DOIS|
Quando me sentei diante daquele elegante piano de cauda preto e comecei a tocar a primeira música do repertório escolhida para aquela noite especial, esqueci toda a correria, estresse, broncas da dona Nilce e situações que me assolaram mais cedo.
Era tão incrível o poder que a música tinha sobre mim. Enquanto minhas mãos deslizavam pelas teclas do instrumento e eu trabalhava para harmonizar as notas para soarem com perfeição, meu coração se encheu de gratidão ao Senhor Jesus. Minha mente ficou carregada de uma enorme nostalgia e algumas doces imagens de papai me ensinando a tocar.
Ah! Como eu amava aquilo!
A vontade era ficar tocando e tocando sem parar só para manter vivo aquele saudosismo no peito. Por alguns instantes, eu me senti dentro de uma bolha e queria me manter ali até o fim da apresentação, mas na última música fiquei curiosa para saber se as canções também emocionavam a plateia.
Àquela altura da minha vida na faculdade, eu já lidava bem com a exposição durante os concertos, mas ainda não me sentia cem por cento confortável em estar diante de tanta gente. Prova disso é que quase me desestabilizei quando vi um rosto específico.
Era o rapaz do refeitório. Ele estava sentado nos primeiros bancos acolchoados, quase de frente para mim. Nossos olhos se encontraram e acenou com a cabeça, fazendo meu estômago se contrair. Por muito pouco não errei as notas do último compasso da canção, o que teria sido um grande desastre e arruinaria o grand finale.
Com urgência, voltei às partituras à minha frente enquanto sentia o calor subindo pelo meu pescoço, se concentrando todo em minhas bochechas. Desejei me enfiar em um buraco bem fundo e suspirei de alívio ao conseguir contornar aquela situação, terminando a música ao som de aplausos dos espectadores.
Depois, sem risco de estragar tudo, voltei-me para a plateia novamente. Dessa vez, não quis olhar para a minha esquerda onde o belo moço estava e sim para minha família na outra extremidade. Eles se mostraram bem determinados a me matarem de vergonha alheia ao exagerarem nos gritos em minha homenagem. Acenei com timidez e, deixando o piano, me uni aos meus colegas cantores para os agradecimentos.
Após as cortinas carmesim descerem, fui a primeira a sair do palco, retornando aos bastidores, seguida pelos outros. Passamos algum tempo ali conversando sobre a apresentação e ouvindo os elogios atrelados a críticas da nossa regente que somente com o anúncio da chegada do reitor na coxia, nos liberou para irmos embora.
— Finalmente um merecido descanso! — exclamou Marcelo, voz principal dos tenores, aproveitando a distração de dona Nilce. Eu, que estava concentrada em organizar as pastas, prestei atenção de longe. — Agora é só comemorar.
— E a festa é por minha conta. Lá em casa. Estão todos convidados. — Carol, uma das sopraninos, bateu palmas e estando perto de mim tocou em meu ombro. — Até você, caipira.
Eu me assustei um pouco com aquele convite repentino, mas nem precisei pensar muito para ter uma resposta.
— Obrigada, Carol, mas minha família veio de Nova Canaã só para me ver. Preciso aproveitar a presença deles.
Mas esse não foi meu único motivo para fugir da festa. Eu bem sabia a fama de alguns ali que se diziam cristãos e não davam testemunho algum disso nessas confraternizações regadas a bebidas e pegação.
— Que pena! Eu até estava considerando pedir umas comidas da roça só para te agradar. — Carol fez um biquinho e ouvi umas risadinhas ao fundo. — Ou você poderia cozinhar para nós a noite toda.
Se ela estava sendo gentil ou zombando de mim, não consegui distinguir. Preferi acreditar na primeira opção e desejei retribuir a gentileza.
— Eu ficaria muito feliz de ajudar, mas hoje não vai dar mesmo. Prometo que no próximo ensaio trago algo gostoso para todos. — Fui sincera, mas isso pareceu não fazer muita diferença, pois minha resposta só os fez rir e saírem de perto de mim em seguida.
No fundo, algo me dizia que ninguém ali fazia muita questão da minha presença, mas isso não tinha muita importância, afinal, eu preferia estar com pessoas que realmente amavam ao Senhor e a mim.
Enquanto o grupo de cantores seguia rumo aos camarins, preferi evitá-los e resolvi retornar a plateia para ver minha família primeiro e, só depois de ter certeza que todos haviam partido, também buscar meus pertences.
Antes disso, encontrei o respeitoso reitor da Academia, o Sr. Ageu Conrado, ao lado de uma senhora, conversando com sua maior fã, dona Nilce. Mesmo tendo proximidade com o senhor mais velho, achei por bem não incomodá-lo ali, temendo interromper uma conversa séria. Foi então que me esgueirando por um cantinho, pensei que seria bem-sucedida em passar despercebida, até ouvir:
— Vai mesmo ir embora sem saudar um velho amigo, Srta. Pianista? — declarou o senhor Ageu e veio até mim rapidamente para apertar minha mão vigorosamente.
Um pouco constrangida, sorri:
— Eu não queria ser inconveniente, nem interromper a conversa.
— Você nunca é inconveniente, querida Ester! — Deu sutis batidinhas na minha mão. — Aliás, aproveito a oportunidade para exaltar o espetáculo de hoje. Você tocou perfeitamente! Suave como uma pena, intensa como as batidas do coração de um touro. Que beleza!
— Exagero seu, Sr. Ageu. — Mordi o interior do meu lábio, torcendo para não dar na cara o quanto elogios me deixavam sem graça.
— De modo algum, querida. Eu me lembro da sua primeira apresentação, como estava tremendo e quase desistiu de entrar no palco. E olhe só para você agora. — Suspirou e me olhou cheio de orgulho. — Sua evolução até aqui é de deixar seu velho amigo emocionado.
O Sr. Ageu era realmente um homem muito querido por mim. Sua simplicidade e humildade sempre se sobressaíram desde o nosso primeiro encontro acidental, quando ele me achou em um dos meus dias maus e me ajudou a não abandonar meus sonhos, com suas palavras de sabedoria. Ele era um servo de Deus que não deixava seu cargo de importância mancharem seu caráter.
— Eu jamais teria chegado tão longe sem ajuda das pessoas que Deus colocou na minha vida. O senhor é uma delas — falei sincera.
— Obrigado, menina. — Ele sorriu, olhou para o relógio em seu pulso e voltou-se para mim. Conhecendo-o bem, deveria estar de partida para algum compromisso importante. — Sei que quase nunca nos vemos e meu tempo é sempre apertado, mas depois da sua performance de hoje, tenho certeza que gostaria de te oferecer uma oportunidade.
Franzi o cenho, sentindo minha curiosidade vindo à tona. No entanto, antes que eu pudesse interrogá-lo, ele inteirou:
— Já estou indo embora. Fiquei de ir apresentar um projeto a um amigo pastor ainda nesta noite. Mesmo assim, prometo entrar em contato o mais breve possível.
Dito isso, eu entendi a pressa dele e prometi que aguardaria ansiosa o seu contato, pensando no que poderia ser a tal oportunidade oferecida. Ao deixá-lo, passei pela coxia, desci as escadas e cheguei a plateia. De longe avistei meus conhecidos reunidos em um corredor próximo a saída de emergência.
O lugar ainda estava lotado e isso me obrigou a tomar um atalho por entre as fileiras de bancos. Procurei ficar atenta à movimentação deles, temendo perdê-los de vista, mas chegando a parte superior, minha concentração acabou me traindo, fazendo-me bater de frente com um convidado.
— Desculpe! — Fui logo pedindo, mas me assustei ao ver que se tratava novamente do rapaz estranho do refeitório.
— Não foi nada. — Ele sorriu e eu uni minhas mãos na tentativa de controlar o tremor delas. — Eu estava mesmo te procurando. Fui até os camarins, mas não te achei lá.
— Procurando por mim? — Minha voz saiu mais fina, quase como um gato miando. Segurei um pouco o ar e soltei devagar. — Posso ajudar?
— Na verdade, eu apenas queria te parabenizar pela apresentação. O coral foi impecável, mas o piano, sem dúvidas, foi a estrela da noite. Parabéns. — Ele fez uma pausa e eu sussurrei um "obrigada". Depois disso fiz silêncio, sem saber como iniciar algum assunto ou perguntar alguma coisa trivial e ele notou isso. Eu era oficialmente a pior pessoa do mundo para me relacionar com o sexo oposto. — Preciso ir agora, mas seria legal poder te ver tocar mais vezes.
— Fico feliz. Seria bom te ver também. — Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e antes de sentir meu rosto se aquecendo por completo outra vez, pensei em uma maneira de não dar a ele impressões erradas sobre mim. — Quer dizer, isso se eu soubesse quem você é.
— Não seja por isso, Ester — ele estendeu a mão em minha direção e eu sem jeito o cumprimentei enquanto processava o fato dele ainda lembrar meu nome —, me chamo Ítalo. — Fez um aceno com a cabeça. — E foi um imenso prazer te conhecer. Eu adoraria conversar mais, mas trouxe minha família de carro e se eu não for agora, vou receber um daqueles sermões do monte sobre pontualidade e responsabilidade que só os mais velhos sabem dar. Te vejo em breve.
Ri do seu comentário e me senti atordoada depois de vê-lo partir. Sendo honesta, desejei ter mais do que alguns segundos para conversar com o tal Ítalo, sem todo aquele nervosismo. Digo, ele pareceu ser um rapaz bem legal à primeira vista, mas as aparências podiam enganar e eu só saberia com quem estava lidando se tivesse a chance de observá-lo com mais cautela e tempo. Todavia, seu jeito de me olhar e sorrir, sua simpatia, humor e gentileza com a qual me tratou, ficariam guardados na minha mente.
— Não falei que eu deveria ter trazido o facão, amor? As raposas estão por todos os lados. — Aquela voz firme me trouxe de volta a realidade. Sorri constrangida ao ver meu irmão ciumento se aproximando de mãos dadas com a Marissol, sua esposa, e mamãe, dona Rute, vindo logo atrás.
— Apolo, pelo amor de Deus. — Sol fez uma careta para o marido e em seguida me olhou como se dissesse "você sabe bem como seu irmão é". — Não liga, Ester. É difícil pra ele aceitar que um dia você se casará e para isso precisa conhecer rapazes.
— Não diga uma coisa dessas, mulher! — Apolo fez uma careta. — Eu acho que minha princesinha poderia esperar mais uns, sei lá, dez anos?
— Pode ficar tranquilo, maninho. Se sua preocupação é aquele rapaz falando comigo, saiba que eu acabei de conhecê-lo e não sou nenhuma princesa para me casar com um estranho — tranquilizei-o e dei risada quando o vi relaxar. — Mas, dez anos?
— Tem razão, dez anos é pouco — ele brincou e eu, após sorrir novamente, me aproximei deles para abraçá-los e aproveitar ao máximo para matar a saudade, afinal nosso tempo juntos vinha se tornando cada vez menos frequentes.
Além da distância, Apolo e Sol, por exemplo, trabalhavam juntos no sítio da nossa família, cuidando do negócio de laticínios por horas a fio e nunca tinham tempo para nada. Já mamãe estava sempre cheia de encomendas para entregar ou tinha o vovô para cuidar, sendo assim, depois das férias, eu deveria me contentar com nossos encontros casuais, que eram sempre mais do que especiais.
— Senti tanto a falta de vocês! Até mesmo do ciúme infundado do Apolo. — Dei algumas cotoveladas no meu mano que retribuiu apertando minha bochecha.
— Você vai me desculpar, Esterzinha, mas, pelo menos hoje, o ciúme do seu irmão não é infundado. — Mamãe passou para minha frente e segurou minhas mãos. — Olhe só para a linda mulher que você está se tornando. — Ela alisou minha bochecha. — Tão talentosa, tão delicada e meiga! Se o seu pai pudesse vê-la por um segundo, aposto que não se aguentaria de tanto orgulho.
Meus olhos se encheram de lágrimas em uma questão de segundos.
Falar do papai sempre despertava em mim um misto de emoções. Eu sentia falta dele e me pegava pensando como seria se ainda estivesse conosco. Ele havia sido morto a tiros durante um trabalho missionário e desde então tudo o que me restou eram as histórias contadas sobre ele e as fantasias que eu criava na mente a seu respeito, imaginando como seria receber seu abraço ou sentir seu amor paterno.
— Oh, mamãe! — Dei um passo à frente e enrolei meus braços ao redor do pescoço dela, sentindo-a me apertar ao redor da cintura. — Eu gostaria tanto, mas tanto, que ele estivesse aqui, nem que fosse por alguns segundos.
Sequei algumas lágrimas descendo dos meus olhos com um lenço que Sol me ofereceu.
— Desculpem a minha melancolia. — Expirei e tentei pensar em coisas boas, afinal aquela deveria ser uma noite de alegria e não de pranto. — Estou muito feliz e grata porque vocês vieram me ver.
— Nós também! É sempre tão maravilhoso quando estamos juntos — Marissol comentou, abanando o próprio rosto, também tentando conter suas lágrimas.
— Sinto o mesmo, Solzinha. Nossa família é um presente de Deus. Oro todos os dias para que o Senhor nos abençoe, multiplique e sempre nos mantenha unidos — mamãe desejou esperançosa.
— Amém! — disse Sol e com graça completou: — E quem sabe Deus não seja bondoso e nos multiplique dando um marido a Ester.
— Ou quem sabe, o mais provável, eu me torne titia o mais breve possível. — Ergui as sobrancelhas e provoquei: — Conheço casais que engravidaram na lua de mel, vocês vão para o terceiro mês de casados, estão perdendo tempo.
— Eu já estou treinando cuidando muito bem de um rapaz bem bagunceiro e da Tulipa, nossa pinscher. — Sol se emaranhou no braço do rabugento ao seu lado. — E os dois me dão trabalho.
— Está vendo, Ester? Quer se casar e ter um marido chato no seu pé? — Apolo questionou cômico e acariciou a cabeça da esposa. — Para te oprimir e te fazer lavar as ceroulas dele?
— Para te acordar com beijos, ler a bíblia com você, te levar para caminhar de mãos dadas ao pôr-do-sol, dizendo o quanto te ama. — Sol suspirou e Apolo sorriu para ela. — Se isso é ser oprimida, eu me dei muito, muito bem!
— Nossa, vocês dois são um perigo para os diabéticos. — Bella surgiu e sorri ao ver que ela carregava meus pertences em mãos, como costumava fazer quando me acompanhava nas apresentações.
— Você não viu nada. — Uni os lábios. — Apolo usa essa casca de ogro para assustar, mas quando os visitei nas férias, o testemunhei choramingando de saudade da Marissol só porque passou meia hora longe dela.
— Recém-casados, meninas — mamãe relembrou e todos rimos.
— E por falar em saudade, é melhor já nos prepararmos para ir embora. A estrada é longa — Apolo anunciou, para minha tristeza, afinal, eu odiava despedidas.
— Nada disso. Sei que precisam ir embora hoje, mas tenho um convite — Bella falou com suspense. — Como sabem, meu pai não passou bem e mamãe ficou em casa cuidando dele, por isso eles não puderam vir prestigiar nossa estrela da noite e se sentiram muito mal. Então, avisaram que, para compensar, vamos comer pizza lá em casa. Aliás, fui incumbida de dizer que não aceitaremos não como resposta.
— Vocês vão aceitar, não vão? — Olhei para os três, ansiando a resposta. Eu sabia que eles tinham planos de não voltar muito tarde para casa, mas eu queria adiar aquela partida ao máximo. — Por favor.
— Não faça essa carinha de cão sem dono, você sabe que não podemos demorar muito — Apolo respondeu e olhou para a Sol, que, após pensar um pouco, deu de ombros. — Vou ligar para o seu Inácio, avisar que vamos chegar mais tarde e pedir para ele dar uma olhada na fazenda e nas minhas vaquinhas.
Dito isso, resolvemos sair do teatro e seguimos para o estacionamento.
No caminho, enquanto Sol, mamãe e Apolo iam na frente em direção ao estacionamento, Bella ficou ao meu lado, ambas em silêncio.
— Que dia! — ela disse após algum tempo se espreguiçando. — Preciso dormir por três noites seguidas.
— Foi realmente um dia muito intenso — respondi e minha mente fez uma recapitulação de todos os acontecimentos marcantes desde que me levantei e parou, é claro, em Ítalo.
Meu coração pulou quando recordei o brilho de seus olhos azuis e o tom da sua voz falando comigo com tamanha gentileza.
Ali tive um pensamento bobo e precipitado, pois me questionei se não seria ele a resposta da minha oração feita mais cedo. Mas logo descartei essa ideia estúpida. Um rapaz bonito como aquele, jamais olharia para mim. Além disso, nós não nos veríamos outra vez, mesmo que, por alguma razão, ele tenha dito:
"Te vejo em breve".
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top