocupando em estarem belíssimas naquela noite.
Passei despercebida e o fato de não ter muita proximidade com ninguém me fez acelerar o processo de encontrar minha mochila, colocar o vestido preto padrão, calçar os sapatos vermelhos e, a parte mais difícil, domar minha juba de leão.
Enquanto me dedicava a fazer um penteado legal em frente ao espelho, olhei ao meu redor, reparei em como eu parecia um ser de outro mundo comparada àquelas garotas.
Eu não costumava ligar muito para minha aparência. Quer dizer, não que eu andasse por aí toda bagunçada ou despenteada, muito pelo contrário, desde menina sempre gostei de estar arrumadinha e era até um pouco vaidosa. No entanto, ao contrário daquelas moças tão esbeltas e produzidas, eu não conseguia me sentir confortável usando muitos cosméticos ou roupas pomposas demais, por isso não era à toa que eu não me destacasse entre elas e até sentia os olhares atravessados vez ou outra, como se eu fosse o patinho feio no lago dos cisnes.
"Por que estou me importando com isso de novo?" questionei internamente e desviei o olhar do espelho.
Tentei afastar aqueles pensamentos bobos da cabeça e nesse meio tempo, ouvi batidas à porta do camarim. Fomos avisadas, a pedido de dona Nilce para nos reunirmos no palco em quinze minutos.
Já prevendo a bronca, caso eu demorasse muito para assumir o piano e, sem ter certeza que a regente estava cuidando das minhas pastas, resolvi me beneficiar do fato de já estar pronta e ir atrás dos meus pertences no refeitório, antes de encarar mais aquele desafio.
Guardei minha mochila e na hora de sair, quase morri de vergonha ao me deparar com mais de seis garotos bem trajados parados na entrada. Alguns foram educados e acenaram, mas como ninguém ali esperava por mim, acabei sendo ignorada rapidinho. Não que isso tivesse relevância, mas eu costumava ser invisível para qualquer um do sexo oposto.
Não queria me incomodar, mas ao passo que retornava para o refeitório, perguntei ao Senhor se um dia algum homem bom prestaria atenção em alguém tão sem graça quanto eu.
Será que haveria alguém no mundo disposto a corresponder meus sentimentos e gostasse de mim por completo, não com a intenção de me usar para chegar em alguma amiga minha, como já havia acontecido, mas que gostasse de mim verdadeiramente?
Suspirei frustrada.
Quantas vezes eu já não tinha feito aquela mesma pergunta ao meu Deus? Por quanto tempo eu vinha orando sem resposta?
Eu não queria ser notada por dez rapazes. Queria um, apenas um com o coração voltado para o Senhor, que desejasse viver uma história de amor e formar uma família comigo. Mas nada era assim tão simples.
Sem esperança e distraída com minha própria melancolia de solteira, entrei no refeitório e andei até o bebedouro, não encontrando nada ali além daquele copo meio vazio.
Onde estavam minhas coisas?
Varri o perímetro com os olhos e me certifiquei de observar cada cantinho antes de ir perguntar algo a dona Nilce. Caso tivesse perdido minhas pastas, ela ficaria uma fera comigo e só de imaginar mais um longo discurso sobre agilidade e responsabilidade, eu fiquei inquieta e comecei a revirar cada canto do lugar.
Quando estava prestes a desistir da busca, ouvi:
— Eu sabia que alguém voltaria por isso.
Aquela grave voz não era nada familiar aos meus ouvidos, por isso me virei curiosa bem a tempo de flagrar um alto, sorridente e lindo, muito lindo, rapaz vindo da cantina em minha direção.
Em um primeiro instante até duvidei que ele falava comigo, mas o fato de não haver mais ninguém ali e dele ter meus pertences em suas mãos, não deixou dúvidas de que, para o meu espanto, falava comigo. Quando meu cérebro processou esse detalhe, um repentino nervosismo se apossou de mim e as palavras simplesmente sumiram da minha boca.
— Você faz parte do coral, não é? — Ele me analisou por inteiro. — Digo, essa roupa, os sapatos vermelhos e o broche dourado. É o uniforme do coral, não é? Pelo menos era quando eu...
— Sim! Sim, é! — exclamei e, ao me dar conta que não só o interrompi como também o assustei, me senti a garota mais tonta do mundo. Eu precisava me acalmar e conversar como um ser-humano normal. — Desculpe. Eu não devia ter gritado e sim, faço parte do coral.
Ele riu e balançou a cabeça, mexendo alguns de seus fios negros.
Será que estava rindo de mim?
— Bem, então era você mesma quem eu procurava — declarou e apontou para as pastas. — Se essas coisas não são suas, você ao menos terá mais chance de encontrar o dono do que eu.
Ele deu um passo em minha direção, estendeu o que carregava, mas recuei, deixando-a com uma expressão confusa.
"Pare de ser arisca, Ester! O rapaz só está sendo gentil" me repreendi e respirei fundo.
— Sou eu a dona e você não faz ideia da crise que acabou de me livrar — respondi hesitante, mas grata por ter meus pertences de volta. — Muito obrigada. Eu não sei o que a regente faria comigo se eu perdesse tudo.
— Sem dúvidas te substituiria, estou errado? — Ele ergueu uma de suas sobrancelhas e sorriu com meu espanto. — Estou brincando. Quer dizer, certa vez a dona Nilce ameaçou colocar um gato de telhado para cantar no meu lugar, caso eu não encontrasse as partituras do meu grupo, mas nunca chegou a concretizar a ameaça. Seria porque ela jamais encontraria um gato barítono?
A brincadeira surtiu efeito e eu me vi não só rindo, imaginando a cena, como também relaxando aos poucos.
— Ela encontraria e adestraria um coral de gatos, se fosse preciso. Eu não duvido.
Ele cruzou os braços.
— É, talvez você esteja certa, senhorita. Mas, aposto minha melhor mão, que jamais seria capaz de vesti-los com elegância para a ocasião.
Coloquei a mão sobre a boca a fim de conter o riso.
Era a primeira vez que eu me sentia tão à vontade ao lado de um rapaz que não fosse meu irmão ou algum pastor na igreja. Isso me pegou de surpresa e ao mesmo tempo me deixou desconfiada.
Por qual razão estava sendo tão simpático? Aliás, quem era ele e como podia saber tanto do coral quando nunca o vi em ensaio algum? Se tivesse lhe visto antes, certamente teria lembrado do rosto dele.
Aquilo estava estranho. Muito estranho.
— Bem, já estou atrasada, é melhor eu ir — avisei e ao olhar o relógio constatei que faltavam menos de cinco minutos para nos reunirmos no palco, com isso dei passos largos para longe do rapaz. — Mais uma vez, obrigada!
— Espera! Qual é o seu nome?
— Ester! — Meu nome foi pronunciado, mas pelos lábios de Bella que surgiu ofegante na entrada do refeitório. — A Dona Encrenca está uma fera procurando por você! Vamos! Vamos, eu te levo até o palco!
Sem pensar duas vezes, eu corri até a minha amiga e nem mesmo pensei em olhar para trás para me despedir do estranho simpático.
🎹🎹🎹
Nota:
O que acharam da nova versão?
Notaram algo de diferente? Me contem aqui 😅😻
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